O mal-estar do descanso

Férias, FIRE e a dificuldade de existir fora da lógica da produção

No final do ano passado, quando pedi que vocês me sugerissem temas para escrever aqui, uma das mensagens me chamou especialmente a atenção. A mensagem dizia algo mais ou menos assim:

Percebo que, quando tiro férias para descansar — sem viagens e sem grandes obrigações — sinto uma certa angústia, uma vontade quase automática de preencher o tempo com algo ‘produtivo’. Fico pensando se, depois da aposentadoria, esse sentimento não se intensificaria.

Logo em seguida, outra leitora endossou exatamente a mesma inquietação:

Nossa, tirei férias recentemente de três semanas e tive esse mesmo sentimento. Não quis viajar, não me comprometi com muitos programas e, ainda assim, me vi várias vezes super ansiosa e angustiada. Inclusive, meu relógio registrou níveis altos de estresse — mesmo eu estando de férias.

Eu adorei essa sugestão de tema porque ela toca em algo que já senti diversas vezes ao longo da vida. E sim, eu também sinto angústia às vezes apesar de eu já estar aposentada, não ter problemas financeiros graves (que marcam a vida da maioria das pessoas) e viver um casamento bom o suficiente.

Sentir angústia quando existe um motivo claro parece, de certa forma, mais fácil de elaborar. “Estou angustiada porque perdi o emprego.” “Estou angustiada porque meu relacionamento acabou.” Há um motivo, algo explicável. Muito diferente de pensar: “estou de férias e angustiada”. Essa angústia, que aparece sem causa aparente, é que se torna ainda mais desesperadora. Por isso, não me surpreende nem um pouco que o relógio da minha querida leitora tenha acusado níveis elevados de estresse em pleno descanso.

Este vai ser um texto longo, mas quero organizá-lo em duas partes. A primeira é tentar entender por que nos sentimos assim. A segunda é pensar em possíveis saídas. A primeira parte é essencial para a segunda — até para não cairmos na tentação de “resolver” a angústia justamente reforçando aquilo que a produz.

Por que nos sentimos angustiados?

Recentemente, li O mal-estar na civilização, de Freud, e, logo em seguida, O mal-estar na pós-modernidade, de Zygmunt Bauman. São livros que realmente fazem jus à fama que carregam — não porque tragam respostas definitivas, mas porque iluminam desconfortos que todos nós reconhecemos, mesmo quando não sabemos nomeá-los.

Um parêntese: muita gente me escreve dizendo que sente ansiedade toda vez que eu cito um livro por aqui. Os comentários costumam ser do tipo: “meu Deus, mais um livro para a minha lista de leitura”. Quando menciono os livros que estou lendo, a intenção é apenas deixar claras as referências que embasam o que estou pensando e escrevendo. E não para fazer recomendações, nem muito menos montar um currículo obrigatório. Só para deixar explícito: eu não acho que vocês precisem ler tudo o que eu leio para alcançar o FIRE (rs). Isso definitivamente não é uma condição necessária.

No texto de Freud, a tese é relativamente simples: sofremos porque a vida em sociedade exige que renunciemos aos nossos instintos mais básicos, especialmente os sexuais e os agressivos. Para viver em civilização, abrimos mão de uma parcela significativa da nossa liberdade em troca de segurança. O preço desse pacto é a infelicidade. A angústia, nesse sentido, seria quase o subproduto inevitável da vida civilizada.

Mas o que mais me interessou foi a atualização que Bauman faz dessa ideia. Para ele, o mundo de hoje não sofre por excesso de repressão, mas pelo seu oposto: excesso de liberdade e falta de segurança. Na vida pós moderna, podemos ser quem quisermos, amar quem quisermos, construir qualquer trajetória – ao menos em tese. O problema é que essa liberdade vem acompanhada de relações frágeis e instáveis.

Podemos escolher com quem casar, mas o casamento já não carrega a promessa de “até que a morte nos separe”. Podemos nascer pobres e enriquecer, mas não há garantia alguma de que permaneceremos ricos até o fim da vida. Antes, um príncipe nascia príncipe e morria príncipe. Hoje, tudo pode mudar — para melhor ou para pior — o tempo todo. Já escrevi sobre isso aqui no blog.

