Esses dias, um amigo querido se declarou FIRE. Depois de mais de 11 anos falando sobre o tema, foi a primeira vez que alguém do meu círculo próximo seguiu o mesmo caminho que eu. É claro que já influenciei outras pessoas aqui no blog a se tornarem FIRE também. Mas alguém do meu convívio direto, isso ainda não tinha acontecido.
Não sei o quanto eu influenciei sua decisão; talvez ele tivesse seguido pelo mesmo caminho se a gente nunca tivesse se cruzado. Não acho que essa seja uma história de conquista pessoal para mim, mas é gostoso saber que alguém de quem a gente gosta e admira fez escolhas parecidas com as nossas.
Durante quase 3 anos convivemos todos os dias no trabalho, entre 2017 e 2019, a época em que meu sonho FIRE estava a todo vapor. Eu passava horas explicando para ele e outro colega sobre o conceito, a matemática por trás, e a estratégia de desinvestimentos. Eles trabalhavam no mercado financeiro também, então entendiam que as contas faziam sentido. Mas esse amigo, em particular, ainda achava que eu era extremista demais do lado dos cortes de gastos. Ele queria se aposentar com uma vida mais confortável. E tudo bem, cada um com a sua história. E, cinco anos depois de mim, ele também chegou lá.
O outro colega, que também sempre participou ativamente das nossas discussões, disse: “vocês têm MUITA coragem”. E eu entendo de onde vem esse comentário. Porque ele sabe que as contas estão certas, que a estratégia de investimentos faz sentido, que é, sim, um caminho possível. Mas isso não basta.
Pular no FIRE requer coragem de mudar. De sair do caminho que foi construído por anos de estudo e dedicação. De decidir sair de um emprego, provavelmente no auge da remuneração. De escolher, deliberadamente, sair do trabalho para fazer, aparentemente, nada.
E então eu disse para o meu colega recentemente FIRE: “ele tem razão, requer coragem. Mas conte comigo para os momentos em que parecer loucura demais o que fizemos.”
Depois dessa conversa, passei dias refletindo sobre a coragem de ser FIRE. E cheguei a reflexões tão valiosas que mereciam virar um post aqui.
A coragem não é a ausência de medo
Gosto muito da definição de Aristóteles, na Ética a Nicômaco, em que ele descreve a coragem como uma virtude situada no meio-termo entre dois vícios: a covardia e a temeridade. O covarde é aquele que se deixa paralisar pelo medo; o temerário, por outro lado, é aquele que simplesmente ignora o medo e, ao fazer isso, também se afasta da realidade. Nenhum dos dois vive bem. A virtude está justamente em sustentar o medo na medida certa: sentir o que deve ser sentido, diante do que deve ser temido, mas ainda assim agir.
Eu definitivamente não fui covarde ao deixar de pular no FIRE por simples medo. Mas também não fui destemida. Eu avaliei por anos e anos, diversos cenários possíveis, inclusive os mais catastróficos, antes de pedir demissão. Olhei para os riscos, levei cada um deles a sério, e mesmo assim segui em frente. Foi, sim, um ato de dosar o medo e exercer a coragem. Não apesar do medo, mas através dele.
Eu acredito que o maior medo de todos — aquele que torna as pessoas covardes nesse sentido — é focar demais no que se está abrindo mão. Se eu paro e penso na quantidade de dinheiro que deixei de ganhar nos últimos cinco anos, me parece que a decisão FIRE foi uma loucura. Provavelmente, nesse período, eu teria tido promoções, acumulado um patrimônio muito maior do que tenho hoje, teria uma vida financeira mais confortável e sem a necessidade de tantas escolhas financeiras que ainda preciso fazer.
Focar nessa ótica — no que se abriu mão — é desesperador. E é claro que, às vezes, essa perspectiva me atormenta. Que, às vezes, eu penso em como a minha vida estaria se eu tivesse continuado.
Mas focar só nisso, apenas no que se está abrindo mão, é o caminho que faz o FIRE parecer um ato de loucura, de destemperança. Aí, a única resposta possível é a covardia mesmo.
Recuperar o tempo de volta
A segunda ótica, que com certeza ambos os colegas conseguem avaliar hoje, é aquilo que eles sabem que uma vida corporativa os impede de fazer. Essa é outra perspectiva, bem óbvia, e bastante presente nos comentários de muitos leitores deste blog.
