Frequentemente, as pessoas me pedem ajuda para conseguir controlar seus desejos de consumo. Elas desabafam sobre como é difícil viver uma vida em que dizemos “não” para muitas vontades. Há quase sempre um misto de frustração e culpa nessas conversas, como se a dificuldade fosse estrutural, uma falha de caráter ou de disciplina.
Essa é uma questão absolutamente central na vida FIRE. Afinal, eu só consegui me aposentar cedo porque mantive uma taxa de poupança extremamente elevada enquanto trabalhava. E, para isso, precisei aprender a controlar meus desejos de consumo. Não foi uma consequência automática de ganhar bem, nem de entender investimentos; foi, antes de tudo, um exercício contínuo de contenção, escolha e renúncia consciente.
Como muitas amigas costumam me lembrar: “o que você fez não é para todo mundo”. Se antes essa afirmação vinha carregada de um julgamento sobre privilégios — principalmente porque eu ganhava bem — hoje, conforme meus amigos se aproximam dos 40 anos e a grande maioria passa a ganhar muito bem, eu percebo que essa opinião nasce de outro lugar. O que eu fiz não é para todo mundo porque exige algo raro: uma força de vontade pouco comum para gastar menos dinheiro em um mundo que nos empurra, o tempo todo, para gastar mais.
O comum é consumir. O comum é desejar e ter, querer e ser atendido. O comum é associar realização pessoal à capacidade de satisfazer imediatamente vontades. O comum é viver como se toda frustração fosse um problema a ser eliminado.
Mas será que esse lugar só é comum porque simplesmente não aprendemos que é possível viver de outra forma? E, mais inquietante ainda: será que o comum é, de fato, uma vida boa? Será que sermos escravos dos nossos desejos — sempre respondendo a eles de forma automática — não nos conduz, paradoxalmente, a uma vida profundamente insatisfatória?
Essas são reflexões difíceis, mas absolutamente necessárias. Com toda a minha experiência pessoal e com as histórias que chegam até mim por meio do blog e da consultoria, estou cada vez mais convencida que as pessoas que realmente chegam lá, que atingem a independência financeira muito antes da média, não são as melhores de planilha. São aquelas que mudaram sua filosofia de vida, sua relação com o desejo, o consumo e o próprio conceito de suficiência.
Se você quer dicas práticas de como economizar mais, elas estão disponíveis — e você pode lê-las neste post aqui. Mas entender por que essas dicas funcionam exige algo mais profundo: compreender a filosofia que sustenta uma vida orientada para a independência financeira precoce, e não apenas para o alívio imediato.
E é justamente com o intuito de aprofundar essa reflexão, e continuar difundindo essa filosofia, que hoje eu recorro à ajuda de um clássico da literatura — uma obra que nos escancara o que acontece quando abrimos mão de controlar nossos desejos e deixamos que eles passem a nos controlar.
Escravos dos desejos
Em “Admirável Mundo Novo”, Aldous Huxley escreve movido menos pelo medo da escassez do que pelo terror da abundância sem consciência. O livro é uma resposta à crença moderna de que progresso técnico, conforto material e estabilidade social seriam suficientes para produzir uma vida boa.
Huxley desconfia radicalmente dessa equação. Sua motivação é denunciar algo sutil: a substituição da liberdade pela felicidade administrada, da reflexão pela satisfação imediata, da ética pela eficiência. O romance é, desde o início, um ataque direto à ideia de que o ser humano pode se sentir plenamente realizado quando não há mais conflito interno, nem frustração e nem necessidade de escolha.
A sociedade descrita pelo livro nasce depois de um período de guerras, crises, instabilidade emocional e econômica, que tornaram o sofrimento humano intolerável. Em resposta, o mundo escolheu a estabilidade como valor supremo.
Para garanti-la, sacrificou tudo o que fosse imprevisível: o nascimento natural, os vínculos familiares, a arte, a filosofia e a religião. O desejo foi domesticado e redirecionado para fins produtivos: os indivíduos passam a desejar exatamente aquilo que mantém a engrenagem funcionando, acreditando, sinceramente, que esses desejos são seus. O consumo passa a ser um dever cívico.
