Meu momento favorito das minhas idas à Disney é o show de encerramento do parque Magic Kingdom. O show atual se chama Happily Ever After. Mensagem típica de encerramento dos filmes da Disney, que agora eles transferiram para os parques. A mensagem é clara: “depois de férias aqui, vocês serão felizes para sempre!”.
Preciso dizer que essa mensagem é linda, mas enganosa? É claro que sinto uma alegria genuína de terminar um dia divertido de parque com um show de fogos de artifício ao som das músicas mais alegres da minha infância (e, não vou mentir, da minha vida adulta também). Mas a Disney não me engana mais. Eu sei que essa alegria não é para sempre. Às vezes ela já acabou antes mesmo de pousar em Guarulhos.
Muita gente já caiu em cima da Disney (e de Hollywood) por encenarem contos de fadas com finais de “e foram felizes para sempre…”. Mas a Disney não é boba. Ela sabe que assistir a filmes que passam essa mensagem alimentam o nosso desejo genuíno de sermos felizes para sempre. E que, portanto, sempre terá um público ávido para consumir esses filmes.
E tudo bem assistir a uma comédia romântica com final feliz de vez em quando. Essa anestesia temporária faz parte da vida, e talvez seja muito difícil viver sem ela. Mas acreditar na mensagem é outra coisa. E pior ainda é continuar vivendo achando que existe, sim, essa fórmula da felicidade eterna. Assistir aos filmes não é imaturo, mas guiar sua vida com base nas mensagens deles aí sim é um tanto quanto infantil.
A felicidade é um sentimento (será que podemos definir assim?) complexo. E, como eu ouvi recentemente, Freud falava sobre felicidade episódica. Gostei dessa definição porque ela deixa evidente esse aspecto da felicidade: a gente não conseguisse se agarrar nela para sempre. E o máximo que podemos esperar é viver alguns momentos de pura felicidade.
E por que? Porque a vida é cheia de possibilidades, algumas felizes outras tristes. E quando é o azar, e não a sorte, que cruza o seu caminho, o sofrimento vem. E leva embora com ele a felicidade. O lado bom disso tudo é que o sofrimento também é passageiro (já ouviu falar de adaptação hedônica?). Tirando os raros casos patológicos, nenhum ser humano sofre para sempre.
A vida é essa eterna gangorra entre alegria e sofrimento. E essa é uma analogia perfeita para os nossos investimentos.
A dor do rico
Recentemente, durante uma sessão de consultoria financeira, eu me vi fazendo o seguinte comentário para um casal de clientes: “agora que vocês têm dinheiro, vão precisar conviver com o medo de perder esse patrimônio”.
Quando a gente não tem dinheiro, ou gasta tudo o que tem, vive uma vida cheia de medos também. Mas não há o medo de perder patrimônio — porque ele simplesmente não existe.
Conforme a gente aprende a viver com menos do que ganha, começamos a acumular patrimônio. É claro que a vida melhora quando existe alguma reserva financeira: não é mais preciso se preocupar tanto com imprevistos, e surgem graus de liberdade para fazer escolhas.
Mas aí aparecem novas preocupações: como garantir que esse dinheiro nunca vá embora? Que ele fique sempre protegido da inflação? Que meus filhos recebam alguma herança?
Em resumo: como garantir que eu serei rico para sempre?
Essa pergunta, no fundo, revela que até a riqueza pode se transformar em prisão. Porque, em vez de viver o presente, o medo de perder consome o futuro.
A ilusão da garantia
O desejo de preservar nosso patrimônio para sempre é genuíno. Assim como é o desejo de ser feliz para sempre. E, assim como a Disney tenta nos vender que a fórmula da felicidade inclui encontrar um príncipe para te salvar, tem muita gente no mundo dos investimentos tentando vender príncipes por aí.
É bem provável que essa tenha sido a grande genialidade dos COEs. Hoje esse tipo de investimento já virou sinônimo de roubada, mas nem sempre foi assim. Quando eles começaram a circular, eu recebia materiais publicitários bem interessantes. A maioria tinha frases do tipo: “capital protegido”, “lucre com a alta do ativo, sem perder com a queda” ou “se o ativo subir você ganha, mas se o ativo cair você recebe o dinheiro investido de volta”. A mensagem principal era: “é um investimento em que você não corre o risco de perder seu dinheiro”. Ou seja, tocava diretamente no nosso desejo de ser rico para sempre.
Por sorte, os investidores evoluíram e começaram a perceber que perder dinheiro no mercado financeiro não é só ter rentabilidade negativa. Deixar de ganhar também é uma forma de perder. É o famoso custo de oportunidade.
Mas eu não duvido que o mercado volte a oferecer novos produtos assim. Produtos que prometem garantir o rico para sempre.
Mas isso existe? Tem gente que não investe em ações porque acha muito arriscado. Tem gente que não investe em Tesouro Direto porque tem medo do calote do governo. Tem gente que não investe nem na caderneta de poupança por conta dos congelamentos na década de 90, e prefere deixar todo o patrimônio em dólar, debaixo do colchão.
O mais curioso dessa história é que, uma vez, eu tive um cliente da consultoria que estava desesperado porque levou as notas de dólar que guardava debaixo do colchão desde o começo dos anos 2000 para uma viagem à África. Chegando lá, percebeu que as corretoras de câmbio não aceitavam seus dólares porque as notas eram antigas. Foi aí que bateu o desespero: será que ele ia perder esse dinheiro? A ironia é que, ao tentar se proteger de todos os riscos, ele acabou criando um risco novo, inesperado. A busca pela garantia absoluta muitas vezes nos coloca em situações ainda mais vulneráveis.
E me pergunto: quantos de nós não fazemos o mesmo? Tentando guardar riqueza de um risco, enquanto a expomos a outro?
Invista como um otimista
Por conta dessa insegurança, eu já me peguei pensando, em um desses momentos de estresse do mercado financeiro: “quer saber? Não vou guardar esse dinheiro, eu vou é gastar. Cansei de perder dinheiro nos meus investimentos!”.
Esse pensamento surge quase como um impulso infantil. É como se a mente dissesse: se eu não consigo controlar o mercado, então vou ao menos controlar a forma como gasto o meu dinheiro. Nesse momento, a lógica da construção de patrimônio perde espaço para o desejo imediato de prazer. Afinal, gastar traz uma sensação instantânea de recompensa, enquanto investir exige paciência diante da volatilidade e da incerteza.
Mas é óbvio que essa é uma estratégia ruim. Assim como eu não recomendaria que alguém desistisse de buscar um parceiro para a vida porque não existe a promessa de serem felizes para sempre, também jamais diria: “desistam de acumular patrimônio porque vocês nunca vão sentir que serão ricos para sempre”.
A vida a dois tem seus altos e baixos, momentos de conflito e de harmonia. Mas, quando olhamos o quadro geral, o saldo costuma ser positivo. É isso que sustenta a relação.
Com os investimentos acontece a mesma coisa. Não existe um caminho sem perdas, sem incertezas ou sem fases de desvalorização. Mas, no longo prazo, o saldo tende a ser positivo. E é essa perspectiva maior, e não os tropeços de curto prazo, que dá sentido à jornada de acumular patrimônio.
Eu amei a frase do Morgan Housel no último evento da XP: “poupe como um pessimista, e invista como um otimista”. Sim, investir é um ato de otimismo. Quase um ato de fé. É impossível provar para você que, se investir no ativo X, com certeza absoluta, nunca vai perder dinheiro. O que eu posso fazer é defender a minha crença de que investir em certos ativos tem grande probabilidade de garantir o seu patrimônio para o resto da vida. E aceitar que haverá momentos de perda, e que você nem sempre vai comprar os ativos na hora certa (nem vender).
Investir é acreditar que, com grande probabilidade, você será rico para sempre.
