Como aproveitar a Selic a 15%

Eu confesso que fiquei pensando no quão click bait esse título poderia soar. Mas a verdade é que esse tipo de coisa chama atenção. E, desta vez, eu queria mesmo chamar atenção.

Queria porque, recentemente, eu passei um certo nervoso — para ser educada — assistindo a um vídeo de uma influencer de finanças com quase 1 milhão de seguidores no YouTube. Vivemos tempos curiosos, para dizer o mínimo. Não há mais curadoria, filtro ou mediação: qualquer pessoa com uma câmera, acesso à internet e alguma habilidade de comunicação pode ocupar o lugar de especialista. Isso não é, em si, um problema. O problema surge quando alcance vira sinônimo de autoridade e números substituem método, estudo e contexto. Em um tema como finanças pessoais — onde decisões erradas custam anos de trabalho, tranquilidade e liberdade — essa ausência de curadoria pode ser especialmente perigosa.

E antes que alguém ache que estou me colocando acima disso tudo: duvidem de mim também. Embora eu tenha, sim, credenciais para dizer o que digo, ninguém deveria tomar decisões financeiras importantes apenas com base em vídeos, posts ou threads na internet — inclusive os meus. Façam sua própria diligência, busquem fontes diferentes, contratem uma consultoria profissional quando fizer sentido e usem conteúdo de finanças na internet, na maior parte das vezes, como entretenimento. Informação sem contexto não liberta; muitas vezes, confunde.

Mas voltando ao vídeo. Nele, a influencer abria a carteira de investimentos acumulada ao longo dos últimos cinco anos, que já somava cerca de R$ 1,6 milhão. É evidente que isso chama atenção. Vivemos em um momento em que riqueza virou espetáculo e números grandes viraram prova social. Não por acaso, o lançamento de sucesso do ano passado no Brasil foi o livro Coisa de Rico. Então, sim, alguém mostrando uma carteira milionária desperta cliques, curiosidade e até uma sensação de “se ela conseguiu, eu também consigo”.

O ponto menos óbvio — e quase sempre negligenciado — está na composição desse número. Dos R$ 1,6 milhão apresentados, aproximadamente R$ 1,4 milhão vieram de aportes. Ou seja, a maior parte do patrimônio não foi fruto de uma estratégia excepcional de investimento, mas de uma capacidade muito alta de poupança. Apenas cerca de “R$ 200 mil” vieram de rendimentos ao longo de cinco anos. Isso não diminui o mérito de quem aportou valores elevados com disciplina, mas muda completamente a leitura do caso. O que parecia ser uma grande aula sobre investimentos é, na prática, muito mais uma demonstração de renda alta e constância de aportes do que de decisões eficientes de alocação.

Mas o meu nervoso não vem do fato de a maior parte dele ter vindo de aportes. O incômodo começou quando o vídeo passou da exposição de números para a interpretação desses números. Em um trecho específico, por exemplo, ela chama atenção para a parcela de renda fixa da carteira, que segundo ela estaria rendendo cerca de R$ 7,5 mil por mês. A conta foi direta: “com a Selic em 15% ao ano, dividindo por 12, isso dá 1,25% ao mês. Eu tenho R$ 600 mil em renda fixa, então isso me rende R$ 7,5 mil por mês”.

E é aqui que nasce o meu ranço.

Eu entendo que algumas contas de padeiro são melhores do que nenhuma conta. Eu também gosto do simples. Sempre gostei. O problema é quando o simples ignora premissas importantes e acaba induzindo a conclusões erradas. No caso, esse tipo de raciocínio leva muita gente a acreditar que, se precisa de R$ 7,5 mil para viver, com R$ 600 mil de patrimônio já chegou à independência financeira.

Enquanto isso, a aposentada aqui segue dizendo que, para ter essa mesma renda mensal de forma sustentável, seriam necessários mais de R$ 2 milhões (usando a regra dos 4%). Não é à toa que a mulher do vídeo tem quase 1 milhão de seguidores — e podem comentar que é inveja, inclusive meu marido já fez essa observação.

