Série Finanças & Cultura: Ep. 7 – Matrix

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Olá, sejam muito bem-vindos a mais um episódio da nossa série de Cultura e Finanças, onde eu trago uma série de filmes para a gente debater sobre o tema dinheiro. E o filme de hoje é um daqueles filmes que, desde que eu comecei a pensar nessa série, eu sabia que teria um episódio sobre ele: o filme Matrix.

Eu sei, gente, esse filme está meio batido, né? Todo mundo parece que quer usar esse filme para mostrar o seu ponto. Sempre quando parece que a gente descobre uma verdade, ou quer apresentar uma nova forma de olhar a vida para as pessoas, a gente gosta de usar esse filme como referência. Mas é porque o filme é realmente muito bom.

Eu assisti a ele de novo recentemente para poder trazer os detalhes aqui, e eu não parava de anotar várias conclusões, várias interpretações e várias reflexões possíveis a partir desse filme. Inclusive, por conta disso, fazer o roteiro para o meu vídeo sobre ele foi muito difícil. Então eu decidi focar. Primeiro, vou falar rapidamente sobre o filme, para quem não conhece ainda. Depois, vou falar sobre dois argumentos que eu acho que ajudam muito a gente a pensar nessa trajetória de independência financeira e aposentadoria antecipada a partir de Matrix.

Bom, esse filme acompanha a trajetória de um personagem, o Neo. Ele está vivendo a vida como todo mundo, inserido dentro da Matrix, mas ele é um hacker. Ele começa a pesquisar na internet porque sente que tem algo de errado com a vida dele e que precisa mudar. Nessa sensação de que há algo de errado, ele começa a buscar respostas para várias perguntas que tem, e é isso que o leva ao despertar da Matrix.

O filme é uma distopia ambientada no futuro, em que as inteligências artificiais dominaram o mundo. Como elas dependiam muito de energia, e os seres humanos eram essa fonte de energia, decidiram colocar nós, seres humanos, em cápsulas, adormecidos, sem viver a vida na realidade, apenas vivendo a vida na nossa mente através de imagens, uma vida bem imagética, e usando o nosso corpo para alimentar a energia dessas inteligências artificiais.

E é muito legal isso, porque essa ideia da Matrix não é nova. Eu não vou entrar aqui nos detalhes dessa teoria, mas Platão usava a Alegoria da Caverna, dessa vida presa a imagens, para despertar as pessoas para essa busca da verdade. E o filme Matrix bebe muito dessa alegoria de Platão.

E eu nem preciso falar o quanto isso é relevante nos dias de hoje, né? O quanto a gente está vivendo cada vez mais preso a imagens nas redes sociais, vendo as imagens da vida das pessoas. Às vezes, a gente até se perde nisso e não percebe que aquilo não é a vida real. Tem um monte de gente alertando a gente sobre isso: aquilo não é vida real. E é muito doloroso porque, enquanto estamos acompanhando uma vida imagética das outras pessoas, a nossa vida está sendo vivida na realidade, no cotidiano, aguentando o chefe, pegando trânsito, lidando com dificuldades afetivas. Enfim, a gente só vê a imagem dos outros; não vê a realidade da vida dos outros. E isso é sempre importante ter em mente.

Mas enfim, no filme, o Neo finalmente conhece Morfeu, que é quem tem as respostas para as perguntas dele. E o Morfeu dá uma chance ao Neo. Ele fala:

— Você tem que escolher. Você quer tomar a pílula azul ou a pílula vermelha? Com a pílula azul, você continua sua vida do jeito que ela é. Com a pílula vermelha, você vai encarar a realidade.

E é muito legal porque, várias vezes, a gente é meio que o Morfeu na vida das pessoas. Parece que, de repente, a gente está enxergando uma verdade sobre a vida e quer trazer essa realidade para os outros. Mas, às vezes, a gente quer perguntar:

— Você está preparado para o que eu vou te falar?

E talvez eu esteja fazendo o papel do Morfeu na vida de algumas pessoas que estão conhecendo a possibilidade da independência financeira e da aposentadoria precoce pela primeira vez, acompanhando meus vídeos aqui no canal. Talvez eu esteja despertando vocês para algumas verdades ao longo dos filmes que já apresentei aqui.

Mas o que eu acho fantástico nesse filme é que não basta você reconhecer a verdade. O Neo toma a pílula vermelha, acorda para a realidade, vê a realidade, mas o filme não acaba por aí. E é a mesma coisa para a independência financeira.

