Recentemente, eu estava assistindo ao programa Provoca, e apareceu esse comercial da década de 90, em que uma criança começa a esfregar na nossa cara o produto do momento: as tesouras do Mickey. Enquanto balança o objeto com empolgação exagerada, ela canta, de maneira cada vez mais insuportável: “eu tenho, você não tem”.
Rever essa imagem me causou um incômodo tremendo. Obviamente, não porque eu não tenha a tal tesoura (e me custa lembrar se algum dia eu tive, talvez sim). Mas porque há algo de quase intolerável nesse tipo de provocação.
Talvez hoje, com a publicidade muito mais regulada, especialmente a infantil, um comercial desses nem chegasse a ir ao ar. Mas ninguém pode negar que esse apelo do “eu tenho, você não tem” continua presente em nossos dias.
De forma mais sutil, menos gritante. Mas ainda tão eficaz quanto antes.
Por que esse apelo funciona?
Como vocês sabem, sigo firme nos meus estudos sobre filosofia. E é sempre gratificante quando encontro um conceito capaz de dar nome àquilo que eu sinto, de iluminar algo que antes era apenas intuição. Realmente, trazer luz à sombra é um dos grandes prazeres da vida humana. E devo dizer: prazer esse que é praticamente de graça no mundo da internet. Tenho desfrutado muito desse tipo de lazer ultimamente.
O conceito que chamou minha atenção dessa vez foi o de “desejo mimético”. Ele foi desenvolvido pelo filósofo René Girard, que propôs uma leitura fascinante sobre a origem dos nossos desejos.
Segundo Girard, todo desejo humano tem como fonte o desejo do outro. Ou seja, nossos desejos não são originais e muito menos espontâneos, mas frutos da imitação do desejo de outra pessoa. Eles nascem da observação do que o outro deseja.
Para explicar isso, Girard introduz a figura do mediador — aquele cujo desejo orienta o nosso. A gente pensa que está desejando uma casa de revista, férias espetaculares, filhos fotogênicos. Mas a verdade é que não são esses objetos que despertam nossa vontade, e sim o fato de vermos outras pessoas escolhendo ou valorizando essas coisas.
Dito de forma simples: é o outro quem nos mostra o que vale a pena desejar. E a gente cai que nem patinho quando o outro provoca com “eu tenho, você não tem”.
As situações absurdas em que isso pode nos levar
Uma vez, fui a um casamento para 300 pessoas que acabou sendo uma daquelas festas em que tudo parecia fora de proporção. Era nítido que o casal tinha sonhado grande, mas o orçamento não acompanhou o tamanho do sonho. No meio da noite, a bebida acabou, a fila para pegar comida se estendia por metros e demorava uma eternidade, e até os docinhos — sempre o ponto alto das festas — desapareceram antes de eu conseguir provar um. Para completar, o evento era longe.
Meses depois, conversando com a noiva, lembro dela se lamentar pela festa: “Foi um gasto excessivo, a gente se endividou, e no final as pessoas foram embora insatisfeitas.” Mas, quando perguntei por que ela fez isso, ela respondeu: “Porque eu fui em tantas festas de casamento que eu queria ter a minha também!”
Interessante, não é? Ela não fez uma festa de casamento porque estava se casando com o amor da vida dela, porque queria reunir amigos e familiares, ou porque era um sonho de infância. Ela quis porque os outros quiseram um dia também.
Mas ela esperava que fazer esse esforço financeiro enorme, dar um jeito atabalhoado de encaixar 300 pessoas na festa, seria valorizado pelos outros. Talvez o mais triste dessa história seja que ela nem sequer conquistou essa admiração alheia.
Minha proposta para superar isso
Às vezes, parece que a nossa vida é uma luta constante contra os nossos instintos. E talvez seja mesmo. Não somos apenas animais, e o que nos diferencia é a nossa racionalidade. A gente se sente mal quando cai nas ciladas dos próprios impulsos e age de forma irracional porque, no fundo, sabemos que não estamos fazendo bom uso daquilo que mais nos distingue.
Mas então, como driblar o nosso instinto de “desejo mimético”?
