Série Finanças & Cultura: Ep. 1 – Jerry Maguire

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Bem-vindos ao primeiro episódio da minha nova série sobre Finanças & Cultura. Minha ideia aqui é trazer 10 filmes que, embora não tenham uma relação óbvia com o dinheiro à primeira vista, nos convidam a sofisticar nossa visão sobre o tema e refletir sobre nossa relação com as finanças.

Confesso que fiquei em dúvida sobre qual filme escolher para abrir essa jornada, mas depois que decidi por Jerry Maguire, o caminho pareceu óbvio. (E já aviso: teremos spoilers, porque é impossível aprofundar esses debates sem dissecar as tramas).

Para mim, este filme fala sobre uma questão central: hoje, medimos o sucesso quase exclusivamente pelo quanto ganhamos. Mas chega um momento em que essa métrica deixa de ser suficiente e se torna, inclusive, danosa.

O protagonista, Jerry (Tom Cruise), trabalha em uma grande empresa de agenciamento de atletas e começa a se sentir incomodado com cenas que expõem a desumanização do negócio. Em uma delas, um jogador se nega a dar um autógrafo a uma criança porque o cartão não era da marca que o patrocinava. Em outra, ainda mais dolorosa, um atleta gravemente lesionado acorda no hospital preocupado apenas em jogar no domingo — não por amor ao esporte, mas porque precisa completar 65% dos jogos da temporada para garantir um bônus financeiro.

O filho desse jogador pergunta a Jerry: “Não está na hora dele parar?”. É esse tipo de provocação que faz Jerry perceber que a empresa, na busca frenética pelo lucro, parou de maximizar o cuidado e o afeto para maximizar apenas os números.

Em um momento de “eureca” durante a madrugada, Jerry escreve um manifesto intitulado “As coisas que pensamos, mas não dizemos”. Ali, ele faz uma confissão visceral: “Eu odeio o lugar que ocupo no mundo”.

Essa frase é forte porque o lugar que ocupamos é, em grande parte, definido pelo nosso trabalho. Se passamos 16 horas por dia acordado, e 8h por dia no trabalho, é natural esperar que o trabalho permeie toda a nossa existência. Jerry percebe que sua forma de trabalhar estava corrompendo sua forma de estar no mundo.

Ele entrega o manifesto e, por um breve instante, é aplaudido pelos colegas que também pensavam aquilo, mas não tinham coragem de dizer. Mas a “fama” dura pouco: Jerry é demitido e descobre, da pior forma, que no mundo corporativo as relações eram de negócios, não de lealdade. Como diz um colega no filme: “It’s not show friendship, it’s show business”.

Sozinho, Jerry funda sua própria empresa com apenas uma funcionária, Dorothy (Renée Zellweger), e um único cliente, Rod (Cuba Gooding Jr.). E aqui acontece algo interessante: conforme o tamanho do negócio diminui, o espaço para o afeto aumenta.

Jerry deixa de ser apenas um agente distante para participar verdadeiramente da vida e das vitórias de Rod. No final do filme, em um abraço caloroso após um jogo brilhante, fica claro que ele não está ali apenas pelo contrato, mas porque construiu uma relação real.

Apesar de ser uma comédia romântica icônica — com a frase icônica “You had me at hello” — o filme traz um pé no chão que eu adoro: o dinheiro é um imperativo.

Não dá para romantizar a transição de Jerry. Como ele foi impetuoso e não se planejou, a empresa quase quebra. Dorothy chega a considerar se mudar para San Diego em busca de um emprego estável para sustentar o filho.

Enquanto assistia, não pude deixar de pensar: e se Jerry tivesse independência financeira?. Se ele tivesse se planejado, reduzido seus custos de vida e acumulado um colchão de segurança, aquela transição teria sido muito menos dolorosa. O dinheiro, quando bem gerido, é o que nos permite ocupar um lugar no mundo que não odiamos, sem passar pelo pânico de não conseguir pagar as contas.

Eu me identifico profundamente com essa história porque fiz um caminho parecido, mas com a estratégia que Jerry não teve. Eu também ganhava muito bem no mercado financeiro e também odiava o lugar que ocupava no mundo. Mas, em vez de sair no impulso, eu construí meu plano de independência financeira ao longo de anos.

Hoje, eu tenho uma consultoria financeira bem pequena, sou apenas eu, ganho muito menos do que antes, mas é o suficiente. É o suficiente para que eu ocupe um lugar no mundo que eu amo.

O filme termina com as palavras do mentor de Jerry, Dicky Fox, que resume o que eu também desejo a vocês: “Eu não tenho todas as respostas. Na vida, fracassei tanto quanto tive sucesso, mas eu amo com quem eu meu casei, amo minha vida e atingi a independência financeira (inclusão minha!)”.

Esse é, para mim, o verdadeiro significado de sucesso.

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