E se eu fosse bilionária?

Na semana passada, fui curtir uns dias na cidade maravilhosa. No dia da viagem, saímos de casa às 14h, pegamos o metrô e o trem para o aeroporto. Depois, fizemos o voo. Chegando no Rio, usamos o VLT e, em seguida, o metrô para chegar ao nosso Airbnb no Leblon.

Quando estávamos quase chegando no Leblon, percebemos que já passava das 18h. Meu marido brincou: “Se fôssemos ricos, já teríamos chegado no Airbnb.”

Eu entrei na brincadeira e continuei: “Se fôssemos ricos, teríamos ido de helicóptero para o aeroporto.” “Não, se fôssemos ricos, teríamos ido de helicóptero de São Paulo diretamente para o heliponto do hotel no Rio.” “É, se fôssemos ricos, estaríamos hospedados no Fasano.”

Meu marido enjoou da brincadeira, mas eu continuei pensando. Se eu fosse rica, provavelmente chegaria no Fasano e iria tomar um banho de piscina. Mas será que realmente faria isso? Tenho uma piscina no meu prédio e várias vezes não vou por preguiça.

Se eu fosse rica, provavelmente jantaríamos no restaurante mais chique do Rio, com um vinho fabuloso. Mas será que era isso que eu queria mesmo? Eu estava com vontade de tomar um chope e escolher empadinhas direto da bandeja no boteco Belmonte. Além disso, sempre achei que os restaurantes mais sofisticados são meio iguais. O restaurante mais caro de São Paulo não deve oferecer uma experiência muito diferente do Rio. Mas aquela bandeja de empadinhas do Belmonte eu nunca vi em São Paulo.

Se eu fosse rica, provavelmente iríamos de carro para o restaurante. Mas eu perderia a alegria de caminhar pelas ruas do Leblon numa noite quente, observando o movimento da rua, os cariocas torcendo pelo seu time nos bares, os restaurantes e lojas novas que abriram desde a última vez que estive por lá.

Além disso, tenho tido uma nova relação com o tempo ultimamente. Sei que quando se tem muito tempo livre, o tédio toma conta. De que adiantaria chegar rápido no Rio? Rápido no restaurante?

No final da noite, estávamos de volta no nosso Airbnb, assistindo à nossa série do momento na Netflix, e eu disse para meu marido: “Se fôssemos ricos, estaríamos fazendo exatamente isso agora.” Ele entendeu o recado. No final do dia, estaríamos iguais.

Meu prazer secreto é acompanhar artistas do mundo pop. A banda da minha vida são os Backstreet Boys, mas não deixo de conferir os artistas novos que surgem de vez em quando. E bem, eu não fiquei imune à obsessão da passagem da loirinha pop do momento pelo Brasil.

Não fui ao show da Taylor Swift por um problema de agenda (eu estava em São Paulo quando ela estava no Rio, e no Rio quando ela estava em São Paulo). Mas pude curtir o show dela no conforto de uma sala de cinema. Achei a ideia genial e adoraria ver mais shows assim no cinema.

Assistindo ao show, parece que você está vendo uma pessoa no auge da felicidade. Ela canta, dança, toca piano e violão. Ela consegue mover milhares de pessoas só com o dedo. Ela volta a ser adolescente, ela é sensual, por vezes romântica. Ela até finge ser uma camponesa no século passado. Ela faz de tudo, com um sorriso largo no rosto.

Exceto pelo fato de que ela tem que fazer isso 151 vezes. Por 3h. Por praticamente todo final de semana até novembro do ano que vem.

Exceto pelo fato de que ela está com um namorado novo. E que ele tem uma agenda tão conturbada quanto a dela. E que ela deve estar viajando o mundo, mas sentindo muito a falta dele.

Exceto pelo fato de que uma fã morreu durante o seu show. Ela mesmo está sendo culpada por isso, afinal, parece que o calor está relacionado com a morte da fã, e ela é a celebridade que mais emite CO2 com seu jatinho particular. Em um intervalo de 3 semanas, ela foi de Buenos Aires para os EUA, de lá para o Rio, de lá de volta para os EUA, para depois voltar para São Paulo e, por fim, voltar de novo para os EUA. Entendo o fato dela querer voltar pra casa. Não é que ela possa ir curtir uma praia no Rio sossegada. Muito menos tomar um chope e comer empadinha no Belmonte.