É justamente essa ausência de segurança que nos mantém em estado permanente de alerta. Se tudo o que conquistamos pode se desfazer, então precisamos trabalhar continuamente para não perder o que temos. Não basta enriquecer; é preciso continuar rico. Não basta alcançar uma posição; é preciso defendê-la. E isso dá trabalho.

Esse estado permanente de vigilância desemboca numa sociedade obcecada por desempenho. “Japonês não dorme” — quem nunca ouviu isso na época do vestibular? Descansar passa a soar como fraqueza, e não como necessidade humana.

O problema é que essa lógica não fica restrita ao trabalho: ela se espalha para todas as dimensões da vida. Até as férias parecem ter perdido o status de fim em si mesmas e se transformado em mais um meio. Não basta parar; é preciso garantir que você realmente relaxou, se recuperou, se recompôs — não porque isso seja bom em si, mas porque, na volta, espera-se que você renda ainda mais, pense melhor, produza mais. O repouso deixa de ser um direito ou um prazer e passa a funcionar como manutenção da máquina. Curioso isso, não?

Talvez seja por isso que tanta gente precise de remédios para dormir. A insônia hoje é vista como uma falha no sistema. Ela atrapalha a produtividade no dia seguinte. E, numa sociedade obcecada por desempenho, nada é mais angustiante do que não conseguir performar nem quando se deita para descansar.

Estamos tão obcecados pela utilidade de tudo que até práticas tradicionalmente associadas ao ócio e à contemplação foram capturadas pela lógica da produtividade. Muita gente hoje medita não pelos efeitos subjetivos da meditação, mas porque um CEO do Vale do Silício medita X minutos por dia. A meditação vira técnica de alta performance. Ela deixa de ser um fim e se transforma em meio.

O fim último é sempre o mesmo: produzir. Produzir para garantir renda. Gerar renda para consumir. E consumir para continuar pertencendo à sociedade de consumo. Todo o resto vira instrumento para sustentar esse ciclo.

O movimento FIRE impede isso?

Talvez a grande confusão por trás de tudo isso seja a crença — profundamente enraizada — de que é o consumo (ou, ao menos, a possibilidade constante de consumir) que dá sentido à vida.

Por isso o movimento FIRE provoque tanto desconforto. Não é raro ouvir críticas do tipo: “E se a taxa segura de retirada não funcionar?”, “E se a inflação corroer seu patrimônio?”, “E se for insustentável viver de forma frugal enquanto todos à sua volta consomem sem limites?”. No fundo, essas perguntas revelam o mesmo medo: o de não conseguir sustentar o existir socialmente através do consumo. 

Já falei disso inúmeras vezes aqui no blog: é evidente que precisamos de comida, moradia, roupas limpas e algum meio de transporte. Essas são as condições básicas da vida humana. O que não é essencial são as mansões, SUVs, empregados domésticos, upgrades contínuos que pouco acrescentam à experiência real de estar vivo.

Se o movimento FIRE me ensinou algo ao longo desses anos, foi justamente isso: existe, sim, um patamar mínimo de consumo suficiente para uma vida boa — e tudo o que vem depois dele tende a ser supérfluo. É esse excedente que mantém tantas pessoas presas a uma rotina de trabalho exaustiva, não por necessidade, mas para sustentar um padrão de consumo de excessos.

Quando você quebra essa lógica, percebe que consegue viver com pouco e passa a poupar agressivamente a sua renda. É assim que a independência financeira, enfim, se torna possível.

Mas é fundamental não romantizar esse ponto de chegada. Alcançar a independência financeira não nos retira automaticamente de uma sociedade obcecada por consumo e produtividade. Mesmo fora do mercado de trabalho tradicional, continuamos imersos nos mesmos valores, nas mesmas comparações, nas mesmas expectativas de desempenho.

É justamente aí que mora o verdadeiro desafio. E é também por isso que, honestamente, tenho estudado filosofia com tanto afinco. Porque, mais do que planilhas ou taxas de retirada, o que sustenta uma vida fora da lógica da produção incessante é a construção interna de critérios próprios de valor — algo que nenhuma independência financeira, por si só, é capaz de garantir.

