A filosofia da boa vida

Provavelmente quem já pesquisou muito sobre o tema FIRE acabou se deparando com a filosofia estóica. Comigo foi assim. E bem, assim como FIRE, eu também me apaixonei por essa forma de enxergar a vida.

A filosofia estóica e o movimento FIRE estão intimamente ligados. Acho que ambos têm como base a busca por uma vida boa. O estoicismo fornece bons argumentos para uma vida frugal, e a vida frugal e independência financeira é uma condição necessária (embora não suficiente) para uma vida estóica.

E eu sei que beber da fonte do estoicismo vai ajudar a consolidar ainda mais os conceitos que eu gosto tanto de explorar neste blog. Então aqui vão os meus pitacos sobre quais conceitos ajudam e fortalecem a caminhada para a independência financeira e aposentadoria precoce.

Prepare-se para o pior

Quando um dos amigos do Sêneca, um dos principais filósofos estóicos, o procurou porque estava com medo de perder tudo numa causa judicial, o Sêneca não respondeu “relaxe, vai dar tudo certo”.  Ele disse “você deve se preparar para o pior”.

A vida é injusta e coisas ruins acontecem para pessoas boas, infelizmente. Acreditar que você sempre vai ter seu emprego para pagar as contas é, de certa forma, ingenuidade.

Você deve torcer para o melhor, mas se preparar para o pior.

E é por isso que eu gosto tanto do conceito de independência financeira. Ter independência financeira significa não precisar de um marido, de filhos ou de um chefe para ter dinheiro para viver. Você está preparado para um divórcio, para a infertilidade ou para o desemprego.

O conselho “relaxe, vai dar tudo certo” no fundo só traz mais ansiedade. A gente já sabe que as coisas não dão sempre certo. E é horrível pensar que a única possibilidade que nos resta é esperar que tudo dê certo. Mas quando você já está preparado para o pior, isso traz menos ansiedade.

Recentemente conheci uma pessoa que percebeu que o maior medo dele era perder tudo e ter que morar na rua. Ao invés de ignorar esse medo e acreditar que tudo daria certo, ele entrou para uma ONG que trabalha com moradores de rua. Convivendo com os mendigos e entendendo melhor como é a vida deles e quais ajudas são oferecidas para as pessoas nessa situação, ele se sentiu menos assustado com essa possibilidade. Ele obviamente não pretende morar na rua um dia, e vai fazer de tudo para evitar essa possibilidade. Mas essa possibilidade não o assusta mais como antes.

Reconheça a impermanência da vida

Quando eu tinha 6 anos de idade, minha avó materna morreu de câncer. Ela tinha cerca de 50 anos de idade. E era com ela que eu ficava todos os dias enquanto meus pais trabalhavam, então eu senti muito a perda dela.

Depois que ela faleceu, eu comecei a ficar com a minha avó paterna todas as manhãs e ia para a escola à tarde. Mas quando eu tinha 13 anos ela também faleceu de câncer. E eu também senti muita falta dela.

Então minha mãe saiu do trabalho para ficar comigo e minha irmã. E quando eu tinha 17 anos, eu perdi a minha mãe. Ela ainda estava na casa dos 40 anos.

Esse contato muito próximo com a morte me alertou para a brevidade da vida. E claro, fez com que eu frequentasse consultórios de terapia desde muito cedo.

Mas eu não consigo deixar de pensar que a coragem de me aposentar cedo veio daí. Eu sei que é possível morrer cedo. Eu sei que esperar para viver a vida só depois dos 65 anos de idade pode ser tarde demais.

E os estóicos gostam muito de nos alertar para esse fato. Não há garantia de que vamos viver até a velhice. Nada garante que a expectativa de vida da população é a nossa expectativa de vida.

Algumas pessoas podem olhar para esse conceito como uma forma mórbida de ver a vida. Eu vejo como um convite para viver a vida no presente.

E honestamente, quando você encara a possibilidade de morte, você relativiza seus problemas. Se é possível que hoje seja meu último dia com vida, eu deveria ficar irritada porque meu marido não lavou a louça do almoço?

