Aprendendo a ser menos mão de vaca

Quando eu descobri o movimento FIRE, eu pulei de cabeça. Para algumas pessoas, a graça de viver de renda é acumular um patrimônio gordinho e pensar em diferentes estratégias de investimentos. Mas para mim, o canto da sereia do movimento FIRE sempre foi a beleza de cortar os gastos.

Eu abracei a ideia de que apesar da gente ser bombardeada de informações do tipo “compre isso e seja feliz”, a felicidade genuína está em ter menos coisas. Eu sou do tipo que poderia estampar em uma camiseta “as coisas que você possui acabam possuindo você” e usá-la orgulhosamente por aí. Até porque eu sou a prova viva de que é possível sair do ciclo infinito de trabalho e consumo se você topar viver um estilo de vida mais econômico.

Assim como a maioria, meu começo na vida FIRE foi tímido. Eu comecei cortando aquelas gorduras básicas do orçamento, como a academia que eu nunca ia e o plano de TV a cabo que eu nunca assistia.

Mas com o tempo, eu percebi que esse processo de corte de gastos era o que me deixava mais próxima da minha independência financeira. E o melhor: era o lado da equação que eu mais controlava. Aumentar a renda ou acertar a hora certa de comprar Bitcoin parecia bem menos controlável. É claro que eu poderia trabalhar mais, mas isso não necessariamente garantiria mais renda porque o mercado de trabalho não é tão justo assim. E bem, nem preciso falar que o retorno sobre os meus investimentos estava mais do que longe do meu controle. Eu sabia que meus investimentos chegariam lá em algum momento, mas seria um caminho longo e, por vezes, aleatório. Nada bom para uma controladora de carteirinha como eu.

Então fui dando passos maiores no lado do corte de gastos, como me livrar do meu carro. Na época, eu passava horas analisando cada linha da minha planilha de gastos e tendo as ideias mais criativas possíveis para eliminá-las ou reduzi-las. E cada vez que um item era eliminado do meu orçamento mensal, eu sentia um prazer imenso. Se algumas pessoas são viciadas em compras, eu passei a ser viciada em cortar gastos.

Eu confesso que tenho um pouco de dificuldade de falar sobre isso no blog porque é justamente essa obsessão por corte de gastos que afasta algumas pessoas do movimento. Talvez a crítica mais comum ao movimento seja o famoso “não é sobre o objetivo, é sobre curtir o processo”. E a maioria acaba se frustrando com o processo porque elas vivem uma vida miserável para conseguir se aposentar, e então elas se aposentam para viver essa vida miserável para sempre. E eu definitivamente não concordo com essa abordagem extrema.

Mas recentemente, alguém comentou no blog que meu texto o fez refletir sobre os perigos de uma aposentadoria precoce. Minha primeira reação ao ler comentários do tipo é sempre pensar “que exagero! A aposentadoria precoce é maravilhosa, perigoso é viver uma vida gastona!”. Mas confesso que a reflexão me deixou reflexiva. E a palavra “perigo” soou como um alerta.

Meu caminho para atingir o FIRE não foi extremista. Na época em que estava acumulando patrimônio, existiam dois gastos um tanto quanto elevados e luxuosos: minhas viagens e o meu apartamento. Eu poderia eliminá-los e me aposentar ainda mais cedo. Mas as viagens eram (e ainda são) uma grande fonte de prazer na minha vida. E mesmo sabendo que prazer é uma alegria temporária, eu também sou humana e faço questão de ter alguns prazeres na vida.

Já o apartamento fazia muito sentido enquanto eu trabalhava. Eu morava em um dos bairros mais caros de São Paulo, mas ele me trazia a qualidade de vida de ir a pé para o trabalho. O que para o trânsito caótico de São Paulo, é algo que contribuiu para a minha sanidade mental com a rotina pesada do trabalho no mercado financeiro.

Só que quando eu me aposentasse, não faria mais sentido morar por lá. E como a ideia era viajar ao máximo na vida FIRE, eu queria gastar o mínimo possível com moradia. E foi quando eu percebi isso que eu tomei a decisão que faz algumas pessoas acharem que eu fui ao extremo no corte de gastos: eu me mudei para um Studio de 27m2.

A maioria das pessoas não moram em um apartamento tão pequeno, nem o meu ídolo Mr Money Mustache, nem as minhas musas (e amigas) FIRE do Brasil. E eu acho que esse é um ponto que me coloca na categoria de extremamente mão de vaca.

