Em 2003, minha família se mudou para o que hoje é a casa do meu pai. Era o apartamento dos sonhos. Meus pais gastaram um bom dinheiro com móveis novos, objetos de decoração, embora, naquela época, ainda não fosse comum contratar arquitetos ou modificar profundamente os ambientes. Ficamos com os revestimentos originais dos banheiros entregues pela construtora. E meu pai, até hoje, não caiu na tentação de reformá-los.
Para os padrões da época, aquilo já era um certo luxo consumista. Mas algo de frugal ainda resistia na mentalidade dos meus pais.
Naquela época, estavam na moda uns tapetes feitos com pequenos amarrados de tecido. Eu e minha irmã vimos aqueles tapetes na Tok&Stok e ficamos completamente encantadas. Meus pais, por outro lado, ficaram chocados com o preço. Não demorou muito para minha mãe perceber que aquele objeto — que parecia sofisticado na loja — era, na verdade, tecnicamente simples. E, portanto, reproduzível facilmente em casa.
Foi assim que, nos meses seguintes, a casa virou uma pequena oficina. Primeiro, cortávamos pedaços de tecido em retângulos idênticos. Depois, amarrávamos cada um deles, um a um, em uma tela. Era um trabalho extremamente artesanal, repetitivo, quase tedioso. Mas, ao mesmo tempo, agregador. Fazíamos isso juntos, a família toda, todas as noites, assistindo à TV Globo na sala.
Eu ainda tenho esse tapete. E, mais do que o objeto em si, tenho a memória vívida daquele processo, que por vezes foi irritante (especialmente quando meu pai insistia em cortar os retângulos “no olho”, sem medir), mas profundamente marcante. Era um tempo e qualidade compartilhado em família.
Mas mesmo na nossa fábrica caseira de amarradinhos, já havia uma perda em curso. Minha mãe fazia muito menos coisas “caseiras” conosco do que a mãe dela. As minhas duas avós foram responsáveis pelos quitutes e pelo bolo do casamento dos meus pais, algo que meus pais jamais fariam por mim. Ambas tinham um espaço dedicado à máquina de costura em casa, e eu me lembro delas fazendo roupas simples para nós. Já as minhas bisavós iam além: foram elas que costuraram os vestidos de noiva das próprias filhas.
Me parece que existe uma linha histórica de abandono do fazer doméstico. Com o tempo, simplesmente deixamos de fazer. E, talvez mais grave, passamos a desprezar o caseiro.
Se é caseiro, não é bom? É claro que há coisas que é muito melhor pagar para os outros fazerem por nós. Todos nós sabemos o quanto diminuiu o número de mortes de mulheres no parto com o fim do parto caseiro.
Mas, como eu ouvi outro dia, o homem já construiu um foguete — mas nem por isso a gente vai de foguete até a padaria. O caseiro pode não ser adequado para uma série de questões, mas será que a gente não está usando foguetes demais por aí?
O lugar mais evidente do fim do caseiro
Recentemente eu assisti a esse vídeo no Youtube. É um vídeo bem didático para mostrar como, na tentativa de melhorarmos nossa vida buscando cada vez mais praticidade, nós acabamos vivendo vida piores. Algo que o mercado forneceu felizmente para nós, afinal de contas, isso é muito lucrativo. Inclusive, se esse é um tema que te fascina, recomendo a leitura desse post também.
E é curiosa a fórmula final que o psicanalista propõe para uma vida menos cansada, e com mais sentido: cozinhar o próprio alimento. Ele defende que se você quiser melhorar sua vida agora mesmo, pare o que está fazendo, deixe o celular em casa, vá até o supermercado, escolha os ingredientes para uma refeição simples, volte para casa, e cozinhe.
Eu amei esse exemplo. Eu comecei a perder meu medo de cozinhar e enfrentar a cozinha motivada pelo dinheiro, isso é um fato. Mas hoje, eu genuinamente sinto que minha vida está mais gostosa porque eu cozinho. São inúmeras vezes que eu aplaco o meu tédio, ou angústias da vida, indo ao supermercado, escolhendo ingredientes, voltando para casa para cozinhar. E durante esse tempo eu sinto o prazer de fazer uma atividade diferente de ficar na frente da TV, ou scrolling no meu celular.
Eu gosto de levar doces para a casa das pessoas quando sou convidada para jantar. E durante a minha fase mais frugal, eu fazia os doces com as próprias mãos. O problema é que o caseiro está longe de ser perfeito – talvez só na casa da Rita Lobo que os doces saem com cara de confeitaria chique. E dependendo da intimidade com os convidados, eu comecei a ter vergonha de levar meus doces caseiros, nem sempre com aspecto perfeito, sabor perfeito. Parecia coisa de amador.
Não é que deixamos de fazer porque não sabemos mais, é que deixamos de fazer porque passou a ser feio fazer. O caseiro deixou de ser apenas uma escolha menos eficiente e passou a carregar um certo estigma social. Ele denuncia uma imperfeição que a gente não tolera mais. O doce não pode ser só gostoso, ele precisa parecer de vitrine. O jantar não pode ser só um encontro, ele precisa performar uma experiência.