Talvez a solução seja nos cercar de pessoas que, quando estamos em pleno uso da razão, reconhecemos que vivem como gostaríamos de viver.
Se você já percebeu que essa vida de consumo excessivo não é para você, que misturar sua personalidade com a sua profissão não te satisfaz plenamente e que quer mais da vida do que uma rotina tão estressante que te deixa apenas vegetando na frente da TV no fim do dia, então talvez seja a hora de parar de seguir pessoas que vivem assim.
À primeira vista, pode parecer que se afastar dessas referências vai te levar a uma vida solitária. E sim, esse pode ser um efeito colateral de querer sair da corrida de ratos do trabalho e do consumo. Mas não precisa ser assim. Eu recomendo que você seja ativo em encontrar pessoas que pensam como você. Se a internet é uma vitrine gigantesca de desejos alheios, ela também é um espaço onde é possível se conectar com pessoas fora do seu círculo social, inclusive com pessoas que podem te inspirar a desejar coisas que façam mais sentido para você.
E ei, aqui estamos, em um blog com uma pessoa dedicada a mostrar uma outra forma de vida. Outras coisas que você também pode desejar.
A alegria de dizer “eu não tenho, você tem”
Eu bato muito na tecla do tempo aqui no blog porque, mais do que dinheiro, a minha conquista da liberdade financeira foi uma conquista desse objeto tão em falta quanto o próprio dinheiro: o tempo livre.
E chegamos a um ponto tão excessivo da corrida de ratos que, hoje em dia, eu me sinto bem em dizer — de forma tão provocadora quanto o menino do comercial — “eu não tenho, mas você tem!”. Tá aí um bom desejo mimético para você.
Num encontro recente de família, minha prima se lembrou de um dos episódios mais engraçados das minhas pataquadas nessa jornada da vida. Eu tinha acabado de ganhar meu carro e, como morava na Zona Norte, precisava passar pela Praça Campo de Bagatelle sempre que ia para o centro. Para quem não conhece, a praça funciona como uma rotatória gigante, com várias saídas e muitas faixas. O negócio era tão frenético que eu simplesmente não conseguia mudar para a faixa da direita e pegar a minha saída. E eu acabei dando umas três voltas na praça antes de conseguir sair dela.
O que esse episódio revela é que eu nunca tive afinidade com carros. E eu conheço muita gente que detesta o trânsito de São Paulo tanto quanto eu, mas que simplesmente não se permite viver sem carro. Essas pessoas pregam conveniência, culpam os filhos, mas eu não deixo de pensar que, dado que elas dirigem uma SUV e não um carro popular, o carro serve mesmo é para não cair na provocação do “eu tenho, você não tem”.
Hoje em dia, quando me perguntam “como você consegue ter tanto tempo livre?”, a minha vontade é responder: “é que eu não tenho que trabalhar para pagar IPVA, seguro, multas de trânsito, manutenção de carro… e você tem”. Ou “é que eu não tenho que fazer as unhas toda semana, botox todo trimestre, comprar roupas novas a cada estação… e você tem”. Ou ainda: “é que eu não tenho um apartamento grande, uma casa de praia ou um barco para cuidar… e você tem”.
Porque, no fundo, o “não ter” é uma forma de liberdade. É no tempo livre que essa liberdade deixa de ser uma ideia vaga e vira uma experiência cotidiana.
Dizer “eu não tenho” não foi um gesto de renúncia, mas de uma escolha que eu fiz racionalmente. Ele reflete que eu deixei de medir a minha vida pela régua dos outros e passei a me definir pelos meus próprios parâmetros de valor.
René Girard dizia que o desejo é mimético, mas talvez a sabedoria esteja em reconhecer isso e usar a consciência como antídoto. Quando a gente entende de onde vêm nossos desejos, pode escolher quais deles merecem espaço dentro de nós.
E aí, de repente, o “eu não tenho” deixa de ser uma falta e passa a ser um alívio.
Respostas de 13
Atualmente tem uma propaganda de milhas de uma companhia aérea que seria quase uma versão para adultos dessa “eu tenho, você não tem”.