Possíveis saídas para esse mal-estar

Outro livro muito esclarecedor que li recentemente foi A felicidade paradoxal na sociedade do hiperconsumo, de Gilles Lipovetsky. É um livro denso, difícil, que exige tempo e atenção. Mas, curiosamente, são justamente esses desafios intelectuais que têm dado um novo valor à minha conquista de tempo livre.

Lipovetsky faz uma leitura bastante próxima à de Bauman. Para ele, grande parte da nossa angústia nasce do enfraquecimento dos laços sociais — algo que “conquistamos” na busca por um excesso de liberdade, sem medir plenamente os custos dessa escolha. Antes, havia uma confiança maior de que a família estaria ali em momentos de extrema necessidade (talvez a sociedade brasileira ainda preserve um pouco disso). Hoje, com vínculos mais frágeis e dispersos, essa certeza já não é tão evidente.

Essa sensação de que estamos cada um por si produz outros efeitos importantes. Um deles é a perda de roteiros claros de vida. Já não existe uma fórmula pronta para viver — e acho que, para as mulheres, essa questão é particularmente sensível. Antes, o caminho parecia dado: nascer, casar, ter filhos, envelhecer e morrer. Tudo relativamente previsível e socialmente validado. Mas isso mudou. Hoje, podemos ser quem quisermos — inclusive solteiras e sem filhos. E qualquer adulto minimamente responsável sabe: decidir sozinho o próprio projeto de vida é libertador, mas também profundamente angustiante.

Outro ponto central do livro é a ideia de que, na contemporaneidade, passamos a consumir muito mais experiências do que objetos. Lipovetsky descreve três grandes fases históricas do consumo, sendo a terceira — a atual — marcada pela valorização das experiências em detrimento da posse de bens materiais e posicionais.

Esse trecho me tocou de forma muito direta. Durante toda a minha trajetória rumo ao FIRE, abri mão de consumir muitas coisas, mas jamais deixei de viajar. Como uma típica consumidora da chamada “fase III”, eu repetia com orgulho que preferia consumir experiências a acumular bens. A confusão — que só recentemente começou a ficar clara para mim — foi não perceber que isso também é consumo. Um consumo travestido de viagens, mas ainda assim consumo.

Talvez o maior ganho da leitura de Lipovetsky tenha sido justamente destacar as soluções que ele propõe para a angústia da pós-modernidade. A primeira delas é abandonar a fantasia de satisfação plena via do consumo. Isso simplesmente não existe. Nenhum ser humano jamais relatou uma vida plenamente satisfeita por consumir mais — exceto, talvez, os mentirosos. Excesso de consumo não é sinônimo de vida melhor.

A segunda é o fortalecimento dos laços sociais e o reconhecimento de que eles são verdadeiramente essenciais para uma vida com sentido — algo que não pode ser terceirizado ao mercado.

Mas a ideia que mais me chamou a atenção é a valorização do fazer em detrimento do ter. Para Lipovetsky, o trabalho bem-feito, a criação artística, intelectual ou mesmo empresarial constituem uma fonte insubstituível de reconhecimento e autoestima — algo que o consumo moderno é incapaz de oferecer. Não é o entretenimento fútil que nos sustenta. É a nossa capacidade de agir, criar, se envolver com o mundo e superar obstáculos que, no fim das contas, nos alimenta.

Aliás, tá aí uma boa recomendação para os leitores que se sentiram angustiados nas férias: ao invés de ocuparem a agenda com entretenimento – como viagens, passeios, maratonar uma série – que tal aproveitar as férias para se jogar em um desafio intelectual? Ou finalmente tirar do papel aquela ideia de negócio que pode ser uma outra fonte de renda na vida FIRE?

 A conquista da liberdade para algo

Preciso dizer que estou cada vez mais convencida dessa ideia do Lipovetsky. Se antes meu ideal de vida FIRE era basicamente usufruir do tempo livre e viajar o máximo possível, hoje minha vida está muito diferente do que eu imaginava naquela época.

Com o tempo, fui percebendo que eu não valorizava a liberdade em si, mas pelo que ela me permitiria fazer. A liberdade como um meio, não um fim. Na minha vida de trabalhadora corporativa, simplesmente não havia espaço para criar — nem mesmo para explorar minha curiosidade intelectual. E isso apesar de eu trabalhar numa área de pesquisa. O que a vida corporativa exigia de mim era o cumprimento de demandas muito específicas, quase sempre subordinadas à área comercial, e recheadas por camadas e mais camadas de burocracia.

Era apenas durante as férias que eu conseguia escapar dessa rotina extenuante de empregada corporativa. Esse período era tão satisfatório que eu passei a sonhar com uma vida em que tudo fosse férias. Uma vida de “sempre sábado”.

Mas, no fundo, eu não queria apenas liberdade. Eu queria liberdade para fazer outras coisas. Já escrevi aqui sobre a diferença entre ter um emprego e ter um trabalho.

Hoje, para minha própria surpresa, minha vida tem rotina. Minha semana começa com aulas de canto. Tenho horário fixo na academia toda manhã. Às terças e quintas atendo na consultoria. À noite, vou para a faculdade de filosofia. Muitas tardes são dedicadas à leitura de livros difíceis e exigentes — como os que citei ao longo deste texto. E existe também o espaço de criação que esse blog me oferece, um compromisso que eu mesma assumi de escrever e publicar a cada quinze dias.

Paradoxalmente, talvez eu tenha hoje menos “tempo livre” do que imaginava que teria. Mas esse tempo é qualitativamente diferente.

A liberdade me permitiu organizar uma vida em que posso me dedicar a atividades que são profundamente gratificantes para mim, mesmo que isso signifique uma vida com menos tempo livre para entretenimento.

Ainda estou elaborando tudo isso. Mas comecei a perceber algo curioso: nas viagens que fiz recentemente, me vi procurando cursos de filosofia, bibliotecas, espaços de leitura. Não porque eu queira tornar minhas viagens “produtivas”, mas porque quero consumir menos turismo — e talvez fazer viagens mais alinhadas com essa nova rotina de fazer, criar, pensar e me superar como ser humano.

Ainda assim, vai ter angústia

Mas há um ponto crucial em tudo isso. Mesmo quando você trabalha, cria e se supera, a angústia não desaparece completamente.

Recentemente, terminei de assistir ao documentário The End of an Era, da Taylor Swift. Sim, eu leio Freud e gosto da Taylor. E um pensamento não saía da minha cabeça: essa mulher percorreu o mundo, cantou por três horas seguidas toda sexta, sábado e domingo durante um ano e meio para públicos gigantescos. Foi extremamente ovacionada. Quebrou recordes pessoais e da indústria. Criou, produziu, se superou.

E agora?

Fiquei imaginando como ela deve estar se sentindo depois que tudo isso acabou. Não duvido que a terapeuta dela esteja fazendo um trabalho grande para ajudá-la a elaborar a angústia que provavelmente surge quando um ciclo tão intenso se encerra.

Como lembra o próprio Lipovetsky, precisamos aceitar que a felicidade não é um estado permanente. A dor, o vazio e a angústia também fazem parte da trajetória humana.

Então, para concluir — e responder de forma mais direta aos leitores que comentaram sobre essa angústia durante as férias — minha resposta é: sim, a angústia continuará existindo na vida FIRE. E, em alguns momentos, pode até se intensificar.

Mas isso não tira o valor da vida FIRE. E a resposta não é trabalhar para sempre, sobretudo em trabalhos nos quais você sente que não há espaço para criar ou se superar. Tampouco é consumir mais — nem mesmo na forma “sofisticada” de experiências.

A vida FIRE tende a se tornar menos angustiante à medida que você aceita que agora precisa construir uma nova rotina, encontrar formas próprias de agir no mundo, criar, se envolver e se desafiar. E não simplesmente “abraçar o tédio” como um ideal permanente — ainda que o tédio também faça parte.

Mesmo quando criamos e nos superamos, haverá momentos de vazio. Não somos máquinas que funcionam vinte e quatro horas por dia. Somos seres humanos que experimentam alegria, tristeza, excitação, cansaço e tédio. E talvez a verdadeira liberdade esteja justamente em poder viver tudo isso sem transformar cada sensação em um problema a ser resolvido.

Afinal de contas, tudo bem ter insônia quando no dia seguinte você não precisa trabalhar. Desde que me aposentei, parei de travar batalhas contra ela. Quando a insônia chega, eu me levanto, como alguma coisa, me distraio — e, não raro, venho escrever para este blog.

Respostas de 34

  1. Esse texto me tocou tanto, mas tanto, que precisei de um tempo para voltar e comentar com mais propriedade! rs Eu fiz escolhas profissionais que me levaram a ter mais tempo livre paulatinamente, até que, após alguns anos, mesmo que ainda ativa, consegui ter uma série de tardes e manhãs livre espalhadas pelas semanas. Ao contrário do que eu esperava, esse tempo livre me trouxe angústia, culpa e um sentimento constante de inapropriação. No meio do caminho criei uma segunda ocupação profissional autônoma, que agora é responsável por ocupar o tempo livre que eu havia cavado anteriormente. Fiz isso sem sequer me dar conta e depois percebi que ali estava eu, sem tempo de novo, me obrigando a ocupar tudo com trabalho (mesmo já sendo investidora de grande parte do meu salário e não precisando de mais dinheiro). Isso me levou a um questionamento profundo para o qual ainda não encontrei a resposta. Eu quero ter liberdade para quê? E veja, não é que eu pense que liberdade vale pouco, muitíssimo pelo contrário! É que, nessa sociedade produtivista que a gente vive, qualquer ocupação que não nos leve a mais dinheiro parece “errada” de se viver, a menos que esteja concentrada naquele pedacinho final de semana / férias que o capitalismo nos “proporcionou”. Eu percebi, nessa história toda, que ou eu não aprendi sobre o que eu quero/gosto para mim mesma fora dessa lógica, ou me sinto tão intensamente culpada por usufruir da minha vida numa segunda-feira que acaba doendo menos sentar na frente do computador e trabalhar. Me parece que, pelo jeito, terei de me debruçar sobre as leituras da filosofia também para desconstruir essa maluquice toda. Crês que Lipovetsky seja um bom começo? Obrigada, Lilian, por nos ajudar a processar essas reflexões que geralmente fazemos sozinhos com nossas próprias cabecinhas nos dias de insônia! rs

    1. Lindo seu depoimento! Você trouxe pontos valiosos. Eu acho que a gente não aprende sobre o que é viver fora dessa narrativa de trabalho e consumo. E é a vida mesmo que se prede nesse caminho. Até acho que viver inclui trabalhar, consumir. Mas não se limita a isso. Tem tantas outras possibilidades para explorar. Estudar, criar, cuidar, ter afetos. Enfim, estou na busca, eu também me perco as vezes, e é sempre difícil nadar contra a maré. Mas como uma amiga me disse uma vez, “só quem se arrisca, arrisca viver o extraordinário!”.
      A filosofia tem sido um caminho libertador para mim. Eu comecei vendo vídeos no Youtube antes de encarar livros (são desafiadores!). Um que eu vi essa semana sobre o tema foi esse aqui: https://www.youtube.com/watch?v=RgdocJVP7EE (espero que goste!).

  2. Mulher, o triplex q vc alugou na minha cabeça por falar que o consumo de experiências ainda é consumo. Eu aqui me achando o mago do combate ao consumismo, enquanto naverdade sou só mais uma cadelinha do capitalismo e do marketing. kkkkkkk

    Muito obrigado por abrir os olhos :)

    Abraços

  3. voltei aqui pra comentar a parte da Taylor Swift! Michael Jackson sofreu isso tbm após Thriller e todos os grandes sofreram isso também, essa cobrança em pensar “What’s next?”…Essa tentativa de se superar sempre, pode trazer muitas complicações mentais, né? Que a terapeuta dela consiga trazer luz pra essa sagitariana porreta :)

  4. oi Li! qdo vc tava falando do livro do Lip e que percebeu q viagens tbm eram um consumo, lembrei daquele livro “not buying it, my year without shopping”…Ela fica um ano sem consumir cultura tbm, vc lembra? Na real ela não paga por ela, ela só pode ir se é free – o q seria fácil numa cidade como SP mas não tão fácil pra alguem q more mais no interior…De qq forma, lembrei disso! Qto ao Lip, tenho o livro “O império do Efêmero” e te empresto se quiser, lemos na facul de Moda e eu amei, apesar do povo não ter curtido mto exatamente por ele ser um livro denso.
    Tenho consumido mto teatro (fui a 35 peças ano passado) e penso o pq disso…Tentando freat esse consumo esse ano pq todo excesso demonstra uma falta, já sabemos nós, ne? Tentando descobrir o q tá pegando aqui. Amay o texto, essa facul tá te fazendo um bem danado :)

  5. sera que esse tipo de angustia atinge tambem os “regularmente aposentados”? aqueles que cumpriram a jornada de 35-40 anos de trabalho, se aposentaram pelo inss, etc… ou seja: aqueles que cumpriram sua “obrigação” em termos de trabalho, inclusive aos olhos da sociedade. ou sera que essa angustia e exclusiva dos fire, que seguiram um caminho que não é o tradicional?

    1. Oi Marcel!
      Eu apostaria que há angústia sim. Tenho parentes próximos que vivem isso. Alguns voltaram a trabalhar, outros se divorciaram porque percebem que a vida está curta demais para ficar presos a um casamento ruim, alguns tiveram que recorrer a antidepressivos porque ficaram assustados com esse marco de “fim de vida”. Enfim, acho que aposentadoria é uma mudança tão grande na vida que dificilmente não traz angústias e sentimentos profundos.

  6. Bem interessante o texto.

    Eu sinto muito isso no trabalho… sou concursada e me sinto perdendo tempo ficando tantas horas sentada na frente do PC sendo que poderia estar fazendo coisas melhores fora daqui… mas vez ou outra me pego perguntando somo seria num eventual FIRE… se não estaria também fazendo coisas pouco interessantes, tipo vendo TV ou coisas do tipo e ainda não sendo remunerada por isso..

    Não sei se voce passou por algo do tipo, porque na iniciativa privada realmente voce faz muita coisa o dia todo e indo pro FIRE tem a tranquilidade… mas quando voce ja tem a tranquilidade no proprio trabalho, só tem o ponto negativo da prisão e de não poder fazer o que quer e quando quer… e/ou as buchas que vem um dia ou outro… da um receio de ao inves de ficar atoa no trabalho ganhando, ficar atoa em casa sem receber… e se arrepender disso, em especial se algo inesperado acontecer ou se alguma vontade de consumo mudar….

    Nessa vertente, da vontade de sair do FIRE justamente pra fazer algo muito significativo, que justifique o dinheiro “deixado na mesa”… e ai sim quando esses pensamenso intrusivos vierem voce vai ter muito bem justificado que saiu por X, Y e Z… mas não é facil.. como comentei no outro post sobre a questão de fazer faculdade (e até obrigado pela resposta, foi bem bacana).

    As vezes voce almeja fazer filosofia, sai do trabalho e inicia…. ai, sei la, sente que tá em outra vibe de idade dos demais, ve que a maior parte das aulas são mais historia do que reflexão (suposição minha kkk) e pode sentir em algum momento ali “cara, eu deixei X mil reais na mesa pra estar aqui vendo esse lero lero”…. deve ser dificil controlar esse sentimento… porque é foda voce realmente ter algo muito significante pra fazer no FIRE, todo o tempo…..

    1. A coisa mais significativa da vida fire é a autonomia em relação ao próprio tempo. Tendo o suficiente para cobrir os meus custos eu deixaria “na mesa” qualquer quantia em troca dessa autonomia. E não importa muito o que eu iria fazer ou não com essa autonomia, o mais importante é te-la.

      O trabalho é tão alienante que nos tira a capacidade de ter vontades e desejos próprios, não produtivos. Tudo precisa ser significativo pra valer a pena.

    2. Mas será que temos que fazer coisas interessantes o tempo todo? E mesmo que queira fazer algo interessante e ver TV não se enquadra nisso, por que vai ficar vendo? Paradigma FIRE: passar a valorizar o tempo livre muito mais que qualquer dinheiro a ser recebido , e o que fazer com esse tempo: O que a pessoa quiser, sendo util, inutil, produtivo, nao produtivo…

    3. Oi Julia!

      Entre ficar à toa no trabalho e ficar à toa em casa, existem inúmeras possibilidades.
      Eu definitivamente não me aposentei para ficar à toa em casa, rs.
      Eu tinha inúmeras vontades que eram mais fortes do que ficar no trabalho, mesmo que sendo remunerada por isso.
      Foi a necessidade de fazer frente a essas vontades que me fez querer sair dessa rotina.

      E há sim, também, muito espaço para ociosidade num emprego corporativo. E honestamente, eu tive muitos dias de puro ócio, como um trabalhador concursado também tem. Mas é um ócio recheado de culpa, e sem tanta liberdade assim. De certa forma, eu precisava estar presente. E a qualquer momentos poderia surgir uma bucha que me tiraria do meu ócio autoimposto. É bem diferente de saber que o dia é só seu, que não há chefe esperando um relatório, e que você não está enganando ninguém (seja a empresa que paga o seu salário, seja o contribuinte).

      Mas claro, é um ilusão achar que a vida FIRE vai ser prefeita. Que não terão momentos de angústia. Infelizmente essa não é uma possibilidade para nós, presos na nossa condição humana, rs.

  7. Amei o texto. Comecei a me incomodar com muito com esse discurso na Internet sobre experiências proporcionarem mais felicidade do que bens de consumo, sendo que sempre me pareceu uma forma de consumo também. Fiquei feliz em decocobrir o autor que embasa isso. Me pergunto qual a intenção por trás desse discurso. Ainda não descobri! Se descobrir mais autores sobre este assunto no atual mundo em que vivemos, compartilhe com a gente! Obrigada.

    1. Oi Nathália! Eu acredito que é sempre o mercado que está por trás de tudo.
      E eu gostei do Lipovetsky porque ele não te uma visão de “mercado malvadão”. Eu também não tenho, afinal é graças ao mercado que eu pude me aposentar cedo. Eu gosto de entender o meu papel nisso. Há sim muita coisa benéfica sendo vendida para nós, mas há coisas que são pura manipulação. O mercado é impessoal, vai tentar nos vender de tudo. Cabe a nós entender o que queremos consumir ou não. E tirar o máximo de proveito disso também.
      Abs!

  8. Muito bom texto!
    “…O que a vida corporativa exigia de mim era o cumprimento de demandas muito específicas, quase sempre subordinadas à área comercial, e recheadas por camadas e mais camadas de burocracia…” realmente esse trecho resume minha vida profissional.
    Grato por ter te achado!

  9. Eu li o texto e ele me levou longe, eu concordo que os prazeres vindos de relações sociais e desafios de fazer algo gratificante valem demais.

    A vida FIRE deve demandar momentos de reflexão, pois o que muita gente foge é de uma hora de tédio para avaliar a vida.

  10. Eu sou a “autora da pergunta” e estou no aguardo deste texto desde que você disse que era um ótimo tema a ser explorado. Como você tem a capacidade de clarear as coisas né, seus textos são muito inspiradores pra quem está nessa jornada FIRE e também de autoconhecimento. Obrigada pela disposição em nos ajudar!

  11. Que texto fantastico! Acho que em breve vc deve lançar um novo livro, dessa vez mais filosófico ao inves de autobiográfico.. sugiro o titulo ” Reflexoes de uma Aposentada aos 30″ :D
    Acho esse tema intrigante, pq é muito individual.. posso afirmar que eu nao sofro de ansiedade ou angustia quando estou de ferias, absolutamente nada. A unica angustia é no final da viagem, quando lembro q vai acabar e terei que retornar à rotina. Teve uma epoca que me relacionei com uma pessoa que, durante a viagem, levava coisas do trabalho para ler. Eu sempre achei aquilo bizarro, nao conseguia entender pq a pessoa nao conseguia se desligar e só aproveitar aquele pequeno periodo de tempo .. ela respondia que pra ela nao era sacrificio nenhum, e até gostava.. foi ai que vi que as pessoas tem maneiras distintas de lidar com essa questão..

    1. Hahaha, eu também não consigo entender essas pessoas.

      Numa viagem recente, achei engraçado que na sala de embarque do aeroporto tinha um cara falando super alto no telefone com alguém do trabalho sobre uma reunião que ele tivera mais cedo. Detalhe: era sexta-feira depois das 22h. O cara tava claramente saindo de férias mas não conseguia se desligar. Durante a conversa ele chegou a mencionar que estava indo viajar, mas que tava disponível para fazer um call se o cliente precisasse. Que o “deal” era muito bom, que o bônus de todo mundo ia ser maravilhoso naquele ano. Era claramente uma pessoa que vê propósito em ser útil, em estar ocupado. Talvez fazer um call aos férias era mais valioso para ele do que de fato relaxar, curtir a esposa (que coitada, estava sozinha na sala de embarque).

      Talvez nós, mãos-fechadas e aposentados precoces é que somos estranhos para essas pessoas…

      1. Também sou do clube de não entender essa angústia em específico. Quando fico de férias e não viajo a vida fica tão cheia de sentido. As tarefas de manutenção da vida como pensar as refeições, fazer compras, cozinhar, limpar a casa, lavar roupas e etc preenchem uma parte do tempo e ainda sobra pro lazer, visitar parques, museus, encontrar aquela sessão de teatro gratuito num centro cultural no meio da tarde, ler um livro de cabo a rabo tomando sol no quintal… Eu me sinto completamente preenchida, às vezes até prefiro não viajar só pra curtir esse mini período de “aposentada” de mentirinha.

  12. excelente texto! obrigada por continuar compartilhando suas aprendizagens! Apenas restou uma dúvida que gostaria de aprofundar: quais angústias você acha que quem atingiu o FIRE (pela sua experiência e entorno) costuma sentir, e por quê?

    1. A vida FIRE traz algumas angústias novas sim: o medo de perder o patrimônio, de não encontrar sentido na vida fora do trabalho, de se afastar de amigos consumistas.

      Não há um caminho perfeita, certo? É quase escolher as suas angústias.

      Para mim, é mais fácil lidar com as angústias de uma vida FIRE do que com a angústia de perder emprego, de não ter tempo para fazer as coisas que realmente importam, de se ver preso num ciclo infinito de trabalho-consumo, de sentir que nunca se tem o suficiente, de que não está vencendo na vida porque não consegue ostentar tanto quanto seus amigos…

  13. Ótima reflexão. Sobre angústia e como lidar com ela, você não tem curiosidade também de avaliar as respostas da religião ou da espiritualidade para ela? Já fez isso? Ainda não vi vc comentar sobre esse assunto.
    O bhagavad gita , por exemplo, foi inspiração para muitos, um exemplo notório é o do Jung (schopenhauer também), que acho que tem uma abordagem mais rica e ampla que Freud.
    Abs,

    1. Eu gosto sim de discussões religiosas/espirituais. Infelizmente, sou uma pessoa de pouca fé. Digo infelizmente, porque acho que pessoas com fé são mais felizes. A crença de que há um sentido maior para tudo que vivemos deve ser muito gratificante.
      Já participei de uma grupo de discussão do Bhagavad Gita, e honestamente, o livro não me inspirou. Tenho um enorme respeito pelas religiões de todo tipo, inclusive orientais, mas a filosofia destas não me proporciona conforto.
      Estudei Nietzsche ano passado, e gostei da visão dele que as religiões tendem a ser niilista. Eu prefiro afirmar a vida aqui, agora.
      Quanto a Jung e Schopenhauer, conheço pouco. Mas com certeza estou no caminho de um dia conhece-los bem, rs. Fico feliz de saber que talvez eles tenham respostas melhores para a angústia humana.

      1. Obrigado por resposta tão bem articulada! Eu gostaria de poder conversar com você sobre esses temas, acho que seria bem interessante!
        Afirmar o aqui e o agora ao meu modo de ver é central para as religiões também, especialmente em suas vertentes mais místicas ou hardcore. Diria que todo o esforço de meditação é tentar viver o aqui e o agora, seja vendo isso como presença de Deus ou não.
        Independente disso, pessoalmente, claro, vejo pontos como o da reencarnação e da lei do karma como fazendo bastante sentido ao refletir sobre a ordem das coisas, você vê diferente?
        Você já leu o poder do agora? De repente poderia ter maior ressonância com as suas ideias, quem sabe.
        Abs,

  14. Muito bom texto! Pelo que entendi o desejo por viagens “mais consumistas/locais turísticos” diminuiu no pós-fire? Em sentido mais amplo, a compreensão que o consumo é deletério ou ao menos não essencial está mais clara no pós-fire?

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