Seguindo o vídeo, ela mostra o aporte do mês — mais de R$ 30 mil, que é, de fato, o grande motivo pelo qual ela chegou aos R$ 1,6 milhão — e conclui que a melhor estratégia seria investir esse dinheiro em Tesouro Selic, para “aproveitar a Selic alta”.

Inveja à parte (ou não), a verdade é que o vídeo tem vários problemas. O primeiro é não fazer qualquer menção à inflação — e eu já falei inúmeras vezes aqui sobre a importância de olhar apenas para a rentabilidade real dos investimentos. O segundo é mais sutil, mas igualmente grave: a melhor forma de aproveitar juros altos no Brasil não é comprando Tesouro Selic.

E é justamente sobre esse segundo equívoco que é o post de hoje.

Por que juros altos não combinam com Tesouro Selic

Sempre que a Selic sobe, muitos investidores dizem preferir Tesouro Selic. E esse período costuma ser comemorado — uma espécie de bolsa juros, em que o rendimento fácil dá sensação de conforto e segurança.

A ironia é que juros altos são extremamente danosos para o país como um todo — travam o crescimento, encarecem o crédito e aprofundam desigualdades — e, no fundo, nem deveriam ser motivo de celebração. Ainda assim, eles acabam funcionando como um remédio amargo para conter a inflação, especialmente em contextos de descontrole e farra do lado fiscal. Enquanto esse cenário existe, cria-se uma distorção temporária que pode (e deve) ser usada com inteligência.

O Tesouro Selic é simples, líquido e previsível. Mas juros altos no Brasil não são apenas um momento para investir no pós-fixado. Eles são, sobretudo, uma janela de oportunidade para quem pensa no longo prazo.

Juros altos são uma janela de oportunidade porque eles permitem transformar uma condição temporária da economia em um ganho permanente para o seu patrimônio. A Selic elevada não é o “normal” de longo prazo: ela sobe para combater inflação e, mais cedo ou mais tarde, cai. Quando você investe no pós-fixado, seu rendimento acompanha essa queda automaticamente. 

Já ao investir em um título prefixado ou IPCA em um momento de juros altos, você “congela” uma taxa excepcional por muitos anos, garantindo um retorno elevado mesmo quando o cenário econômico mudar. Em outras palavras, a janela existe porque você pode usar os juros altos de hoje para se proteger dos juros baixos de amanhã.

Para mostrar isso de forma concreta, vamos a um exemplo simples.

Imagine duas pessoas que investem R$ 100 mil hoje e não fazem nenhum aporte adicional durante 10 anos.

A única diferença entre elas é a escolha do título.

A pessoa A decide investir no Tesouro Selic. A Selic começa em 15% ao ano e, ao longo do tempo, cai gradualmente até 6% ao ano. No período de 10 anos, isso resulta em uma taxa média próxima de 9% ao ano. Esse não é um cenário pouco provável. É, na verdade, bastante coerente com a história dos ciclos de juros no Brasil. Ao final de 10 anos, os R$ 100 mil teriam se transformado em aproximadamente R$ 236.700.

A pessoa B pessoa faz uma escolha diferente. Ela investe em um Tesouro Prefixado, travando uma taxa de 13% ao ano pelos mesmos 10 anos, sem depender das decisões futuras do Banco Central. Ao final do período, os mesmos R$ 100 mil teriam se transformado em aproximadamente R$ 339.400.

A diferença entre as duas escolhas não foi o prazo, nem o valor investido, nem o risco de crédito. Foi apenas a decisão de travar ou não a taxa.

O investimento no Tesouro Prefixado termina com mais de R$ 100 mil a mais de patrimônio, o que representa algo em torno de 40% a mais, simplesmente por ter aproveitado o momento de juros altos para garantir uma boa taxa por mais tempo.

É claro que existe o cenário oposto: se os juros continuassem subindo ao longo dos próximos anos, o Tesouro Selic se tornaria a melhor escolha, justamente por acompanhar essa alta. Nesse caso, quem travou uma taxa prefixada ficaria para trás. O ponto é que investir não é sobre possibilidades abstratas, mas sobre probabilidades. E o cenário econômico atual — com inflação em desaceleração e política monetária altamente restritiva — não aponta para juros estruturalmente mais altos por uma década inteira, e sim para um processo gradual de queda. É por isso que, neste momento específico, os juros altos funcionam muito mais como uma janela a ser aproveitada do que como um novo normal a ser esperado.

O Tesouro Selic é excelente para reserva de emergência, dinheiro de curto prazo e recursos que precisam de liquidez, e por isso cumpre muito bem um papel específico na carteira. O que quase ninguém percebe é que ele carrega um risco pouco discutido: o risco de queda dos juros. Ao escolher o pós-fixado, você aceita que, no futuro, seu dinheiro será remunerado às taxas que existirem naquele momento — que podem ser bem menores do que as atuais. O Tesouro Prefixado faz exatamente o oposto: ele usa os juros altos de hoje para transformar incerteza em previsibilidade amanhã.

Previsibilidade é o ponto chave

No fundo, todo esse debate é sobre previsibilidade. E previsibilidade é um elemento absolutamente central para quem quer, um dia, viver da renda dos investimentos. Enquanto você está na fase de acumulação, dá até para tolerar mais incerteza. Mas quando a pergunta passa a ser “posso largar meu emprego?”, a lógica muda completamente.

É muito tentador fazer contas de renda passiva assumindo uma Selic de 15% ao ano. O problema é que essa taxa não é uma promessa — é uma fotografia do presente. Basta lembrar que, durante a pandemia, a Selic caiu para 2%. Quem dependesse da renda de um pós-fixado teria visto sua renda encolher drasticamente, sem qualquer mecanismo de proteção. E ninguém larga um emprego confiando em um número que pode mudar radicalmente de um ano para o outro.

Para viver de renda, previsibilidade é uma condição essencial. Você só tem coragem de abrir mão do salário quando consegue antecipar, com razoável segurança, quanto o seu patrimônio será capaz de gerar ao longo do tempo. Sem isso, a liberdade vira ansiedade.

Não é à toa que, lá fora, existem décadas de estudos tentando estimar qual seria uma taxa segura de retirada — 4%, 3,5%, 3% — sempre cercada de incerteza, simulações e cenários extremos. Em economias de juros reais estruturalmente baixos, viver de renda exige conviver com uma margem enorme de imprevisibilidade. No Brasil, paradoxalmente, essa conta é muito mais simples justamente porque convivemos com juros reais historicamente altos. Quando você consegue travar uma taxa real elevada por longos períodos, como acontece com os títulos atrelados à inflação, a previsibilidade da renda deixa de ser um exercício estatístico complexo e passa a ser uma decisão de alocação bem feita no momento certo.

É justamente por isso que, apesar de ter usado o Tesouro Prefixado como exemplo ao longo deste post — por pura clareza didática — ele não é a minha solução preferida para quem pensa em renda no longo prazo. O prefixado entrega previsibilidade nominal, mas deixa uma variável fundamental em aberto: a inflação. Você até sabe quanto vai receber em reais, mas não tem como garantir qual será o poder de compra dessa renda daqui a 20 ou 30 anos. 

É aí que o Tesouro IPCA se destaca. Ele entrega o que realmente importa para quem quer viver de renda no futuro: previsibilidade de poder de compra. Você sabe que sua renda crescerá acima da inflação, preservando o poder de compra ao longo do tempo. E, no caso do Tesouro Renda+, isso vai ainda mais longe: é possível travar juros reais elevados por prazos quase absurdamente longos — chegando até 2085. Em um país como o Brasil, conseguir transformar juros altos de hoje em renda real previsível por décadas não é detalhe técnico. É a base de uma estratégia de liberdade financeira sustentável.