Na prática, essa sociedade funciona com uma perfeição incômoda. Os corpos são produzidos em laboratório, as consciências são moldadas por condicionamento psicológico, e cada indivíduo ocupa um lugar predeterminado na hierarquia social sem ressentimento. Qualquer sinal de a frustração é vista como um erro de sistema, e a tristeza é vista como uma patologia que deve ser rapidamente corrigida pelo soma – uma droga sintética distribuída livremente pelo Estado para manter a população emocionalmente estável e permanentemente satisfeita.
Nesse cenário, simplesmente não há necessidade de coerção, porque não há vontade autônoma a ser combatida. O controle é total justamente por ser invisível: ninguém sente que está sendo privado de algo, porque nunca aprendeu a desejar aquilo que foi perdido.
E conforme o livro segue, fica evidente que o maior absurdo dessa sociedade foi tentar eliminar algo muito humano: o amor profundo. Para evitar sofrimento, as relações são descartáveis, ninguém se apega. Até a maternidade é vista como obscena. Afinal de contas, o ser humano é reduzido a um organismo que precisa funcionar bem e sentir-se razoavelmente satisfeito o tempo todo. As relações humanas causam dor, dúvida, luto e são tratadas como ameaça à estabilidade coletiva.
E é exatamente aí que reside a falha fundamental dessa sociedade: ao eliminar qualquer fonte de sofrimento, ela elimina também a possibilidade de uma vida significativa. Uma vida verdadeiramente satisfatória não é aquela em que todos os desejos são atendidos, mas aquela em que os desejos são compreendidos, escolhidos e, muitas vezes, recusados. Em “Admirável Mundo Novo”, as pessoas tem seus instintos satisfeitos, mas não parecem seres humanos reais.
E é assim que Huxley demonstra, de forma incômoda e brilhante, que levar aos extremos uma possibilidade de sociedade onde não haja nenhuma fricção é na verdade uma vida que não vale a pena ser vivida. Uma humanidade que abdica do direito de sofrer abdica, junto com ele, do direito de viver plenamente.
Os paralelos com a nossa sociedade hoje
Para deixar isso ainda mais claro: se a descrição acima do livro já fez você traçar paralelos importantes com a sociedade em que vivemos hoje, ótimo — você pode, tranquilamente, encerrar a leitura deste texto por aqui.
Se não, deixe-me ser mais didática.
Se você perguntar a qualquer pessoa o que seria, para ela, uma vida boa, é bastante provável que a resposta venha mais ou menos assim: uma vida em que eu tenha uma casa confortável, dirija o carro dos sonhos, coma em restaurantes sofisticados e viva experiências incríveis por meio de viagens. Talvez nem todos formulem exatamente dessa maneira, mas os mais honestos provavelmente admitirão algo muito próximo disso.
E essa visão de “vida boa” não é neutra. Ela é exatamente o que mantém o capitalismo contemporâneo funcionando. Hoje, cerca de dois terços do PIB das principais economias do mundo vêm do consumo das famílias. Há muita gente enriquecendo graças ao seu desejo por viagens instagramáveis, restaurantes cada vez mais sofisticados e um estilo de vida constantemente exibível.
O problema é que esse desejo, na maioria das vezes, não é compreendido por quem o sente. Ele é quase programado. As pessoas são condicionadas desde a infância a querer exatamente aquilo que sustenta o sistema produtivo. Não há espaço para frustração, para a falta ou para o silêncio interior. Qualquer desconforto precisa ser rapidamente anestesiado — seja com consumo, seja com prazer imediato.
O mundo de Huxley escancara o perigo de viver uma vida em que os desejos são o rei. Eles simplesmente surgem, exigem satisfação e passam a nos governar. E simplesmente não passam pelo crivo da reflexão. Não é difícil traçar um paralelo com o mundo contemporâneo, em que somos constantemente estimulados a desejar mais — mais conforto, mais status, mais experiências, mais versões idealizadas de nós mesmos.
O que esse desejo comum esconde — e que muita gente sequer percebe que está abrindo mão — é a liberdade de escolha. A liberdade de viver a vida nos próprios termos. De viajar porque você quer, e não porque sua influencer favorita foi. De morar em uma casa que faça sentido para você, e não em uma réplica da casa dos seus amigos. De trabalhar com algo que desperte sua vontade de produzir, e não apenas em algo que pague um salário bom o suficiente para sustentar esse pacote de desejos pré-fabricados.