Até que o Studio começou a limitar a nossa vida. A principal limitação é que ele era um espaço pequeno para receber as pessoas em casa. E esse era um dos pilares da nossa vida FIRE porque ao invés de ir para restaurantes e gastar uma fortuna com a conta, a gente recebia os amigos em casa e todo mundo economizava com isso.

Nossos círculos de amigos são grandes, e o melhor de tudo, crescente. Principalmente por conta dos filhos. E a limitação de espaço fez com que no último ano a gente praticamente não recebesse ninguém em casa. Eu simplesmente não tinha mais espaço para estar com as pessoas que eu amo.

Eu confesso que tenho sentimentos mistos com relação a decisão de morar em um Studio. Ela não parece fazer mais sentido agora, mas sem dúvidas foi uma decisão acertada no passado. A compra desse Studio antecipou em alguns bons anos a minha aposentadoria porque ela liberou o apartamento que eu morava para me gerar renda. E olhando para tudo que eu vivi nesses últimos 3 anos (sim, esse mês a aposentada aqui completa 3 anos fora do mercado de trabalho), é impossível achar que a decisão de me mudar para um Studio e sair mais cedo do trabalho foi errada.

Essa decisão comprou anos de vida para mim. Anos em que eu viajei de trailer pelo Brasil, em que eu descobri o prazer no trabalho como consultora de finanças pessoais, em que eu pude passar mais tempo com as minhas amigas e a minha família, que eu pude realizar o sonho de morar 3 meses na Europa, em que eu pude descobrir vários eventos e finalmente apreciar o valor da cidade em que eu nasci. Todas essas coisas demandam tempo, que eu só conquistei porque não precisava trabalhar. E eu só consegui parar de trabalhar nos últimos 3 anos porque eu decidi comprar esse Studio.

Eu adoro provocar o meu marido com perguntas do tipo “se dinheiro não fosse uma limitação, o que você gostaria de adicionar às nossas vidas?” (eu sei, ser casada comigo é muito divertido, rs). E normalmente ele respondia com “nada” (provavelmente para curtir mais uns momentos na sua nothing box). Até que um dia ele respondeu “eu iria morar perto do meu trabalho atual”. E eu concordei “é, e eu queria ir para um lugar maior em que eu pudesse receber as pessoas”.

Essa pergunta começou a fazer mais sentido no último ano porque a reviravolta da nossa vida FIRE nos levou a ter uma folga no orçamento. Já não era mais uma questão de “se a gente tivesse mais dinheiro”, mas sim “tem mais dinheiro entrando do que o previsto, o que vamos fazer com isso?”. Isso porque os leitores atentos desse blog sabem que meu marido arranjou um emprego voluntário que com o tempo virou um emprego pago. E eu comecei a dar consultorias de finanças pessoais, que além de ser um ótimo escape para a minha criatividade e impulso produtivo, tem gerado uma boa renda extra.

Mas nós não estávamos preparados para incorporar essas novas rendas nos nossos gastos mensais. A gente não queria passar a depender dessa renda para pagar o nosso custo de vida. Isso significaria abrir mão do nosso bem mais precioso: a nossa independência financeira.

Então decidimos pelo seguinte: a gente somou toda renda extra que entrou no último ano, dividimos por 30, e esse passou a ser nosso orçamento para o pacote aluguel + condomínio + IPTU de um novo apartamento. A divisão por 30 é porque os contratos de aluguéis normalmente são de 30 meses, então a gente queria ter certeza que conseguiríamos bancar os 30 meses de aluguel.

Eu nem preciso dizer o quanto isso foi uma decisão conservadora. Primeiro porque não estamos considerando o aluguel que vamos receber do Studio (ele é nosso, e já está no mercado!). E segundo porque é pouco provável que a gente não gere renda pelos próximos 30 meses. A gente já aprendeu que a nossa vida FIRE não significa parar de gerar renda com atividades produtivas que nos dão prazer (como é o caso). Mas no limite, como estamos consumindo apenas 40% das nossas novas fontes de renda, em 13 anos nós estaríamos FIRE de novo.

Com o orçamento em mãos, partimos para a busca do nosso novo apartamento. As limitações, além da orçamentária, era que fosse em um local próximo ao trabalho atual do meu marido e com uma sala ampla para receber os amigos.

E foi então que eu me deparei com o “perigo” da vida FIRE que todos alertam: eu sentia culpa de gastar. Não foram raros os momentos em que ao invés de pesquisar o melhor apartamento dentro do nosso orçamento, eu estava procurando o apartamento mais barato perto do trabalho do meu marido.

Eu quase fiz uma proposta para um apartamento que não necessariamente cumpria todos os checks da nossa lista, mas porque ele estava muito barato.

