Vida frugal

Eu descobri o termo frugalidade junto com o movimento FIRE. São dois termos muito interligados. Sem a frugalidade, a aposentadoria precoce fica dependendo da sorte de ganhar na loteria, receber uma herança ou ser um empreendedor de sucesso em um país com difícil ambiente de negócios. É por isso que eu digo que a vida frugal é a audácia da aposentadoria antecipada (o subtítulo desse blog).

A frugalidade é polêmica, assim como o movimento FIRE. Muitos enxergam a vida frugal como uma vida de privação. E isso é natural porque somos bombardeados por mídias que dizem que o consumo é o caminho para uma vida feliz. Entrei para o Instagram recentemente e fiquei chocada com o número de páginas sobre investimentos que ainda escancaram iates luxuosos como o objetivo final.

Decidi então fazer um giro pelos principais blogs da comunidade e tentar separar o joio do trigo quando o assunto é frugalidade. 

O que é frugalidade?

A melhor definição de frugalidade é gastar com base nos seus valores. Ser frugal é olhar para todo dinheiro que sai do seu bolso no mês e ter certeza que ele está indo para algo que é importante para você. Se você é uma pessoa que gosta de ficar em casa, então deve investir em uma casa confortável. Mas se você é uma pessoa que acha que a vida é lá fora, e passa boa parte do final de semana visitando museus, indo a shows e fazendo pic-nic no parque, então morar em um apartamento menor pode fazer mais sentido para você.

O autoconhecimento é a peça chave de uma vida frugal. Somos seres sociais e constantemente nos comparamos com os outros. E é natural confundir os desejos dos outros com o seus. Se o seu irmão mora em um apartamento grande, você provavelmente vai se questionar se deveria fazer o mesmo. O segredo é identificar se isso faz sentido para o seu estilo de vida ou se você só está tomando a mesma decisão por medo de errar.

A gente tende a achar que o que a maioria faz é o certo. E é o famoso efeito manada. Se todo mundo casa, então eu também tenho que me casar. Se todo mundo tem carro, então eu também tenho que ter. Se todo mundo viaja para o exterior, então eu também tenho que viajar. Eu poderia continuar, mas você já entendeu o conceito. Você está tomando essas decisões porque fica empolgado com essas possibilidades? Ou está tomando por medo de ficar para trás?

Eu não tinha uma vida frugal e baseava minhas decisões de consumo com base no que os outros faziam. Eu tinha um carro, apesar de detestar dirigir e cuidar dele. Eu fazia a unha no salão toda semana, apesar de achar inútil gastar mais de 1h por semana para ficar com as unhas bonitas por apenas poucos dias. Eu comprava roupas novas porque via minhas amigas sempre vestindo novidades e eu não queria ser a única a repetir roupa. Mas eu não me interesso por moda e me sinto mais bonita com roupas básicas e confortáveis.

Frugalidade é ser criativo, desenvolver novos hobbies e pensar fora da caixa. Você não precisa gastar dinheiro para se divertir. Eu adoro ir a museus e visitar exposições de arte, mas deixo para ir quando a entrada é gratuita. Também gosto de decorações para casa, mas aprendi a fazer um cesto de sisal ao invés de comprar um pronto por 300 reais. E vou ao cinema às segundas-feiras quando a entrada é mais barata que aos finais de semana.  

O que não é frugalidade?

Definir conceitos com base no que eles não são é muito útil. Frugalidade não tem a ver com economizar cada centavo, em sofrer quando você gasta dinheiro e nunca se agradar com dinheiro. E não tem a ver com economizar às custas dos outros. O famoso pão-duro.

Você não precisa se isolar para viver uma vida frugal. Sair para beber com os amigos é caro, ainda mais em São Paulo. Mas você pode recebê-los em casa, que sai muito mais barato. Mesmo que você tenha os custos de ser o anfitrião uma noite, eles provavelmente vão retribuir o convite numa próxima vez. Caso contrário, eles que serão pães-duros, e não você. 

Não é sobre o que você deixa de ganhar no curto prazo, mas sobre o que você vai ganhar no longo prazo. Uma vez eu li que a felicidade que não dura se chama prazer. E viver de prazeres nos deixa fracos. É claro que quando chove, e eu não tenho um carro estacionado na minha garagem, a minha vida fica um pouco pior no curto prazo. Mas sei que no longo prazo minha vida é mais saudável por não ter um carro. E me faz agradecer os dias sem chuva. Não dizem que gratidão é importante para uma vida mais feliz?

Frugalidade não é minimalismo também. Eu tenho algumas peças de roupa que não uso muito no Brasil, mas que são muito úteis quando eu viajo para fora no inverno. Se eu fosse puramente minimalista, eu não teria essas peças de roupa. Mas como sei que elas serão úteis numa próxima viagem, eu as mantenho no meu guarda-roupa.

Salvando o mundo: a externalidade mais positiva da frugalidade

O consumo consciente é a chave de uma vida frugal. E esse termo está em alta agora por conta das questões ambientais. Você não precisa entender muito de questões polêmicas como aquecimento global para perceber que boa parte dos problemas ambientais que já enfrentamos hoje foi causado por excesso de consumo.

Como diz um antigo provérbio grego, “uma sociedade prospera quando os mais velhos plantam árvores das quais nunca aproveitarão as sombras”. Eu provavelmente não sofrerei os impactos da super-utilização dos recursos que vivemos hoje. Mas apesar de não ter filhos eu tenho uma afilhada que é a paixão da minha vida e filhos de amigos que já tem um espaço especial no meu coração. E eu gostaria de deixar um mundo habitável para eles.