Quando eu digo que só consegui me aposentar cedo porque aprendi a controlar meus impulsos de consumo, o que eu estou afirmando, em termos filosóficos, é algo muito mais profundo: eu reivindiquei a autonomia sobre os meus desejos. É nesse ponto que a frugalidade — tão mal interpretada como privação — se revela como um verdadeiro ato de resistência moral. Não se trata de negar o prazer, mas de escolhê-lo com consciência. De ser capaz de dizer, com tranquilidade: eu posso comprar, mas não preciso; eu posso ter, mas não quero.
É claro que nossos instintos jogam contra nós. Queremos competir no jogo do status, não queremos ficar para trás, desejamos o que os outros desejam e acreditamos que isso é quase um direito adquirido. Em suma, não gostamos de frustrar nossos desejos. Mas talvez seja justamente isso que precise ser reaprendido. Será que frustrar desejos é sempre algo ruim? Será que ceder a todos eles, sem qualquer mediação, nos conduz de fato a uma vida melhor? Se você ainda acredita que sim — que a frustração deve ser eliminada a qualquer custo, que uma vida em que desejos são adiados ou vontades são contidas é uma vida indigna — então recomendo fortemente a leitura deste livro.
O caminho do meio
É claro que não estou defendendo uma vida 100% racional. Isso também seria uma vida empobrecida, árida, indigna de ser vivida. O que estou propondo é equilíbrio. Será que uma vida em que você gasta 50% da sua renda não seria um bom equilíbrio? Metade para satisfazer seus desejos, metade para comprar a sua liberdade. Isso não soa como uma divisão justa?
E eu sei o que você deve estar pensando agora: mas eu não destino metade da minha renda para os meus desejos, tem muita coisa que é necessidade. Será mesmo? Depois de pagar uma moradia decente (não luxuosa), transporte público (não Uber), supermercado (não restaurante), o que sobra? Muitas das despesas que chamamos de “necessárias” são, na verdade, escolhas normalizadas. Confortos que viraram regra. Pequenos luxos que se disfarçam de sobrevivência. Nada disso é errado — mas é importante dar nome às coisas. Porque só quando chamamos desejo de desejo é que podemos decidir conscientemente quanto da nossa vida queremos trocar por ele.
Destinar metade da sua renda para a compra da sua liberdade (e não para os seus desejos) vai abrir portas para muitos sentimentos — alguns deles, inclusive, desagradáveis. Com mais tempo livre e menos dinheiro, talvez você precise cuidar dos seus pais na velhice em vez de pagar alguém para fazê-lo. Mas será que encarar a finitude de frente não pode trazer mais sentido para a sua vida? Talvez não sobre dinheiro para fazer Botox, e você precise encarar o envelhecimento toda vez que se olhar no espelho. Mas será que esse não é um lembrete importante de quão rara e curta é a nossa existência? De que talvez você não tenha tanto tempo assim para adiar aquilo que é, de fato, um desejo único e genuíno de vida boa para você?
Talvez você se afaste de amigos deslumbrados com dinheiro e consumo. Mas talvez, em troca, você passe a dedicar seu tempo livre a se tornar uma pessoa mais interessante — alguém que estuda, reflete e se desenvolve subjetivamente. E, curiosamente, muitas pessoas podem passar a te valorizar não pelo que você ostenta, mas pela sabedoria que você construiu; por ser alguém em quem se pode confiar nos momentos de aflição. Isso, inclusive, pode aumentar — e muito — o seu valor social.
Essa última questão é particularmente importante para mim. Eu não sei o que fará você feliz no seu tempo livre. O meu “guru FIRE” sempre foi o Mr. Money Mustache, que dedica grande parte do tempo a projetos de construção. Ele é o tipo de pessoa que gosta de manter o corpo constantemente ativo. Eu já tentei seguir esse exemplo, mas percebi que ele não funciona tão bem para mim. O que realmente me dá prazer é manter a mente ativa. Isso não significa levar uma vida sedentária — não levo. Mas construir uma casa do zero não me empolga tanto quanto começar uma faculdade do zero. Hoje, sei que encontro prazer genuíno em gastar meu tempo livre estudando. Estudar sempre foi um refúgio para mim, algo que confere sentido à minha vida.
