Um Ano Sem Compras

Em 2016, tomei uma decisão radical: ficar um ano inteiro sem comprar nada além de alimentos e produtos de higiene e limpeza. E o que começou como um desafio pessoal acabou moldando hábitos que carrego até hoje. Se você quer mudar radicalmente sua relação com o consumo, eu recomendo esse desafio.

Minha motivação inicial era o aspecto financeiro: eu desejava reduzir meus gastos e antecipar em mais alguns anos a minha aposentadoria.

Mas percebi que um banimento das compras não era apenas uma questão de finanças, mas uma oportunidade para reavaliar profundamente meu relacionamento com o consumo. Em 2016 eu já acompanhava os blogs do movimento FIRE há um ano, e já estava nutrindo uma convicção de que a felicidade não está ligada ao consumo material.

Só que eu ainda era fraca diante das tentações, especialmente quando se tratava de roupas que prometiam um breve momento de satisfação.

Então percebi que um desafio radical poderia cortar esse ciclo vicioso pela raiz. Afinal, se conseguisse manter meu nível de felicidade sem adquirir novos bens, isso provaria que a verdadeira alegria não está à venda. Com o bônus de economizar uma boa grana no processo.

Definindo as Regras e Preparativos

Como todo bom desafio, o meu precisava de regras claras. Ao compartilhar minha ideia com uma amiga, ela sugeriu uma cláusula de escape para emergências. “E se o salto do seu sapato quebrar a caminho de uma reunião importante?”, perguntou. Apesar de não usar salto, entendi a necessidade de ter um plano de contingência. Decidi criar um fundo financeiro para momentos inesperados, que seria alimentado pela venda de itens que não usava mais.

E qual não foi a minha surpresa ao perceber que essa etapa se revelou um desafio maior do que não comprar nada? Eu comecei com uma limpa no meu guarda-roupa, vendendo roupas no Enjoei, celulares antigos, bolsas, maquiagem e perfumes na OLX. Encontrei um local que comprava peças de ouro e vendi joias que nunca usava.

O mais interessante é que a dificuldade de me desfazer das minhas coisas antigas ajudou a resistir a novas compras. Vender uma peça de roupa pelo Enjoei, por exemplo, é um processo exaustivo: fotografar, anunciar, negociar, embalar, enviar e esperar o pagamento.

Em uma das idas aos correios durante meu horário de almoço para postar uma peça de roupa que eu havia vendido, eu voltei para o escritório comendo um lanche rápido e comentei com a minha chefe “eu estou tendo trabalho para me livrar das coisas que comprei!”. Impactada por essa frase, ela pegou um post-it, escreveu essa frase e disse “cola isso no seu cartão de crédito”. Por muito tempo, meu cartão andou por aí com esse post-it grudado. E com certeza me ajudou a evitar compras por impulso mesmo depois de terminado o desafio.

Em pouco tempo, arrecadei mais de R$3 mil para meu fundo de emergência. A quantia acumulada nesse fundo de emergência era suficiente para comprar muitas coisas, mas eu me contive. A única compra que fiz naquele ano foi um vestido de brechó para um casamento, que custou R$30.

O espaço físico e mental que se abriu ao não comprar

Durante meu ano sem compras, eu percebi que possuía mais do que o suficiente.

Como eu não podia comprar itens novos, aprendi a me virar com o que tinha e muitos truques de substituição. “A receita diz para usar forminhas de cupcake? Bom, vou fazer em forminhas de empada mesmo, é só um formato diferente!”. Esse tipo de processo se repetiu inúmeras vezes durante o ano, e eu me tornei craque em pesquisar no Google coisas do tipo “como bater ovos sem batedeira”.

E aprendi a valorizar objetos multifuncionais. A vida moderna frequentemente nos leva a acumular uma quantidade enorme de objetos, muitos dos quais têm propósitos específicos que acabam ocupando espaço sem uma utilização frequente (uma máquina de fazer pão, um espremedor de batatas, um moedor de grãos de café…). Você não precisa de objetos assim! Eu aprendi a só comprar objetos que servem a múltiplos propósitos ou que têm uma versatilidade significativa.

Do lado da moda, o meu super trunfo foi aprender a combinar qualquer tipo de roupa com tênis. Já que meu transporte preferido são meus pés, eu aprendi a valorizar meu conforto nos calçados. Com o plus de reduzir a necessidade de possuir muitos pares de sapatos específicos para cada ocasião e simplificar a minha escolha diária de roupas. E dizem que o processo de escolha (qualquer um, por menor que seja), cansa a nossa mente.

Com o tempo, fui percebendo que não só meu guarda-roupa, como também a minha mente, parecia ter mais espaço.  Meu processo nesse ano incluía não só resistir ao consumo como também me desapegar de peças antigas. A organização simplificada de meu guarda-roupa e de minha casa trouxe uma paz inesperada. Com menos objetos, a escolha diária de roupas tornou-se mais fácil e agradável.

Você não precisa viver assim para sempre, mas o desafio vai te marcar para sempre

Meu desafio de não comprar nada chegou ao fim em 2017, e eu decidi me dar de presente uma consultora de estilo antes de comprar qualquer peça nova de guarda-roupa. Eu queria voltar a comprar, mas queria fazer isso de forma inteligente e amparada por uma profissional. Dei sorte porque além de ganhar uma consultora, eu também ganhei uma grande amiga que tem a frugalidade na essência.

Quando voltamos a comprar, o processo foi feito com muito mais sabedoria. Diante de qualquer potencial compra, eu ponderei não apenas seu custo financeiro, mas também o custo de manter e de me desfazer desse objeto.

A restrição que começou com uma motivação financeira, se revelou uma escolha consciente de simplificar minha vida e reavaliar o valor real das coisas que me rodeavam.

E essa mudança de perspectiva deixou claro que até então eu remava contracorrente ao achar que minha vida seria melhor conforme mais objetos eu tivesse. Desde então abracei a simplicidade não apenas como um estilo de vida, mas como uma filosofia de que a verdadeira riqueza reside na liberdade de escolher como investimos nosso tempo e recursos – e não apenas quem pode comprar sem se preocupar com dinheiro.

Abaixo listo alguns livros que eu li depois do meu desafio, mas que super recomendo para quem quer ter um braço amigo durante o processo:

E seu eu parasse de comprar? da Joana Moura. A Joana ficou famoso pelo seu blog “Um ano sem Zara”. No livro, ela relembra como foi o ano em que ela decidiu parar de comprar roupas. Ela tem uma escrita brilhante e traz reflexões super interessantes sobre como a nossa cultura normaliza o consumo em excesso (alô fãs de Sex and The City). Fora que eu ri alto no capítulo que se chamava “Algumas famílias vão a igreja, a gente ia ao shopping”. Tão eu. 

O ano em que menos é muito mais da Cait Flanders. A Cait tinha um blog pessoal que se chamava Blonde on a Budget. Eu amava esse blog. Enquanto muita gente posta o patrimônio, ela postava os gastos, religiosamente, enquanto tentava se livrar de dívidas. Ela tem um estilo de escrita diferente da Joana, e é especial da sua própria maneira. Mesmo sendo gringa, as reflexões que ela traz são universais e muito válidas para nós brasileiros.

Not Buying It: My Year Without Shopping da Judith Levine. O livro mistura relatos pessoais com um quase manifesto anti-consumismo. É recheado de sacadas inteligentes e questionamentos relevantes sobre os malefícios do consumismo para a nossa sociedade. E foi o livro que a minha consultora de moda me emprestou, ela não é o máximo?

8 respostas

    1. Pois é, eu não era! Tive minha fase consumista! E o detox foi o que mudou pra sempre minha relação com consumismo!
      Eu pago sim pq abri um CNPJ da consultoria.
      Mas tenho pouca esperança de receber algo relevante do INSS no futuro!

  1. Li, os livros q vc indicou sao mto bons, minha irmã me emprestou o da Joana q ainda não li mas os demais eu amei! Tbm tô no desafio este ano pela terceira vez, embora nas outras 2 vezes eu não tenha conseguido ficar o ano todo (foram 11 e 8 meses). Viajei este feriado e vi uma camisa linda mas 290 reais…era de linho, listrada de azul e branco e combinava com minha vida e meu armário mas pra quê? Deixei ela lá rs.
    Me fala em qual brechó vc achou o vestido de 30? Aluguei um q me custou 200 reais, não me arrependo mas é difícil remar contra a maré, né? Perdi um tempão pra achá-lo em meio a um mar de vestidos de poliester q apareciam em patrocinados do instagram caríssimos e aos montes rs
    Frase da minha familia tbm: “Algumas famílias vão a igreja, a gente ia ao shopping”….q pena q não fui a familia q ia ao parque ou ao museu, teria sido tao mais facil, ne? rs
    Feliz de nossos caminhos terem se cruzado e da gente ter escolhido manter o laço por todos os anos, obrigada sempre por sua sabedoria :) Um beijao, Má
    PS: Agora q me deparei com esta frase: “E foi o livro que a minha consultora de moda me emprestou, ela não é o máximo?” A M E I

    1. Você tem que ler o livro da Joana! Ela é demais!
      O Brechó mais em conta de São Paulo na minha opinião é o Asa. Fica em Pinheiros.
      Eles só recebem roupas como doação, então o custo deles é bem baixo, e eles repassam isso para os preços!
      Tb fico muito feliz que os nossos caminhos se cruzaram. Você já me ensinou muito tb sobre dinheiro!

  2. Excelente texto! Houve 2 anos aproximadamente que gastei muito com roupa e hoje, ao analisar as compras, percebo que muitas peças poderiam ter sido evitadas. Comprei na emoção, parcelei no cartão de crédito e fiquei meses e meses pagando. Neste ano decidi que não compraria nada de roupa nova e estou assim desde dez/2023. Tem sido ótimo! No final do ano pretendo separar algumas roupas e doá-las e comprar alguns itens pontuais, mas sempre pensando na máxima eficiência que essas roupas podem proporcionar. Quando vejo alguém no Instagram mostrando a “coleção de sapato”, “coleção de tênis”, “coleção de bolsa”, “coleção de maquiagem” etc, vejo o quão absurdo é tudo isso. Obrigada pelo texto!

    1. Que legal que está no meio de um desafio pessoal tb! Boa sorte!
      Tenho certeza que sua relação com consumo nunca mais será a mesma!
      Pois é, tb fico com essa sensação de “absurdo”. Acho que é uma linha tênue com a compulsão!

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