Nude dos investimentos da Aposentada – Parte 1

Minha carteira de investimentos é simples. Mas para simplificar ainda mais vou dividir a explicação em 3 partes: ativos financeiros no Brasil (parte 1) e no exterior (parte 2) e investimentos em imóveis (parte 3).

Nesse momento meu patrimônio está 50% em renda fixa no Brasil, 25% em renda variável no exterior e 25% em imóveis. Minha meta é migrar para algo como 1/3 em cada uma dessas caixinhas num futuro próximo. 

Ah, vale um alerta aqui para os novatos em finanças pessoais. Eu tenho uma reserva de emergência equivalente a 12 meses dos meus gastos mensais em um CDB com liquidez diária. Assim não me preocupo com falta de liquidez, períodos de baixa do mercado e falta de inquilinos. A reserva de emergência é o passo que antecede a construção de uma carteira de investimentos.

Carteira de ativos financeiros no Brasil

Meus investimentos financeiros no Brasil estão concentrados em renda fixa. O principal motivo para isso é a previsibilidade de retorno.

A principal pergunta de quem quer viver de renda é “qual vai ser o retorno futuro dos meus investimentos?” E isso já foi respondido no post anterior sobre a regra dos 4%. É muito difícil (ou talvez impossível) prever o futuro. Então acredito que 4% é um bom guia futuro do melhor cenário possível de ganho além da inflação.

Esse ganho além da inflação é um ponto muito importante. Você não quer ver o seu poder de compra sendo corroído pela inflação durante a aposentadoria. Para isso você deve usar apenas os juros reais para pagar as suas contas. O jeito mais simples de explicar juros reais é fazendo o paralelo com aluguel de imóveis. Quando você investe em um imóvel para alugar, o único dinheiro livre para você usar é o valor do aluguel. Já o valor que você investiu na compra do imóvel você só pode usar se vendê-lo. Ou seja, o aluguel são os juros reais do investimento em imóvel. E esse aluguel é protegido pela inflação porque em geral os preços dos aluguéis sobem em linha com a inflação.

Mas voltando à regra dos 4%, se 4% é uma boa estimativa de retorno real futuro, eu compro feliz ativos de renda fixa que rendem pelo menos IPCA+4%. Se você investe em um ativo que te paga IPCA+4%, então você sabe que pode usar esses 4% todo ano para pagar suas contas. E basta multiplicar seus gastos anuais por 25 (1 dividido por 4%) para saber quanto precisa investir para viver de renda. Ou seja, se você gasta R$50 mil por ano, então precisa de R$1.250.000,00 investido em algo que renda IPCA+4% para viver da renda.

Apenas investimentos em renda fixa te garantem um retorno futuro. Esse é um ponto por vezes ignorado por algumas estratégias de investimentos. Dividendos são retornos passados, não há garantia no futuro. Assim como a renda mensal de fundos de investimentos imobiliários. Investimentos em renda variável não tem garantia de retorno futuro. Como a minha prioridade é viver de renda, eu durmo tranquila com a previsibilidade que os ativos de renda fixa têm.

Mas e o imposto de renda?

O imposto de renda tem que ser uma preocupação central para quem investe em renda fixa, mas hoje ele é facilmente evitado. Eu evito minha preocupação com impostos priorizando investimentos em ativos que não tem incidência de IR, como LCI, LCA e LIG. Ou seja, não são só dividendos e fundos imobiliários que têm isenção de IR.

A questão do imposto é preocupante porque quando você investe em CDBs ou Tesouro Direto, você paga imposto de renda também sobre a inflação. Isso porque o IR é descontado do ganho nominal, não apenas do ganho real. E isso é muito relevante para calcular o valor que sobre para você viver de renda, ou seja, o seu retorno real líquido.

Por exemplo, se você investe em um CDB que rende IPCA+6% e a inflação for de 5%, seu ganho nominal foi de ~11%. Se esse IR for de 15%, então seu retorno real líquido de IR é de 4,46%. Mas se a inflação for de 10%, seu retorno real líquido de IR cai para 3,27%.

No caso do Tesouro Direto é ainda mais complicado porque precisa considerar a taxa de custódia, que também incide sobre o aumento da inflação. Eu fiz uma calculadora de renda fixa que está na planilha anexa para ajudar. Basta fazer uma cópia que você consegue editá-la.

Assim, como a inflação futura é incerta, fica mais difícil prever o retorno real do seu investimento quando tem incidência de IR. E mais uma vez, a previsibilidade de retorno é a chave de uma aposentadoria tranquila.

É por isso que eu concentro meus investimentos em LCI, LCA e LIGs que não têm incidência de IR. Quando você compra uma LIG que rende IPCA + 5%, então você pode ter certeza que vai receber 5% de juros reais líquidos, independente da inflação. Como não tem IR, o juros real líquido não diminui quando a inflação é mais alta.

