A diferença entre ser rico e ter renda alta

Quando eu era pequena, eu tinha uma vizinha da minha idade que vivia uma vida bem mais rica que a minha em termos materiais. A casa dela tinha os melhores eletrodomésticos, ela ganhou a boneca do momento fora do Natal e fez uma viagem para a Disney com os pais. Na minha imaturidade, eu invejava essa menina. Éramos amigas e eu desejava viver uma vida tão rica quanto a dela.

Mas então um dia ela bateu na minha porta e veio se despedir. Ela disse que o pai dela tinha perdido todo dinheiro que eles tinham e ela estava se mudando para a casa dos avós no interior de São Paulo. Eu nunca mais a vi.

Numa conversa mais recente com meu pai, lembramos dessa família e meu pai disse “eles nunca foram ricos, eles só gastavam tudo que ganhavam”.

Ah, a velha ilusão de achar que quem gasta 1 milhão é rico. A gente esquece que milionário mesmo é aquele que tem 1 milhão no banco, e não 1 milhão em coisas.

A Lilian de 8 anos de idade pode até ter confundido esses conceitos. Mas a Lilian de 35 anos não se confunde mais. Talvez, em alguns momentos de distração, o primeiro pensamento ainda seja “essa pessoa deve ser rica” quando eu vejo alguém carregando uma bolsa Louis Vuitton por aí. Mas basta alguns segundos de racionalidade para eu lembrar que o mais provável é que eu esteja diante de uma pessoa apenas gastona, e não rica.

O renda alta que não é rico

Se você perguntar para alguém de fora da comunidade de independência financeira “o que é ser rico”, ele provavelmente vai te responder que “rico é aquele que pode comprar tudo que quiser”.

E isso não poderia estar mais longe da verdade. Sim, você pode ter uma renda alta que te permite comprar muitas coisas. Mas renda normalmente é uma fonte de sucesso financeiro temporário.

O problema da renda alta é que ela cria uma falsa ilusão de riqueza. Renda é um conceito temporário, enquanto riqueza é um conceito permanente. Então não basta ter renda alta para ser rico. Se você tiver uma renda alta e for gastão, você provavelmente está mais próximo da falência do que da riqueza.  

O melhor exemplo para mim é a Rihanna. Uma das cantoras mais famosas do mundo, que já faturou milhões de dólares e mesmo assim foi à falência em 2009. Quando ela processou o seu consultor financeiro, a defesa dele foi simples: “eu não sabia que precisava explicar para ela que se você usar todo o seu dinheiro para comprar coisas, você vai acabar cheio de coisas e sem dinheiro”.

A Rihanna não é o único exemplo disso. A mídia está cheia de histórias de celebridades e de jogadores de futebol que foram à falência quando “se aposentaram”.

Um jogador de futebol que fecha um contrato para receber R$1 milhão por mês, precisa ter a consciência de que ele não ficou rico, ele apenas tem uma renda alta. E essa renda costuma ser ainda mais temporária nos esportes. Se ele aprender a viver com apenas 30% do seu salário, que seria uma quantia absurda de R$300mil por mês, então em 10 anos ele atinge a independência financeira. Isso significa que os 10 anos de carreira foram suficientes para manter um padrão de vida de R$300 mil por mês pro resto da sua existência, e ainda deixar um patrimônio intacto para os herdeiros.

Mas o que a grande maioria faz? Compra uma mansão de milhões, gasta absurdos com marcas de luxo. E então termina a carreira falido.

E o exemplo dos jogadores pode ser extendido para qualquer pessoa que ganha bem. Qualquer pessoa com renda alta que opte por ostentar um padrão de vida compatível com a sua renda, acaba na ruína financeira e ao invés de rica.

É uma questão simples de matemática: se você gastar tudo que ganha, você acaba com ZERO dinheiro.

O mais curioso é que a grande maioria das pessoas que ostentam um padrão de vida luxuoso não tem ativos financeiros, propriedades que geram renda ou próprios negócios. Elas apenas aparentam ser ricas.

E como eu sei disso? Porque 66% das pessoas que dirigem uma Mercedes não são milionárias. Essa estatística veio de um dos livros mais interessantes já escritos sobre os ricos (na minha opinião).

 O milionário mora ao lado

Esse livro é uma das bíblias da comunidade de independência financeira.

Eu li pela primeira vez em 2016, e sempre revejo as estatísticas quando quero ganhar um argumento do tipo “tal pessoa é gastona ao invés de rica” com meus amigos.

Quando eu li em 2016, o livro serviu como um grande alívio de que o caminho que eu estava começando a traçar era sim o caminho mais certo para a riqueza.

Sempre que preciso descrever o livro para alguém eu o faço assim “Ele foi escrito por dois pesquisadores que foram contratados por uma empresa para avaliar as necessidades dos deca-milionários. Essas são pessoas que têm pelo menos 10 milhões de patrimônio. Eles reuniram um grupo de deca-milionários para começar a levantar as principais questões. Como eles queriam que esse grupo se sentisse confortável durante a entrevista, eles compraram um vinho da melhor qualidade, mas quando foram servir o vinho, um dos deca-milionários respondeu “eu só bebo dois tipos de cerveja: grátis e Budweiser”. Foi aí que os pesquisadores perceberam que o típico deca-milionário é muito mais frugal do que o nosso imaginário coletivo.”

