Como gastar mais na aposentadoria

A turma FIRE utiliza geralmente uma regra de bolso simples para a aposentadoria: gastar apenas 4% do seu patrimônio, o que teoricamente elimina a necessidade de se preocupar em gerar renda pelo resto da vida.

Mas essa regra tem gerado bastante polêmica. Recentemente, tenho encontrado algumas pessoas defendendo a ideia de gastar mais do que os 4% durante a aposentadoria, o que me levou a refletir sobre a viabilidade dessa abordagem.

Surpreendentemente, eu cheguei a conclusão que é sim possível adaptar essa estratégia, porém, é importante manter uma mentalidade flexível em relação a isso. Agora, analisemos os números.

Recapitulando a regra dos 4%

Existe um post inteiro dedicado a essa regra, mas para aqueles que chegaram até aqui e desejam continuar lendo, vou fornecer um resumo.

A regra dos 4% teve origem em um estudo conhecido como The Trinity Study, e ela estabelece que você deve gastar 4% do seu portfólio a cada ano. Esse valor seria suficiente para preservar seu poder de compra diante da inflação e gerar renda para o resto da sua vida.

Por exemplo, se você se aposentou com R$1 milhão em ativos e a inflação se mantivesse constante em 10% ao ano, você gastaria R$40 mil no primeiro ano (4% de R$1 milhão), R$44.000 no segundo ano, R$48.400 no terceiro ano e assim por diante.

Seu patrimônio continuaria crescendo com a inflação, e você consumiria somente os juros reais, ou seja, os ganhos que excedem a inflação.

Receber juros reais de um investimento é análogo a receber aluguel de um imóvel. Quando você depende da renda desse aluguel, o patrimônio investido no imóvel permanece intacto e se valoriza conforme a inflação. Da mesma forma, ao depender apenas dos juros reais de um investimento financeiro, o montante investido nesse ativo permanece inalterado e cresce com a inflação.

Essa regra é simples, e é justamente sua simplicidade que a torna tão popular.

No contexto brasileiro, é relativamente acessível seguir a Regra dos 4%, especialmente ao investir em ativos de renda fixa que ofereçam pelo menos 4% de juros reais (como os conhecidos títulos indexados ao IPCA). Entretanto, é importante considerar que esses juros reais devem ser líquidos de impostos e taxas. Para auxiliar nesse cálculo, desenvolvi uma planilha que está nesse link.

Para os investidores que têm interesse em alocar uma parte de seus recursos em renda variável (como é o meu caso), é necessário confiar que o desempenho passado é um indicativo relevante para o desempenho futuro, e que os ativos de mercado de ações irão render, no mínimo, 4% de juros acima da inflação.

Essa expectativa baseia-se, por exemplo, na experiência histórica do mercado de ações nos Estados Unidos nos últimos 100 anos, embora esse mesmo padrão não tenha se repetido na bolsa brasileira ao longo das últimas três décadas. É por isso que opto por concentrar meus investimentos em renda variável no exterior, mas esse tópico não é o foco deste post.

Mas o mercado passa por períodos de alta e de baixa, assim como os juros oferecidos pelos investimentos de renda fixa. Então faz sentido ter uma regra única para todos os períodos?

Adaptando a regra dos 4% para renda fixa

A regra dos 4% é excelente para calcular o montante necessário para a aposentadoria. Uma vez que a taxa segura de retirada anual é de 4%, basta multiplicar seus gastos anuais por 25 (ou seus gastos mensais por 300) para obter a soma requerida para declarar-se aposentado.

Mas, assim que você alcançar a independência financeira, é provável que adote uma abordagem mais flexível em relação a essa regra.

Isso decorre do fato de que existe um risco de reinvestimento, que pode tanto prejudicar como favorecer saques mais elevados durante a aposentadoria.

Por exemplo, se você for capaz de investir seu patrimônio em títulos que rendem IPCA + 5% líquidos, você pode gastar até 5% sem violar a regra.

O problema é que é bastante provável que nem sempre seja possível (re)investir em ativos que pagam IPCA + 5% líquidos após impostos.

Houve períodos de taxas de juros baixas no Brasil, em que somente foram encontrados ativos remunerando IPCA + 3%. Por exemplo, o Tesouro IPCA 2045 rendeu apenas 3,19% ao ano acima da inflação no início de 2021.

E ainda é necessário deduzir os impostos para obter a rentabilidade real líquida. No entanto, é praticamente impossível prever com exatidão qual será essa rentabilidade líquida. Isso ocorre porque pagamos imposto de renda sobre o rendimento nominal, não apenas sobre o real, sendo que o rendimento nominal depende da inflação durante o período, que é incerta.