A gente sabe muito bem o que a vida corporativa nos tira: tempo. Tempo para viajar mais, tempo para estar com a família, tempo para se alimentar melhor e fazer atividade física. É a sensação constante de não dar conta de tudo, de precisar acordar cedo mesmo depois de uma noite mal dormida, de trabalhar com o corpo doente porque não há espaço para descanso. São as horas em frente ao computador, a rotina sedentária, o cansaço acumulado, e aquela impressão persistente de que a vida está sempre sendo adiada para depois. Que a vida de verdade ainda espera para ser vivida.
Essa é uma perspectiva muito clara, que dá coragem a muitos para pular no FIRE, mesmo com medo do que estão abrindo mão. Eu sei bem disso. Sonhava com essa vida, e já realizei muitos desses sonhos desde então. Passei um ano inteiro viajando, morei três meses na Europa e fiz viagens longas que seriam impossíveis se eu continuasse trabalhando. Já dei muito suporte para a minha família, cuidei do meu pai em um pós-cirúrgico, tenho tempo para apreciar as férias da minha sobrinha e disponibilidade para buscá-la na escola quando minha irmã precisa. E tive inúmeros encontros com amigos durante a semana — seja para comemorar uma aprovação de banca de mestrado, seja para ser colo em um momento de luto.
Tudo isso a gente sabe que a vida FIRE nos proporciona. São as coisas que sabemos que abrimos mão quando dedicamos tanto tempo ao trabalho como fazemos na vida contemporânea.
Existe de forma extraordinária
Mas há uma terceira ótica. Muito mais sutil. E que só quem é FIRE de verdade consegue entender.
Porque o trabalho, hoje em dia, consome muito mais energia do que você — que ainda vive preso a uma rotina — pode imaginar. Então você pensa que, ao se aposentar, terá mais tempo para viajar, cuidar da família, dos amigos e de si.
Mas o que acontece, na prática, é que esse tempo livre é muito maior. Depois de viajar, cuidar dos outros e de si, ainda sobra muito tempo. E não só tempo — sobra disposição, energia. Sobra vontade de poder, como diria Nietzsche. Essa é uma vontade não no sentido vulgar de dominar os outros, mas uma força vital que nos leva a agir, a criar, a transformar o mundo ao nosso redor. É uma energia que não quer apenas descansar, mas se expressar.
E é impressionante perceber o quanto a vida de trabalho suga essa potência — mesmo quando não se trabalha tantas horas assim. Porque não é só o tempo que se perde, mas essa reserva mais profunda de vitalidade que, quando liberada, encontra naturalmente novos caminhos para se manifestar.
Quando você não precisa mais trabalhar para pagar as contas, um espaço enorme se abre na sua vida. E não é à toa que tanta gente FIRE acaba voltando a desempenhar algum tipo de atividade produtiva. Não por necessidade, mas porque há, sim, muita energia ainda — uma vontade quase inevitável de agir, de criar, de transformar o que está ao redor. É como se a energia criativa, antes comprimida pela rotina de trabalho, finalmente encontrasse espaço para desabrochar.
É claro que eu devo frisar que isso só vale se você atingiu o FIRE de verdade. Ou seja, se você realmente não precisa mais trabalhar para pagar as contas. Essa talvez seja a minha maior crítica ao Coast FIRE. Porque, mesmo que você abra mão de um trabalho muito demandante por outro menos exigente, ainda há uma parte da sua energia sendo consumida pela preocupação de pagar as contas no fim do mês. E isso já pode ser suficiente para que você não experimente plenamente a quantidade de tempo e energia que sobra em uma vida FIRE de verdade.
O que esse excesso de tempo e energia — que eu jamais poderia imaginar que existiria depois de me aposentar — tem feito com a minha vida é o que me faz dizer para o meu amigo: “parabéns pela coragem, com certeza ela será recompensada”.
Porque, nos últimos anos, além de realizar meus desejos mais imediatos por tempo, eu construí uma vida que seria impossível de existir se eu ainda estivesse presa a um trabalho. Eu criei este blog, do qual me orgulho muito e que me traz uma sensação de propósito, legado e realização pessoal que eu ainda não tinha experimentado. Refleti durante meses sobre toda a minha trajetória, em um processo terapêutico e descomprimido, que resultou em um livro que tem servido de inspiração para muitas pessoas. As conversas que tenho hoje, graças a esse livro, eram completamente inimagináveis quando eu ainda sonhava com a vida FIRE.
