A vida de aposentada como ela é

Eu imagino que vocês tenham curiosidade sobre como é uma vida de aposentada com apenas 30 anos de idade. E já adianto que é uma vida incrível.

A minha rotina durante a semana é tão prazerosa, que eu mal posso esperar pela segunda-feira. E de pensar que eu já tive um blog chamado “Sempre Sábado”. Mas a verdade é que os finais de semana são dedicados a atividades sociais. Encontrar os amigos, ir a festas de aniversários, casamentos, batizados, almoços com as famílias. Então meus sábados são gostosos, mas confesso que a segunda-feira tem sido muito mais especial. A sensação de ter 5 dias pela frente para você preencher como quiser é das mais libertadoras que já senti.

Vivendo o meu máximo potencial

Quando eu me aposentei, uma amiga comentou “você finalmente vai viver a vida no seu máximo potencial”. Se você ler livros sobre felicidade (um conceito que me fascina) vai perceber que a fórmula para ter qualidade de vida não muda muito. Você precisa se exercitar, se alimentar bem, trabalhar por um propósito e ter boas relações interpessoais. Só que essa fórmula precisa de um componente básico: tempo.

Quando eu trabalhava, era um pouco frustrante ler sobre felicidade, compreender os conceitos, mas simplesmente não ter tempo para colocá-los em prática. Agora essa é a prioridade número 1 da minha vida. E eu realmente sinto que estou mais próxima de viver a vida no máximo do meu potencial.

Eu tenho apenas uma regra pro meu dia: me pagar primeiro. Então logo que eu acordo, eu foco em fazer tudo que é importante pra mim. Tomar café da manhã com meu marido e meditar. Treinar meus vocalizes (estou fazendo aula de canto 1 vez por semana), fazer aula de violão e aula de francês de graça pelo YouTube. Malhar e cozinhar meu almoço. E só depois de me pagar antes, eu checo meu celular. Quando o vício na dopamina fala mais alto e eu abro o WhatsApp antes de me pagar, eu sempre me arrependo. Normalmente tem alguma mensagem que pode desviar meu foco de mim mesma e mudar o tom do meu dia.

Aprendendo coisas novas

Estudar coisas novas tem sido particularmente interessante. Eu sempre quis aprender a cantar. Quando pequena, eu me trancava no quarto e dava um show para mim mesma. Eu cresci e essa alegria de fingir que sou uma pop star nunca me abandonou. Até hoje, quando meu marido vai sair com os amigos, eu aproveito que tenho a casa só para mim, e fico cantando e dançando pela casa. Dizem que o que a gente faz sozinho diz muito sobre nós. Então eu decidi dar mais atenção a esse desejo. Eu canto desde os 6 anos de idade, mas canto pessimamente desde os 6 anos de idade. Já cantei na frente de outras pessoas e elas confirmaram que eu não tinha o dom.

Comecei a pesquisar técnicas de canto, e descobri que não é apenas uma questão de dom e sim de treino. Decidi investir em aulas de canto presenciais e o resultado tem sido surpreendente. Eu estou treinando há 4 meses, mas já me sinto bem mais afinada. Para acrescentar, estou fazendo aulas gratuitas de violão pelo Youtube, que tem sido eficientes. Já consigo tocar algumas músicas de cabeça e com alguma afinação. Ainda longe de ser uma Taylor Swift (minha musa), mas meus shows particulares têm ficado muito mais gratificantes.

Aprender algo novo requer tempo, e essa é uma vantagem incrível de ser uma aposentada jovem. Em pouco tempo, você percebe algumas mudanças e o seu cérebro já faz novas sinapses. Nos primeiros dias parecia impossível tocar qualquer acorde no violão, mas hoje já consigo tocar mais de dez. Só que talvez demore uns 10 anos para ficar realmente boa no violão. E tudo bem porque eu só terei 44 anos de idade. Tenho minhas dúvidas se a minha motivação seria a mesma aos 65 anos, sabendo que eu só ficaria boa mesmo aos 75 anos.

Liberdade criativa

As minhas tardes são dedicadas a criatividade. Estou criando uma empresa do zero que é muito alinhada com o meu propósito. O lado bom de criar uma empresa com independência financeira é que não tem pressa para ela dar certo. Então se o dia tá chuvoso, se eu tô com preguiça ou se sai no dia anterior com minhas amigas e tô de ressaca, eu me permito ficar de bobeira no sofá até me sentir melhor. Sem peso na consciência.

Essa liberdade criativa é algo muito importante para mim. Quando eu trabalhava, sempre que eu tinha uma ideia e comentava com meu chefe, ele normalmente queria modificar minha ideia para algo que ele achava melhor. E isso matava minha criatividade. Quando eu quero fazer algo, eu faço com energia. Quando eu tenho que fazer algo, eu cumpro com o mesmo entusiasmo que eu lavo a louça.

Eu sempre ouvi que era importante não se aposentar de algo, mas para algo. E foi assim que surgiu a ideia da minha empresa. Fiquei pensando com o que eu gostaria de trabalhar, independente do salário, e a resposta foi clara para mim: uma consultoria financeira. Ajudar as pessoas a cuidar melhor do dinheiro.

A minha dica é que quando você achar algo que te motive, aproveite ao máximo esse impulso criativo porque eles costumam durar pouco. Um bom exemplo é o álbum do Mamonas Assassinas, que eles escreveram em apenas uma semana. Quando eu tive a ideia da consultoria, eu passei mais de um mês acordando às 4h da manhã para trabalhar no meu projeto antes de ir pro trabalho. E nesse tempo eu criei boa parte do material da consultoria que uso até hoje. Depois ofereci a consultoria para alguns amigos e familiares para colocá-la a teste, e vi que funcionava. Passei alguns anos tocando a consultoria de forma paralela ao meu trabalho. Hoje posso dedicar mais parte do meu tempo e os frutos tem sido maiores. Sinto que finalmente estou trabalhando com propósito, com a vantagem de uma renda extra. 

