Quanto eu preciso para me aposentar? A regra dos 4%

A primeira pergunta de quem quer se aposentar cedo é “quanto eu preciso juntar de dinheiro para poder viver da renda dos meus investimentos?”. E a resposta para isso está na regra dos 4%. 

Essa regra é simples e bastante polêmica, como a maioria das regras de bolso de finanças. Mas para começo de conversa vamos defini-la como: 

A regra dos 4% determina que 4% é uma taxa segura de retirada anual dos seus investimentos para que você possa viver de renda para o resto da sua vida. 

Assim, se você tem um patrimônio de R$1 milhão, você pode resgatar todo ano R$40mil. Ou seja, se R$40 mil for o suficiente para cobrir as suas despesas anuais, então você já pode se declarar aposentado.

Com base nessa regra, basta multiplicar seus gastos anuais por 25 que você chega ao valor que precisa juntar para se aposentar. Ou seja, se você gasta R$100mil no ano, então precisa de um patrimônio de R$2,5 milhões para se declarar aposentado.

A simplicidade dessa regra é o que torna ela uma ferramenta muito útil para quem quer viver de renda. Por exemplo, quando você está avaliando se inscrever ou não no Studio de Yoga charmoso que abriu no seu bairro, mas que custa R$300 a mensalidade, o que parece inofensivo. Mas isso equivale a um gasto anual de R$3.600, o que multiplicado por 25, acrescenta mais R$90 mil ao patrimônio necessário na aposentadoria. E aí você pode calcular quantos meses a mais você vai precisar trabalhar para conseguir manter esse gasto de apenas R$300 por mês. Dependendo de quanto for, talvez o Studio de Yoga perca o charme rapidinho.

E será que existem investimentos que rentabilizam o suficiente para você retirar 4% todo ano e não se preocupar mais com sua fonte de renda? E será que essa renda vai ser suficiente para cobrir seu custo de vida para sempre? Afinal de contas, alguns anos atrás você fazia o supermercado do mês com 500 reais e hoje precisa de mais de mil reais para fazer a mesma compra. 

Para responder essas perguntas, eu preciso explicar a origem dessa regra.

A origem da regra dos 4%

A regra dos 4% foi derivada de um estudo de três professores americanos da Trinity University (por isso a regra dos 4% também é conhecida por Trinity Study).

No estudo, os autores avaliaram a performance de uma carteira que investia metade na bolsa e metade em títulos de renda fixa entre 1925 e 1995, considerando grupos de pessoas que se aposentaram em qualquer momento desse período e assim ficaram por 30 anos (ou seja, pessoas que se aposentaram de 1925 a 1955, depois de 1926 a 1956 e assim por diante). Para cada grupo eles calcularam qual era o percentual máximo de retirada a fim de garantir que (1) o valor da retirada fosse sempre ajustado pela inflação e (2) que o patrimônio não se esgotaria ao final do período.

A conclusão foi que 4% era o percentual máximo do pior caso. A título de curiosidade, esse foi o cara que se aposentou em 1966, no pico da bolsa, e sofreu uma queda da bolsa de 37,2% entre 1973-1974 enquanto a inflação foi de 22,1% no período. Esse azarado sofreu uma perda de mais da metade do poder de compra do valor alocado na bolsa. Ainda assim, ele poderia ter retirado 4,15% do seu patrimônio todo ano e manter seu patrimônio por 30 anos, ajustado pela inflação. 

Vale reforçar que 4% foi o percentual máximo do pior caso. Isso significa que todos os outros aposentados do estudo teriam ficado igualmente bem se retirassem mais do que 4% nesse período. O gráfico que melhor explica esse conceito é o gráfico a seguir da Fidelity:

Taxa máxima de retirada sustentável para diferentes datas de aposentadoria

Entre 1925 e 1995, o mercado de ações norte-americanos passou por diversas crises: o famoso crash de 1929, a segunda guerra mundial, a guerra fria, as crises de preço do petróleo, entre outras. Então é óbvio que os aposentados que passaram por essas crises sofreram grandes oscilações de patrimônio durante esse período. 

O felizardo que se aposentou em 1949, que contou com uma sequência incrível de retornos acima da inflação, poderia ter retirado quase 8% do seu patrimônio todo ano, que ainda teria suas retiradas protegidas pela inflação e não esgotaria seu patrimônio pelos próximos 30 anos. Mas o azarão que se aposentou em 1966 não teve a mesma sorte, como vimos acima. 