Mas pode não ser isso que dará sentido à sua. Se você vai construir casas, iniciar uma nova graduação ou se dedicar a algo completamente diferente quando atingir a independência financeira, pouco importa. O que importa é que você finalmente terá tempo para fazer aquilo que dá sentido à sua vida. Eu não faço ideia do que seja — e seria de muito mau gosto tentar sugerir. Essa escolha é exclusivamente sua.
E talvez, quando você provar dessa liberdade de escolha — como eu provo hoje — você finalmente entenda por que se tornou cada vez mais fácil para mim controlar meus desejos de consumo, lidar com a frustração ocasional e adiar a satisfação imediata.
Huxley desmonta a ideia central do nosso imaginário moderno: a de que uma vida boa é uma vida sem fricções. Ao eliminar o sofrimento, elimina-se também a profundidade, o amor, a arte e a escolha. A vida se torna confortável — mas rasa. Essa distopia nos ensina algo essencial para quem busca o FIRE — e, na verdade, para qualquer pessoa que queira viver melhor: nem todo desejo merece ser atendido.
Respostas de 20
Lilian, depois fala mais sobre como esta sendo a experiencia de cursar filosofia… se esta sendo como voce imaginava (já que deve ser muito conteúdo histórico e pouca prática de reflexão, não?) e como tem sidoa relação com colegas que devem ser muito mais novos.. se esta conseguindo sintonizar com isso… sentindo o tempo bem ocupado com provas, trabalhos, etc…
Penso muito no pós FIRE cursar algo também, mas penso mto nesses pontos… se não vai ser muito bla bla bla e pouca coisa realmente útil… se não estaria perdendo o tempo também, como no trabalho… e se me sintonizaria com colegas muito mais novos, se criaria amizades e etc… já que o tempo de vida seria muito diferente… fora provas e etc
Oi Julia!
A faculdade tem seus desafios sim. Mas eu tento focar no que eu busco: um espaço para debater questões profundas. Nem toda aula, nem todo professor e nem todos alunos estão dispostos a isso, é verdade. Mas há espaço sim. Em algumas aulas, com alguns professores e alunos. E eu tento focar neles. Não achei nenhum outro espaço de debate tão sério e tão amplo quanto a filosofia. É isso que me motiva a continuar.
Quanto a ser muito blá-blá-blá e pouca coisa útil, a verdade é que eu fui buscar exatamente um blá-blá-blá, rs. Nada lá é obviamente útil. Gosto que não há respostas prontas, não é uma faculdade de auto-ajuda. É um convite a reflexão constante.
Eu conheço bem o curso de Filosofia da USP, lá é um publico em geral mais velho, principalmente no período noturno, muita gente de segunda graduação, aposentados, gente que faz por hobby. E sobre o conteúdo em si é uma boa mistura de história com reflexão, cada disciplina são autores de um período histórico (tipo filosofia medieval, moderna, contemporânea e etc), até porque o pensamento de cada época faz parte do contexto específico, é dificil estudar um pensamento sem contextualizá-lo minimamente. Mas é basicamente entender a existência, as relações, a cultura, pelas lentes de grandes pensadores, o que abre um repertório gigante para construir as próprias reflexões.
Mas ao mesmo tempo as leituras são muitas vezes bem difíceis, as aulas nem sempre tão didáticas, cada disciplina tem um trabalho final de escrita de no mínimo umas cinco paginas (pra quem gosta de escrever é otimo!), enfim, é um curso bem demandante mas acho que vale a pena.
Vou adicionar um outro ponto de vista a sua reflexão, que por sinal é muito boa!
Influenciar o consumo em excesso (serviços ou produtos) através da propaganda é o modelo de negócio das empresas no nosso sistema econômico, isso é um fato, mas essa estratégia só funciona tão bem porque estamos completamente subjugados pelo maior dos desconfortos da vida em idade produtiva: o emprego. O emprego nos faz conviver por no mínimo 9h por dia com pessoas das quais muitas vezes não temos sequer afinidade, responder a um ambiente hierárquico que produz pressão psicológica, ansiedade e outros desconfortos diários, frequentemente não temos autonomia nem pra escolher horário de acordar, comer ou ritmo de desenvolver nossas tarefas no trabalho, isso sem contar o deslocamento diário que nas grandes cidades é tão estressante quanto o próprio trabalho, além de ser um tempo não remunerado. O emprego é uma alienaçāo muito profunda da autonomia humana. Deve ser por isso que tentamos atribuir vários sentidos ao emprego, dizemos que gostamos da empresa, do propósito, do status e etc, mas eu sinto que no fundo é um desamparo enorme não ter como fugir dessa condição e por isso tentamos nos cercar de coisas que diminuem, mesmo que muito pouco e apenas momentaneamente esse desconforto diário, como pedir um delivery depois de ter passado 9h sob pressão no trabalho e mais 1h30 em pé no ónibus lotado, ou pagar caro para passar as férias num lugar que promete uma experiencia completamente oposta da vida cotidiana no trabalho.