Nos últimos 20 anos, a média da inflação medida pelo IPCA no Brasil ficou em torno de 6% ao ano. E tudo indica que essa média de inflação deve ser menor nos anos futuros.

É claro que haverá anos em que a inflação excederá esse valor. Entretanto, ao confiar na atuação do Banco Central, que se tornou ainda mais confiável com a aprovação de sua autonomia, esses anos de inflação elevada serão seguidos por anos de juros altos e, consequentemente, inflação mais baixa.

Isso é exatamente o que ocorreu recentemente. Entre 2015 e 2016, a inflação ficou elevada (próxima a 10% ao ano). O Banco Central reagiu aumentando as taxas de juros, e a inflação caiu para menos de 3% em 2017 e meados de 2018.

Assim, considerando uma inflação média de 6% ao ano, o pior cenário seria uma rentabilidade real líquida de 2,3%. Isso leva em conta o azarado que comprou um título do Tesouro com vencimento em 2045, quando ele rendia apenas IPCA + 3,19%. Já incluí o desconto da taxa de custódia do Tesouro Direto nesse cálculo.

Em outras palavras, a rentabilidade líquida após impostos depende tanto das taxas disponíveis para reinvestir seu dinheiro durante a aposentadoria quanto da inflação. Isso ocorre porque pagamos imposto de renda sobre o rendimento nominal, não apenas sobre o real, o que faz com que a inflação tenha relevância.

Então, como calcular efetivamente sua rentabilidade real líquida (e, por conseguinte, a taxa segura de retirada) na prática?

A cada final de ano de aposentadoria, você pode calcular a média da rentabilidade contratada em sua carteira e aplicar a dedução de impostos com base na inflação média esperada e no prazo de vencimento dos ativos. Você pode utilizar minha calculadora de renda fixa para fazer esse cálculo.

Por exemplo, consideremos um aposentado que possui uma série de Certificados de Depósito Bancário (CDBs) rendendo, em média, IPCA + 6% ao ano, com prazo médio de vencimento de 5 anos. Com uma expectativa média de inflação de 6% ao ano, sua rentabilidade líquida do ano anterior seria de 4,5%. Isso significa que ele pode consumir 4,5% de sua carteira no ano seguinte.

Contudo, se em um determinado ano você só conseguir reinvestir a taxas mais modestas, sua rentabilidade líquida pode ser menor, o que resultará em um percentual menor a ser consumido da carteira.

O cenário mais desafiador seria para aqueles que precisavam investir toda a carteira em momentos de taxas de juros baixas. Por exemplo, alguém que investiu todo o patrimônio no Tesouro IPCA 2045 quando ele rendia apenas 3,19% ao ano só poderia retirar 2,3% de sua carteira.

No entanto, é altamente improvável que você precise reinvestir todos os seus recursos em um único ano, especialmente se tiver um conjunto diversificado de CDBs bem estruturados.

A estratégia para aumentar os gastos na aposentadoria, portanto, envolve ajustar os gastos com base na rentabilidade líquida do ano anterior. E como fazer isso?

Como ajustar os gastos?

A maneira mais simples de adaptar os gastos é manter um custo fixo de vida baixo.

Eu chamo de custo fixo tudo aquilo que sabemos que teremos que consumir no mês para sobreviver. Ou seja, aluguel, supermercado, plano de saúde, entre outros.

E a flexibilidade virá dos gastos variáveis. Esses são gastos que não precisamos despender para sobreviver, mas decidimos gastar de qualquer forma, afinal, queremos viver e não apenas sobreviver. Aqui entra uma viagem, aquela compra de queijo importado em um mercado mais chique e o ingresso para um show internacional.

Dado que o pior cenário (com base no passado) implicou em uma rentabilidade líquida de 2,3%, é sensato manter seus gastos fixos nesse patamar. Por exemplo, alguém que se aposentou com R$1 milhão deveria considerar gastos fixos de até R$23 mil por ano (2,3% * R$1 mi). O restante deveria ser direcionado para gastos variáveis, que serão ajustados de acordo com a rentabilidade líquida. Se a rentabilidade líquida atingir 4%, então seria possível gastar até R$17 mil (1,7% * 1 mi) em gastos variáveis por ano. Se atingir 5%, você poderia gastar até R$27 mil (2,7% * 1 mi) em gastos variáveis por ano.

No entanto, como mencionei anteriormente, este cenário baseia-se na menor taxa de juros histórica. É provável que as taxas de juros continuem a cair, porque historicamente os juros têm essa tendência.

