Viagem de trailer pelo Brasil por 1 ano

Nossa casa sobre rodas!

Em 2021, quando eu alcancei minha meta FIRE, decidi realizar meu sonho de viajar por um ano. Eu sempre sonhei com um sabático tanto quanto sonhava com a vida FIRE. Eu assisto “Comer, rezar e amar” quando estou com insônia, devorava os posts do Viajo logo existo e quando ouvia alguém falar que tirou um sabático, eu queria virar amiga dessa pessoa para saber de tudo.

Começar a vida FIRE com uma viagem de um ano foi a melhor decisão. Primeiro porque a gente já tinha a resposta pronta para o que fazer agora que estávamos aposentados: a gente ia viajar por um ano. Isso diminuiu a nossa insegurança e a dos outros também. Segundo porque o que a gente mais sofria com o trabalho era a falta de tempo para viajar, então tinha muita vontade reprimida. E terceiro que a imagem de aposentados numa praia paradisíaca em plena segunda-feira era bem atraente para nós, ainda que por um período.

Esse é um post muito difícil de escrever. É muito difícil resumir o que talvez tenha sido o melhor ano da minha vida em um post. Decidi então escrever sobre as principais perguntas que fazem quando a gente conta do sabático para amigos e parentes.

O nosso roteiro

Nosso sonho era viajar pelo mundo durante 1 ano. Dizem que Deus escreve certo por linhas tortas, mas no meu caso Deus delimitou direitinho as fronteiras do meu sabático, com uma pandemia global bem no meu ano. Então sabático ia rolar sim, mas a viagem teria que ser pelo Brasil.

E no final isso acabou se tornando um presente. Nós sempre íamos para o aeroporto de Guarulhos nas férias e não valorizamos viagens nacionais. Mas durante o sabático pudemos conhecer o Brasil de verdade, e aprendemos a valorizar esse país tão cheio de contradições. A terra que eu nasci, cresci e em que pretendo morrer.

Como a gente já vivia no melhor que um turismo cosmopolita brasileiro pode oferecer, a grande São Paulo, a gente queria ir em direção a natureza. E existe uma forma de realmente viajar adentrando a natureza, que é acampando. Como não somos tão “roots” assim, decidimos acampar, mas com um pouco mais de estrutura. E foi assim que surgiu a ideia de comprar um trailer para fazer nossa viagem.

Quando decidimos viajar de trailer, a gente imaginou que isso nos daria liberdade de viajar para qualquer lugar. Nosso roteiro inicial era sair de São Paulo em direção ao litoral, e subir até os Lençóis Maranhenses. Depois descer pelo centro do país e terminar a viagem explorando a região Sul.

Mas quebramos a cara. Quando chegamos na Bahia a gente já não aguentava mais pegar estradas ruins e passar alguns perrengues procurando um lugar adequado para ficar com o trailer. Depois de 4 meses viajando, encontramos uma praia paradisíaca na Bahia que tinha um local perfeito para o nosso trailer. Decidimos ficar um mês inteiro por lá, descansar da viagem e revisar os planos.

Decidimos desacelerar o ritmo da viagem e cancelar nossos planos de continuar pelo Nordeste. Começamos nossa descida por Minas Gerais e priorizamos viajar pelo Sul do país que tem estradas melhores, mais estrutura para o trailer e não perde em nada em termos de beleza natural. Foi, sem dúvidas, uma decisão acertada.

Era confortável viver num trailer?

O nosso trailer tinha 6 metros quadrados, mas era extremamente confortável. A gente tinha uma cozinha completa, que tinha até micro-ondas. O chuveiro tinha aquecimento a gás, e tinha ar condicionado para aguentar as noites de verão. Ah, e tinha até uma TV que foi muito útil nos dias que a gente cansava de ser turista, e só queria ficar em casa maratonando alguma série.

A gente gostava tanto do conforto do trailer que só dormimos em pousada quando era necessário. Mesmo em BH, que não tinha um camping, preferimos dormir dentro do trailer em um estacionamento de carros. Isso prova o quanto a gente se sentia em casa no trailer.

Nós ficamos hospedados em campings a maior parte da viagem. Todos ofereciam água, energia e internet. O mais difícil era ter uma saída própria para o esgoto do trailer. Quando não tinha, o esgoto era retirado com balde. Isso era um processo desagradável que ficava para o meu marido. E não era algo que atrapalhasse a viagem.