É claro que podemos conhecer a comunidade FIRE e descobrir que se economizarmos 50% da nossa renda podemos nos aposentar em… entre 15 e 20 anos. Economizar metade da renda pode significar para a maioria das pessoas, mesmo de renda mais alta, viver drasticamente pior do que as condicoes de ter um emprego já proporciona diariamente, pode significar ter que morar mais longe do trabalho, usar mais o transporte público em horário de pico, passar o fim de semana limpando/cozinhando/lavando roupa e fazendo compras de supermercado ao invés de descansar, nao viajar, enfim perder uma série de `confortos pagos` que amenizam minimamente a vida de quem tem que trabalhar pra sobreviver, e tudo isso por quase duas décadas. Pode ser mais animador do que nāo ter perspectiva nenhuma de aposentar, mas compreensivelmente dificil de sustentar por tanto tempo. O que é totalmente diferente de fazer as contas e ver que em 5 anos isso já é possível, é um horizonte muito mais presente e palpável, a capacidade de sustentar o desconforto extremo aumenta quanto temos uma perspectiva tão mais próxima.
Mas resumidamente, o meu ponto é que não há desconforto maior do que o proporcionado pelo emprego, ele é a fonte de toda nossa exaustão e alienação de si mesmo, e o consumo em excesso só existe por conta dessa condição prévia. O conforto pleno não é o consumo em excesso, é a ausência da necessidade do emprego. O consumo nos da migalhas de conforto, que de fato reduzem o nosso sofrimento cotidiano com o trabalho, por isso é tão dificil abdicar dele.
Concordo com você em quase tudo. O emprego, da forma como está organizado hoje, é uma experiência profundamente alienante. E o consumo funciona, sim, como um analgésico para tornar isso suportável.
Talvez onde a gente discorde seja no papel que esses “confortos pagos” passam a ocupar. Eles começam como adaptação, mas muitas vezes se tornam um mecanismo que prolonga a permanência no próprio sistema. O consumo reduz o sofrimento imediato, mas aumenta a dependência estrutural do emprego.
Quando falo em poupar 50% da renda, não estou defendendo uma vida ascética, punitiva ou baseada na negação do prazer. O que estou propondo é uma escolha consciente sobre quais desconfortos aceitamos temporariamente para reduzir o desconforto maior e mais profundo, que é a falta de autonomia.
O emprego é, de fato, o maior desconforto. Justamente por isso, cada real gasto para torná-lo suportável é também um real que adia a possibilidade de sair dele. É um paradoxo cruel: gastamos para sobreviver ao trabalho e, ao gastar, nos tornamos ainda mais dependentes dele.
Também concordo que 15 ou 20 anos de frugalidade extrema seriam insustentáveis para a maioria das pessoas. Mas os 50% não precisam ser vividos como “desconforto extremo”. Para muita gente, isso se traduz menos em privação e mais em redefinir os desejos.
E também não acho que é uma decisão binária entre trabalhar para sempre ou sofrer por duas décadas. Conforme a pessoa vai acumulando patrimônio, ela já consegue negociar melhor a autonomia, tomar mais risco para aumentar o salário, e tirar o emprego do centro da vida (vulgo os quiet quitting).
Mas concordamos que o verdadeiro conforto não é o consumo, é a autonomia. A frugalidade, não é uma negação da vida, mas uma ferramenta para sair desse sistema que nega a vida. É claro que o consumo não é irrelevante, mas ele é insuficiente para resolver o problema de fato.
