As escolhas que me trouxeram a Paris

Caros leitores, hoje escrevo para vocês de um lugar muito especial: Paris! A cidade luz, a cidade do amor e a cidade em que viverei pelos próximos 3 meses.

Uma das maiores motivações para a aposentadoria precoce era que eu queria viajar mais. E já começamos nossa vida FIRE com uma viagem de 1 ano pelo Brasil. Mas, assim como muitos brasileiros, a gente tinha um sonho de viver na Europa por um tempo.

Escolhemos Paris porque curtimos muito o estilo de vida francês. Nosso conhecimento da cultura francesa até então dependia do que víamos em livros e filmes, que devem exagerar no estereótipo. Mas colocando os exageros de lado, eu tenho a sensação de que a cultura francesa tem um quê frugal por essência. Eles comem de tudo, mas em pequenas porções. Eles têm poucas quantidades de roupas, mas de alta qualidade. E moram em apartamentos pequenos, com cozinhas pequenas, afinal de contas se alimentar bem é comprar alimentos frescos todos os dias, então para quê ter uma despensa grande?

Eu sei que 3 meses vão ser poucos para entender profundamente uma cultura, mas provavelmente será mais do que a gente absorveu em 15 dias de férias por aqui.

Eu confesso que fiquei um pouco receosa de escrever sobre essa experiência aqui no blog. Parece que estou contribuindo para essa indústria que atrapalha tanto a vida das pessoas hoje em dia: o consumo aspiracional.

Eu fiquei com uma leve sensação de que escrever aqui sobre minha vida em Paris é como divulgar a alegria de comprar um Porsche. Eu me sinto como mais um desses gurus meia bocas do dia de hoje que berram “você pode tudo, é só querer!”.

Bem, a realidade é que minha temporada em Paris não é uma mensagem de “venha você também viver esse sonho”. E sim mais uma mensagem de “você pode ter qualquer coisa nessa vida, mas não todas as coisas”. Ah, e como eu amo essa mensagem.

Então decidi começar a escrever sobre a minha temporada na capital francesa relatando tudo que eu abri mão para chegar até aqui.

Ao final desse texto espero que você tenha apenas duas reações possíveis. Ou você pensa “legal, eu também topo abrir mão dessas coisas para passar uma temporada na Europa”. Ou então você deve pensar “não, eu prefiro ter todas as outras coisas e abrir mão dos 3 meses na Europa”. Mas se você terminar esse texto apenas com a sensação de “eu também quero viver na Europa” então você entendeu esse texto errado (ou eu escrevi muito mal).

Abrindo mão da vida corporativa

Quando eu contei para o meu pai que tinha atingido a independência financeira e ia pedir demissão do meu emprego, ele me alertou “você vai perder status perante a sociedade”.

É óbvio que na hora eu quis desligar o telefone na cara dele. Mas depois de um tempo, eu entendi o que ele quis dizer.

A nossa sociedade valoriza quem tem cargos importantes em empresas. Eu mesma saí do LinkedIn porque eu não aguentava mais ver pessoas com cargos do tipo “CEO” ou “Co-founder”, mesmo que fossem CEO da empresa Coelinho Azul (sem querer desrespeitar se essa empresa realmente existe). É bizarro como a nossa mente rapidamente faz a associação de um cargo com a importância daquela pessoa. E ainda mais automaticamente do quanto aquela pessoa é melhor do que nós, que ainda não chegamos na C-suite.

Eu não sei se estava no caminho de me tornar uma CEO. Mas provavelmente poderia me tornar uma economista-chefe de algum lugar. E bem, isso ia me trazer muito status. Talvez até uma entrevista para a Globo News. Imagina o status que eu não ia ganhar se aparecesse na Globo?

Mas eu abri mão disso tudo. Por razões que vocês precisam ler todos os demais posts deste blog para entender.

E foi a decisão de sair do caminho da ladeira para o sucesso da vida corporativa que eu posso me dar ao luxo de viver 3 meses em Paris.

Você está preparado para isso?

Abrindo mão de um apartamento caro

 Eu moro em um Studio de 27m2 em São Paulo, com o meu marido.