Parece uma piada de mau gosto a quantidade de coisas que compramos para presentear uma criança. Aniversário, dia das crianças, natal. Até presentes de férias, como se as férias já não fossem um presente. A gente inunda elas de coisas, que muitas vezes elas nem pediram, e em troca deixamos um planeta pior para elas resolverem no futuro.

Uma vez eu fui a um aniversário de criança e dei de presente uma roupa comprada em um brechó. A roupa estava em perfeito estado e limpa. Mas como a roupa não tinha etiqueta, os pais iriam perceber que era uma roupa usada. Decidi então escrever um cartão, direcionado a criança, dizendo “o seu presente foi comprado em um brechó porque a titia aqui tem como propósito de vida o consumo consciente, e eu quero deixar um mundo bem lindão para você”. Os pais me ligaram agradecendo o presente e disseram que minha mensagem alertou para uma questão que eles não tinham pensado. No próximo ano, eles pediram que as pessoas não levassem presentes para a criança e escreveram “a sua presença é o nosso maior presente”.

A vida frugal deixou de ser uma escolha, e já é algo natural para mim. Ser frugal estimulou minha criatividade, me fez aprender coisas novas e me deixou fisicamente mais saudável. Também sinto que a vida frugal é uma vida autêntica. Se você escolher gastar com apenas aquilo que importa para a sua vida, a sua vida passa a ter a sua cara. Como dizem, você pode comprar qualquer coisa, mas não todas as coisas. E essa é a chave do pensamento frugal.

Não perca nenhum post!

Aposentada aos Trinta

10 comentários em “Vida frugal

  1. Excelente post, meu parabéns!

    Descobri hoje o seu blog e ele é, simplesmente, sensacional!
    Meu parabéns mesmo e, por favor, não pare de escrever!! rsrs

  2. Jamais gastarei minha grana com presentes de plástico: pra mim, aniversários e presentes em geral, são oportunidades de incentivar empreendedores pequenos e de preferencia, mulheres. Os infantis, tenho dado casaquinhos de lã que minha mãe faz e pago para ela para ajudá-la e os grandinhos, priorizo sempre os pequenos…Eu consigo sempre? Não mas na maioria das vezes, funciona! Dei uma festa de aniversário recentemente pra mim e de lembrancinha, comprei panos de prato de uma pequena empreendedora, sei que ajudei muito o Natal dela, além dos convidados terem ficado bem felizes. Acho que tô percebendo que sou frugal também….rsrsrs

  3. Por causa da pandemia minha empresa adotou o home office, e eu nunca imaginei o quanto isso seria libertador. Não ter que explicar para os colegas de trabalho porque eu não troco de carro há anos (meu carro é de 2008 e está funcionando muito bem), porque não vou a restaurantes caros toda semana, porque não dou a mínima para a série X que todo mundo está assistindo, me deu um alívio que eu nem imaginei que sentiria… trabalhando à distância ninguém vê as coisas que não estou fazendo e não se sentem ofendidos porque tem alguém no meio deles que não segue a manada e prefere ter uma vida frugal. Seu post foi incrível, me identifiquei muito com ele.

    1. Oi Michelle! Sabe que eu também trabalhei um ano de HO antes de me aposentar e senti a mesma coisa que você. Ainda me desfiz das roupas de trabalho que não tinham nada a ver com o meu estilo.
      Frugalidade é algo difícil para as pessoas entenderem. Eu ainda tenho que disfarçar quando saio com os amigos e chego de ônibus, ao invés de Uber. Eles acham que é uma economia desnecessária. Mas para mim é uma economia que faz todo sentido. Gasto menos, me exercito mais, me sinto mais segura, prejudico menos o meio ambiente e chego nos lugares da mesma forma. Então te entendo sobre o alívio de poder viver a vida como gostaríamos sem dar satisfação a ninguém. Esse é um ponto que faz com que a vida FIRE seja um pouco solitária as vezes, uma pena.

      1. É exatamente este um dos pontos que estava pensando hoje: o fato de a vida FIRE ser um pouco solitária. Acompanho o MMM há alguns anos e nunca tinha tido curiosidade de procurar a comunidade FIRE no Brasil. Procurei hoje e encontrei seu site! Ir contra a maré do consumismo não é fácil, mas não é impossível. Obrigada por compartilhar seus pensamentos.

  4. Que post mais maravilhoso. Me admira não ter nenhum comentário. Pra mim esse texto resume toda a essência do que realmente importa no Movimento FIRE. E adorei sua ideia de presente para aniversários infantis. Por coincidência ou não esta semana msm compartilhei q fiz a festa do meu filho de 3 anos (foi a primeira festa q ele teve, pois nos anos anteriores a comemoração foi com um bolo em família) e não tinha me atentado para essa questão dos presentes. No dia seguinte não sabia como agir com aquele mundo de presentes, pois nunca o acostumamos assim. Amei sua abordagem.

    1. Olá Carolina! Que bom te ver por aqui. E fico feliz que tenha gostado do post! Também foi um dos que eu mais gostei de escrever, rs.

      Eu imagino o “mal estar” de ver uma pilha de presentes, ainda mais quando a gente pratica o consumo consciente. Eu me sinto assim no Natal, quando as crianças da minha família estão mais preocupadas em abrir os presentes e menos com o brincar, quando eu vejo adultos enchendo elas de presentes para compensar a falta de tempo para elas no dia a dia.

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