É tudo sobre tempo

Eu ainda trabalhava na primeira vez que vim pra Europa. Meu salário era bom e eu não tinha grandes despesas porque ainda morava com meu pai, que bancava as contas sozinho. Ele fazia isso para que eu tivesse a oportunidade de criar o meu próprio pé de meia (que hoje eu chamo de reserva de emergência) para poder sair de casa e começar minha vida adulta sem depender dele.

Mas infelizmente eu não via assim. E naquela primeira vez na Europa, eu fiz o que tinha que ser feito. Eu comprei uma bolsa Louis Vuitton, jantei em um restaurante do guia Michelin. Fiquei hospedada em um hotel 3 estrelas. E gastei o equivalente a 4 meses de salário nessa viagem.

Eu vim para Paris, mas não lembrava de Paris da forma como estou vendo a cidade agora. Eu não andava pelas ruas porque eu tentava encaixar todas as atrações turísticas em poucos dias, então precisava ganhar tempo me deslocando de metrô. Eu não tinha paciência para os museus lotados, e a grande alegria do Louvre foi conhecer a famosa (e cara) casa de chá Angelina. Eu comprei um ingresso fura fila para subir na torre Eiffel. Eu não queria “perder” tempo em Paris.

E agora, tudo mudou. Eu não me importo mais de “perder” tempo em Paris. Na verdade, eu tenho tempo para gastar em Paris.

Na última sexta-feira, eu e meu marido fomos ao Louvre. Escolhemos sexta-feira porque é o dia que o museu fica aberto até às 21:45 (normalmente fecha às 18h). Dizem que você precisa de 4 dias e 4 noites se gastar 10 segundos apreciando cada obra do museu, então essas horas extras iam ser muito bem-vindas.

Só que dessa vez, eu queria curtir o museu, e não o Angelina (que eu também fiz questão de voltar). Eu tinha certeza de que o Louvre é um dos museus mais importantes por conta de toda a composição da sua obra, e não apenas por um quadro tão famoso.

Mas eu não tinha referência de como curtir o museu. A minha referência de curtir uma viagem na Europa era fazendo compras, comendo e passando rapidamente por todas as principais atrações.

Se você assistir aos vídeos populares no Youtube sobre o que fazer em Paris, essa também será a sua referência. E a maioria te dá dicas de como visitar o museu em apenas 2 horas. Assim você consegue sair de lá e ainda aproveitar outra atração.

Eu precisava de uma nova referência. Então começamos a pesquisar, além das páginas populares, além do óbvio. Gastamos um tempo vendo documentários que contavam a história do museu, a história das principais obras, a história dos artistas e até mesmo documentários que explicavam a cronologia da história da arte.

E então chegou o dia de visitar o museu. Foi interessante ter tempo para respeitar a narrativa que o museu conta, ao invés de ir à caça das principais obras. Foi emocionante entender como as esculturas ganharam movimento durante a Idade Antiga, como a humanidade passou por um abismo assustador na Idade Média, e como o ser humano sempre teve necessidade de romper padrões. E foi gratificante poder ver a Monalisa sem fila e com poucos turistas, porque quase não sobra ninguém no museu às 21h, quando é a hora de jantar nos restaurantes Michelin.

Você reparou a quantidade de vezes que eu usei a palavra tempo ou “gastar tempo” nesse post?

Esse é o maior presente da independência financeira. Ela te permite gastar tempo.

Eu entendo a Lilian que veio pela primeira vez na Europa. Ela ficou só 4 dias em Paris, e não tinha tempo para ficar um dia todo no museu. Antes da viagem, ela precisava trabalhar 12h por dia, então não tinha tempo de fuçar a internet em busca de informações mais interessantes. O máximo que ela conseguiu foi ter tempo de ver as páginas mais populares, aquelas que aparecem na primeira página do Google. E durante a viagem, ela precisava usar o pouco tempo para conseguir o máximo de fotos e objetos que permitissem que ela tivesse memórias desses 15 dias de férias, o que com certeza ajudaria na melancolia que ela sentia nos outros 300 dias de trabalho.

Naquela época eu tinha renda alta, pouco dinheiro no banco e quase nada de tempo.

Hoje a minha renda é bem menor. Mas eu tenho mais dinheiro trabalhando por mim. E tenho uma quantidade absurda de tempo relativo às demais pessoas de 35 anos de idade.

Parece que eu escrevo sobre finanças, mas a verdade é que eu escrevo aqui sobre tempo.

Afinal de contas, para que serve ter dinheiro? Ele serve para te comprar tempo. Mesmo que a gente pense de forma distorcida com a famosa frase “tempo é dinheiro”.

No fundo, eu escrevo sobre como ter mais tempo com a família. Sobre como ter mais tempo com os amigos. Sobre como ter mais tempo para aprender. Sobre como ter mais tempo para viajar. Enfim, sobre como ter mais tempo para viver e não apenas sobreviver.