Obrigada pelo comentário!
essa resposta foi profunda! E acho que ela deveria estar no cerne da discussão, existem pessoas que mesmo sem qualquer tipo de mimo, não conseguem guardar 1% do salário que recebem.
tanto o post da Lilian quanto esse comentario do anon me fizeram muito reflexivos. Pra mim não é uma coisa teórica , eu sinto na prática e todos os dias. Vejo todos os dias as pessoas naturalizarem a pressão psicologica e o assédio moral, as “ameaças veladas” das “chefias” – que tem as vezes muito menos conhecimento que vc mas estão lá por política – e que exercem a “sindrome do pequeno poder”. Todos esses pequenos abusos sao naturalizados pq ninguem se vê abrindo mão do salário. E o motivo está aí pra quem quiser ver: dependencia de um estilo de vida inflado, consumo, comparação com os outros.
É isso – a gente normalizou uma vida de “pequenos abusos” porque normalizamos o consumismo. Se a gente repensa a necessidade de tanto consumo, fica difícil não enxergar o preço pago por isso!
Excelente reflexão. Muito obrigado.
Adoro muito esses seus textos mais filosóficos. Obrigada por compartilhar seu tempo conosco. :)
Que bom que gosta, eu também adoro escrever esse tipo de texto!
Excelente reflexão
Quando temos consciência de nossos desejos e conscientemente resolvemos atende-lo estamos realmente escolhendo
Pois cada escolha é uma renúncia
“Tudo não terás”
Importante é estar realmente presente !
Compreender o que nos faz realmente feliz!
Parabéns pelo texto
É esse o lema! E ter consciência disso é a chave!
Senti uma cutucuada no fundo do âmago, foi bom! Obrigada por isso hahah
Disponha ;)
é claro que já estou olhando aqui na biblioteca se tem esse livro. quero demais ler. Lilian, que texto. Uma poesia! Será que “Porque só quando chamamos desejo de desejo é que podemos decidir conscientemente quanto da nossa vida queremos trocar por ele” é uma frase muito grande pra tatuar no braço?
Hahaha, me parece grande demais! O romance é muito válido, leia sim. Vai te deixar mais firme nessa jornada de frustrar os prazeres, as vezes…
As redes sociais acentuam muito o efeito manada em direção à “comoditização” dos desejos. Muitas vezes as pessoas seguem direções que não seguiriam naturalmente, o fazem apenas por ser bem visto pela comunidade instagramável. Isso infla a demanda por determinado produto/serviço e o torna cada vez mais desejável. Até que seu consumidor natural não tem condição de arcar com a alta do preço e migra para outra classe de produto, por vezes até inflando o preço do produto subjacente. Essa lógica do consumo deve ser repensada a fim de minimizar a ansiedade pela próxima compra e a necessidade de pertencimento a grupos sociais.
Esse trecho me pegou: “Hoje, sei que encontro prazer genuíno em gastar meu tempo livre estudando. Estudar sempre foi um refúgio para mim, algo que confere sentido à minha vida.”
Um dia eu falei pra mim: “Meu sonho é passar o dia lendo e estudando”. No meio da leitura do seu artigo eu tive que voltar no parágrafo anterior várias vezes, lutando com meus pensamentos de que eu não deveria estar “gastando” meu tempo aqui. O dilema que me pega hoje é, se eu passar meu tempo fazendo o que a minha alma ama, que é ler e estudar, de que proveito isso terá?” Numa visão de proveito para o próximo, sabe? Me parece muito egoísta ter o privilégio de passar tempo estudando. É tosco, mas é assim que minhas vozes intrusivas falam comigo. Como você lida com isso, se é que lida… rsrs
Bastante lógica da produtividade nesse argumento né? E eu entendo, somos muito condicionados a isso.
Para mim, a resposta é no equilíbrio.
Trabalhar/ser produtivo 1/3 do tempo não me parece um equilíbrio razoável. Até porque o outro 1/3 estamos dormindo, e o outro 1/3 que sobra é muitas vezes gasto mantendo a nossa máquina corpo viva (academia, alimentação, higiene, etc).
A maioria das pessoas que vivem assim não tem tempo para estudar, ler, se desenvolver subjetivamente. Isso também é importante.
Com certeza não defendo uma vida de ermitão, que só estuda, e corta os laços com a sociedade.
Mas acho fundamental ter sim um bom tempo destinado a reflexão (a alimentar a alma, como você disse). Tem externalidades positivas para a sociedade também quando a gente dedica tempo para desenvolver a mente. Como eu disse, tenho certeza que sou um apoio melhor aos meus amigos e familiares próximos agora que tenho mais tempo para estudo e leitura. Quem sabe um deles vem dar testemunho disso aqui, rs.