Este cenário de juros baixos no Brasil provavelmente estará acompanhado de boas notícias e será o momento ideal para começarmos a realocar nossa carteira com uma maior ênfase em renda variável. E mesmo agora, com os juros ainda altos, sou a favor de manter uma parcela de seus investimentos na bolsa dos EUA.

Então, como seria a estratégia de adaptação para a bolsa?

Adaptando a Regra dos 4% para a Bolsa

Na vida, nada se cria, tudo se copia, e eu tirei a ideia do estudo acima de um post do querido MadFientist, que já fez esses cálculos para alocação na bolsa nos EUA e em dólar.

Ele chegou à conclusão de que, dependendo de quão flexível você está disposto a ser, poderia gastar até 5,5% de sua carteira em vez de apenas 4%.

Essa estratégia visa reduzir os gastos quando o mercado está em um período de baixa.

E como ela funciona na prática?

Imagine uma pessoa com uma carteira de R$1 milhão. Isso significaria ter R$27,5 mil de gastos obrigatórios e R$27,5 mil de gastos discricionários.

Os R$27,5 mil de gastos obrigatórios não mudam com base no que está acontecendo no mercado de ações e permanecem corrigidos pela inflação.

Já os gastos discricionários mudariam com base no desempenho do mercado. Como?

Em 31 de dezembro de cada ano, você verifica o quão distante o S&P 500 está de sua máxima histórica recente. Com base nesse número, você se enquadraria em uma das três condições de gastos possíveis:

Mercado normal: Se o S&P 500 estiver a menos de 10% da máxima recente, então você continua gastando seus gastos variáveis no próximo ano.

Correção: Se o S&P 500 estiver entre 10% e 20% da máxima recente, você gastará metade dos seus gastos variáveis no próximo ano.

Mercado baixista: Se o S&P 500 estiver menos de 20% abaixo da máxima recente, você não gastará nenhum dos seus gastos variáveis no próximo ano.

No exemplo da carteira de R$1 milhão:

Mercado normal: você poderia gastar R$27.500 além dos gastos obrigatórios no próximo ano, com gastos totais totalizando R$55 mil.

Correção: você poderia gastar R$13.750 além dos gastos obrigatórios no próximo ano, com gastos totais totalizando R$41,25 mil.

Mercado baixista: você aperta os gastos e vive apenas com os R$27.500 de gastos obrigatórios no próximo ano.

A graça dessa regra é que durante um mercado normal e numa correção, você pode gastar mais dinheiro do que gastaria seguindo a regra dos 4% (R$40 mil).

E por que isso funciona? Isso vem do conceito de risco de sequência de retornos. É um conceito que parece complexo, mas não é. A sequência de retornos importa, porque você não deve sacar seus investimentos num período de baixa do mercado, pois é bem provável que ele se recupere.

Com a estratégia acima, você saca menos dinheiro quando sua carteira está em queda e deixa mais dinheiro lá com a chance de se recuperar. E é por isso que você pode retirar mais dinheiro nos anos bons. Você pode sacar mais nos anos bons porque saca menos nos anos ruins.

Mas não existe almoço grátis. O custo dessa estratégia é estar preparado para cortar completamente seus gastos discricionários durante todos os anos seguintes a um mercado baixista.

Nos últimos 100 anos, o mercado esteve nesse cenário baixista por 20% do tempo. Ou seja, esteja preparado para cortar seus gastos discricionários uma vez a cada 5 anos, em média.

Flexibilidade Financeira para uma Aposentadoria Feliz

Nossa vida não é constante, assim como nossas finanças. O mercado passa por períodos de altas e baixas.

Nos momentos de alta, podemos gastar mais do que a regra dos 4% permite. No entanto, isso requer disposição para gastar menos quando o mercado estiver em baixa (ou quando os juros estiverem baixos e a inflação alta).

Como mencionei no início do texto, a regra dos 4% serve como um guia excelente para alcançar sua meta de patrimônio. Basta multiplicar seus gastos anuais por 25 (ou seus gastos mensais por 300) para chegar ao patrimônio necessário para se declarar aposentado.

Entretanto, é altamente provável que sua vida de aposentado passe por mudanças, muitas vezes necessárias devido ao desempenho do mercado.

Eu gosto da regra dos 4% e da adaptação proposta acima. Especialmente porque ela carrega uma lição simples: mantenha seus gastos fixos baixos e seja flexível com seus gastos variáveis.