Eu poderia usar parte do meu patrimônio para comprar um apartamento maior. Talvez um que me permitisse ter mais espaço para receber os amigos em casa. Ou mais privacidade se eu tivesse pelo menos 2 quartos, como a maioria dos casais sem filhos que eu conheço.

Mas isso significaria mais dinheiro preso no apartamento, e menos dinheiro gerando renda no banco.  O nosso apartamento atual custou menos de 300mil reais (incluindo a reforma). Se a gente morasse em um apartamento que custasse o dobro, então a gente teria menos 300mil rendendo no banco.

A nossa opção foi ter 300mil a mais rendendo 12mil por ano (mais uma vez, seguindo a famosa regra dos 4%). E 12mil cobre boa parte do orçamento com a nossa moradia aqui em Paris, um dos lugares mais caros do mundo. Ou seja, a gente basicamente pode morar 3 meses em qualquer lugar do mundo todo ano porque a nossa moradia principal é bem barata.

Eu moro em um apartamento pequeno porque ele tem um custo de oportunidade baixo. E isso permite que eu tenha mais liberdade para morar por um tempo em outros lugares.

Você toparia viver em um Studio?

Abrindo mão de filhos

Eu gostaria de escrever mais sobre a decisão de não ter filhos aqui. Mas por ora, eu só gostaria de destacar que ter filhos é uma escolha.

Sim, no passado ter filhos talvez significasse sobrevivência. Filhos já foram úteis como mão de obra gratuita para garantir nosso alimento e a nossa única chance de segurança física na velhice.

Mas hoje em dia os filhos preenchem muito mais uma questão de satisfação pessoal do que de sobrevivência. Eu tenho amigas que sentem a mesma alegria na maternidade que eu sinto em viver na Europa. Ambos são maravilhosos do ponto de vista de satisfação pessoal, mas longe de serem necessários para a nossa sobrevivência.

Não ter filhos me dá liberdade o suficiente para que eu possa ficar em Paris 3 meses e não me preocupar com o período escolar deles. Também permite que eu economize uma boa grana de transporte público pedalando pelas ruas de Paris. E com certeza me dá flexibilidade para ter a rotina que eu quiser.   

Mas eu sei bem as batalhas externas e internas (em especial) que eu enfrento por conta dessa decisão.

E você, está preparado para abrir mão de algo tão natural quanto ter filhos?

É tudo uma questão de escolhas

Recentemente eu assisti ao seriado A nova vida de Toby, que fala sobre a crise de meia idade da alta sociedade em Manhattan. Apesar das críticas negativas, eu achei o seriado bom e sem dúvidas prendeu minha atenção. Com uma mensagem final excelente: no fundo são pessoas mimadas reclamando do destino que elas mesmas escolheram para si.

E por que a gente vive tão infeliz com as nossas escolhas?

Sim, é desafiador ter que lidar com a pressão de um emprego de alto nível. É difícil lidar com as frustrações do casamento. E deve ser ainda mais difícil ter que conciliar uma rotina corrida de trabalho com filhos pequenos. Mas tudo isso são consequências das nossas escolhas.

Se você está num trabalho demandante mentalmente porque tem um cargo alto em uma grande empresa, então provavelmente você ganha bem. E se ganha bem, então você poderia ter organizado a sua vida para que não precisasse trabalhar mais como a escritora desse blog aqui. E quem sabe passar uma temporada na Europa.

Reclamar da vida quando você está numa classe média alta (ou acima) é quase como se eu reclamasse de Paris porque aqui não tenho amigos e as pessoas não entendem meu francês. Eu escolhi viver longe dos meus amigos nesse período. Assim como escolhi me dedicar mais as aulas de canto do que as aulas de francês no ano passado (o que com certeza está fazendo falta no momento).

Eu estou em Paris! Isso é maravilhoso!

Você tem um salário alto, um custo de vida elevado e filhos para criar! E essa foi a vida que você escolheu para si! Ótimo! Curta então!

A verdadeira importância do autoconhecimento

O termo autoconhecimento está muito na moda hoje em dia. E às vezes é usado para vender soluções milagrosas, o que distorce muito o conceito.

Mas autoconhecimento significa entender o que cabe a você. O que tem o potencial de te fazer feliz. Aquilo que trará mais satisfação na forma como você leva a vida.