E, aos poucos, a gente vai internalizando esse padrão. Vai terceirizando não só o trabalho, mas também o direito de errar, de tentar, de fazer algo “mais ou menos”.
Só que existe um custo silencioso nisso tudo.
Quando a gente deixa de fazer porque não vai ficar perfeito, a gente não está só comprando um doce melhor. A gente está abrindo mão de uma parte da experiência. Da tentativa, do processo, do tempo gasto sem propósito produtivo claro. E, talvez mais importante, da possibilidade de oferecer algo que não é impecável, mas é nosso.
Mas e a falta de tempo?
Minhas avós não trabalhavam fora. Elas “só” tinham que cuidar da casa, do marido, dos netos. Por vezes dos filhos já adultos. Então claro, elas tinham “muito” tempo livre.
As aspas são irônicas porque dado o trabalho que eu tenho com a minha casa hoje em dia, sem faxineira, eu bem sei o quanto isso dá trabalho. E olha que eu tenho um robô aspirador de estagiário. E uma máquina lava e seca que fez com que eu nunca me preocupasse em estender um lençol de casal. Eu juro que não sei como faria isso! E provavelmente eletrodomésticos muito mais potentes.
Outra coisa que as minhas avós não tinham? Entertenimento ilimitado na palma das mãos. Claro, elas tinham TV, e elas assistiam a novelinha das 6 todos os dias (que saudades que deu das minhas avós!). Mas elas não passavam o dia grudadas na TV.
O mais doido é que a gente sabe que essa vida grudada no nosso celular – ou mesmo na TV – não nos faz bem. A gente sabe da quantidade de ansiedade que ficar acompanhando a vida dos outros 24h por dia causa na gente. Mas a gente simplesmente não consegue sair dele e ir assar um bolo, por pura diversão, para levar para a casa dos amigos.
E sim, eu disse certo, você pode se divertir assando um bolo. Por que a gente insiste em achar que trabalho doméstico é sinônimo de tarefa chata? A não ser que você seja uma pessoa que passa os dias da semana cozinhando por profissão, passar umas horinhas na cozinha, pode ser um tempo de descompressão da rotina. Por que a gente insiste que só dá pra descomprimir em frente a uma tela?
Da mesma forma que a gente é craque em desperdiçar nosso rico dinheiro com coisas bestas, nós somos feras em desperdiçar nosso tempo também. Hoje um brasileiro médio passa 9 horas por dia consumindo multimídias. É claro que parte disso é para fins profissionais – mas qual o tamanho dessa parte?
Eu não sou expert quando o assunto é reduzir o consumo de telas, mas tenho uma certa vacina contra redes sociais. Como eu já disse, sou novata em Instagram. E assim que eu percebi que esse era o app que eu passava mais tempo no meu dia (mais que o Whatsapp), eu deletei do meu celular. Eu entro todo dia pelo computador. Tem algumas travas, ele não é tão funcional. E é óbvio que a Meta fez isso de propósito. Mas eu acho bom assim.
Eu percebi que as pessoas que mais “julgam” que meu estilo de vida não é para elas, – porque elas não tem tempo para ficar esperando o ônibus passar – são as primeiras a curtir quando eu posto. E eu posto muito pouco. Mas já há bastante tempo para perceber que isso não é uma coincidência. Elas não tem tempo para serem frugais, mas vivem desperdiçando tempo nas redes sociais.
Hoje eu tenho o luxo de não precisar trabalhar para pagar as contas. Mas se eu passasse o dia todo assistindo TV ou no meu celular, a minha liberdade de pouco me valeria. É um esforço, e eu confesso que tem dias que me entrego ao sofá. Mas eu me policio. Eu sei que os melhores dias são os dias em que eu gasto tempo com outras coisas. Que tem TV, tem troca de mensagens com os amigos no celular, tem tempo trabalhando no computador. Mas que também tem meus momentos de faxina em casa, em que eu cozinho um bolo ao invés de comprar pronto na padaria, e que gasto horas fazendo meu vestido de crochê (já fiz um casaco, – que ficou imperfeito, mas usável – agora estou no desafio do vestido).
Uma das frases que está fixada no meu bloco de notas no meu celular para sempre me lembrar é “produza antes de consumir”. É um bom guia para várias coisas da vida. Eu uso o Instagram para promover o que eu produzo. Mas eu consumo pouco por lá. E o mesma vale para quando você está com vontade de comer algo diferente.
Será que não dá pra produzir a versão caseira, antes de consumir Ifood?
Ou quando você precisa de um look novo, será que não dá para produzir com as peças que você já tem, antes de consumir roupas novas?
No fundo, talvez o fim do caseiro não tenha a ver com falta de tempo. Mas com a dificuldade crescente de conviver com a própria imperfeição em um mundo onde tudo parece pronto, bonito e facilmente comprável.
Uma resposta
Oi, Lilian.
Muito válida reflexão sobre as distinções do que vivíamos e do que vivemos hoje em dia. Acredito que vamos aceitando algumas “convicções” que nos foram impostas com o tempo e, no meio do caminho, perdemos a capacidade de identificar quais são elas e também de retomar alguns velhos bons hábitos.
Obrigada por compartilhar.