Não sou das pessoas mais preocupadas com questões ambientais, mas ainda assim sinto uma espécie de culpa toda vez que levo minha sacola cheia de embalagens consumidas da semana para o lixo reciclável do meu prédio. Sei que boa parte desse lixo vai ficar por aí, não vai sumir.

Olhando a vida da Taylor por esse ângulo, não consigo deixar de pensar o quanto ela também deve se sentir exausta e sozinha, presa nessa agenda um tanto quanto maluca e um tanto quanto culpada por causar sofrimento a algumas pessoas.

Por conta dessa turnê de proporções megalomaníacas, ela se tornou a mais nova bilionária do pedaço.

É óbvio que a vida dela deve ser recheada de benefícios que só o dinheiro traz. Mas é ilusão achar que a vida dela é perfeita. E mais, também é ilusão achar que a minha vida não tem aspectos que talvez ela inveje. Afinal de contas, ela perdeu as empadinhas do Belmonte.

Devo dizer que essa minha nova perspectiva sobre a riqueza veio com a minha vida FIRE.

Quando eu trabalhava, qualquer pessoa que vivesse uma vida que não precisasse trabalhar para pagar as contas, eu já julgava como tendo uma vida melhor que a minha. E provavelmente eu estava certa.

Mas desde que eliminei esse inconveniente, passei a enxergar benefícios no meu estilo de vida que pessoas com muito mais dinheiro que eu não têm.

Além das celebridades que não têm paz, vejo isso na vida de outras pessoas. Tenho uma amiga herdeira que simplesmente não pode se dar ao luxo de viver uma vida frugal, muito menos de se aposentar. A família dela conquistou dinheiro com muito trabalho e espera o mesmo dela. Viver como eu seria uma afronta pessoal à família, a quem ela deve todo o dinheiro que possui.

Recentemente, conheci uma pessoa que ficou muito rica, muito rápido. E ela me disse algo que me marcou: “Meu maior medo é que o dinheiro vá embora tão rápido quanto ele chegou.” E eu entendo esse medo. Tive anos para me preparar para lidar com um patrimônio mais alto, aprender sobre investimentos, sobre os riscos. Mas será que saberia a melhor forma de investir 1 bilhão da noite para o dia?

Acredito sim que existe um ponto ótimo de riqueza. Faltar dinheiro é péssimo, mas dinheiro demais também traz problemas.

Mas estou longe de achar que existe um ponto ótimo universal. Cada um tem o seu.

No fundo, gostei das 4h que levamos para chegar ao Rio. Ri com um cara vendendo “tabaco no trem” no metrô de São Paulo e as pessoas olhando horrorizadas para ele, provavelmente achando que estava vendendo maconha. Pude ler boa parte do meu livro enquanto estava esperando no aeroporto. E tive essa conversa de “imagina se a gente fosse rico” com o meu marido no metrô do Rio.

Talvez tenham sido essas 4h que me fizeram perceber que estou no meu ponto ótimo. Foi meu tempo necessário de reflexão. E que reflexão boa.

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Aposentada aos Trinta

30 comentários em “E se eu fosse bilionária?

  1. Achei um pouco forçado tratar um trajeto de transporte público e andar a pé na cidade mais violenta do país como algo enriquecedor. Na teoria, essa romantização soa bonito.. mas na prática é igual a passar perrengue. Prefiro o conforto que o dinheiro pode proporcionar.

    1. Então não percebeu o sentido da vida, que é bem individual.. quando descobrir o valor das coisas mais simples da vida vai mudar sua percepção do mundo…

  2. As vezes tbem no meio de alguma penúria me pergunto como faria se fosse rico. Na verdade deve ser muito chato. Vc quer ir pra tal lugar, vai de jatinho, tá la te esperando. Hotel pega logo o melhor sem precisar ficar ralando atrás de airbnb. Vai jantar, qualquer restaurante tá bom, nao precisa ficar olhando muito. Muito fácil ! Se no fim do dia vc ta la vendo netflix de todo jeito, pelo menos o caminho até lá foi bem mais tranquilo. Pensando bem, é chato mas eu queria sim ser rico. Mas como trabalhando ninguem fica rico, prefiro virar vagabundo.