Antes de entender a importância da independência financeira, eu me sentia vivendo a vida dos outros. Uma amiga comentava que tinha comprado uma bolsa de luxo, e eu pensava “acho que preciso comprar também”. Ou eu ia a festas de casamentos e pensava “acho que preciso disso também”. Enfim, eu vivia buscando a minha satisfação pessoal na realização dos outros.

E no final do dia eu estava exausta, gastando todo o meu dinheiro e infeliz. Eu estava tão perdida vivendo a vida dos outros que eu não abria espaço para entender o que era importante para mim.

E talvez essa seja a grande magia da jornada para uma vida FIRE. Essa jornada é tão desafiadora que sem autoconhecimento ela se torna impossível.

Eu precisei passar por esse período para entender o que eu realmente precisava. E como normalmente a felicidade está mais em abrir mão daquilo que nos faz infeliz, a minha satisfação com a vida começou a aumentar quando eu comecei a perceber que o que os outros estavam fazendo podia ser bom para eles, mas não necessariamente seria bom para mim.

E essa é a verdadeira importância do autoconhecimento. Ele te permite viver a vida que cabe a você e não a vida que os outros estão vivendo.

Às vezes alguém comenta nesse blog “eu jamais conseguiria viver assim” ou “isso é fácil porque você não tem filhos” ou “você deu sorte de ter um parceiro frugal”.

Então eu gostaria de dizer que uma temporada na Europa é o meu sonho. Talvez não seja o seu. E, por favor, só tome decisões a respeito da sua vida depois de avaliar se esse realmente é o seu sonho.

Digo isso porque se eu tivesse tomado a decisão de ter filhos, ou de comprar um apartamento maior ou de virar uma diretora de uma empresa importante, eu provavelmente estaria abrindo mão de estar aqui. Mas eu também estaria vivendo os sonhos dos outros, e não os meus.

Se depois de ler tudo isso, a mensagem principal que sobrou na sua mente foi “nossa, eu queria ter a vida dela e viver na Europa por 3 meses” então bora arregaçar as mangas e refletir sobre as decisões que você tomou na sua vida.

E esse blog está repleto de posts que vão desde o operacional para atingir a independência financeira, até os desafios mentais e psicológicos para chegar lá. A fórmula para uma vida de 3 meses na Europa está aqui. Você vai precisar abrir mão de algumas coisas, mas ei, se esse for o seu sonho, valerá a pena!

Não perca nenhum post!

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Aposentada aos Trinta

22 comentários em “As escolhas que me trouxeram a Paris

  1. AoT!
    Quanto mais leio seu blog, mais me surpreendo com a sua capacidade de nos fazer refletir.
    Escolhas e renúncias. E não é disso feita a vida? Mas nos esquecemos disso e vamos no automático, pior no automático social…
    Li outro dia que tomamos 35 mil decisões no dia. A grande parte automaticamente.
    O que parei para pensar agora é que estamos deixando as nossas grandes decisões também no automático. Assustador!
    Realmente, apesar da foto de La Tour Eiffel no início do post. O texto tem pouca relação com Paris…

  2. Olá AAT! É impressionante como as pessoas que tem interesse sério em FIRE tem interesses parecidos.

    Eu adorei o seu post anterior sobre o Estoicismo. Acho que essa filosofia é muito alinhada com o conceito de felicidade que nós buscamos. Eu leio continuamente os textos de Sêneca, Epiteto e Marco Aurélio e me impressiono como eles são atuais e continuam trazendo conhecimento.

    Esse post sobre escolhas também é perfeitamente alinhado com FIRE. Na verdade acho que as pessoas que buscam FIRE enxergam que fazemos escolhas o tempo todo, e procuram fazer as escolhas correta de acordo com os nossos objetivos de vida. Enquanto a maior parte das pessoas simplesmente deixa que a sociedade faça as escolhas por elas, simplesmente seguindo o fluxo.

    Parabéns pelo blog e continue aproveitando o resultado das escolhas que você fez na vida! 😉

    1. Exatamente Fernando, a gente faz escolhas o tempo todo.
      E nossos ancestrais se mataram por isso: para que a gente tivesse mais liberdade, vivesse mais e consequentemente tivesse mais oportunidade de escolhas! Menos sociedade e mais individualidade.
      Vamos usar isso a nossa favor e ao invés de fazer TUDO, escolher apenas aquilo que cabe a nós. E desfrutar as consequências disso!
      Abs

  3. Seus textos são uma inspiração, comecei acompanhar a comunidade FIRE a pouco tempo (1 ano e pouco acredito), e apesar de ter me identificado bastante, os seus conteúdos são os que mais conseguem me atingir de uma forma impressionante. Espero que continue compartilhando conosco por bastante tempo.

