Série Finanças & Cultura: Ep. 3 – Clube da Luta

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Bem-vindos a mais um episódio dessa minha série de finanças e cultura, onde eu vou trazer uma série de filmes pra gente debater aqui sobre dinheiro. Como eu sempre digo, não são filmes óbvios, não são filmes que falam sobre investimentos, sobre geração de renda, sobre orçamento. Eles são filmes que trazem reflexões importantes sobre dinheiro, mas de uma forma muito mais sutil.

O filme de hoje talvez seja o mais desafiador dessa série, que é o filme Clube da Luta. Eu confesso que, quando eu assisti o filme de novo para trazer ele aqui pro nosso debate, eu quase pensei em deixar ele de fora. Porque ele é um filme violento, ele é um filme que te incomoda, ele não é um filme muito agradável de assistir. Mas eu tinha que trazer esse filme aqui e, para mim, logo quando eu pensei em fazer essa série, esse era um filme que tava meio que claro que eu tinha que trazer.

Porque dentro do movimento FIRE esse filme é muito relevante. Tem várias frases nesse filme que o pessoal do movimento FIRE sempre usa. Para quem não conhece o movimento FIRE, eu falo muito sobre esse movimento no meu blog, mas para quem tá chegando pela primeira vez aqui no canal eu vou falar rapidamente sobre esse movimento.

Ele é um movimento muito forte nos Estados Unidos, que eu tô tentando trazer aqui pro Brasil, pelo menos divulgar mais esse movimento pro Brasil. Por isso até eu preciso pedir para que vocês curtam esse vídeo, sigam o meu canal, compartilhem os vídeos para me ajudar nesse meu propósito de divulgar o movimento FIRE aqui no Brasil.

O nome FIRE vem de Financial Independence Retire Early, que é um movimento que prega a independência financeira e uma aposentadoria antecipada. No fundo essas duas coisas estão relacionadas, tá? Porque a independência financeira que eu falo aqui é sempre uma independência financeira de que a gente não precisa trabalhar para pagar as nossas contas. É essa a independência financeira. Não é que “ah, eu não dependo do meu pai, não dependo do meu marido”. Não. É não depender de um trabalho para pagar as nossas contas.

E quando a gente não depende de um trabalho para pagar as nossas contas, isso é basicamente a definição de aposentadoria. Só que o movimento prega que a gente faça isso sem depender do governo, acumulando patrimônio por conta própria até que esse patrimônio seja o suficiente para gerar uma renda que pague os nossos custos de vida e a gente não precise mais trabalhar para pagar as contas. E a gente pode atingir essa independência financeira, essa aposentadoria, muito antes do que a data determinada pelo governo. E é por isso que a gente fala, então, de aposentadoria antecipada.

Bom, esse é um breve resumo do movimento FIRE, mas, como eu disse, a importância desse filme pro movimento FIRE quase me obrigou a trazer esse filme pro nosso debate aqui.

Esse filme fala de algo que vem antes da gente discutir sobre dinheiro. Ele fala sobre uma angústia. Uma angústia que é quase comum nos dias de hoje, que surge de uma forma inesperada e principalmente quando a gente acha que a nossa vida tá muito organizada. Sabe quando tá tudo correndo bem? A gente tem emprego, a gente consome, mas parece que tá faltando algo?

Ele conversa muito com um livro que eu li o ano passado, um livro super famoso, que é O Mal-Estar na Civilização, do Sigmund Freud. É um livro complexo, mas que tem uma tese principal: para a gente conseguir viver em sociedade, nós seres humanos tivemos que abrir mão de alguns desejos primitivos. A gente teve que aprender a controlar os nossos impulsos, as nossas agressividades, a nossa violência.

E isso é muito benéfico, porque isso permitiu que a sociedade ficasse mais segura, estável, civilizada. Só que tudo isso tem um custo. A gente ficar abrindo mão dos nossos instintos, dos nossos desejos, traz uma certa angústia.

E nesse filme, esse personagem principal, que não tem nome, ele é um narrador da história, interpretado pelo ator Edward Norton, ele tá passando por essa angústia, por esse mal-estar na sociedade tão descrito por Freud. E o sintoma dele é insônia. É quase desesperador no começo, aquela sensação dele de simplesmente não conseguir dormir.

E ele traz o quanto isso angustia ele, o quanto isso impacta a vida dele. E até quando ele vai buscar ajuda com o médico, o médico meio que recusa tratar ele com medicação, porque ele vira e fala: “O que tá acontecendo com você é a vida. Você não tem um sofrimento tão grande assim”. Ele até fala: “Vai buscar grupos de ajuda para pessoas que têm câncer no testículo para você ver o que é sofrimento real”.

Porque a vida desse personagem é aparentemente perfeita. Ele tem um trabalho, um emprego corporativo, que claramente ele teve que estudar para conquistar. Ele consome. E logo no começo do filme, eu acho que esse é o ponto principal, porque ele começa falando da rotina dele, ele fala que no tempo livre ele fica vendo catálogos da IKEA para montar o apartamento dele.

E ele vai montando o apartamento dele com objetos que ele fala: “Acho que esses objetos têm a ver com a minha identidade”.

É exatamente isso que a gente faz o tempo todo. A gente usa o consumo como uma forma de construir a nossa identidade. Então as roupas que a gente usa, o bairro em que a gente mora, o carro que a gente dirige… no fundo não é só sobre consumir. Porque a gente acredita que, consumindo, em alguma hora a gente vai conseguir criar essa identidade completa. Que em alguma hora a gente vai atingir meio que o nirvana do consumo e vai sentir: “Tá, agora sim a minha vida tá completa. Agora sim eu já consumi o suficiente”.

Só que esse filme é fantástico porque ele mostra que, se é dessa forma que você tá pautando a sua vida, se você tá construindo a sua identidade através do consumo e achando que um dia você vai chegar lá, você não tá no caminho certo.

Quando o apartamento do narrador pega fogo e ele não tem para onde ir, surge um personagem super relevante no filme, que é o Tyler, interpretado pelo Brad Pitt, que é ele que vai trazer essas frases de impacto sobre o consumo.

Então, quando o apartamento do narrador pega fogo e ele tá falando: “Poxa, eu perdi tudo. Eu tinha um conjunto de móveis, aparelho de jantar, minha vida tava quase ficando completa, e eu perdi tudo”, o Tyler traz uma reflexão muito boa:

“Não, mas essas coisas não são você. E mais: as coisas que você possui acabam possuindo você.”

E essa frase é muito relevante. Eu acho que a gente pode ter várias interpretações sobre essa frase, mas para mim a melhor interpretação vem depois, ao longo do filme, quando o Tyler traz outra frase de impacto muito usada pelo movimento FIRE:

“A gente trabalha em empregos que a gente não gosta, para comprar coisas que a gente não precisa.”

O Tyler parece um filósofo bem crítico da nossa sociedade nos dias de hoje. E ele é um personagem meio incômodo, porque o que ele fala me parece muito verdadeiro. É difícil a gente não concordar com algumas frases dele. Mas ele é tão doido, ele é maluco. A solução que ele dá é ir pra destruição. É destruir toda essa narrativa. É desconstruir toda a nossa vida. Ele vai morar numa casa caindo aos pedaços. A forma como ele arranja uma solução para essa vida que para ele não faz sentido, que é a vida que a gente vive, eu acho péssima. Eu acho a solução dele horrível.

Então eu não tô trazendo esse filme aqui em defesa da solução que o Tyler dá, de destruir tudo. Eu não acho que esse é o caminho. Eu tô trazendo esse vídeo aqui por conta da problematização mesmo. Por conta da forma dele de olhar essa narrativa que acredita que uma vida pautada entre trabalho e consumo é uma vida que faz sentido e que, em algum momento, a gente vai consumir tanto, tanto, tanto, a ponto da gente se sentir completos.

O consumo não é a resposta. Eu concordo com o Tyler. Mas eu também não acho que a gente precisa destruir toda a nossa vida.

Às vezes eu até acho que esse filme pode ser meio contra o movimento FIRE, porque às vezes pode parecer: “Nossa, mas se eu não pautar minha vida pelo trabalho e consumo isso significa que eu vou viver como Tyler?”