O livro é recheado de estatísticas interessantes. Uma das minhas favoritas é que os milionários gastam em média menos de 1% da sua riqueza em carros e menos de 10% na casa em que moram. Um valor bem abaixo do americano médio, que costuma gastar 30% da sua riqueza em carros e 85% no imóvel em que vive.

As estatísticas são americanas, mas provavelmente é fácil traçar um paralelo no Brasil. Menos de 5 milhões de brasileiros investem na bolsa, mas cerca de 2 milhões de carros novos são vendidos por ano no país . Ou seja, a gente tem mais brasileiros dirigindo carros com menos de 3 anos de idade do que investidores na bolsa.

O que é riqueza?

As pessoas famosas e herdeiras, que realmente podem sustentar um padrão de vida luxuoso e ainda assim continuarem ricas, são uma minoria.

A grande maioria dos verdadeiramente ricos são pessoas que levam um estilo de vida simples, como o livro deixa claro. Elas provavelmente tiveram renda alta em algum momento da vida, mas gastaram pouco dessa renda. O que sobrava, elas investiam. E investindo ao longo do tempo elas se tornam ricas.

Riqueza é ter muitos ativos que geram renda.

E que ativos são esses? Títulos de renda fixa, ações, propriedades alugadas, entre outros. Por exemplo, quando você compra um título do Tesouro Direto ele te gera renda na forma de juros. Ou quando você investe na bolsa, você recebe renda através dos dividendos. Ou quando você compra um imóvel para alugar (e não para morar), isso também é um ativo que te gera renda na forma de aluguéis.

As pessoas ricas são aquelas que sentem muito mais prazer em acumular ativos do que ostentar um estilo de vida gastão. Afinal de contas, uma Mercedes é muito mais um passivo que te gera despesas e que deprecia ao longo do tempo, ao invés de um ativo.

Mas quanto você precisa para ser considerado rico?

O livro dá uma fórmula simples:

Multiplique seu salário anual bruto pela sua idade e divida por 10. Esse é o valor que você deve ter de patrimônio (ativos que geram renda).

Se você estiver acima disso, você é considerado um bom acumulador de riqueza. Se estiver abaixo disso, você provavelmente está gastando mais do que deve.

Eu gosto dessa fórmula por um simples motivo: ela não é uma fórmula relativa aos outros, ela só depende de você.

Medir a sua riqueza relativamente é um jogo de perdedor. Todo mundo é mais pobre que alguém, com exceção do homem mais rico do mundo.

Se nós brasileiros formos medir a nossa riqueza relativamente aos nossos amigos nos países ricos, nós provavelmente vamos nos sentir pobres. Ou se você tentar medir a sua riqueza se comparando com aquele seu amigo herdeiro, você também vai se sentir pobre.

E eu ouso ir ainda mais além. Para mim, a riqueza vai muito além de um número específico. Riqueza é sobre como você vive.  

Como diz o Tim Ferris, “ninguém sonha apenas com um milhão no banco, a gente sonha com o estilo de vida que um milhão supostamente nos permite”.

Mas quantas pessoas que estão entre os 1% mais ricos do país têm autonomia para viver a vida que desejam? Quantas não estão aprisionadas ao estilo de vida que elas supostamente devem viver? Em manter um emprego pelo status?

A riqueza para mim é ter autonomia. É poder ter liberdade criativa. É poder ter os dias livres para cuidar do seu corpo, da sua mente, dos seus relacionamentos. É sobre ter tempo livre para perseguir a sua curiosidade. É sobre não depender de um emprego. É sobre ter independência financeira.

Eu costumava falar qual era a minha meta de patrimônio para alguns amigos que estavam curiosos sobre a minha trajetória de independência financeira. E a maioria deles respondia “é muito pouco”. E sim, talvez para eles fossem. Mas não para mim. Não para o estilo de vida que eu queria ter.

Ser rico leva tempo. Acumular um patrimônio que te permita viver de renda é um jogo de longo prazo. Mas você pode usar esse tempo a seu favor. Use esse tempo para se conhecer e desenhar a vida que faz sentido para você. Muito provavelmente você concluirá que várias coisas que as demais pessoas possuem, não fazem sentido para você. Eliminando essas coisas, a sua independência financeira chega mais rápido. E você pode concluir que ser rico requer muito menos do que você imaginava.  

Não perca nenhum post!

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Aposentada aos Trinta

8 comentários em “A diferença entre ser rico e ter renda alta

  1. AoT!
    Mais um post maravilhoso. Procurei o livro depois do seu post e é realmente fantástico. Referência no mercado americano (aliás foi recentemente atualizado na edição americana)
    Super instrutivo, fatos e dados! Adoro =)
    Quanto mais leio e consumo conteúdo FIRE, tenho mais certeza que estamos no caminho certo.
    Parecer rico e ser rico tem uma diferença muito grande!!!
    E na verdade concluo q não quero ser rica, quero ser livre!!!!
    Parabéns pelo blog

    1. Curiosa mesmo, mas pra mim nao vale nada pq nao acho que deveria ser baseado em quanto vc ganha mas em qto vc gasta.
      se vc ganha 100 e só gasta 50, como fica? pois é

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