É claro que investir em Tesouro IPCA ou até em Tesouro Prefixado exige mais planejamento. Diferente do Tesouro Selic, esses títulos sofrem marcação a mercado, ou seja, o preço deles oscila no meio do caminho conforme as taxas de juros sobem ou caem. Isso pode assustar quem olha apenas para o curto prazo, mas não é um problema para quem entende o prazo do investimento e pretende levar o título até o vencimento. E sim, uma boa reserva de emergência é essencial — e o Tesouro Selic é praticamente perfeito para isso. O ponto é que a moça do vídeo não estava falando de reserva de emergência; ela estava construindo patrimônio de longo prazo. E, para esse objetivo, conforto imediato e liquidez diária não deveriam ser os critérios principais de decisão.

Vale fazer uma distinção importante aqui. Os juros reais elevados pagos pelos títulos atrelados ao IPCA no momento não refletem apenas o nível atual da Selic. Eles estão muito mais ligados à trajetória fiscal do país, à percepção de risco de longo prazo e à desconfiança estrutural em relação às contas públicas. É por isso que, mesmo quando o mercado começa a precificar cortes na Selic, os juros reais longos podem continuar altos. E, claro, se o cenário fiscal se deteriorar ainda mais, esses juros podem voltar a subir — o que reforça a lógica de que travar boas taxas reais quando elas aparecem não é otimismo, é gestão de risco.

Voltando à moça do vídeo, o ponto aqui não é questionar sua disciplina, sua renda ou o patrimônio que ela construiu — isso, por si só, é admirável. O problema é quando uma conta simples, feita em um contexto específico, passa a ser apresentada como estratégia de longo prazo. Selic a 15% não é renda garantida para o futuro, assim como Tesouro Selic não é sinônimo de independência financeira. Para quem está construindo esse caminho, a pergunta mais importante não é quanto rende hoje, mas quão previsível será essa renda quando o cenário inevitavelmente mudar. É essa diferença — entre conforto momentâneo e segurança de longo prazo — que separa conteúdo que entretém de decisões que, de fato, mudam uma vida.

Respostas de 17

  1. Oi, Lilian! Tudo bem?
    Queria saber o que você pensa sobre dois temas (talvez alguma das perguntas até sirva de ideia pra um post):
    – existe algum ponto em que é seguro a pessoa “se aposentar” antes de atingir a regra dos 4%, se ela já tiver uma renda acima dos seus gastos mensais (ou seja, se ela conseguir economizar um pouco do rendimento mensal e ir aumentando seu capital)? Se existe algo assim, qual seria um parâmetro seguro?
    – com relação a consultorias: algumas experiências têm me indicado que alguém sem formação específica até é capaz de fazer um “feijão com arroz” bem feito, mas acaba não conseguindo fazer análises mais aprofundadas (apenas como exemplo: se e quando seria um bom momento para comprar/ vender ouro, ou outras leituras da conjuntura da economia. Sei que você é adepta de uma linha mais objetiva e não especulativa, mas foi o exemplo que consegui trazer). Você acha que para atingir resultados além do básico (para pessoas que trabalham em áreas fora das finanças), uma consultoria é indispensável?
    Abração!

    1. Oi Juliano!

      Quanto a primeira pergunta, o parâmetro seguro é justamente a regra dos 4%. A gente precisa tomar muito cuidado com a inflação. Ter o patrimônio crescendo com a inflação durante a fase de usufurto é necessário para uma aposentadoria segura. Então sim, todo mundo que se aposenta vê seus rendimentos acima dos gastos, porque boa parte desses rendimentos não devem ser gastos para compensar a inflação.

      Quanto a segunda pergunta, não acho que a consultoria seja indispensável. Eu mesma nunca paguei por um serviço profissional. Mas eu tenho formação e experiência profissional na área, então eu sabia como resolver sozinha as minhas questões. Na minha consultoria eu pego muito casos de pessoas que não são da área e já estão investindo, mas ainda confundem alguns conceitos importantes. E honestamente, as vezes as confusões mais simples são as que mais dificultam no entendimento geral de um plano FIRE. Então eu acho que ela dá uma segurança maior para quem quer ter coragem de um dia largar o emprego e viver de renda!

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