  3. Ta ficando chique ehn, já tem até hater(comentário do analista) e como diz a Taylor: Haters gonna hate. kkkkkk
    Quanto a sua conclusão achei maravilhosa, e eu sempre desejei ser rico, mas nunca famoso, pq acho que a fama tira muito da sua liberdade, enquanto a riqueza lhe proporcionaria a liberdade.
    Beijos e amo seu blog

  4. Eu lembro vagamente de varios estudos que concluem que a partir de certo nivel de riqueza e conforto, um acrescimo de riqueza/patrimonio não traz mais felicidade.
    Quando for possivel comprar mais anos de vida (uma medicação que retarde o envelhecimento, por ex) vai valer a pena ser extremamente rico, vc compraria mais vida. Nesse momento em que estamos, isso não é possivel.
    Eu penso como você, pra que buscar mais e mais riqueza? Se vier como algo natural, ok. Mas se vier a custa de estresse, falta de tempo, brigas, não vale a pena. Muitos idosos ricos terminam a vida no desgosto de terem apenas interesseiros brigando por sua herança ao seu lado, no final da vida, isso inclui filhos e parentes.
    Se a pessoa gosta de trabalhar 12h por dia e é feliz, tudo certo. Se a outra escolhe tirar 3 meses de ferias todo ano e é feliz, tudo certo tambem. Cada um é dono do seu tempo para fazer o que bem entender.

  5. Seus textos invariavelmente são tentativas de justificar sua fraqueza de ter desistido da vida jovem ainda.

    Sem filhos e sem futuro. Só pensando em se o seu pouco dinheiro será suficiente.

    Só no maniqueísmo de dividir ricos tristes e remediados felizes.

    Análise urgente moça .

    1. Disse o analista que acha que sua visão de mundo e vida é a única e a correta… Espero fortemente que vc não seja um analista profissional, se não, pobre de seus pacientes.

        1. o blog é justamente sobre um estilo de vida em que o dinheiro e os bens materiais não são o centro de tudo e vc vem falar de “pouco dinheiro”… Não entendeu nada. É a inveja que te cega? E pra piorar ainda quer usar o velho clichê de que ter filho é o que traz sentido na vida. Análise urgente pra você, mas com um analista de verdade

  6. Prezada Lílian, boa tarde! Mais um excelente post para os seus leitores assíduos. Gostaria de solicitar, se for possível, que você analisasse as mudanças trazidas pelo PL 4.173/2023 (vulgo ‘tributação das offshores’), para quem é mero investidor pessoa física (sem offshore, trust etc.) no exterior. Mudou a tributação de recebimento de rendimento e de ganho de capital? Mudou a sistemática de pagamento da tributação? Mudou a sistemática de declaração de recebimento de rendimento e de ganho de capital? Obrigado desde já e parabéns pelo Blog!

    1. Oi Armando!
      Eu confesso que tenho um pouco de preguiça de fazer um texto sobre isso, rs. Mas tem conteúdos ótimos no Youtube com advgados tributários explicando as diferenças!
      Mas bem lembrado, preciso atualizar meu post sobre investimentos lá fora pra explicar que caiu essa isenção de R$35mil.

  7. Seu texto me fez lembrar aquele estudo sobre adaptação hedônica com ganhadores da loteria. Tenho certeza que eu tb continuaria fazendo muitas das coisas que faço atualmente…. e como já diria Sêneca ,”Pobre não é aquele que tem pouco, mas antes aquele que muito deseja”. Abraço!

  8. Amei demais a reflexão, Lilian (aliás, estou amando o seu blog todo)! Me lembrou de uma história que é mais ou menos assim:

    Era uma vez um rei que, algumas vezes por ano, precisava visitar um reino vizinho. Levavam 30 dias para chegar lá de cavalo e carruagem, e o rei ia mesmo assim. Um dia, sugeriram ao rei que ele construísse trilhos ligando os dois reinados, assim, levaria apenas 1 dia para chegar no reino vizinho de trem. O rei prontamente rejeitou a ideia, dizendo “E o que eu faria com os outros 29 dias?”

    Curtir a passagem do tempo e o processo das coisas é quase incompreensível na nossa sociedade que super valoriza a produtividade, mas ai, é tão mais gostoso viver no nosso ritmo e do nosso jeito 🙂

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