Quando a viagem era longa, a gente dormia em algum posto de gasolina no meio do caminho. Dormir em posto de gasolina é algo muito comum para quem viaja com RV, tem segurança e não soube de ninguém que passou sufoco fazendo isso. Algumas vezes dormimos em praças de prefeituras, mas só se havia segurança 24h e o segurança concordava que a gente pernoitasse por lá.

Os maiores perrengues

Os maiores perrengues foram todos ligados ao péssimo estado de algumas estradas no país. E não sofremos nenhum tipo de violência. Pelo contrário, nos maiores perrengues, pessoas totalmente desconhecidas foram a nossa salvação. Eu voltei com uma visão mais positiva dos brasileiros depois dessa viagem.  

O maior perrengue foi quando cruzamos a Bahia em direção a Minas Gerais. O caminho no Wase, que evita estradas de terras, dizia que o trajeto ia levar 8 horas. Enquanto o caminho apontado no Google Maps duraria apenas. Decidimos arriscar a estrada de terra e ir pelo segundo. Foi a pior decisão. A estrada de terra estava em péssimas condições. Tivemos que ir tão devagar que demoramos o dobro do tempo.  O pior foram os danos causados ao trailer por conta do excesso de impacto. Quando chegamos no destino e vimos o estrago que tínhamos feito, tivemos vontade de chorar.

O segundo maior perrengue foi no Jalapão. Já tínhamos sido alertados sobre o péssimo estado das estradas no Jalapão, então decidimos deixar o trailer estacionado em uma cidade na Bahia e seguimos para o Jalapão apenas com o carro. Mas as estradas eram tão ruins que precisamos usar o 4×4 do carro por todo trajeto, o que consumiu toda nossa gasolina no meio do caminho. E não havia sinal de posto de gasolina pelos próximos 80km.

Se você conversar com viajantes profissionais, eles vão te falar sobre os “anjos da estrada”. São pessoas que cruzam o seu caminho quando você mais precisa e te dão uma mão. E nós cruzamos com vários. No nosso maior perrengue, o maior estrago foi na parte elétrica do trailer, que a gente não sabia como consertar. Por sorte, havia um eletricista tomando uma cerveja no restaurante do camping que se prontificou a ajudar. Ele não só resolveu tudo como ainda fez o serviço de graça. Retribuímos pagando a conta dele no restaurante. No Jalapão, um casal de mineiros foi a nossa salvação. Eles tinham levado 80 litros de gasolina extra num barril para alguma emergência. Eles venderam a gasolina fiada para a gente (não tinha sinal no celular pra fazer um PIX) e perderam uma meia hora do passeio ajudando a encher o tanque do carro.

O lugar mais incrível que visitamos

A beleza natural do Brasil é realmente surpreendente. Visitamos lugares lindos como o Jalapão, a Chapada Diamantina, o litoral catarinense. Mas o lugar mais especial que visitamos foi imbatível: as Cavernas do Peruaçu.

As Cavernas do Peruaçu ficam em Januária-MG. É um sítio arqueológico que conta com pinturas rupestres e é a casa da maior estalactite do mundo (sim, ela é brasileira). Fomos parar lá por indicação de um amigo que fizemos na estrada então não tínhamos pesquisado muito sobre o lugar. E é sempre mais gostoso quando a gente vai sem expectativa. O mais incrível por lá é a Gruta do Janelão. Enquanto a gente adentrava a gruta, fomos ficando cada vez mais em silêncio para contemplar o lugar. Não dava vontade de conversar e eu senti uma paz muito grande lá dentro. Nesse local, um espeleologista famoso (que eu esqueci o nome) disse que “Deus brincou aqui”. Achei a frase perfeita para descrever a sensação de estar nesse lugar.

O melhor mesmo foram as pessoas

A melhor coisa da viagem foram as pessoas que conhecemos na estrada. Fizemos amizades e tivemos conversas com pessoas totalmente diferentes do nosso convívio aqui em São Paulo, e isso foi muito enriquecedor.

Uma das vantagens de viajar de trailer é a facilidade para fazer amizades. Assim que a gente chegava em um camping novo, as pessoas que já estavam hospedadas vinham nos cumprimentar e perguntar se precisávamos de ajuda. E em geral, os campings normalmente eram o quintal da casa de alguém. E se a pessoa abriu o quintal dela para receber viajantes, então isso já diz muito sobre ela. Nossos anfitriões foram todos muito queridos e muito hospitaleiros.