Um parêntesis aqui. Isso é uma coisa curiosa do mercado imobiliário. Tem o preço médio de cada região, é claro, mas é sempre possível achar um apartamento bem abaixo do preço médio. E para morar, a gente só precisa achar um.

Quando eu percebi que estava querendo de novo economizar em algo que eu não precisava economizar, eu me lembrei de que não queria seguir esse caminho mais. Ele foi ótimo para que eu saísse da minha vida de super consumista, desse uma reviravolta e conquistasse a minha independência financeira. Mas na minha vida atual, eu preciso aprender a ser menos mão de vaca.

Esse é sem dúvidas um risco do movimento FIRE. A gente se apaixonar mais pelo processo de cortar os gastos, e perder o foco do objetivo final, que é viver a melhor vida que podemos.

Mas foi curioso (e até um pouco triste) perceber que mesmo fazendo as contas, mesmo sabendo que o aluguel desse novo apartamento não colocaria em risco o meu bem mais precioso (a minha independência), eu estava sentindo culpa de aumentar meus gastos.

Foi então que eu me forcei a tomar a decisão de não ordenar os apartamentos por preço no site do Zap Imóveis. E sim, colocar o limite de preço, e me aventurar pelas fotos. Eu iria escolher o apartamento que me interessasse, e não o mais barato. Por sorte, não tínhamos pressa e usamos o tempo a nosso favor.

Até que finalmente achamos nosso apartamento ideal. Ele não era o mais barato da nossa lista, mas ele estava dentro do nosso orçamento. E isso foi uma vitória para mim. Gastar aquilo que eu posso, e não ser a mais econômica possível.

Hoje escrevo do meu apartamento novo e a aposentada aqui não mora mais em um Studio de 27 m2. E no final de semana passado, recebemos nossas famílias na casa nova. O apartamento ficou cheio, eu matei a saudades de cozinhar para todos e a vida FIRE ficou ainda mais gostosa, apesar de menos econômica.

Não perca nenhum post!

Aposentada aos Trinta

23 comentários em “Aprendendo a ser menos mão de vaca

  1. Que post bacana, parece que dei sorte em encontrar seu blog (foi indicação da “Independência Financeira ou Morte”). Eu estava conversando com minha parceira esses dias e falávamos justamente sobre a nossa futura casa. Eu, minimalista e apaixonado por locais pequenos, quero a menor casa/studio possível. Já ela pensa o contrário, quer “casa com cara de casa”. Inclusive, uma das falas dela foi: “como vamos receber visitas?”. Isto me deixou bem pensativo… e agora, com esse post, penso que, realmente, a fala dela faz sentido… Ah, adorei o blog, vou lendo os posts com calma nos próximos dias!

  2. Acho que esse post entrou para os meus preferidos! Acredito que as reflexões que você teve vieram com a “maturidade” do processo (usei maturidade pq me falta um termo melhor). Bons pontos que trouxeram aí em cima sobre o livro do Die With Zero (tb acho ele complicado pra qm tá começando, mas MUITO útil pra qm tá em estágio intermediário/avancado). Tb confesso que as provocações do Ramit já me foram úteis pra repensar algumas escolhas. Há pouco tempo, fazendo meu planejamento de 2024 passei por decisões sobre o q fazer com a renda extra q muito se assemelham a sua: como gastar de um jeito inteligente que não coloque o que eu mais valorizo (a IF) em cheque? Está sendo um aprendizado interessante!

    Ah, não sei se já comentei desse ep com você, mas vale muito ouvir! O #423 do podcast Choose FI – What are you otmizing for?

    Beijoooo!

    1. Oi Carol!

      Nossas trocas sempre me ajudam a refletir também. E você é uma das pessoas que já me provocou nesse sentido, de me permitir mais. Obrigada por isso!

      Vou ouvir esse episódio! Eu dei uma abandonada no ChooseFI, ouvia sem parar quando ainda estava trabalhando. Eles eram ótimos!