Esse ponto é muito relevante porque mostra que a sequência dos eventos é muito importante. E pode colocar em risco a sua estratégia de viver de renda. Imagine quem se aposentou em 2007 e sofreu a crise econômica de 2008 logo em seguida? O que esse estudo nos diz, no entanto, é que mesmo o mais azarado dos aposentados entre 1925 e 1995 ainda assim teria mantido sua aposentadoria se retirasse 4% todo ano. É por isso que essa regra é tão poderosa. 

E onde está a polêmica?

A regra dos 4% leva em consideração a taxa de retirada do pior caso do período. Mas ainda assim é muito controversa. Os principais pontos de discussão em geral são:

(1) A expectativa de vida tem aumentado então viver de renda por apenas 30 anos pode não ser o suficiente;

(2) O estudo foi feito para os EUA, será que a regra também valeria para o Brasil?

(3) O estudo foi realizado num período muito excepcional da economia e daqui para frente a taxa segura de retirada pode ser muito menor do que isso;

(4) O estudo foi feito num período em que os juros da economia norte-americana eram bem mais elevados. Hoje 4% parece uma taxa de retirada muito elevada para uma carteira que investe metade em renda fixa. 

Com relação à crítica (1), a diferença é pequena entre um período de 30 anos e um período infinito. Isso ocorre por conta dos juros compostos. Por exemplo, considerando uma taxa nominal de juros de 5%, depois de 30 anos, mais de 75% do valor do seu investimento vai ser devido aos juros e não devido ao valor do aporte inicial. Depois de 40 anos, a parcela sobe para 85%. Depois de 50 anos, sobre para mais de 90%. Ou seja, com o passar dos anos, a participação dos juros na composição do investimento aumenta e diminui a participação do aporte inicial. E é por isso que não muda muito a análise quando consideramos um período maior do que 30 anos. 

Com relação à questão (2), vou comentar a adaptação dessa regra ao Brasil no post seguinte.

As questões (3) e (4) são bastante interligadas. Em geral, juros mais baixos são ótimos para a economia, o que significa que se a parcela alocada em renda fixa rende menos quando os juros estão baixos, então a parcela alocada em bolsa deve compensar esse efeito rendendo o suficiente para garantir os 4%. Diversos estudos tentaram atualizar essa regra, mas basicamente o melhor ajuste a fazer seria adotar uma postura mais agressiva e alocar uma parcela maior na bolsa, caso os juros continuem baixos.

No final, essa discussão depende do seu grau de otimismo com o futuro da humanidade e do quanto você acredita que o capitalismo é capaz de produzir riqueza para sempre (ou pelo menos pelo período da sua vida inteira). 

Sem dúvidas diversos outros fatores podem interferir ao longo do caminho. Alguns estão completamente fora do seu controle, como ser o azarão que vai se aposentar logo antes de uma crise. Mas outros são altamente controláveis. Você pode ajustar seus gastos durante um período de queda dos investimentos, pode substituir produtos que subiram demais os preços, e decidir viajar pelo Brasil quando o dólar disparar. Outras variáveis são até mesmo bem previsíveis como ter outra fonte de renda mesmo depois de aposentado ou receber alguma pensão do governo.

Assim podemos concluir que a regra dos 4% continua sendo muito útil e é uma ótima resposta para  saber quanto você precisa para viver de renda. Com ela, basta multiplicar por 25 o seu gastos anual e você chega no valor necessário de patrimônio para viver de renda. Se você gasta 50 mil reais por ano, então precisa juntar 1,25 milhões para viver de renda. Se gasta 100 mil por ano, então precisa de 2,5 milhões. Se quiser ter gastos de 1 milhão por ano, sem problemas, você vai precisar juntar 25 milhões para viver só da renda dos seus investimentos. 

Comentem abaixo: vocês usam essa regra para fazer a conta da aposentadoria? Quais as críticas?

8 respostas

  1. Minha mente tupiniquim funciona melhor pensando mensalmente, então multiplicou por 300x o valor mensal que desejo.

    Na prática, eu fiz um misto: considero a regra dos 4% para fins de patrimônio e aloquei o percentual necessário da carteira em ativos geradores de renda (dividendos e aluguéis) até atingir o valor desta renda desejada.
    Assim eu tenho o conforto mental de não precisar vender ativos (como numa carteira com geração insuficiente de renda que pinga), tampouco reinvestir todo mês (como numa carteira 100% previdenciária, em que os dividendos sempre irão superar o custo de vida).
    Beijo

    1. Rs, boa! Eu já estou acostumada a fazer as contas anualmente. Acho até melhor porque os valores costuma assustar mais. Exemplo: ao invés de ser “só” 80 reais por mês, eu já penso que é quase mil reais no ano.