Ao longo dos vídeos que fui apresentando aqui no canal, eu trouxe conceitos como a relação entre taxa de poupança e anos de trabalho, a regra dos 4%, que diz que você precisa acumular 25 vezes os seus gastos anuais para atingir a independência financeira. Também trouxe reflexões sobre nossa relação entre trabalho e consumo, as críticas que vimos em Clube da Luta sobre essa vida obcecada por trabalho e consumo, as dores de viver uma vida de trabalho que às vezes não faz sentido para a gente, como em Jerry Maguire, ou então a dor de perder o trabalho e essa vida pautada pelo consumo, como em A Grande Virada.

E talvez, para algumas pessoas, tudo isso esteja fazendo muito sentido. Talvez elas pensem:

— Tá legal, eu estou enxergando as mesmas coisas que você. Estou reconhecendo o que você está me falando.

Mas isso não basta. Você precisa seguir esse caminho da independência financeira.

E esse é o primeiro argumento muito forte desse filme que eu queria trazer para vocês. Porque, quando o Neo toma a pílula vermelha e enxerga a realidade, o que começa para ele? Começa um treinamento.

Ele precisa começar a treinar a mente dele para enxergar a vida dessa outra forma.

E, se você está pensando pela primeira vez sobre essa vida pautada por consumo e trabalho, se está percebendo que talvez consuma demais e que exista outra saída, mas que essa saída significa consumir menos, você vai ter que treinar a sua vida.

Vai ter que treinar seus músculos para uma vida frugal, para uma vida não obcecada por consumo. E vai ser difícil.

A saída do Neo da Matrix é dolorosa. Ela é fisicamente dolorosa e mentalmente dolorosa. Tanto que há várias vezes no filme em que Trinity, outra personagem que está ajudando o Neo a sair da Matrix, fala:

— Se você quiser desistir, você pode. Mas você sabe que, se desistir, volta para aquela vida antiga. Se quiser um caminho diferente, precisa continuar.

E eu acho essa analogia perfeita para quem está tentando construir uma vida de independência financeira e aposentadoria precoce. Vai ser doloroso. Às vezes, vai dar vontade de voltar ao que a gente era antes. Mas você já enxergou, você já sabe. É difícil desver aquilo que você já viu.

Mas isso tudo é uma resistência interna. É algo nosso. É algo com que a gente precisa lutar o tempo todo.

E, às vezes, parece que, mesmo quando já vencemos essa resistência interna, quando já entendemos que esse é o caminho que queremos seguir, por mais que exija abrir mão de consumo, conforto e de viver como vivíamos antes, aí chega uma segunda resistência: a resistência externa.

No filme Matrix, essa resistência externa é apresentada pelo personagem Cypher. Ele faz parte do grupo de pessoas que está fora da Matrix tentando trazer as pessoas para a realidade. Ele já enxergou. Já sabe que aquela vida imagética não é a vida real. Mas desiste. Ele quer voltar para aquela vida. Acha a realidade difícil demais.

Tem uma cena clássica em que Cypher está em um jantar e pega um pedaço de bife bem suculento. Então diz:

— Eu sei que esse bife não é real, mas ele é tão bom.

E completa com a famosa frase:

— Ignorance is bliss. A ignorância é uma bênção.

Porque algumas pessoas realmente se sentem assim. Elas sabem que estão consumindo demais, mas sentem tanto prazer nisso que não querem abrir mão. Afinal, consumo é prazeroso. Aquele bife que Cypher está comendo é prazeroso.

E eu acho muito engraçado que, logo depois dessa cena, a gente volta para o pessoal que está fora da Matrix, comendo uma gororoba branca, sem graça, horrível. E, muitas vezes, é isso que a gente vive. Às vezes, estamos andando de ônibus, pegando transporte público, passando alguns sufocos para economizar dinheiro, enquanto outras pessoas parecem viver uma vida muito mais confortável.

E a gente pensa:

— Putz, que escolhas eu fiz para a minha vida?

Mas eu te digo: se a escolha que o Neo está fazendo é uma escolha para enxergar a realidade, para viver a vida de verdade, então a escolha que você está fazendo ao buscar a independência financeira é uma escolha por uma vida livre.

Você está comendo aquela gororoba branca para ter uma vida mais livre.

É claro que a gente não precisa comer aquela gororoba branca. Dá para comer o pedaço de carne suculento que o Cypher come e, ainda assim, atingir a independência financeira. Mas a analogia é muito boa.

O Cypher representa essas pessoas que aparecem ao longo da trajetória de independência financeira. Muita gente relata isso, e eu também vivi.