Eu criei uma consultoria, onde ajudo as pessoas com dinheiro, de uma forma que me permite limitar muito bem o nível de exigência física e mental. É impressionante como eu saio das reuniões com clientes energizada — e não sugada, como acontecia nas minhas antigas reuniões de trabalho. A consultoria dá vazão à minha criatividade e à minha energia produtiva de uma forma que eu jamais poderia imaginar. E, ao mesmo tempo, me permite ajudar outras pessoas a chegarem nesse mesmo estado em que me encontro. A realização que eu sinto hoje com esse trabalho é algo que nunca experimentei nos meus anos como economista no mercado financeiro.
Aos poucos, fui também assumindo rotinas que eu não conseguiria planejar antes de ser FIRE. A música passou a ocupar um espaço muito presente na minha semana. Já passei tardes — e tardes — sozinha em casa, com o meu violão e a minha voz. Um tempo que não gera nenhum retorno financeiro, mas que toca algo muito mais essencial.
Como tenho aprendido nas minhas aulas de Heidegger, a música tem esse poder muito particular de nos colocar em uma experiência do tempo transcendental. Uma melodia só existe porque somos capazes de sustentar o que já passou enquanto antecipamos o que ainda está por vir. A gente não ouve notas isoladas, mas algo que se revela no tempo. Há qualquer coisa nessa experiência que nos tira da urgência do fazer e nos coloca em contato com uma forma mais profunda de estar no mundo. É um uso do tempo que nos torna mais vivos.
Eu também passei a dedicar horas e horas à leitura de textos difíceis. Maquiavel, durante o seu exílio, tinha um ritual: ao anoitecer, voltava para casa, entrava em seu escritório, tirava suas roupas cotidianas — “cobertas de lama e sujeira” — e vestia “roupas dignas de corte e palácio”. E então entrava nas “antigas cortes dos antigos homens” por meio dos livros. Dizia que era recebido com carinho por eles e se alimentava daquele “alimento que é o único meu, e para o qual nasci”. Ele não tinha vergonha de conversar com eles “E por quatro horas de tempo… não sinto tédio, esqueço todos os problemas, não temo a pobreza, a morte não me assusta.”
Você consegue imaginar ter quatro horas por dia com os grandes sábios da humanidade?
Eu acho essa imagem tão bonita. Eu também criei meus próprios rituais de leitura de textos filosóficos. É uma atividade profundamente prazerosa. Ouso dizer que sinto tanto prazer nisso quanto senti ao explorar o Japão em uma viagem recente. Com a diferença de que me sentar para ler os clássicos exige quase nenhum investimento financeiro.
São essas coisas mais sutis, esses detalhes da vida cotidiana, que me fazem responder ao meu amigo: “sim, requer coragem — mas ainda bem que eu tive coragem de ser FIRE”.
Foi o FIRE que me permitiu existir hoje de forma extraordinária. Quando me deparo com pessoas que ainda vivem a vida que eu vivia — presas na rotina de trabalho e consumo, exaustas, tomando antidepressivos e remédios para dormir, apenas “aguentando a vida” porque não enxergam outra possibilidade — é quando essa coragem se revela ainda mais como virtude.
O que eu gostaria de dizer para o meu amigo, recém-declarado FIRE, e para os leitores que estão nesse caminho, é: na maior parte do tempo, esqueça o que você abriu mão. Isso não vai te ajudar. Use o tempo livre para atender aos seus desejos mais imediatos: viaje, esteja com a família e os amigos, cuide do seu corpo e da sua mente para sustentar uma vida longa e significativa. E, com o tempo, se surpreenda com tudo aquilo que será criado de forma inesperada no caminho.
Respostas de 2
Eu vejo muitas pessoas que já vivem o FIRE dizendo que hoje gastam menos do que imaginavam com uma vida corriqueira.
Você mencionou que poderia ter ganho muito dinheiro nos últimos 5 anos, mas eu acredito que mesmo após “se aposentar” o dinheiro que você guardou ele aumentou e não diminuiu, estou certa?
Eu tenho essa dúvida
Wow! Que texto bacana, Lilian. Me identifiquei bastante. Em minha trajetória rumo ao FIRE, que está em curso e, se tudo der certo, me desobrigará de trabalhar em 2028, eu passo por muitos lugares que você tão bem tratou no texto. Falando especificamente de uma camada, a questão do tempo e da energia: hoje, tendo o trabalho como obrigação, eu simplesmente não dou conta de outras realizações, de manifestar ofícios, de combinar exercícios profissionais. Ideias e intenções são muitas, mas, mesmo que eu tenha tempo “sobrando” (e tenho), é incabível – não cabe na alma – acoplar ao trabalho obrigatório alguma dessas muitas possibilidades. Preciso fechar esse capítulo para, dando certo meu plano 2028, aí sim, explorar.