Eu tenho uma parcela pequena dos meus investimentos no Tesouro Direto. E a única razão para isso é o longo prazo. É quase impossível encontrar ativos de renda fixa com vencimentos acima de 10 anos, enquanto no Tesouro Direto dá para garantir a rentabilidade por 30 anos. Quando há picos de juros no Tesouro Direto, como aconteceu esse ano, eu aproveito para comprar ativos com prazo mais longo. Em um prazo de 30 anos, a melhor aposta é que a inflação futura vai oscilar em torno da meta de inflação. Então fica mais fácil fazer a previsão de juros real futuro líquido de impostos.

E a falta de liquidez?

Você não vai achar títulos que rendem IPCA+4% com liquidez diária. Então você vai precisar esperar pelo vencimento desses títulos para usufruir do dinheiro na aposentadoria. Para contornar a falta de liquidez da renda fixa, você deve investir em títulos com diferentes prazos de vencimento.

Essa é uma vantagem da espera pela aposentadoria. Se a sua aposentadoria demorar 10 anos para chegar, então você pode investir tranquilamente em títulos que vencem só lá na frente. Enquanto você está trabalhando, você usa o seu salário para pagar as contas. Quando eu comecei a construir minha carteira de aposentada em 2015, eu investi em ativos que iam vencer só em 2022. Depois, em 2016, eu investi em ativos que iam vencer só em 2023. E assim por diante. Em 2022, quando liquidou o investimento que eu fiz em 2015, eu usei uma parte para pagar as minhas contas, e reinvesti o restante para vencer em 2029.

Algumas pessoas gostam de investir em fundos imobiliários por conta da renda mensal. Mas eu acho arriscado colocar sua aposentadoria nas mãos de terceiros (existe uma gestão ativa por trás desses fundos) e, mais uma vez, não ter previsibilidade de retorno.

Mas e o risco?

Os investimentos em LCI e LCA contam com a garantia do FGC. E eu sempre respeito os limites do FGC por instituição. Então considero esse risco de crédito bem baixo.

A LIG não conta com a garantia do FGC, mas conta com a garantia real da carteira de crédito imobiliário do banco. E como eu só tenho LIG de banco grande, então o risco de crédito também é bem baixo.

O risco do investimento no Tesouro Direto é o governo federal dar um calote. Esse risco é o principal motivo dos meus investimentos fora do país. Eu não me sentiria mais segura sendo sócia de empresas brasileiras numa situação em que o país dá um calote na dívida interna. Então a única diversificação razoável para esse risco é investir lá fora.

Eu não invisto em debêntures, CRI e CRA. Como não tem garantia do FGC, o risco de crédito é elevado. Eles são isentos de imposto de renda, mas LCI e LCA também são e contam com a garantia do FGC. Então LCI e LCA é a escolha mais óbvia para mim.

E se os juros caírem?

É perfeitamente possível que em algum momento futuro eu não encontre mais ativos que rendem pelo menos IPCA+4% líquido de impostos. E é por isso que eu só me aposentei quando eu tinha uma margem de segurança. Ou seja, eu não me aposentei pensando em retirar 4% dos meus investimentos, mas sim 3%. Assim, enquanto houver ativos que rendem pelo menos IPCA+3% líquido, eu estarei contente com essa estratégia.

Mas o Brasil pode dar certo. Os juros da renda fixa estão diretamente relacionados com o nosso desenvolvimento como país. E eu sei que em época de eleições é arriscado dizer isso, mas eu acredito que estamos evoluindo como nação. Se você eliminar todo ruído da mídia e das redes sociais, e olhar de uma forma mais ampla as reformas aprovadas no país nos últimos anos, vai ver que a maioria delas foram positivas. Reforma da previdência, reforma trabalhista, marco do saneamento, autonomia do Banco Central, essa última a mais importante quando o assunto é juros.

Então quando o Brasil der certo, e não houver mais título de renda fixa pagando pelo menos IPCA+3% líquido, aí sim eu vou começar a migrar meus investimentos para renda variável. E claro, vou investir de forma passiva, comprando um ETF de Ibovespa com a menor taxa de administração possível.

Investir para viver de renda VS apostar para ficar rico

Buscar um retorno real líquido de 4% pode parecer pouco, mas saiba que existe uma diferença entre investir para viver de renda e apostar na chance de ficar muito rico ou ficar rico muito rápido.

O mundo dos investimentos está recheado de pessoas ensinando estratégias complicadas. Um giro pela #investimentos no Instagram é de deixar qualquer um confuso. Método Barsi, COEs, value-investing, criptomoedas. Então é quase irresistível achar que se a gente sentar a bunda na cadeira e estudar direitinho, a gente vai conseguir bolar uma estratégia de investimentos vencedora. Não acho que seja impossível ficar rico assim, só acho que a probabilidade é baixa.