A gente vive numa sociedade tão obcecada por apenas um recurso escasso, o dinheiro. E esquecemos de outro recurso ainda mais escasso, o tempo.

Meu marido adora perguntar às pessoas “o que você preferia, ser jovem ou rico?”. Ele pergunta se elas preferiam ter metade da idade que tem, sem dinheiro mas com toda a sabedoria de hoje ou então ter o dobro de idade e o dobro do dinheiro que tem. A resposta é sempre unânime (talvez porque ele só faça com pessoas que tem 30 anos ou mais, rs). Todos preferiam ter metade da idade, zero de dinheiro e a mesma sabedoria.

A lógica é simples: quanto mais jovem, mais tempo pela frente. E a sabedoria nos ajuda a tomar decisões melhores com dinheiro. E então quanto mais tempo pela frente, mais dinheiro a gente consegue acumular.

Eu imagino que a Lilian de 17 anos com a sabedoria da Lilian de 35 anos, teria atingido FIRE ainda mais cedo. Certamente se eu tivesse investido o dinheiro que usei para comprar a Louis Vuitton naquela viagem, hoje eu teria o suficiente para comprar duas bolsas. Eu poderia comprar uma Louis Vuitton e ainda ter o valor da bolsa.

Toda essa discussão sobre tempo me fez lembrar um texto que eu escrevi ao final do meu antigo blog Sempre Sábado. Ele tem tudo a ver com a discussão desse post, e foi a primeira vez que eu me dei conta de que a minha vida ia ter um equilíbrio diferente.

Resolvi reproduzir o post aqui:

“Estou tranquila, posso esperar”

No meio dos preparativos para a nossa viagem desse ano, eu tive um momento de pura alegria. Eu precisava resolver um problema no rádio do carro que compramos para viajar. Vim à loja, os funcionários  fizeram algumas tentativas e  não funcionou. Eles iam precisar esperar o especialista para resolver, mas a pessoa ia demorar 20min para chegar. E eles me perguntaram “você gostaria de voltar outro dia?”. 

Recentemente eu aprendi sobre heurísticas, que são basicamente atalhos mentais. Quando nos deparamos com alguma questão, nossa mente gera uma resposta imediata. Porém, apesar de ser um processo simples, essa resposta costuma ser imperfeita. 

Assim, o meu atalho mental para o tipo de pergunta “isso vai demorar, você gostaria de voltar outro dia?” costumava ser “sim”. Eu não costumo ter “20min para esperar”, ainda mais para um problema que eu não sei se será resolvido. O meu viés cognitivo ia ser voltar correndo para o trabalho e deixar para resolver quando tivessem certeza absoluta que o problema seria resolvido. 

Mas dessa vez eu respondi “eu posso esperar, estou tranquila”. Dizer essa frase em alto e bom som despertou uma sensação esquisita em mim. Foi então que me dei conta de que era a primeira vez em anos que eu estava mesmo tranquila. Partes por conta da pandemia mas também por conta da tão sonhada aposentadoria, meus dias estão mais tranquilos. Mesmo em meio a “correria” dos preparativos de uma viagem de um ano. 

Ainda não pedi demissão, ainda estou esperando alguns detalhes finais antes de pedir. Ainda estou trabalhando em regime de home office. No dia que fui à loja do carro, eu tinha trabalhado algumas boas horas pela manhã e já tinha finalizado todas as tarefas do meu dia. Depois do almoço, eu estava livre para fazer o que quisesse. 

É claro que se não fosse a pandemia, eu ainda estaria no escritório, e essa minha escapada para a loja de carro teria que acontecer ou no final de semana ou na correria do almoço (que eu provavelmente comeria um lanche para ganhar tempo e resolver o problema do carro). Mas mesmo com a pandemia, eu sentia necessidade de voltar logo para o meu home office e ficar online no Teams. Agora que sou FIRE, fica tão óbvio que não vão me demitir porque eu me ausentei uma tarde, depois de já ter entregue todo o trabalho do dia. E se demitirem, bom, eu já ia sair mesmo. 

Talvez eu me acostume logo com esse sentimento de tranquilidade. Assim como me acostumei a estar sempre correndo, e por isso estranhei ao perceber que eu pude dizer “eu posso esperar”. Mas achei importante registrar o momento de mudança para mim: O dia que eu percebi que passei do estado de muito stress, para alguém com tempo para resolver o que precisa ser resolvido. 