Eu não quero viver como Tyler, de jeito nenhum. Naquela casa horrorosa, sem controle nenhum da violência, participando de clubes de luta agressivos, sem muito cuidado com o próprio corpo.

Eu acho muito mais elegante e prazerosa a solução que o movimento FIRE dá.

Porque parte de construir a nossa identidade, parte de aplacar as nossas angústias, depende de tempo. Tempo que a gente não tem porque a gente tá gastando 8 horas por dia trabalhando, ou mais.

A solução que o movimento FIRE dá é: tenta diminuir então um pouco o tempo dedicado ao trabalho na sua vida. Talvez nem precise eliminar 100% do trabalho na sua vida para abrir tempo e espaço para você buscar a sua identidade de fato.

A nossa angústia de viver uma vida pautada pelo trabalho e pelo consumo é que não sobra tempo pra gente construir a nossa identidade de uma forma muito mais profunda. A gente fica querendo construir a nossa identidade dessa forma superficial, através do consumo. E às vezes superficial até através do trabalho, porque muita gente não tá trabalhando com algo que conversa com a nossa alma, com a nossa identidade, com os nossos desejos mais íntimos. A gente só tá trabalhando para pagar as contas.

Enfim, Clube da Luta é um filme incômodo. Ele faz uma crítica feroz sobre a forma como a gente tá vivendo. Ele traz frases maravilhosas. “As coisas que você possui acabam possuindo você” é uma frase que a gente tem que lembrar o tempo todo. É quase uma crítica a essa vida organizada, pautada no trabalho e no consumo, e dizer que a única forma de solucionar então é desorganizar tudo.

Mas talvez essa não seja uma leitura justa sobre o filme, porque o filme não mostra só o que acontece quando você começa a questionar a vida, mas ele também traz as consequências de você destruir a narrativa que tava te pautando até então.

Existe um outro caminho, que talvez é até mais difícil, que seria o caminho de reconstruir. De entender que aquela narrativa de trabalho e consumo não tá mais fazendo sentido para você.

Então eu acho que o filme traz essa reflexão meio de: “Para. Sai do automático. Vamos refletir sobre essa vida que tá te trazendo tanta angústia.”

E essa reflexão eu acho muito necessária. Eu acho que eu já falei sobre isso nos outros episódios, mas a gente tem que toda hora pensar até que ponto a gente tá construindo uma vida que é de fato nossa.

Isso o filme traz muito bem também, porque tem uma hora que o Tyler mesmo tá falando:

“Quando eu cresci, eu cheguei pro meu pai e perguntei: ‘Tá, e agora?’ E meu pai falou: ‘Agora você faz uma faculdade.’ Aí eu fui, me formei, e perguntei: ‘E aí? E agora?’ ‘Agora você arranja um emprego.’ Tá. Aí eu fui, arranjei um emprego, e daí eu perguntei de novo pro meu pai: ‘E agora?’ Aí ele me falou: ‘Agora você casa.’”

Então a gente sabe que existe uma narrativa construída. Isso é meio que óbvio. Mas talvez chegue uma hora na vida em que a gente tem que ter maturidade para entender que chegou a nossa vez de construir — ou de reconstruir — essa narrativa.

Para algumas pessoas, seguir essa narrativa clássica — estudar, trabalhar, casar, ter filhos, trabalhar até os 65 anos de idade, 70 anos de idade, e aí sim se aposentar e ter tempo para curtir a vida — faz sentido.

Para algumas pessoas, essa narrativa não faz sentido. E é isso que é tão angustiante.

E se você tá nesse segundo tipo de pessoa, continua acompanhando os vídeos desse canal. Leia mais sobre o movimento FIRE. Tem muito texto interessante sobre o movimento no meu blog para você entender se talvez esse caminho de reconstrução da sua vida, de criar uma narrativa própria através da independência financeira, talvez seja um caminho que faça mais sentido para você.

Respostas de 2

  1. Muito bom esse filme a a análise.. Tinha assistido há muito tempo e adorado (numa época em que nem sonhava o que era FIRE), e agora quero rever. Que bom que vc nao deu o spoiler do “plot twist” do final , pra quem ainda nao viu!

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