“Minha inflação pessoal não é o IPCA”

Já antecipo que, para os leitores sensíveis, esse post contém ironia e uma pitada de sarcasmo. Afinal, não dá para falar sério quando alguém solta a pérola de que “não investe em IPCA porque a inflação dele não é o IPCA”. Ah, obrigada pela revelação genial — ninguém nunca tinha percebido que o índice oficial não é um raio-x perfeito do seu carrinho de compras ou da sua rotina de gastos.

O que me irrita nesse tipo de argumento não é a constatação óbvia de que cada um tem sua inflação pessoal. Basta juntar lé com cré para perceber. O que incomoda é usar essa desculpa para desprezar a renda fixa atrelada à inflação, como se fosse um investimento inútil. Aí fica claro que não entenderam nada do que venho escrevendo até hoje.

Essa frase sempre me provoca um curto-circuito emocional: raiva, frustração, vontade de largar tudo e me mudar para uma cabana no mato sem Wi-Fi. Em parte porque ela revela o que me parece um fenômeno cada vez mais comum: a ascensão dos especialistas de vídeos curtos. Gente que assiste a um vídeo de cinco minutos e sai achando que desvendou os segredos do mercado financeiro.

Mas vamos lá. Hoje eu quero destrinchar esse argumento — ou melhor, esse autoengano — com calma (ou quase). Porque, apesar de parecer razoável à primeira vista, ele simplesmente não se sustenta. E eu vou te mostrar por quê.

1. Inflação é um conceito estatístico complexo (e a sua também é)

Vamos começar pelo começo: você tem certeza que sabe qual é a sua inflação?

A inflação medida pelo IPCA é um índice estatístico composto, com metodologia séria, calculado com base em uma cesta de bens e serviços representativa da população. É claro que não reflete exatamente a realidade de todo mundo — mas é o melhor termômetro que temos. 

E, francamente, achar que você consegue medir melhor a sua inflação com base no que sentiu na ida ao mercado ou na renovação do plano da escola das crianças é, no mínimo, pretensioso.

Mais do que isso: é muito pouco provável que você esteja mantendo exatamente o mesmo padrão de vida ao longo do tempo. Na verdade, o mais comum é o contrário. É ir trocando o supermercado do bairro por um mais gourmet, descobrindo restaurantes charmosos, comprando roupas em marcas que antes nem olhava.

E aí vem a ilusão: você sente que tudo está mais caro, quando na verdade está apenas gastando mais porque escolheu (ou foi levado a) consumir produtos e serviços mais caros. Isso tem nome: inflação do estilo de vida.

A culpa não é (só) do IPCA. Muitas vezes, é do seu novo gosto por brunch em padaria artesanal.

2. A inflação é composta: ela se acumula

Outra confusão comum é a forma como as pessoas percebem o aumento de preços ao longo do tempo. Elas olham para o passado, comparam com os preços de hoje e concluem que “a minha inflação pessoal é muito maior do que o IPCA”. Mas, na maioria das vezes, o que elas estão sentindo é simplesmente o efeito composto da própria inflação oficial acumulada ao longo dos anos.

A inflação de 5% ao ano, por exemplo, não significa que depois de dez anos os preços subiram 50%. O cálculo não é linear. Na verdade, uma inflação de 5% ao ano por dez anos significa que os preços subiram mais de 62% no período. Em vinte anos, esse número salta para 165%.

Já entenderam a lógica, né? Não por acaso, o maior entusiasta dessa frase é um senhorzinho octogenário, daqueles que ainda acha que experiência de vida substitui estatística.

Ou seja: talvez não seja sua inflação pessoal que está “fora da curva”. Talvez você só esteja subestimando o quanto uma inflação constante, mesmo que aparentemente baixa, corrói os preços com o tempo.

Esse mal-entendido ficou especialmente evidente nas eleições de meio de mandato dos EUA, em 2022. As pesquisas mostravam que a inflação era uma das principais fontes de insatisfação da população. Muita gente culpava o governo da época pelo aumento do custo de vida, mesmo quando os índices de inflação já tinham começado a desacelerar.