Seja antifrágil

Durante o ano que moramos num trailer, eu e meu marido enfrentamos alguns desafios novos. Nós tínhamos que planejar o nosso consumo de água e de energia para que ambos fossem o suficiente para desempenhar tarefas básicas do dia a dia, como lavar louça e ter luz durante a noite. Nós tínhamos que buscar locais para despejar nosso esgoto. E a gente tinha que contar com a boa sabedoria dos moradores locais para descobrir as melhores estradas, já que o software de otimização do Google Maps não leva em consideração a quantidade de buracos nas estradas.

E bem, se eu fosse a dondoca que eu fui antes de descobrir a vida FIRE, eu provavelmente teria desistido da viagem na primeira semana.

Mas depois de anos lendo sobre a filosofia estóica, eu sabia que a conveniência nos enfraquece. Então eu encarava os desafios com o trailer como oportunidades de fortalecimento.

Aprendemos tanto sobre hidráulica e elétrica durante a viagem, que quando voltamos para São Paulo, fizemos algumas melhorias no nosso apartamento por conta própria. É claro que a gente poderia pagar por um eletricista ou encanador, e isso nem mesmo iria afetar a nossa independência financeira. Mas a alegria de construir algo com as nossas próprias mãos e a sensação de independência foram impagáveis.

Durante o sabático eu também li o livro Antifrágil do Nassim Taleb. Eu não sei se ele se auto- intitula um estóico, mas eu o julgo um estóico contemporâneo. O conceito de antifrágil é “aquele que se beneficia do caos”. Ser antifrágil é encarar oportunidades de crescimento nos desafios. Acho que não há nada mais estoico do que isso!

Quem muito tem, muito tem a perder

Marcus Aurelius, outro estóico famoso, disse “nada de material é importante para uma vida feliz para aquele que entendeu o significado da existência”.

Thoreau, outro estoico disse “Um homem é rico em proporção às coisas que pode dispensar”.

Talvez eu busque conforto nessas frases para a vida medíocre que alguns julgam que eu levo. Eu moro num apartamento pequeno, eu não tenho carro, não uso roupas luxuosas.

Mas o benefício disso tudo é que a minha vida é tão simples, mas tão simples, que isso elimina algumas fontes de preocupação.

E normalmente, o segredo da felicidade está em eliminar aquilo que te faz infeliz, e não acrescentar coisas novas, como os marqueteiros querem nos convencer.    

Quando eu vivia com 10% do meu salário no meu último ano de trabalho, algumas pessoas pensavam que eu era muquirana demais.

Mas eu via como um ótimo sinal de que estava preparada para a vida FIRE. Se eu tivesse errado as contas da independência financeira, então bastaria achar um emprego que pagasse um décimo do que o meu emprego atual, e eu continuaria vivendo a boa vida que eu estava acostumada.

E isso também ajuda a me manter produtiva nos dias de hoje.

Eu saí do meu emprego no auge da minha remuneração. Era fácil pensar “mais um ano, e eu aumento meu patrimônio em 25%, mais 4 anos e eu dobro meu patrimônio”. Mas eu não precisava disso.

E se eu tivesse o dobro do que precisasse, eu ia ter força de vontade para trabalhar com algo que eu gosto (as consultorias financeiras) mesmo pagando tão menos que o meu último salário?

Eu chuto que não. Agora, cada mil reais que eu ganho com a consultoria é muito bem-vindo. E imagino que esses mil reais iriam significar bem menos se eu tivesse um patrimônio de muitos milhões.

Quando eu vejo algumas pessoas decepcionadas com a vida FIRE, eu não consigo deixar de pensar que talvez elas tenham acumulado demais.

A vida FIRE te permite ter tempo para se desenvolver, para estudar mais, para trabalhar com propósito. Como uma vida assim pode ser decepcionante?

Talvez porque falta motivação para fazer qualquer coisa. E sim, dinheiro é uma ótima fonte de motivação. Mas se você já tem demais, se já acumulou mais do que o necessário, é difícil encontrar motivação nesse aspecto.

Eu diria que a filosofia estóica é contra o conceito do Fat FIRE. E se você está indo por esse caminho, eu acho que é válido reavaliar.  