Com um custo fixo reduzido, sua sobrevivência está garantida, independentemente do mercado. E com flexibilidade nos demais gastos, você pode aproveitar mais a vida. Isso ocorre tanto ao permitir-se gastar mais em períodos de bonança, quanto ao permitir uma vida mais simples (que possui suas próprias vantagens) durante períodos de vacas magras.

Não perca nenhum post!

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Aposentada aos Trinta

14 comentários em “Como gastar mais na aposentadoria

  1. Flexibilidade é necessário mas nao se deve sobrevalorizar. O ERN é a autoridade nesse assunto de taxa de retirada. Bem antes do artigo do Mad Fientist ele publicou um estudo sobre diversas estratégias de flexibilizacao. Cada uma tem suas falhas. Li o artigo do Mad Fientist perplexo, achei a argumentacao muito superficial. Te deixo esse excelente artigo sobre os perigos do FIRE: https://retireinprogress.com/fire-is-dead/

    1. Interessante esse artigo!
      Só perde um pouco de credibilidade quando ele ataca a regra dos 4% com base em questões como dependência histórica (e depois propõe outra abordagem mas que também tem dependência histórica) e que o horizonte é de apenas 30 anos (aqui é uma questão simples de matemática, quanto maior o horizonte maior o % que vem dos juros e não do aporte inicial, então esse argumento não faz sentido!).

  2. Muito legal o post. Apesar de compartilhar da mesma opinião de outros comentários sobre achar inviável o ajuste constante dos gastos em função do mercado, é uma reflexão interessante. Como um entusiasta recente do movimento Fire, a minha estratégia ainda carece de algum aprimoramento, mas a principio ela de baseia em apoiar a minha renda principal utilizando títulos do renda+, por um período de 40 anos (penso em me aposentar aos 55), que visa cobrir os gastos obrigatorios e em paralelo montei uma carteira de ETFs, que pretendo utilizar para os gastos variáveis, utilizando a regra dos 4%. Acho que essa seria uma forma de “encaixar” os meus “luxos” de aposentado dentro um orçamento realista no longo prazo, sem comprometer os gastos fixos.

  3. Falei para um amigo meu FIRE americano e ele ficou babando e invejando muito não ter a renda fixa brasileira. Lá não existe título IPCA+ que garante rendimento real, eles tem aqueles péssimos TIPS que não pagam nada praticamente.
    Ele até ta pensando em mudar pro Brasil – Floripa

    1. Aqui existe mas é numa moeda fraca..se fosse tão bom assim as administradoras de fundos internacionais como a Vanguard e a BlackRock iriam investir maciçamente no Tesouro brasileiro… fala pra ele pensar melhor rs

    1. Interessante esse estudo dele!
      Ainda assim, acho que adotar 3,26% é tão especifico que é necessário confiar muito que o passado é um bom indicador de futuro!
      E achei curioso ele dizer que flexibilidade é “overrated”, sendo que no final do post, ele mesmo propõe uma ideia melhor de flexibilidade, rs.
      Eu ainda acho que flexibilidade é o segredo do sucesso para uma vida FIRE!

  4. Oi Lilian, muito interessante esse estudo, porque apesar de achar complexo e muito trabalhoso fazer ajustes baseados em como o mercado está, ele abre uma luz para o fato de que nossos gastos sempre se dividirão nessas duas categorias (obrigatórias e não-obrigatorias, ou variáveis), e a gente tende a colocar tudo no mesmo saco dos 4% (no meu caso, ainda estando na fase de planejamento). Gostei da dica de que é nessa parte variável que podemos (e devemos) ser mais flexiveis.. valeu!
    (ps: sou o fã do blog que te escreveu um email recente)

    1. Exatamente isso.
      Também não acho viável ficar reajustando os gastos o tempo todo, a depender do mercado.
      Mas é um exercício interessante pra gente sentir mais confiança ainda em abraçar a aposentadoria e ajustar ao longo do caminho se necessário!

  5. Elsinha, amei seu post. Me deu uma paz de espirito muito grande. Já falamos muito sobre como a parte mental do FIRE é a mais desafiante e como é dificil relaxar depois de decadas de otimização, então olhar para os números desta forma ajuda a ter calma e confiar no poder dos juros compostos no tempo. Tirando esse período anormal de juros reais de 2-3% nossa grande renda fixa está aí para ajudar esse começo de jornada FIRE.

    1. Que bom! Também fiquei feliz com essas contas 😉 a Renda fixa facilita muito as contas, porque você não tem que ficar torcendo para que o passado seja igual no futuro, já que a taxa contratada é justamente o que você vai receber no futuro!

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