É mais fácil resolver problemas quando você tem tempo

Os seus problemas não vão acabar com a vida de aposentada. Já li em alguns blogs pessoas frustradas com a vida FIRE. Afinal de contas, você se esforçou anos para conseguir se aposentar e finalmente atingir o nirvana, e de repente se pega gastando tempo para consertar um encanamento que estourou.

Mas você vai perceber que é muito mais fácil resolver problemas quando você tem tempo. Recentemente meu pai sofreu um acidente e caiu de uma altura de mais de 2m. Ele quebrou o tornozelo, duas costelas e sofreu cortes profundos no rosto que provavelmente vão precisar de uma intervenção estética (ele é um senhor vaidoso!). Passar alguns dias com meu pai internado no hospital não é a minha ideia de diversão. Mas a vantagem é que eu não preciso me preocupar com o trabalho. Não tem chefe me ameaçando de demissão se eu me ausentar por algumas semanas para ficar com ele. Quando ele não tinha certeza de que fazer uma cirurgia no tornozelo é a melhor decisão, eu tinha tempo para levá-lo a um outro médico para ouvir uma segunda opinião. E cada vez que eu uso meu tempo para trazer qualidade de vida para uma pessoa tão importante para mim, eu sinto de novo que estou vivendo minha vida no máximo potencial.

A filosofia estoica prega que tudo que temos é nossa capacidade de lidar com a situação presente. Viver no momento presente faz com que o nosso foco migre para o que podemos controlar e saia da ansiedade em relação ao futuro. Quando eu trabalhava, acordei um dia e vi que tinha uma infiltração no meu banheiro. Mas eu precisava ir para o trabalho porque tinha um chefe intolerante com atrasos. Voltei para casa só de noite e dei de cara com o teto do meu banheiro no chão. A infiltração foi tão grande, era tanta água, que o teto de gesso não aguentou um dia inteiro. Nem preciso dizer que deu muito mais trabalho para consertar porque eu não priorizei. Naquela época ficou claro que eu precisava mudar as prioridades da minha vida. E que a independência financeira era o caminho certo para mim.

Hoje sou muito agradecida à minha versão de 2015 que decidiu traçar esse plano de aposentadoria precoce. Eu nutria uma certa admiração pelas pessoas que eram nômades digitais, que liam um livro por semana e que não faltavam na academia por nada nesse mundo. Mas eu queira ser eles e não ter que me preocupar com o dinheiro. Seja qual for o seu sonho, seja qual for a sua vontade, realizá-la sem a preocupação com dinheiro é muito melhor.

Eu também sinto que inverti os pesos da balança entre tempo e dinheiro. Eu passei os últimos anos desequilibrada do lado do dinheiro. A renda era alta, mas eu não tinha tempo para mais nada além do trabalho. Hoje a renda é bem menor, mas o suficiente para cobrir meu custo de vida. Já tempo, eu tenho de sobra. Talvez um dia essa balança se modifique de novo. Mas hoje sou grata por poder ter essa experiência. Quantas pessoas não vão passar a vida inteira com o lado da balança desequilibrado para o dinheiro, e sem dar importância alguma para o tempo?

Não perca nenhum post!

Aposentada aos Trinta

7 comentários em “A vida de aposentada como ela é

  1. Fiz uma pergunta no seu outro post sobre a vida de aposentada. E só agora eu vi que tem um post sobre o assunto.
    Em relação aos seus investimentos, vc não dedica nada de tempo a eles? Nem que seja pra avaliar novas oportunidades!

    Em relação aos seus imóveis, esses não te demandam tempo?

    1. Oi Paulo!

      Como eu trabalho como consultora de investimentos, eu sempre estou atenta a novos produtos. Foi assim que descobri as LIGs! Mas isso ocupa muito pouco do meu tempo.

      Como a vida FIRE é nova, eu ainda faço balanços mensais só para avaliar a evolução da carteira. Mas com o tempo, conforme eu tiver mais segurança de que o patrimônio é suficiente, provavelmente vou espaçar esses balanços em trimestres e quem sabe até em anos. Mas desde que atingi minha meta FIRE, não fiz nenhuma alteração relevante de composição. Acredito muito na estratégia “buy and hold” e sigo respeitando a regra dos 4% para os saques.

      Os imóveis não demandam tempo. Demandaram um tempo para alugar (tirar as fotos, negociar com as imobiliárias, receber os inquilinos). Desde então estão alugados para pessoas que não demandam nossa atenção. Talvez a gente tenha dado sorte aqui!

  2. Parabéns pelo relato. Tenho 30 e poucos e o que tenho investido paga meu custo básico de vida. Provavelmente irei vender a participação em uma empresa que me possibilita viver a vida fire. Não penso em parar de produzir, mas anseio com o dia que poderei acordar e caso seja da minha vontade ficar apenas lendo. Escrevo neste momento com aparelhos medidores de pressão em meu braço resultado de 10 anos interruptos de trabalho e estresse. Continue com o conteúdo, seu texto me ajudou muito.

    1. Oi Andi!

      Parabéns por já ter acumulado um patrimônio que te dá a liberdade. O que te falta para abraçar a independência financeira?

      Parar de produzir na nossa idade é impossível. Faz parte do nosso impulso humano. Mas é bem mais leve quando você não depende do salário.

      Boa sorte com essa questão da saúde. Infelizmente a gente vende não só nosso tempo, mas nossa saúde ao trabalho também. O lado bom disso tudo é que você já está com uma rota de saída para uma vida mais saudável.

      Fico feliz que o texto ajudou!

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