O duro é que só teremos certeza disso quando a nossa vida acabar. Assim como dizem que só é possível fazer um balanço da vida de alguém no leito da morte — quando já não há mais chance de sofrimento mudar a história de uma vida feliz — é bem provável que só consigamos ter certeza de que fomos ricos para sempre quando esse “para sempre” já tiver passado.
Respostas de 13
A busca por ‘felicidade eterna’ e ‘riqueza garantida’ revela mais sobre nossos medos do que sobre nossos desejos. A maturidade financeira — e emocional — começa quando aceitamos que tudo é transitório, inclusive a alegria e o patrimônio.
Perfeito!
Olá, gosto muito das suas análises e gostei muito do texto sobre tesouro renda + e os impactos pra quem quer viver de renda. Está sendo lançado o etf de tesouro ipca os area11.
Adoraria ler uma análise sua sobre esse etf
Oi Renato!
Obrigada pelo elogio!
Não sou muito fã de ETFs de renda fixa. Acho que ter o papel na carteira, sabendo exatamente qual taxa você contratou e o prazo de vencimento ajuda a manter o emocional ao longo do tempo. Vou pensar em algum post nesse sentido!
Boa, aposentada! Por incrível que pareça estou passando por esse sentimento agora, estou fazendo umas análises e convencido de que mesmo a RF no Brasil é um meio de se perder patrimônio ao longo do tempo, o problema é conseguir a coragem para fazer outros tipos de investimentos.
Abraços!
A renda fixa tem seus limites, sim. Mas não diria que é um meio de se perder patrimônio ao longo do tempo. Quando bem feita, é um meio de se preservar o patrimônio. Claro, importante diversificar. Mas não precisa ser um salto no escuro: dá pra diversificar aos poucos, estudando e testando as alternativas que façam sentido pro seu perfil.
Muito bom, Aposentada!
O mestre Bastter sempre diz: ”O que nós podemos fazer é colocar as chances ao nosso favor. ” Existem pouquíssimas certezas que podemos ter na vida, em relação a absolutamente tudo, mas acho que colocar as chances ao nosso favor é a maneira mais inteligente de lidar com a intrínseca incerteza da vida.
Abraço.
https://engenheirotardio.blogspot.com
Sim, a vida é um grande exercício de lidar com a incerteza. Também gosto dessa visão do Bastter porque ela tira o peso do controle absoluto e traz o foco pra responsabilidade individual.
Abraço e obrigada pela troca!
Que texto impactante! Acredito que o que a a maioria das pessoas fazem para ter essa “garantia” que nunca vai faltar dinheiro é suprimir qualquer possibilidade de aposentadoria precoce. Tenho visto meus colegas alguns mais velhos que eu e com muito mais dinheiro: nem passa na cabeça deles a idéia de parar. É uma “idéia de maluco”. Pensar nisso demanda muita reflexao, auto-conhecimento.Quem nao passar por esse processo não acreditará nunca que algum dia foi “rico”, nem próximo ao fim, pq se sentir rico ( e confortavel com o dinheiro) é muito mais dificil que acumular uma montanha de dinheiro
Obrigada por compartilhar essa reflexão!
Você descreveu com precisão o que vejo em muitas pessoas. Essa busca por “garantia” que, na prática, vira uma prisão disfarçada de segurança. Parar pra pensar na relação que temos com o dinheiro exige mesmo coragem e autoconhecimento. E é curioso como, às vezes, mesmo com abundância material, a sensação de “nunca é suficiente” continua. Acho que o verdadeiro desafio é esse que você mencionou: sentir-se rico antes de ser rico no papel.
Com o objetivo de GARANTIR que o dinheiro não vai acabar nunca, a gente segue poupando. Garantias custam caro, pagamos o preço de nossas inseguranças! Qual seria a hora de parar de poupar?
Ela me respondeu essa mesma pergunta, veja esse texto https://aposentadaaostrinta.com.br/e-se-eu-tivesse-3-vezes-mais/
Grande abraço
É uma boa reposta!