  3. Li todo o seu Blog! É muito legal ter uma referência de já aposentada agora. Eu estou seguindo meu caminho para a IF que pode ser acompanhado no meu blog, mas imagino que você vai achar loucura o que estou fazendo…rs
    Sou hiper-mega conservadora e quero me aposentar quando tiver certeza que terei uma vida boa e confortável, não quero regredir.
    Adorarei se você me visitar: http://independenciafinanceiraoumorte.blogspot.com/
    Abs,
    IFM

    1. seu blog me dá nausea de tão ruim.. o seu blog é o contrário de tudo que prega a filosofia FIRE.. vc se gaba de ter muitos milhoes na conta mas fica reclamando da vida , e nem quando tiver 10, 15 milhoes vai estar satisfeita. Nao basta ser FIRE, tem que ser FAT FAT FAT FIRE. Recomemndo a todos passarem longe do seu blog

    2. Aliás, tentei comentar no seu blog, mas recebi uma mensagem de erro. Sempre tenho problemas para comentar em sites do blospot. Não sei se é incompetência minha rs, ou algum bloqueio ao tipo de comentário com URL vinculado.

  4. Lilian, já viu o conceito do Fundo Tio Patinhas?
    Algo que vi no blog do Sr. IF365 que pode ajudar. Eu pretendo usar pra forçar justamente esse psicológico de não se preocupar tanto com certos gastos depois da IF.

  5. Acredito ser natural que essa confiança em gastar mais venha com o tempo, a medida que vc vai vendo que o plano FIRE funciona… Eu imagino que no meu primeiro ano FIRE não vai ter mto jeito: vou continuar economizando, por pura falta de experiencia em viver de renda, mas depois de uns 3 anos acredito que dá pra se soltar mais.. Para ajudar nisso, como o AA40 citou, tenho mta vontade de ler o “Die with Zero” (que será lançado agora em abril no Brasil como “Morra sem Nada”)mas acho q vou esperar até entrar na vida FIRE hehe

  6. Muito interessante seu texto AA30. E muito pertinente. Porém, como argumentei com o Brad do ChooseFI no Econome outro dia, precisamos ter em mente em qual estágio FIRE cara membro se encontra. Acho que este conselho e que ele segue muito agora é ótimo para aqueles que já alcançaram FIRE e estão curtindo e vendo seu patrimônio ainda aumentar. Agora da mesma forma que foi colocado como perigoso, acho tanto perigoso também não adotar a frugalidade como ponto de partida FIRE.
    Este abrir a mão tanto pregado por livros como Die with Zero tem sua hora e seu lugar na jornada FIRE, mas definitivamente não é no início nem no meio dela. E aquele que acha que vai conseguir ser FIRE sem cortar orçamento e adotar um consumo de valor, pode nunca chegar lá. Abcs

    1. Concordo AA. E sem dúvidas, tem gente que pode distorcer meu texto.
      Cortar os gastos foi muito importante (fundamental eu diria) para atingir a IF.
      E mesmo ir morar em um Studio, que como eu disse no texto, fez muito sentido no passado, embora não faça mais hoje.
      Mas adoro trazer provocações para cá. E acho que tem alguns membros da comunidade que se beneficiariam dessa provocação (ser menos mão de vaca!).
      Abs!

  7. Sempre comento o blog com meu marido e nosso ponto é a gente nunca iria caber em um Studio, precisamos de espaço separado dentro de uma casa, até pode ser pequena mas se um quer dormir e outro ficar na Tv computador já ia dar stress. Parabéns pela decisão

  8. Esses dias vi no subreddit de FIRE um outro significado para o “RE”: “Recreational Employment”, e pensei que é assim que provavelmente vou seguir quando chegar no FI, porque tenho o privilégio de já amar meu trabalho atual e percebo o quanto ele me faz bem <3 Talvez só diminuirei 1 dia, porque agora trabalho 4 dias por semana e aí trabalharia 3.

    Por causa disso, não estou com pressa de chegar no FI, me considero em um Coast Fire, reaprendendo a gastar com coisas que valem a pena para mim sem sentir culpa. O que tem me ajudado muito nisso é o jeito de pensar do Ramit Sethi. Recentemente comprei o workbook dele, que vai bem no sentido de ajudar a refletir sobre o que você ama na vida e como o dinheiro pode te ajudar a curtir mais disso (no seu caso, receber as pessoas em casa!). Não sei se você já tem uma opinião sobre ele e/ou o trabalho dele, mas super recomendo o workbook para esse propósito!

    1. Adorei! Também já vi a troca de “FIRE your boss”. Que eu achei o máximo! rs

      Eu adorei o seriado do Ramit no Netflix. E acho que o jeito dele de pensar é muito legal. O objetivo final é o mesmo (ser bom com dinheiro), mas a abordagem é diferente (gastando sem culpa naquilo que importa, e economizando sem dó naquilo que não importa!”.

  9. Esta também é minha maior dificuldade. Estou no primeiro ano fire e apesar dos gastos estar dentro do planejado sempre fica aquela sensação de culpa quando não compro o mais barato. Obrigado pelo post.

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