Estudar sobre o estoicismo às vezes pode fazer você encarar a vida com uma lente menos cor de rosa. Mas isso está longe do pessimismo. O estoicismo só quer que você seja realista. E encarar a realidade, ao invés de fingir que não a enxerga, é se preparar para viver uma vida boa.

Comentem abaixo: qual outro ensinamento estoico vocês consideram valioso? E como ele se relaciona com a independência financeira? 

Não perca nenhum post!

Aposentada aos Trinta

12 comentários em “A filosofia da boa vida

  1. Olá!

    o outro principal conceito (que com certeza faz parte da sua vida mas esqueceu de citar rs), e é o que mais gosto, é o de focar só naquilo que temos controle…. o que em ultimo caso de perder tudo ainda temos nossos pensamentos e as escolhas de como reagir a eles. “mazomeno” isso rsrsr
    varios exemplos incriveis nos livros do Ryan Roliday né….

    Gosto muito daquela frase do Seneca “we suffer more often in imagination than in reality”.

    único problema do estoicismo é que as vezes é difíiiicil de aplicar durante o dia dia… hahaha mas a gente vai tentando….

    abraço
    Victor

    1. Oi Victor!
      Realmente esse ponto é muito bom!
      E é do tipo difícil de aplicar no dia a dia, mas quando a gente percebe que nossa mente está pensando obsessivamente sobre um problema e se dá conta de que “só pensar” não vai resolver o problema, e que talvez a gente nem tenha controle sobre ele, é libertador.
      Acho que uma das melhores estratégias ou coisas para se lembrar nas noites de insônia!
      Abs

  2. Oi Ap30, boa noite

    Um trecho que recordo é sobre a possibilidade de crescer na desordem e aproveitar o caos ao nosso favor. Primeiro é reconhecer quais sistemas são frágeis com tendência ao colapso e distinguir dos antifrageis que podem crescer nas adversidades.

    Abraço,

  3. Achei interessante que eu já sigo vários destes princípios (mesmo sem ler, nem ser adepto do estoicismo), mas sob a lente da religião cristã.

    1. Oi Pri!
      Eu li poucos livros só sobre estoicismo. Leio mais sobre a filosofia em blogs e já assisti a alguns documentários.
      Mas gosto muito dos livros do Ryan Holiday, e o “O Obstáculo é o Caminho” foi um que eu achei realmente bom!

      1. Um livro muito bom é o Diário Estóico do Ryan Holiday. Este livro traz um pensamento diferente por dia a respeito das três disciplinas do Estoicismo (Percepção, Ação e Vontade).
        O autor reúne os pensamentos de Marco Aurélio (um imperador), Epicteto (um ex-escravo) e Sêneca (dramaturgo, orador, formador de opinião e extremamente rico). É bastante inspirador começar o dia com um exercício estóico, uma vez que esta filosofia é essencialmente prática.
        E este caráter prático fica bastante evidente na frase de Marco Aurélio:
        “Não perca mais tempo discutindo sobre o que um bom homem deve ser. Seja um.”
        Abraços

        1. Gostei Luis!
          Eu assino a newsletter do Ryan Holiday e sempre que leio, acho as interpretações dele incríveis.
          Ler essas mensagens ajuda muito a agir sobre a vida com uma outra ótica, né?
          Muito boa essa frase que vc destacou! Obrigada por compartilhar!

  4. “Vai dar tudo certo” – uma das frases mais ilusórias e mais bem aceitas que existem.

    Apesar da boa intenção, essa frase é muito utilizada em momentos impróprios, quando a pessoa está preocupada, fragilizada. Alivia momentaneamente, mas tira o foco da solução ou no mínimo, da realidade.

    “Eu sei que esperar para viver a vida só depois dos 65 anos de idade pode ser tarde demais.”
    O mais incrível é que a maioria das pessoas não percebe isso… Mas como você disse, a vida é impermanente.

    Hoje você não é mais quem foi ontem.
    E amanhã não terá a mesma disposição de ontem.
    Aos poucos, a vida passa. Não percebemos. E quando vem o choque de realidade, pode ser tarde demais…

    Por isso, considero muito importante você valorizar o que realmente importa. Que importa para você. E não para os outros. Pois um dia, quando você se der conta, pode ser que mais tenha existido do que realmente vivido…

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