5 anos FIRE

Sim, este mês eu completo cinco anos desde a última vez que trabalhei para os outros. Cinco anos desde que entreguei meu computador ao banco e me despedi da vida corporativa. E cinco anos vivendo a vida nos meus próprios termos.

Esses foram os anos em que experimentei uma liberdade que eu mal conseguia imaginar. Uma liberdade que quase todos ao meu redor diziam ser impossível. Uma liberdade que, aos poucos, se tornou o bem mais precioso que eu tenho.

Eu sei que não estou sozinha quando digo que liberdade é valiosa. Se perguntadas, a maioria das pessoas diria que também a deseja. Mas existe uma diferença enorme entre desejar a liberdade e realmente poder vivê-la. Para a grande maioria, a liberdade continuará sendo apenas um ideal distante — algo bonito de admirar, mas inalcançável na prática.

E eu também pensava assim. Imaginava que a liberdade só chegaria se, um dia, eu desse muita sorte e ganhasse muito dinheiro — afinal, não nasci herdeira. Achava que só seria livre se tivesse dinheiro suficiente para comprar tudo o que quisesse. Dinheiro para dizer “sim” a todas as demandas de amigos e familiares. Dinheiro para viver com todos os confortos da vida contemporânea. Dinheiro tão abundante que me permitiria ignorar os mercados financeiros, a economia e até o futuro do país.

Mal sabia eu que a liberdade possível para mim exigiria uma ressignificação completa da minha relação com o dinheiro. Precisei aprender que comprar tudo o que eu queria era, na verdade, uma forma de escravidão aos meus próprios desejos. Que quem me ama de verdade não mede afeto pelo valor dos presentes de Natal. Que conforto em excesso me enfraquece. Que gastar energia com coisas fora do meu controle é uma armadilha. E que, sim, existem formas concretas de se proteger de uma falência financeira total.

É claro que nem tudo foi simples. Em um mundo onde as pessoas ainda não sabem como ser livres, eu ouvi de tudo nesses últimos cinco anos. Que eu havia desperdiçado os anos mais produtivos da minha vida ao sair do emprego. Que eu perderia amigos se me recusasse a gastar com o que “todo mundo gasta”. Que o Brasil é um país instável demais para alguém acreditar que dá para viver de renda por aqui.

Mas, enquanto o tempo passava, eu estava, de fato, vivendo uma vida livre. Eu realmente não precisei trabalhar para pagar minhas contas. Meus amigos de verdade ficaram — e alguns, inclusive, se aproximaram mais. E meus investimentos seguiram sólidos, me provendo uma renda estável e segura.

A verdade é que, contra toda a teoria de que ser livre é impossível nos dias de hoje, eu estava vivendo a liberdade. Com tempo para fazer o que eu quisesse. Vivendo uma vida mais leve, sem muitas das complicações que tanta gente acredita serem inevitáveis.

Você também pode

Talvez o maior aprendizado dos últimos anos seja este: a conquista da minha liberdade não dependeu de ninguém. Eu não precisei me casar com um marido rico. Não precisei voltar a morar com meu pai. Não precisei convencer minhas melhores amigas a se aposentarem cedo.

Mas, mais do que tudo, eu não precisei mudar o mundo para alcançá-la.

Continuei vivendo em uma sociedade de consumo, cercada por publicidade, onde as pessoas são definidas pelo cargo que ocupam. Continuei vivendo entre pessoas que compram cada vez mais, exibem casas cada vez maiores, carros cada vez mais caros. Pessoas que fazem harmonização facial, botox, cirurgias plásticas. E tudo isso em um país de macroeconomia permanentemente incerta.

E é justamente esse aprendizado que carrega a melhor notícia que eu posso te dar, meu caro leitor: você também pode ser livre. Independentemente de quem está ao seu redor, de com quem você se casou, do mundo em que você vive. Você também pode viver a vida como gostaria — não importa o que os outros decidam fazer.

Se, depois de ler isso, você está pensando: “mas eu tenho uma família que depende de mim”, ou “mas eu amo o meu trabalho”, ou ainda “mas a inflação vai corroer todo o meu poder de compra”, eu ouso dizer que você ainda tem um longo trabalho pela frente.

Sim, você.

Não é a sua família que vai mudar. Não é o seu trabalho que vai ficar mais leve. Não é o Brasil que, de repente, vai dar certo.

É você quem precisa querer ser livre.

Muitos conhecem a minha história, e alguns podem imaginar que eu tive privilégios que facilitaram o caminho. Eu não os nego. Mas, nesses últimos cinco anos, conheci pessoas que partiram de lugares muito mais difíceis e chegaram muito mais longe do que eu. Pessoas com filhos, em profissões que “não pagam bem”, endividadas, dependentes do INSS para pagar as contas. Ainda assim, apesar de todos os obstáculos, elas também encontraram a liberdade — sem esperar que o mundo se tornasse mais livre para isso.