Sem falar nos anjos da estrada, que tivemos muitos. E fizemos questão de retribuir sendo anjos também de viajantes que passavam algum sufoco. Essas sem dúvidas foram as trocas mais gratificantes.

Por fim, os gastos da viagem

Esse é um blog de finanças então não poderia deixar esse assunto de fora.

Nossos gastos com a viagem ficaram em linha com o esperado e em linha com a nossa expectativa de gasto para nossa vida normal FIRE (R$4mil por mês + $4 mil por ano com viagens, por pessoa). Isso não foi surpresa porque eu mantive controle do nosso orçamento durante a viagem. Eu não queria gastar de mais, mas também não queria economizar nesse ano. Então manter um orçamento foi ótimo. Gastamos o que podíamos e nada além disso. Abaixo tem uma lista com a descrição dos gastos.

(R$4mil por mês + $4 mil por ano com viagens, por pessoa). Abaixo tem uma lista com a descrição dos gastos.

As surpresas negativas aqui foram com transporte. No nosso planejamento imaginamos gastar no máximo R$5 o litro da gasolina, mas chegamos a pagar R$7 em alguns lugares. Isso foi compensado em partes com a nossa decisão de viajar mais devagar e ficar mais tempo nos lugares que gostávamos muito. Também tivemos um gasto acima do esperado com a manutenção do carro e do trailer. A gente puxava o trailer com uma Pajero Full, e mesmo um carro potente sofreu com o excesso de peso.

Por fim, os gastos com a compra dos equipamentos (trailer e carro) ficaram zerados porque vendemos ambos pelo mesmo preço que pagamos. Demos sorte aqui. 

Foram 340 dias na estrada, mais de 20 mil km rodados. Visitamos 4 regiões do Brasil (ficou de fora só o Centro Oeste), 9 estados, mais de 50 cidades. Ficamos hospedados em mais de 40 lugares diferentes, boa parte deles no trailer. Dormimos em posto de gasolina, praça de prefeitura, de frente para o mar, e até em estacionamento no meio da cidade. Fizemos aula de surf, aprendemos receitas novas, li mais de 20 livros. Vivemos quase seis meses na praia, tomamos incontáveis banhos de cachoeira e percorremos km de trilhas. Madrugamos para ver o sol nascer algumas vezes e prestei atenção pela primeira vez no nascer da lua cheia. Também enjoamos da praia e do mato, e sentimos falta da cidade. Cruzamos com gente de todo o Brasil e pouquíssimos paulistas. E morremos de saudades de casa, dos nossos amigos e da nossa família. Por fim, vivemos uma vida em que todo dia era sábado e numa casa sob rodas de 6 metros quadrados, mas com um quintal grande. Foi uma aventura, e foi o melhor jeito de começar nossas vidas FIRE.

10 respostas

  1. Que post incrível! Sempre viajei muito com minha família e certa vez, no interior da Bahia e após detonar as rodas do carro em uns buracos na estrada, estávamos um pouco perdidos e sem saber o que fazer, já que não havia sinal de celular. Aí um ‘anjo da estrada’ nos salvou! Simpático, disse que morava na cidade seguinte e que iria acionar um guincho para nós – e foi o que ele fez. Horas depois, com o nosso carro na oficina, ele apareceu para verificar se estava tudo certo e nos convidou para jantar com a família dele!

  2. Que post incrível, visualizei na minha memória cada detalhe do que você escreveu. Que demais!
    Pra mim está sendo um presente maravilhoso suas postagens, sua honestidade em escrever suas particularidades, sua boa vontade em compartilhar conosco cada situação. Obrigada, obrigada e obrigada. Delícia esse banquete do conhecimento.

  3. Muito legal o post! Obrigado por compartilhar a experiência… Vocês têm planos para outras viagens longas no futuro? Já pensaram em morar fora do Brasil?

    1. Oi Fernando!
      Temos planos para uma viagem de 3 meses ano que vem.
      Nossa ideia agora é aproveitar as fronteiras abertas e viajar mais pelo mundo.
      A gente está sempre avaliando a possibilidade de morar em outro país, mas ainda achamos melhor ficar em São Paulo. O custo de vida é ótimo aqui e nossa vida social também. Nossa ideia é fazer viagens longas (3 meses no máximo) e viver o resto do ano em casa.

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