A sorte vai precisar estar do seu lado se você optar por estratégias de investimentos mais complexas e arriscadas. O blogueiro Viver de Renda fez um milagre com o patrimônio dele acertando na mosca a hora de entrar e sair do Bitcoin. Mas ele realmente fez uma aposta que se mostrou acertada, e não um investimento. Conheço algumas pessoas que perderam quantias não desprezíveis apostando em Bitcoin. Na tentativa de ficarem ricos rapidamente, eles acabaram pobres.

Você não precisa acreditar apenas em mim. Se quiser ouvir pessoas mais renomadas que eu, leia o livro O investidor de bom senso do John Bogle, ou The quest for alpha do Larry Swedroe, ou simplesmente leia a série gratuita Stock Series do JL Collins, o guru da carteira de investimentos da comunidade FIRE norte-americana e européia.

Não é fácil fechar os olhos para essa gritaria da turma do “fique rico rápido”, mas o importante é não perder o foco do seu objetivo final. Para mim, a meta era garantir minha aposentadoria precoce. E sim, foi difícil em 2016 quando eu vi que poderia ter multiplicado em 10 o meu patrimônio se eu tivesse apostado nas ações da Magalu. O que me ajudou foi ver que pelo menos eu não tinha perdido todo meu patrimônio apostando nas ações da Oi.

E hoje a meta é viver da renda dos meus investimentos e não correr grandes riscos de ter que voltar a trabalhar por conta da incerteza com meus investimentos.  Mais uma vez, a previsibilidade de retorno é a melhor amiga de quem quer viver de renda. E investir em ativos de renda fixa no Brasil são uma ótima opção para isso.

É importante diversificar, afinal de contas essa é a melhor amiga do investidor. Mas você não precisa ter todo tipo de ativo financeiro para ter uma carteira bem diversificada. A melhor diversificação para mim é de fronteiras, moedas, e entre ativos reais e financeiros. E foi com base nisso que eu criei minha carteira de renda fixa Brasil, com renda variável lá fora e de imóveis, que eu explico nos próximos posts.

Não perca nenhum post!

Aposentada aos Trinta

13 comentários em “Nude dos investimentos da Aposentada – Parte 1

  1. Super obrigado pela série de investimentos. Maratonei.
    Queria pedir apenas uma ajuda: aonde você costuma achar boas LCI/LCAS, por qual corretora? Obrigado, e grato mais uma vez!

  2. Olá, e aqueles títulos do tesouro com ipca pagamento de juros semestrais? No começo o IR é mais pesado, mas pode ser uma boa? Faltam 12 anos no meu plano
    😅

    1. Eu gosto de uma carteira simples com alocação só no Tesouro Direto. Mas ela vai render menos. E tem a questão da inflação que eu mencionei acima, se a inflação for muito alta, você pode perder todo ganho real pro pagamento de imposto.

      Boa jornada FIRE pra você! Provavelmente você vai chegar lá antes dos 12 anos, mas ainda assim, parabéns por ter uma plano de apenas 12 anos quando a maioria se conforma com 30!

  3. que legal que vc abriu esse novo blog, eu gostava muito do “sempre sábado”. vou acompanhar essa sua nova fase aqui. e a muquirana, também continua escrevendo?

    parabéns e continue nos brindando com informação de qualidade.

  4. Maravilha. Olha uma LCA/LCI que pague IPCA+4% ou mais é a melhor coisa do mundo!!! Sem IR e inflação garantida! Nao precisa colocar nenhum centavo na bolsa para ser FIRE. Só no Brasil existe isso!

  5. Excelente está não só esse post, mas o blog inteiro. Parabéns e obrigado.

    Poderia falar um pouco mais sobre as LIGs? Por que corretora/banco você tem investido nelas? Quais as taxas médias e os prazos que tem conseguido? Está satisfeita?

    1. Oi Paulo! Obrigada pelos parabéns!

      Eu comprei LIG do Itaú pelo próprio banco, e LIGs do Bradesco pela Ágora.

      O Itaú não tem emitido nos últimos meses porque está sem lastro, mas já deixei meu gerente do banco avisado. Mas por lá eles chegaram a emitir LIG para 2035, pagando IPCA+5%. Para risco Itaú, eu acho excelente.

      Na Ágora você ainda acha as LIGs do Bradesco. Tem que entrar entre 11h-15h, e só tem no site, não tem no app. Lá tem LIG vencendo em 3, 5 e 7 anos. Taxa depende do dia mas eu consegui em média IPCA+5,5%. Mais uma vez, para risco Bradesco, também acho excelente.

      Estou bem satisfeita!
      Essas LIGs mais longas do Itaú vão me ajudar a manter a minha estratégia de investir em RF por pelo menos 13 anos, o que me deixa mais segura na aposentadoria!

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