O que ainda te impede

Se você ainda não é livre — ou se ainda não acredita que seja possível traçar um plano que compre a sua liberdade — é provável que esteja preso a algumas crenças que te impedem de alcançá-la.

É claro que eu não consigo mudar as suas crenças do dia para a noite. É pouco provável que você passe a acreditar que investir em títulos públicos é seguro só porque eu disse. Ou que viver bem sem carro é possível apenas porque eu vivo assim. Ou que o FOMO do consumo desaparece só porque eu afirmo que essa lógica é, no fundo, uma forma de escravidão.

Mas, assim como eu também acreditava que a única opção era trabalhar até os 60 anos — ou até quando o governo permitisse —, é bem provável que você ainda não seja livre porque ainda não descobriu todas as possibilidades que existem.

Talvez você ainda não saiba que pode construir a sua própria aposentadoria. Que pode aumentar a sua renda. Que pode viver bem gastando muito menos do que gasta hoje. Que pode atingir uma taxa de poupança elevada e construir um patrimônio suficiente para sustentar a vida que realmente deseja.

É possível que você ainda esteja preso a crenças limitantes:
de que não dá para viver de renda no Brasil;
de que não é possível viver bem sem certos confortos;
de que relações sólidas dependem, necessariamente, de dinheiro.

E enquanto você se deixa guiar por essas crenças, desperdiça tempo e dinheiro que poderiam estar sendo direcionados para a construção de uma vida com mais sentido para você.

Nossa cultura é profundamente atravessada por esse tipo de crença — e elas funcionam como barreiras invisíveis à liberdade. Questioná-las, uma a uma, é o que mais me motiva a continuar escrevendo neste blog.

Por onde começar

Quando eu digo “Eu me aposentei aos 30 anos e já vivo essa realidade há cinco”, eu sei que, para muita gente, isso pode soar distante demais, e até desanimar algumas pessoas.

Mas a minha história não está aqui como régua de comparação. Ela não é um “você deveria ter feito igual”. Ela é apenas a prova de que é possível construir uma vida fora do roteiro padrão — ainda que o tempo, o ritmo e o caminho sejam outros para cada pessoa.

Dito isso, se tudo o que eu escrevi até aqui ainda soa abstrato, eu entendo. Em algum momento, a pergunta inevitável aparece: ok, se é possível… por onde eu começo?

E talvez a resposta mais honesta seja: você começa antes de qualquer planilha, antes de qualquer investimento, antes mesmo de qualquer número.

Você começa decidindo que a liberdade é uma prioridade.

Enquanto a liberdade for apenas um desejo vago, nenhuma estratégia financeira vai funcionar. Isso porque ela vai competir com todas as outras prioridades que parecem mais urgentes: o padrão de vida do seu círculo social, o conforto imediato, o receio de ficar para trás.

O primeiro passo é entender que liberdade não é um prêmio que chega depois de “dar certo” na vida. Ela é um critério de decisão. É a régua pela qual você passa a avaliar gastos, escolhas profissionais, mudanças de estilo de vida e, principalmente, concessões.

A partir daí, o caminho começa a se tornar mais concreto.

Você começa olhando com honestidade para o seu custo de vida — não o custo ideal, nem o custo instagramável, mas o custo real da vida que você leva hoje. Depois, passa a se perguntar quanto dessa vida é, de fato, importante para você, e quanto é apenas ruído cultural.

Em seguida, você cria espaço. Espaço financeiro, espaço mental, espaço na agenda. Reduz despesas que compram status, mas roubam tempo. Reduz compromissos que sustentam uma identidade, mas não uma vida boa. A taxa de poupança não aumenta apenas com cortes — ela aumenta quando você deixa de tentar sustentar uma versão de si mesmo que já não faz mais sentido.

Só então entram os instrumentos: a construção de uma reserva, os investimentos, a diversificação, a proteção contra riscos. Não como promessas mágicas, mas como ferramentas a serviço de um propósito de vida que você construiu. 

E talvez o ponto mais contraintuitivo seja este: você não precisa ter todas as respostas agora. A liberdade não exige perfeição, exige movimento. Cada decisão um pouco mais consciente, cada gasto um pouco mais alinhado, cada escolha um pouco menos automática já te coloca na direção de um projeto de vida muito específico: o seu.

Começar não é virar outra pessoa da noite para o dia. É parar de viver no piloto automático e assumir, aos poucos, a responsabilidade pela própria liberdade.

Para fechar….

Quanto mais o tempo passa, fica mais claro que eu não escolhi “me aposentar cedo”. O FIRE foi o meio. O destino final era uma vida com critérios próprios. A liberdade, nunca foi só sobre parar de trabalhar, e sim sobre parar de viver no automático.