Durante a pandemia, os Estados Unidos viveram um pico inflacionário, com aumentos expressivos nos preços de alimentos, combustíveis, aluguéis e uma série de bens essenciais. Depois disso, a inflação começou a cair — ou seja, os preços continuaram subindo, mas a um ritmo menor.

Mas o que muita gente esperava? Que os preços voltassem ao patamar pré-pandemia. Como se fosse uma gangorra: se subiu 10% num ano e caiu para 5% no outro, pronto, resolveu. Só que não é assim que a inflação funciona. E foi aí que a frustração começou.

O que as pessoas estavam sentindo no bolso — e culpando o governo por isso — não era a inflação do último mês ou do último trimestre, e sim o efeito acumulado de vários períodos inflacionários seguidos. Ou seja, o efeito composto da inflação. A matemática é implacável: uma inflação de 7% num ano, seguida de mais 6% no ano seguinte e mais 3% depois disso, representa quase 20% de aumento acumulado em três anos.

E a maioria das pessoas não percebe que é esse acúmulo que dói. Acham que o governo está “mentindo” porque o índice oficial mostra inflação de 3% no ano, mas a conta do mercado está 20% mais cara do que em 2020. E está mesmo. Porque 3% esse ano vem depois de 7% e de 6% — e tudo isso se soma.

Ou seja, não é que os números oficiais não refletem a realidade. É que a realidade inflacionária é acumulada, e muita gente não entende como isso se traduz no dia a dia. A sensação de que “tudo está mais caro” é verdadeira — mas isso não significa que a inflação atual esteja alta, e sim que ela já corroeu bastante o seu poder de compra nos anos anteriores.

3. Mesmo que sua inflação pessoal seja mais alta… o Tesouro IPCA ainda vence

Agora vamos supor que você ignore tudo o que escrevi até aqui. Que continue batendo o pé dizendo que a sua inflação pessoal é muito maior do que o IPCA. Que seu plano de saúde subiu 20% no último ano, a escola das crianças reajustou em 15%, e o IPCA de 5% parece piada.

Tá bom. E agora? O que fazer com essa indignação?

Existe algum investimento que te protege da sua inflação pessoal?

Porque é isso que muita gente ignora: mesmo que sua inflação esteja acima da média, não existe nenhum investimento no mercado que vá acompanhar a sua cesta de consumo exclusiva e personalizada. A sua “inflação da escola particular e do plano top do hospital” não é algo que o algum ativo financeiro precifique.

Alguns tentam recorrer a conceitos alternativos — como usar o crescimento da base monetária como proxy para inflação futura. Aqui já fica claro que faltou uma aula básica de economia. Primeiro porque a expansão da base monetária não se traduz automaticamente em inflação de preços. Ela também pode refletir crescimento real da economia. E mesmo que você insista nessa linha, qual investimento te protege da expansão da base monetária?

Olhando por essa perspectiva, fica claro que o argumento de que o Tesouro IPCA “não vale a pena” continua fraco — para não dizer incoerente. Porque quando olhamos os dados friamente, sem achismo ou impressão pessoal, vemos que nos últimos anos o Tesouro IPCA foi o ativo com melhor desempenho entre as opções mais comuns no Brasil.

Sim, melhor que o CDI. Melhor que o Ibovespa. Melhor que o IFIX. Melhor que a poupança, claro. E melhor, inclusive, que o Tesouro Prefixado. 

Se é ruim investir em Tesouro IPCA porque “sua inflação é maior”, então foi ainda pior ter deixado o dinheiro em qualquer outra classe de ativos. O argumento não para em pé: você está recusando um dos poucos instrumentos que, de fato, oferece alguma proteção automática contra a corrosão inflacionária — e trocando por ativos que historicamente se saíram ainda pior diante da inflação real.

Isso não significa que ele sempre vá render mais — mas sim que ele tem entregado uma ótima combinação de proteção contra a inflação e retorno real positivo. Em outras palavras, ele preserva seu poder de compra e ainda multiplica seu patrimônio. Quer mais o quê?