O ator diz: “nós reservamos este hotel, etc, etc, com milhas. E você?” Então os atores começam a cantar uma música dizendo “não, não, não, não, não…”
Sempre achei os programas de milhas complicados (achar as melhores formas de acumular, converter, passar pra outra empresa, não deixar expirar…) e optei voluntariamente por ignorar esses programas.
Na primeiras vezes que via o comercial, encarava como uma provocação. Mas depois, eu mesmo passei a pensar: “que bom que eu não tenho. É um trabalho que eu prefiro não ter.”
É isso aí, esse negócio de milhas tem que ser encarado quase como um emprego, rs. Eu já usei/ uso muito, mas é um trabalho. Não é nada simples como vendem, e muita gente acaba perdendo dinheiro com isso. Então melhor não ter se não está disposto!
Adorei o texto, e indo um pouco na contramão, as vezes me questiono se o próprio desejo de aposentar antes do prazo tbm não foi alimentado dessa comparação com o vizinho? Já que eu acompanho muitos blogs com essa proposta, ou essa já era uma vontade minha e a busca dos blogs é só uma consequência desse desejo?
Dito isso, eu adoro seu estilo de vida e quando me aposentar tbm quero estudar filosofia.
E sempre um prazer ler seus textos
Abraços.
Oi Wellington!
Bom ponto: a vida FIRE surgiu para mim porque vi outras pessoas vivendo isso. Não sei se teria seguido por esse caminho se nunca tivesse conhecido o Mr Money Mustache, rs.
Estudar filosofia na aposentadoria é o combo perfeito ;)
Certamente em muitas situações o “não ter ” é melhor que o “ter”, mas somos induzidos a achar o contrario.. Interessante imaginar que esse desejo de ter o que o outro tem é em parte intrínseco ao nosso dna, e não apenas fruto do trabalho do marketing… Estou lendo o livro novo do Morgan Housel (The Art of Spending Money) , o qual recomendo fortemente, e ele bate muito nessa tecla: não só como gastamos dinheiro, mas muitos dos nossos desejos, o modo como vemos o mundo e por consequencia nossas opiniões e escolhas, estão intimamente ligado às nossas experiencias passadas, e como cada pessoa teve experiencias totalmente diferentes, não faz o menor sentido querer que todos sigam uma fórmula.. abraço
Ah sim, nossos desejos podem ter diversas fontes, mas talvez a fonte no outro seja tão poderosa quanto a fonte do marketing.
E eu adoro essa ideia de que somos feitos das nossas histórias e experiências. É fantástico reconhecer que cada um tem sua própria vida subjetiva. Isso ajuda ainda mais a respeitar que o que cabe ao outro, pode não caber a nós!
Seu raciocínio é válido, porém não podemos generalizar que todos os desejos são reflexos dos desejos dos outros. Sua amiga fez uma festa grande, talvez para retribuir todas as festas em que foi e talvez tenha exagerado no número de pessoas na festa, não que ela queria dizer à todos que a festa dela tenha sido melhor.
Dirigir um carro SUV traz muito mais conforto que dirigir um carro normal, e para algumas pessoas – eu inclusive – é importante. Já estamos tão sufocados nessa vida, um ou outro conforto não fará mal.
Acredito sim, que existem desejos que são reflexos dos outros… aquela viagem à Europa, Aquela roupa da Hugo Boss, etc e etc… mas às vezes, esses desejos são genuínos da pessoa e indicam algo que lhes possa trazes felicidade.
Ah sim, os conceitos filosóficos são fascinantes mas isso não significa encerrar a discussão. Só que olhar por essa ótica ajuda a evitar cair em algumas ciladas.
E sobre confortos, recomendo que leia: https://aposentadaaostrinta.com.br/a-crise-do-conforto/
Excelente reflexão! Não conhecia o conceito, mas acredito que sigo à risca! srsrsr. Obrigado por compartilhar.
Rs, sempre bom quando a gente se reconhece não?
Ótima reflexão!!!!
Gostei dessa frase ” Eu não tenho, e vc tem”. Lembrei quando sai de um apartamento com alto condomínio e me mudei para uma casa com ótimo custo benefício.
Sempre uma boa ficar em cima de custos fixos altos!