Celebrar esses cinco anos não é dizer que tudo foi fácil, nem que esse caminho serve para todo mundo, do mesmo jeito. É reconhecer que é possível construir uma vida menos refém do consumo, menos dependente de validação externa — mesmo vivendo no num mundo incerto, cansado e obcecado por dinheiro.

Se eu comemoro algo hoje, não é só o tempo que passou fora do mercado de trabalho tradicional. É o tempo recuperado. O espaço criado para viver a minha vida. A possibilidade de escolher o que eu queria. 

Que esse marco sirva menos como comparação e mais como lembrete: a liberdade não é um privilégio reservado a poucos iluminados. Ela é construída, aos poucos, com escolhas conscientes.

Cinco anos depois, sigo achando que valeu a pena. E sigo escrevendo porque acredito que essa conversa ainda precisa continuar.

Respostas de 16

  1. Lindo texto, deve estar no top 10 do blog. Cada pessoa é unica, e cada um tem sua prioridade na vida. Pra uns sobreviver, pra outros conforto, pra gente liberdade. Liberdade e conforto juntos ? Eis a armadilha que aprisiona muita na gente na sindrome do “só mais um aninho”. Condicoes ideais pra uma decisao dificil nunca vao existir. Se esperar o mundo melhorar, nunca toma a decisao pois sempre tem alguma coisa indo pro ralo. Parabéns e continua postando !

  2. Lilian, vc é minha heroína!
    Parabéns por tudo e por ter coragem de dar as caras e compartilhar sua história
    Vida longa a vc e sua família e q vc continue feliz no seu caminho

  3. Conheci você há pouquíssimo tempo por meio de uma entrevista em um podcast e logo já passei a seguil-la no Instagram, me inscrevi na Newsletter…
    Compartilho de muitos dos seus pensamentos.
    Parabéns pela sua trajetória e pelas decisões que tem tomado pela sua liberdade.
    Acredito que em breve o mundo vai se tocar e ver que estamos chegando a um limite: correria demais, consumo demais, ambição demais…e vida de menos.
    Grande abraço.

  4. Parabéns Lilian! Vc é uma grande inspiração para mim! O que eu pessoalmente pretendo fazer para mitigar todos esses medos que vc escreveu (e que algumas pessoas ja escreveram nos comentarios!) é manter uma pequena entrada de dinheiro do trabalho, ou seja, nao parar 100%. Eu sei que nem todo mundo tem essa possibilidade, mas acho que ajuda muito psicologicamente nao se sentir totalmente dependente do portfolio e do humor do mercado, e de quebra sacar bem menos que os 4%. Dá uma segurança a mais. O que vc ganha com as consultorias nao te dá essa sensação? Uma especie de “barista FIRE” – sem estresse e cobrança , podendo controlar o tempo que quero trabalhar

    1. Com certeza, a renda da consultoria ajuda muito a ter mais segurança no plano da IF.
      E ajuda a ter propósito, rotina.
      Mas tudo isso com mais liberdade que a maioria das pessoas vive.
      Obrigada por sempre comentar por aqui!

  5. Quanto a mim, embora os números me digam que eu posso ser FIRE, o que me impede de fazer isso são basicamente 2 coisas: 1)tenho medo de fazer e alguma catástrofe acontecer com o Brasil e o mundo ou mesmo comigo e meu dinheiro acabar antes de eu morrer; 2) preciso encontrar alguma forma de ser útil quando eu me declarar FIRE, alguma coisa que me impeça de sentir um enorme tédio.

  6. Pra mim é muito claro que a correria do dia a dia do trabalho também nos impele a gastar mais (roupas de trabalho, transporte mais rápido pra pegar no horário etc). É a corrida dos ratos.
    Toda vez que economizo (pego um ônibus em vez de um Uber), comemoro. Estou na jornada, um dia chego lá.

  7. 30 anos é muito cedo para a maioria dos brasileiros. Eu por exemplo já poderia estar aposentado agora aos 40. Mas casei e tive filhos (no plural), quis morar em uma casa pela qualidade de vida das crianças que isso proporciona, que puxam vários gastos, por casas boas só existirem em locais mais afastados da cidade tive que morar longe do trampo, então gasto mais com transporte. Nem todo mundo pode morar em um apto pequeno, não precisar de diarista, de carro, de transporte etc. Principalmente para quem não casa e não tem filhos a equação do FiRE fica bem mais fácil. Claro, ganhando salários astronômicos de juiz ou de diretor de multinacional também fica mais fácil mesmo tendo filhos. Mas infelizmente essa não é a realidade nem mesmo para o 1% mais ricos do Brasil.

    1. Oi Augusto!
      O que eu entendo da sua história é que você teve prioridades diferentes.
      Se você tem renda o suficiente para bancar uma família, carro, diarista, casa, provavelmente teria renda o suficiente para bancar a sua liberdade (se tivesse priorizado isso!).
      Dinheiro é recurso escasso. Quando a gente quer bancar tudo, não sobra para comprar a liberdade ;)

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