De resto, os planos FIRE estão de vento em popa. Compramos o carro no valor que queríamos, alugamos o outro apê (parte fundamental do nosso plano FIRE) pelo preço que queríamos. Eu estou sentindo que a sorte está do meu lado. Como também sou humana, já pensei que isso não vai durar, e que algo ruim vai acontecer. Aí na semana seguinte que pegamos o carro, eu ralei ele no poste. Meu marido respirou aliviado “eu sabia que alguma coisa precisava dar errado, bom saber que foi só isso”. Engraçado como a gente não se permite ficar em paz e curtir a sorte, não?

Quando eu fiz intercâmbio, no “welcome coffee” para intercambistas apresentaram a U-curve. É uma hipótese de um sociólogo norueguês, Sverre Lysgaard, sobre os estágios de quem vai viver numa nova cultura. São 4 fases: a fase da lua de mel, a fase da crise/choque cultural, a fase de ajuste e, finalmente, a fase de adaptação. Talvez eu esteja na fase de lua de mel com a vida FIRE. Se eu entrar na fase da crise, volto para avisá-los que essa teoria vale para o começo da vida FIRE também.

O final do dia na loja de carro foi o seguinte: fiquei um total de 2h na loja, mas o especialista resolveu o problema. Nesse meio tempo, eu fiquei lendo o livro “The Happiness Project” da Gretchen Rubin que casa perfeitamente com o momento que estou vivendo. Além da constatação de que estou tranquila, também não foi um tempo “perdido”. A vida FIRE é boa sim. 

Se alguém está se perguntando se a última frase ainda é válida, eu digo que sim. Depois de mais de 2 anos de vida FIRE, depois de passar pela lua de mel, pela crise, pelos ajustes, eu acredito que estou na fase de adaptação. E sim, a vida FIRE continua boa sim.

17 respostas

  1. Olaa!! Muito obrigada por seguir com o blog! Eu sempre fui minimalista, sempre poupei (conheci melhor os tipos de investimentos na pandemia) e conheci o FIRE ha uns 3 anos, e fiquei vidrada! Virou minha meta de vida!! Eu gosto de ser ativa, mas odeio meu trabalho! Trabalhar em uma empresa em que tudo nunca é o suficiente, que o tempo todo voce tem que entregar mais e melhor, é sufocante!! E ja estou neste lugar ha mais de 10 anos! Então o FIRE para mim é uma libertação, um oásis! E os unicos locais em que este assunto é tratado com seriedade e profundidade são nestes blogs. Eu estou naquele momento em que faltam poucos anos, e para complementar descobri uma doença grave nos ultimos meses, graças a Deus ja estou melhor, mas isso tudo so me trouxe ainda mais sede pelo tempo! Se Deus esta me deixando ficar mais um tempo aqui é para que este tempo seja usado com proposito! Muito obrigada e continue inspirando mais e mais pessoas! 🙂

    1. Oi Regiane!
      Muito obrigada pelo seu comentário. Fico tão feliz de saber que não escrevo só para mim, rs!
      Eu entendo essa sensação de sufocamento. A gente não se permite relaxar, fazer nada. Se entregar para o tédio.
      A empresa tem um único objetivo: gerar o máximo de lucro. Tudo o resto de “qualidade de vida para os funcionários” é uma grande enrolação.
      A qualidade de vida vem por nós mesmos, quando a gente toma as rédeas da situação e traça uma rota de saída.
      Que legal que está vidrada no movimento FIRE. Para mim foi um caminho sem volta!
      Abs

      1. Muito obrigada pelo retorno!! Fico feliz 🙂
        Pode ter certeza que suas palavras tomam proporções que você nem imagina!! E que você está mudando pessoas, vidas, familias, e consequentemente o mundo!!
        Conteudo de qualidade e com intenções nobres é preciosidade!

  2. Que post legal. Essa abordagem do tempo ser o nosso bem mais escasso é exatamente o que penso e FIRE te permite comprá-lo de volta, tomar as rédeas da vida.

  3. Ah essa liberdade que o dinheiro traz… De não precisar correr, de poder pagar por atividades que você não pode ou não quer fazer…

  4. Definitivamente não estou tranquila e não tempo tempo para esperar. Mas ler seus dois textos me transportou por alguns minutos para esse estado, e foi muito bom

  5. Mais um ótimo post Lilian, mas acho que nem todo mundo entende essa questão.

    Quando se fala de acumular capital, fica óbvio para todos que quanto mais $$, melhor. Só depois de conseguimos acumular um pouco de $$, percebemos que a próxima meta é como obter mais tempo livre. Então percebemos que precisamos de $$ para comprar tempo, e esse é um dos melhores usos possíveis do $$.

    Ter $$ para viver as experiências que sonhamos e não poder porque estamos presos a um trabalho é uma sensação péssima…

  6. Eu lembro desse texto do Sempre Sábado! Rs
    Eu lembro que quando li, eu tb não via a hora de dizer que estava tranquilo. Ainda não cheguei lá! Mas sua história é uma grande inspiração para mim!

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