    1. Oi Anon! Que alegria ler um comentário como o seu!
      Escrever aqui tem sido uma fonte de muita alegria para mim.
      E tento escrever com clareza e sobre questões relevantes, então toma bastante tempo.
      Bom saber que está surtindo o efeito desejado!

  4. Adorei o texto!! Mensagem importante e que nem todos terão a maturidade de entender, infelizmente. É sobre olhar pra si! E se a pessoa leu o texto e achou q pra ter IF não pode ter filho ou não pode xyz, não entendeu nada… e se achou que necessariamente precisa parar de trabalhar tb não entendeu nada. E se achou que se tiver 3 filhos já era, tb não entendeu nada…. mas se entendeu que precisará fazer ESCOLHAS e RENÚNCIAS (q poderão ser diferentes das suas) porque QUER a IF, aí sim… nem sempre queremos o que achamos que queremos! curta muito sua estadia aí!!! :*

    1. Oi Carol!
      Exatamente, a IF pode ser conquistada de várias formas.
      Eu sempre me questionei porque lia muito o blog do MMM, e ele faz questão de ter uma casa grande e o objetivo principal da IF para ele era ter tempo para criar um filho.
      Meus objetivos com a IF eram outros, e sem dúvidas era ter mais tempo e liberdade para viajar.
      Ambos FIREs, mas com abordagens que cabem a si!

  5. Legal, mas nem sempre é escolha isso que vc escreveu:
    “Você tem um salário alto, um custo de vida elevado e filhos para criar! E essa foi a vida que você escolheu para si! Ótimo! Curta então!”
    Se vc estuda é para trabalhar e ganhar bem ,ai concordo, mas ter filhos é uma decisao mto mais da esposa do que do homem. Nossos 3 filhos foram acidentais. Tenho custo de vida baixo e adoraria morar fora mas com filhos nao dá e divorciar neste momento é cmplicado. Escolhas sao os outros que fazem pela gente infelizmente

        1. Até certo ponto me identifiquei com seu texto. Eu não pretendo ter filhos, e já me relacionei com mulheres muito decididas a ter. No final das contas tive dois términos de relacionamento EXATAMENTE por essa discordância.

          E acho que foi o caminho natural, se o casal de fato discorda em algo tão decisivo na vida de qualquer um como ter filhos, é natural seguirem com suas vidas separadamente.

          Sinceramente, eu sinto pânico e calafrios só de me imaginar tendo filhos contra a minha vontade só porque a outra pessoa quer. Filho é para a vida toda.

          Se você acha que casar, incluindo ter filhos, só serve pra ter sexo grátis, esse negócio possui um péssimo custo benefício. Seria MUITO mais barato apenas pagar por isso.

  6. Adorei o post. No meu caso, ter filhos é um sonho, então estou congelando óvulos para tê-los quando a independência financeira acontecer. Graças a Deus a minha responsabilidade financeira não me deixa passar esse carro na frente dos bois!! Hehe
    No mais, desejo que façam muitas boas memórias por aí 🙂

    1. Oi Pri!
      Eu tb congelei meus óvulos.
      Hoje não tenho vontade de ter filhos, mas acho uma opção barata congelar e deixar as portas abertas caso mude de idéia no futuro.
      Que bom que reconhece isso como um sonho seu!
      Beijos

  7. Maravilhosa sempre! Como eu tenho orgulho da sua trajetória e da sua coragem de seguir os seus sonhos. Nem todo mundo vai entender os nossos sonhos e tudo bem. O importante é – como você disse – a gente viver uma vida que faça sentido para cada um de nós! Aproveitem muito essa temporada em Paris ❤️

  8. Como ta a situação dos imigrantes ai em Paris? pessoal islâmico, etc

    li por alto que o bagulho ta loko ai, tão tomando de conta e suprimindo a cultura local

    e violência? comente ai

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