Quando descobrimos o movimento FIRE, a possibilidade de se aposentar cedo, de atingir a independência financeira sem depender do governo, parece que encontramos um pote de ouro no fim do arco-íris. E queremos contar para todo mundo. Queremos despertar todo mundo. Queremos contar para nossos amigos, nossos familiares, para as pessoas que amamos:

— Olha só, existe essa possibilidade. Existe a possibilidade de não precisar trabalhar tanto. Existe a possibilidade de ter uma vida mais livre.

Mas isso tem um preço. O preço é consumir menos, ter disciplina e suportar os anos necessários para chegar lá.

E algumas pessoas simplesmente não estão preparadas para ouvir isso.

Sócrates tem uma passagem que eu acho incrível. Ele dizia que sua mãe era uma excelente parteira, mas havia uma coisa impossível para ela fazer: realizar o parto de uma mulher que não estivesse grávida.

Eu acho essa analogia perfeita.

Você pode entender tudo das contas. Essa vida pode fazer todo sentido para você. Mas, quando tenta compartilhar isso com alguém que ainda não está “grávido” dessa ideia, que ainda não sente esse desejo, que ainda não percebe que a própria vida talvez não esteja fazendo sentido, não adianta. Essa pessoa não vai conseguir parir a mesma ideia que você conseguiu.

E é óbvio que essa resistência externa impacta nossa trajetória FIRE. Somos seres sociais. Queremos conviver com nossos amigos. Mas, quando queremos gastar menos, precisamos que eles aceitem pegar transporte público em vez de Uber, vir comer em casa em vez de ir a um restaurante caro, parar de trocar presentes e passar mais tempo juntos do que gastar dinheiro juntos.

É óbvio que nossa vida seria mais fácil se todos embarcassem também. Se não existisse esse jogo de ostentação, das pessoas querendo mostrar:

— Olha só o que eu comprei. Olha só o que eu conquistei.

Porque, às vezes, quando estamos desconectados do nosso caminho, da nossa busca, olhamos para isso e pensamos:

— Caramba, eu estou saindo por baixo nessa história.

Isso é natural. É normal se sentir assim.

Mas a gente não vai conseguir eliminar essa resistência externa. Os Cyphers da vida vão existir.

E é por isso que, para quem está achando muito difícil seguir rumo à independência financeira porque não tem ninguém embarcado nessa história junto, eu recomendo que assista a esse filme.

Aliás, eu acho que seria muito mais fácil se todos nós tivéssemos um Morfeu e uma Trinity para ajudar nessa jornada.

Mas, enquanto isso não acontece, você pode buscar apoio na internet, em blogs. Eu tenho o meu blog, Aposentada aos Trinta, em que tento criar essa comunidade de pessoas que estão buscando a independência financeira aqui no Brasil.

Quem sabe, nos comentários destes vídeos, você não encontre pessoas que pensam como você, que vão te fortalecer e ajudar a diminuir essa resistência externa na sua jornada.

Enfim, como eu disse, se em Matrix faz sentido o Neo passar por todo aquele treinamento, por todo aquele esforço físico, abrir mão dos prazeres daquela vida imagética dentro da Matrix, porque aquilo não é a vida real e não é a verdade, então eu gosto de usar essa analogia para falar da independência financeira.

Há até um momento em que Morfeu diz ao Neo que, às vezes, a gente nem consegue explicar por que aquela vida baseada em imagens, presa à nossa mente, é a vida errada. Mas a gente sabe que existe algo errado.

Da mesma forma, essa busca pela independência financeira, por uma vida que não será pautada apenas por trabalho e consumo, também é difícil de explicar. É difícil justificar racionalmente por que isso parece mais certo ou por que faz mais sentido para algumas pessoas.

Mas, ainda assim, a gente sabe.

Enxergar a realidade, ao longo desses filmes que estou apresentando aqui para vocês, vai exigir que vocês vençam resistências internas. Vai exigir que repensem sua relação com o trabalho e com o consumo. Vai exigir que exercitem os músculos da frugalidade, aprendam a poupar e digam não para alguns confortos e alguns luxos.

Também vai exigir que encarem a resistência externa. Que aceitem que haverá pessoas que não vão embarcar nessa jornada com vocês, que vão criticar, que talvez até tentem lutar contra.

E vocês terão que vencer essa resistência também.

Mas esse é o caminho. Não sei se é o único. Mas é o caminho que eu conheço para uma vida mais livre.

Uma resposta

  1. Muito boa analogia. sinto falta dos posts de estudos que você fazia tipo IPCA x dólar ou porque os FIIs sofrem com a inflação do Brasil, ou porque melhor indexar via ETF renda variável e ativos indexados ao IPCA.

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