      Entendi sua estratégia e faz sentido! A minha é bem diferente. Ainda assim, tenho o conforto mental do dinheiro pingando na conta às vezes, mas também tenho bastante previsibilidade de retorno. Esse segundo ponto é essencial para mim, como vou explicar em breve!

      Beijos

  2. Oi Elsa!

    Acho que a principal pergunta de todo mundo que pretende ser FIRE é: Qual o valor do patrimônio necessário para que eu possa “me aposentar”. Sempre que eu ouço alguma entrevista com alguém que já é FIRE, essa é a resposta que mais me interessa.

    Eu também gosto muito da simplicidade da regra dos 4%, e acho que ela funciona muito bem em outros contextos de investimentos.

    Eu gosto muito da ideia de renda passiva com dividendos de ações. Acho que com muito estudo, é possível consegui uma carteira que renda 6%~7% em dividendos anuais, com uma segurança e previsibilidade razoáveis.

    Nesse caso, utilizar 4% e reinvestir 2% (50% da renda passiva) me parece uma estratégia razoavelmente segura. Mesmo em épocas de mercado muito desfavorável, é muito difícil os dividendos de uma carteira bem planejada caírem abaixo de 4%.

    Você também usou a referência dos 4% quando decretou o seu FIRE? Se você pude falar mais sobre como você determinou sua meta, seria muito legal ouvi-la, ou melhor lê-la 🙂

    1. Oi Fernando!

      Vou fazer um post explicando com detalhes minha estratégia de investimentos.

      Como não quero passar a aposentadoria estudando empresas, não optei por essa estratégia de viver de dividendos. Minha estratégia é bem mais simples e tem como ponto central a regra dos 4%.

      Fiquei curiosa com a sua decisão de reinvestir parte dos dividendos. Qual seria o objetivo? Controlar ainda mais a inflação? Ou para crescer o patrimônio além da inflação durante a aposentadoria?

      Obrigada pelo comnetário!

      1. A ideia de reinvestir parte dos dividendos é compensar a inflação e conseguir um pequeno aumento real do capital ao longo do tempo. Além disso, eu ficaria bem mais tranquilo sabendo que eu preciso de apenas uma parte da minha renda passiva para cobrir meu custo de vida.
        Nem sempre o resultado dos nossos investimentos é como planejamos. O governo pode inventar um imposto novo, a inflação pode explodir, pode aparecer uma despesa extra não planejada…

        No meu caso, além da minha esposa, eu tenho uma filha pequena. Imagino que eu seja responsável por ela até a conclusão da graduação… Eu nem saberia estimar o custo de um filho durante todo esse período.

        Enfim, não faltam motivos para termos uma boa folga no orçamento antes de abrirmos mão da renda ativa…

        Fico aguardando mais detalhes sobre a sua estratégia de investimento.

        1. Entendi, faz sentido, ainda mais que eu acho que essa discussão de taxar dividendos no Brasil vai continuar quente.

          Quanto aos filhos, eu pensaria de uma forma mais pragmática. Enquanto para a aposentadoria você precisa de um patrimônio de 25X o seu gasto anual, para os filhos acho que 18X já está ótimo. O ganho real nesses 18 anos pode ajudar a pagar uma faculdade. E depois disso, seria legal ele já andar com as próprias pernas. Mas sei que é mais fácil eu falar porque não tenho filhos, rs!

          1. Me desculpe pela pergunda leiga, eu sou relativamente nova neste assunto, mas a minha visão simplista é a seguinte: Considerando que eu necessite de um patrimonio X para me aposentar (usando a regra dos 4%), se eu conseguir um rendimento IPCA + 4% ao ano em CDB ou Tesouro, e suponhamos que ao longo do tempo eu consiga manter mais ou menos este padrão de rendimento, e eu retirar 4% ao ano, eu estarei mantendo o meu montante inicial “intocado”
            e corrigido pela inflação, e ele ainda estará crescendo com os juros compostos, seria isso mesmo? Estou certa? Eu digo isso porque se eu nao tiver filhos e nem intenção de deixar dinheiro para outras pessoas, eu usaria os 4% ao ano e ainda morreria deixando todo o meu patrimônio completo. Se for isso, nao seria interessante ir “comendo” parte do patrimonio também? Obviamente de forma sensata e ja considerando a quantidade de anos que nos restam, onde eu estimo uma expectativa de vida de 80 anos, na melhor de todas as hipoteses!

          2. Oi Regiane!
            Seu raciocínio está correto.
            E é por isso que eu acho a regra dos 4% conservadora.
            Ela considera que seu patrimônio vai crescer para sempre com a inflação. E que, portanto, você deixará herança!
            Dentro dela, tem muito espaço para folgas… é um ótimo guia mesmo!

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