Por fim, um aviso carinhoso: não venha comentar aqui dizendo que “em caso de hiperinflação, o Tesouro IPCA vai dar rentabilidade real negativa” sem antes ler este post aqui. Eu até tento ter paciência, mas tem gente que insiste em repetir os mesmos argumentos rasos de sempre.

Investir bem é, acima de tudo, saber filtrar o que é ruído e o que é sinal. O Tesouro IPCA, com todos os seus defeitos e limitações, continua sendo um dos melhores instrumentos disponíveis para proteger seu patrimônio da corrosão dos preços. E se você ainda prefere ficar de fora porque “sua inflação é diferente”, tudo bem. Mas saiba que você pode estar perdendo dinheiro com um argumento que parece sofisticado — mas é só mal fundamentado.

Respostas de 12

  1. Aposentada, muito bom o seu texto, mais uma vez! De fato o conceito do juros composto não é claro para a maioria das pessoas.

    Sobre o Tesouro IPCA, eu até queria conseguir investir nele mas meu descontentamento com o Brasil é grande de mais pra me permitir colocar meu dinheiro a longo prazo em algo intrinsicamente atrelado à esse país. Posso estar cometendo um grande erro mas é assim que me sinto.

    Abraço!
    https://engenheirotardio.blogspot.com

    1. Muito obrigada! Entendo totalmente seu ponto — o sentimento em relação ao país influencia demais nossas decisões financeiras. Investir no Tesouro IPCA realmente exige aceitar estar atrelado ao Brasil por décadas. Não diria que é um erro, mas sim uma escolha que envolve alinhar risco, retorno e conforto emocional. Cada pessoa precisa encontrar o equilíbrio que faz sentido para si. Abraço!

  2. Muito bem apontado. Inclusive é muitas vezes possível driblar a inflação pelo efeito substituição, algo que muitos que adoram reclamar não estão dispostos a fazer, justamente porque se acostumam com um padrão de vida maior. O tesouro ipca longo é realmente fantástico, ele vira o jogo da inflação composta! Viva o renda+, grande iniciativa da STN. Aliás, podia ter um título perpétuo, rs. Virava herança pra família!

    1. Exatamente! O efeito da inflação composta nos títulos longos é incrível e realmente vira o jogo. E o Tesouro IPCA longo é imbatível nesse sentido. Viva o Renda+, grande iniciativa! Um título perpétuo seria quase uma herança eterna mesmo, rs.”

  3. Insvestir em título público IPCA + 7 por décadas, melhor investimento disponível no Brasil atualmente. Se as taxas baixarem olharemos para o exterior.

    1. Exato! Taxas acima de 7% no Tesouro IPCA realmente tornam esse título imbatível para quem quer segurança e proteção contra a inflação. Quando os juros caírem, aí sim vale reforçar a diversificação internacional para equilibrar risco e retorno.

  4. Tesouro IPCA com estas taxas de mais de 7% é uma maravilha! Neste momento não estou nem conseguindo comprar IVVB11 para diversificar patrimônio.

    1. Achei q era so eu que tava com dificuldade de ignorar as taxas atuais do tesouro. Queria diversificar no exterior, mas S&P nas máximas e o tesouro pagando mais de 7% de juros real com prazos longuíssimo, ta difícil nao fazer timing marketing.

      1. Totalmente, a tentação é real! Tesouro IPCA acima de 7% é praticamente impossível de ignorar. Por isso, faz sentido aproveitar essas taxas agora, mesmo que o plano seja diversificar no exterior depois. No longo prazo, o mais importante é manter consistência e equilíbrio na carteira, sem tentar adivinhar o topo ou o fundo do mercado.

    2. Com certeza! Taxas acima de 7% no Tesouro IPCA realmente são muito atraente, é um ótimo momento para aproveitar a segurança da renda fixa indexada à inflação. Mas, sempre que possível, vale manter uma parcela do patrimônio em ativos internacionais, como o IVVB11, para reduzir o risco Brasil e aumentar a resiliência da carteira no longo prazo.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *