Série Finanças & Cultura: Ep. 6 – Fome de Poder

Para ver a versão em vídeo, clique aqui.

Olá, sejam bem-vindos a mais um episódio da nossa série de finanças e cultura.

O filme que eu trouxe hoje é Fome de Poder, um filme que conta a história do McDonald’s, esse restaurante tão famoso. E, apesar desse filme parecer um filme sobre poder e ambição, eu realmente acho que ele traz esse toque mais sutil da suficiência, que é um tema super importante para quem quer atingir a independência financeira.

Bom, o McDonald’s tem uma história super interessante porque ele começou, ele foi construído por dois irmãos, os irmãos McDonald’s, que tinham lá uma lanchonete. E é muito legal quando eles apresentam a genialidade da pequena lanchonete deles, porque eles eram empreendedores natos. Eles já tinham tentado vários tipos de negócios, eles já tinham tido um restaurante com menu grande, extenso, mas perceberam que estava dando muito problema, tinha muito custo.

Daí eles decidiram até fechar o restaurante por um tempo porque chegaram à conclusão de que quase 90% das vendas do restaurante deles vinham só de três produtos: hambúrguer, batata frita e refrigerante.

Então eles concluíram que não precisavam de um restaurante com menu super extenso, que podiam só focar o restaurante deles na entrega de hambúrguer, batata frita e refrigerante.

Eu acho muito bonito isso, essa ideia do quanto, às vezes, o que a gente precisa na vida é simplificar, é reduzir complexidade. Eu adoro as pessoas que falam que a maioria dos nossos problemas se resolve quando a gente vai para menos, não para mais. Quando a gente reduz o número de coisas, o número de ruídos, o número de informações. Quando a gente simplifica a vida.

E é aí que os irmãos McDonald’s obtêm muito sucesso. A rede deles, eles são essa primeira rede de fast food nos Estados Unidos.

Mas aí chega a figura principal do filme, que é o Ray Crock. Ele não foi, de verdade, o fundador do McDonald’s, mas ele enxergou o potencial daquela pequena lanchonete e decidiu instituir um sistema de franquias dos McDonald’s.

Bom, o Ray Crock é uma figura muito interessante porque ele já tem mais de 50 anos. Parece que ele já tem algum sucesso financeiro e profissional na vida dele. Claro que não é aquele estrondo que viria a ser depois com o McDonald’s, mas até a esposa dele fala:

— A gente já tem casa, a gente tem carro, a gente tem o suficiente. E eu sinto que você nem curte as coisas que a gente tem, né? Precisa continuar trabalhando tanto, buscando tanto?

Mas ele é aquele cara típico ambicioso. Ele gosta de ouvir aqueles gurus, aquelas ideias, frases prontas. Tem várias frases muito boas ao longo do filme que trazem bem essa ideia da mentalidade do Ray Crock:

— Se você não está faturando muito e rápido, tem algo errado.

— A sorte favorece os corajosos.

— A vida está cheia de pessoas inteligentes, gênios não reconhecidos.

Então ele tem que lutar todos os dias para ser um gênio reconhecido.

Fica muito claro que essa é a ótica de vida do Ray Crock. É nisso que ele se baseia: sucesso, ambição, reconhecimento e poder. Por isso o nome do filme. O nome do filme não tem nada a ver com os irmãos McDonald’s. O nome do filme é por conta do Ray Crock.

Eu até acho interessante que existam pessoas assim. Eu acho que o mundo já se beneficiou muito de pessoas assim. Essas pessoas empreendedoras que gostam de tomar risco, são essas pessoas que criam ideias disruptivas, que melhoram muito a vida da humanidade.

Eu não estou aqui para fazer uma crítica a essas pessoas, mas eu acho que mesmo essas pessoas precisam, e talvez se beneficiariam, de ter um pouquinho mais de equilíbrio na vida.

Porque fica claro que, para ele, tudo é negócio.

Quando ele está numa mesa de jantar com os amigos no clube, ele só quer falar de negócios. Até quando um dos franqueados chama ele para jantar e fala:

— Ah, não gostaria de misturar negócios e prazer?

Ele responde:

— Eu não me importo.

A relação com a esposa é muito fria. Parece que ela só está lá naquele casamento para ouvir o quão bem-sucedido ele está sendo com os negócios dele.

Eu tenho uma amiga que brinca que a vida dela é uma pizza. Tem a fatia dos filhos, do marido, do trabalho. Tem as fatias dos estudos, das amigas, do lazer, do descanso, do tempo só para ela.

Eu acho que essa é uma analogia perfeita.

Eu acho que, na nossa vida, a gente tem que ter ambição, querer sucesso, buscar sucesso financeiro, sim. Mas eu acho que esse filme traz muito essa sensação de que, às vezes, essa ambição única e meio desgovernada, meio descontrolada, distorce muito as coisas.

O Ray Crock começa a ter alguns conflitos de interesse com os irmãos McDonald’s, principalmente quando ele começa a pensar muito nos custos. Ele é um homem de negócios.

Já os irmãos McDonald’s estão mais preocupados com a qualidade dos hambúrgueres que eles servem, das batatas fritas, enfim, com a eficiência da entrega da comida.

Mas o Crock não. Ele quer lucrar. Ele quer sucesso financeiro.

E é nisso que um dos franqueados apresenta para ele uma possibilidade de redução de custo na produção deles, que seriam os milkshakes em pó.

Então, ao invés de você usar sorvete de verdade, que precisa ter um custo super elevado de refrigeração, você usa lá um produto industrializado que dissolve numa água e vira um milkshake.

E a gente, que já avançou alguns anos para frente, sabe o quanto isso realmente distorceu o McDonald’s.

Eu não acho que hoje a gente olha para o McDonald’s e pensa:

— Nossa, é um restaurante que me alimenta.

Ele é um restaurante que serve comida que mata a nossa fome, mas a gente sabe que aquela comida não é muito saudável.

Tem até aquele documentário super famoso, Super Size Me, em que o diretor ficou durante meses só se alimentando de McDonald’s e, no final, todos os índices, todos os marcadores de saúde dele foram por água abaixo.

E eu nem estou querendo aqui bater no McDonald’s. A gente sabe que o McDonald’s não vende comida saudável, que realmente eles estão muito preocupados com custos, com redução do preço. É um alimento barato mesmo.

E a gente tem uma relação afetiva com McDonald’s. Eu tive uma relação afetiva com McDonald’s na minha infância. Eu entendo quando a gente fala que está com fome de Mc.

Mas é isso. Parece que, hoje em dia, ele é mais uma coisa cultural do que, de fato, um restaurante que serve uma comida boa.

E é muito interessante porque, no filme, a gente vê que foi o Ray Crock o responsável por essa distorção do McDonald’s como restaurante.

Tanto que a grande sacada dele é perceber que o McDonald’s tem que virar uma grande empresa imobiliária, que de fato ele é. E é assim que ele consegue ganhar dinheiro. Não tanto vendendo os hambúrgueres, mas sim cobrando dos franqueados os aluguéis pelas propriedades que são dele.

Mas é muito interessante ver como o Ray Crock distorce tudo na vida dele.

Tanto as relações com os amigos, mas também a relação com a esposa começa a ficar distorcida. A relação com os irmãos McDonald’s começa a ficar distorcida.

Porque ele só tem essa única métrica guiando a vida dele: o sucesso. O sucesso financeiro, o poder, o reconhecimento, a fama.

E eu acho que tem várias formas da gente interpretar esse filme.

Até antes de eu assistir esse filme, quem me recomendou falou assim:

— Nossa, é muito interessante porque a gente vê que os irmãos McDonald’s foram muito inocentes.

Porque, de fato, quando a relação com o Ray Crock ficou insustentável, eles preferiram vender a parte deles do McDonald’s.

E o Ray Crock conseguiu enganá-los falando:

— Não, vamos fazer só um aperto de mãos aqui, um contrato verbal de que vocês vão ter 1% das receitas futuras do McDonald’s.

Mas isso não está escrito em contrato.

Isso significa que depois o Ray Crock não cumpre esse acordo verbal.

Então dá uma sensação de que os irmãos McDonald’s saíram perdendo nessa história.

Mas será que eles saíram perdendo?

Porque é aqui que eu acho que tem o ponto principal do conceito da suficiência.

Para mim, fica claro que os irmãos McDonald’s têm muita coisa por trás na vida deles. Eles têm uma empresa de sucesso. Eles têm uma relação entre irmãos que é muito bonita de ver. Eles têm um desejo de pensar fora da caixa, de trazer uma alimentação de qualidade, de criar um senso de comunidade na cidade em que montaram a lanchonete deles.

Enfim, me parece que a pizza da vida deles é mais completa.

Mas eu também acho que dá para a gente usar os números aqui para reforçar esse meu ponto.

Porque os irmãos McDonald’s venderam a parte deles para o Ray Crock lá em 1960.

Naquela época, o S&P, que é a bolsa de valores dos Estados Unidos, valia mais ou menos 60 pontos.

E hoje, pelo menos enquanto eu estou gravando esse vídeo, o S&P já vale mais de 6.000 pontos.

Ou seja, se na década de 60, quando os irmãos McDonald’s receberam aquele 1 milhão de dólares cada um, eles investiram no S&P, hoje eles já teriam mais de 100 milhões de dólares.

Que é, inclusive, o valor que o filme, no final, fala que eles deixaram de ganhar porque não tiveram esse 1% de participação prometida pelo Ray Crock nos negócios do McDonald’s.

E agora eu vou fazer um parêntese aqui para explicar para vocês a regra dos 4%.

Essa regra é fundamental para quem quer buscar a independência financeira.

Todo mundo que pensa, sonha com a independência financeira, a primeira pergunta que a pessoa se faz é:

— Tá, mas quanto eu preciso juntar? Quanto é o suficiente?

E a gente tem uma regra para isso. Uma regra de bolso, que é a regra dos 4%.

Essa regra foi desenvolvida por um estudo lá nos Estados Unidos que comparou uma carteira de investimentos bem diversificada e chegou à conclusão de que, para você sustentar um patrimônio ao longo da sua vida, ao longo da sua aposentadoria, realizando saques anuais protegidos da inflação, você deveria se basear numa taxa segura de retirada de 4%.

Ou seja, se você tem lá $ 100.000, você poderia sacar $ 4.000 por ano.

Se você tem $ 1 milhão, poderia sacar $ 40.000 por ano.

No caso dos irmãos McDonald’s, que, na minha suposição, hoje teriam mais de 100 milhões, eles poderiam sacar 4 milhões por ano. E esses 4 milhões seriam sempre reajustados pela inflação e eles não esgotariam o patrimônio deles.

Nem preciso dizer o quanto 4 milhões é suficiente.

Mas vai que tem algumas pessoas muito, muito ricas assistindo esse vídeo pensando:

— Não, 4 milhões por ano não é suficiente.

Mas tem até uma outra métrica muito interessante, que foi um estudo de um prêmio Nobel, o Daniel Kahneman, que tentou investigar se existe algum nível de renda em que a pessoa atinge o auge do bem-estar.

Porque, sim, a gente sabe que é muito difícil ter bem-estar na sociedade em que a gente vive hoje sem dinheiro.

Então, conforme a gente começa a ganhar um pouco de dinheiro, aquele pouco de dinheiro começa a trazer muito bem-estar para a gente.

Mas chega uma hora em que ficar crescendo a nossa renda para sempre já não traz mais o mesmo efeito.

Por isso que a gente sabe de muitas pessoas muito ricas, mas que não se sentem muito satisfeitas com a vida.

Eles chegaram à conclusão de que esse nível de renda que traria o auge de bem-estar para as pessoas seria 75.000 dólares por ano.

Ou seja, bem abaixo dos 4 milhões que os irmãos McDonald’s devem estar usufruindo hoje em dia.

Eu não estou citando esses 75.000 aqui para a gente converter para reais e chegar à conclusão de que talvez, sei lá, a gente precisaria de R$ 400.000 por ano para ser feliz.

Eu acho que não.

Eu acho que esses números não são tão comparáveis assim porque a realidade do Brasil é diferente. O custo de vida no Brasil é muito menor do que o custo de vida nos Estados Unidos.

Mas eu acho muito legal porque esse filme traz bastante essa discussão sobre o suficiente.

Eu não consigo assistir esse filme, saber que os irmãos McDonald’s ganharam 1 milhão de dólares cada um lá na década de 60 e concluir que eles não conseguiram o suficiente na vida deles.

Até o Ray Crock, no final, tem uma conversa com um dos irmãos em que ele fala isso.

Ele fala que o que encantou ele no McDonald’s foi o nome.

E ele fala:

— Um McDonald’s nunca vai ser um fracassado na vida.

E o irmão se pergunta:

— Será?

Eu estou aqui para responder para o irmão McDonald’s que eu não acho que ele foi um fracassado na vida.

Eu acho que ele teve sucesso suficiente.

Ele não trocou de esposa por uma esposa maravilhosa igual o Ray Crock.

Ele não trocou de casa por uma mansão em Beverly Hills igual o Ray Crock.

Ele não fez discurso para o presidente como o Ray Crock.

Ele não criou uma grande corporação, uma multinacional, como o Ray Crock.

Mas ele também foi empreendedor.

Ele também foi disruptivo.

Ele também ganhou dinheiro suficiente na vida dele.

Ele teve sucesso.

Enquanto o Ray Crock não.

Ele continuou, continuou, continuou. Brigou com mais sócios no final.

Mas o final do filme eu acho muito sutil.

Porque, no final do filme, ele está de frente para o espelho decorando um discurso que vai fazer para o presidente dos Estados Unidos.

E, quando resolve falar que ele foi o fundador, que criou o McDonald’s número um, ele se olha no espelho e a gente percebe no semblante dele o quanto ele não está feliz com aquela situação. O quanto ele sabe que é um impostor.

Sabe aquela história de que os fins justificam os meios, mas que talvez você não consiga se olhar no espelho no final do dia?

É com essa cena que o filme termina.

Porque, sim, para algumas pessoas o Ray Crock foi um baita de um cara, uma inspiração, um modelo a seguir na vida.

Mas ele não conseguia se olhar no espelho no final do dia.

Talvez o fato de ele nunca enxergar, de ele nunca entender que existe, sim, o suficiente, que existem equilíbrios mais saudáveis na nossa vida, foi o que impediu ele de conquistar aquilo que talvez até buscava: o contentamento.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *