Série Finanças & Cultura: Ep. 10 – Dias Perfeitos

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Olá, sejam bem-vindos ao último episódio da nossa série de finanças e cultura. Chegamos ao 10º episódio e eu tô muito feliz de ter concluído essa série. Me diverti demais no processo. Até muita gente ficou me perguntando: “Mas por que que você fez um canal no YouTube?”. E a verdade é que eu fiz para me divertir, para refletir, para usar algo que eu amo — que são os filmes, o cinema — para valorizar um pouco mais o nosso debate aqui sobre finanças.

Eu acho que aqui com a série, eu consegui aprofundar um pouco mais com os exemplos dos filmes os temas que eu já defendo há tanto tempo no blog. O blog esse ano já vai fazer 4 anos e, até se você não conhece meu blog, eu vou deixar o link aqui na descrição desse vídeo. Mas também me segue aqui nesse canal; eu tenho o meu Instagram onde eu também posto as novidades. Eu não sou de postar muito, mas sempre quando tem novidades eu posto lá. Curte esse vídeo, compartilha com as pessoas que você acha que vão gostar, porque quanto mais pessoas tiverem aqui curtindo, mais motivada vou me sentir para continuar fazendo esse tipo de séries aqui no YouTube.

Bom, e o filme de hoje é um filme que, desde o começo, eu sabia que eu ia encerrar essa série com esse filme. Hoje ele é um dos meus filmes favoritos e eu vejo que sempre quando eu indico esse filme para alguém assistir, tem uma correlação bem direta com se a pessoa gosta ou não do que eu proponho no movimento FIRE. Normalmente, pessoas que já estão bem embarcadas no movimento FIRE amam esse filme, e pessoas que ainda olham o movimento com alguma desconfiança não gostam muito desse filme, acham esse filme até meio pacato. Já várias pessoas me relataram que dormiram no filme, não conseguiram assistir.

Eu acho que a importância de encerrar essa série com esse filme é porque toda a discussão que eu trouxe aqui sobre trabalho, consumo, sobre suficiência, satisfação, sobre o que a gente tá buscando, sobre as nossas relações afetivas… enfim, acho que tudo o que a gente faz relacionado a dinheiro normalmente tá relacionado com uma pergunta muito mais profunda, que é: o que é uma vida boa? Porque a gente tende a achar que uma vida boa é essa vida de luxo, uma vida de ostentação, uma vida em que a gente tem dinheiro para comprar tudo que a gente quer, uma vida em que a gente tem um trabalho que paga muito bem.

E tem muita gente que tem curiosidade de saber qual que é a vida de uma pessoa que abriu mão dessas coisas, que é a minha vida hoje em dia, né? Como vocês sabem, eu atingi a independência financeira muito cedo, mas eu só consegui fazer isso porque eu abri mão desse consumo por excesso, que é o que dita a vida da maioria das pessoas. Parece que é o normal na nossa vida contemporânea. E foi quando eu abri mão desse consumo por excesso que eu consegui ter uma taxa de poupança muito elevada. Claro, eu ganhava bem, eu tinha uma renda alta, mas foi porque eu realmente aprendi a repensar a minha relação com o consumo que eu consegui manter uma taxa de poupança muito elevada e atingir a independência financeira.

Às vezes as pessoas me perguntam até no meu Instagram: “Ah, você podia postar mais da sua vida, mostrar como é que é a vida de uma pessoa com independência financeira?”. E eu não sei muito como fazer isso, porque a minha vida é muito simples, ela não tem aquele glamour que normalmente chama atenção no Instagram. E eu acho que esse filme… quando eu assisti esse filme, eu falei: “Tá aí, esse filme ele é um bom retrato da vida de alguém que buscou uma aposentadoria precoce, da vida de alguém que abriu mão do consumo por excesso, dos excessos na vida, que buscou ter o suficiente para ter uma rotina boa, uma rotina satisfatória”.

Então, o filme de hoje é o filme Dias Perfeitos, um filme japonês que tem um diretor alemão, na verdade, mas esse filme se passa em Tóquio. Ele é um filme meio pacato, ele não tem um roteiro surpreendente, ele não tem uma história que tem aquele plot twist, ele não tem um personagem fazendo aquela jornada do herói que é tão comum nos filmes. Ele é um filme que mostra a vida do nosso protagonista, o Hirayama, que é um homem comum. Ele é tão comum, mas tão comum, que até o diretor, eu acho que ele teve essa sacada brilhante, de colocar como profissão do Hirayama algo que a gente falaria que é o oposto de qualquer cargo de sucesso numa empresa, né? O oposto do que a gente almeja pros nossos filhos se tornarem no futuro. O cargo dele é limpador de banheiro público.

E não tem nada de errado em limpar banheiro, limpar banheiro é uma atividade natural, né? A maioria das pessoas faz isso, algumas pessoas pagam para outras pessoas fazerem isso, mas a gente sempre tá buscando limpar os nossos banheiros. Mas parece que trabalhar com isso e limpar o banheiro de outras pessoas — ou melhor, limpar o banheiro de uma cidade como Tóquio, que é uma das cidades mais populosas do mundo — parece uma atividade não muito digna, né? Uma atividade que não parece possível que alguém se sentiria bem tendo uma vida de limpador de banheiros públicos.

E o filme já logo no começo mostra a rotina desse nosso protagonista, do Hirayama. Então mostra ele acordando, e o jeito dele de acordar não é como a gente tá acostumado, não é com um despertador estridente. Ele acorda todo dia quando uma senhora tá varrendo a rua da casa dele, então ele ouve o barulho da vassoura e é isso que desperta ele. Ele acorda, ele escova os dentes, ele rega as plantas dele, ele limpa a casa dele que é muito pequenininha, então ele faz essa limpeza rapidamente, ele toma um café da manhã simples, ele entra num carro simples e ele vai para esse trabalho dele que é super simples. Ele almoça sempre no mesmo lugar, num parque, ele olha, admira as árvores, ele tira fotos da copa das árvores, fotos numa câmera de filme. Ele é super analógico, já vamos falar mais sobre isso depois. Ele vai para um lugar jantar, para um restaurante que ele sempre frequenta, ele volta para casa e ele dorme.

Mas já logo no começo do filme a gente vai percebendo que esse personagem ele tem um semblante, ele traz assim aquela característica que eu acho que muita gente busca nos dias de hoje. Acho que tem muita gente inclusive tomando remédio para conseguir atingir essa plenitude, essa paz que o protagonista tem naturalmente. Ele é um limpador de banheiros públicos em paz, satisfeito, sereno com a vida. A gente ouve muito falar do estoicismo hoje em dia, eu já até escrevi sobre o estoicismo no meu blog, que é uma filosofia que tá na moda. E os estoicos, eles pregam essa sabedoria de ter serenidade com a vida, de reconhecer o que a gente consegue mudar ou o que a gente não consegue mudar, de não ter sofrimento. E esse personagem ele me parece um estoico perfeito, né? Você vê que ele não se abala com nada.

E eu acho muito interessante que, dentro do filme, a gente tem um outro personagem que é um outro funcionário do mesmo cargo que ele, que também limpa banheiros públicos, que ele é o oposto do Hirayama. Ele é um cara histérico, ele é um cara insatisfeito com a vida, ele tá puto, ele acha que ele sofre, ele vive muitas injustiças, ele tá irado, ele é ansioso, ele quer tudo para ontem, ele é ambicioso, ele quer crescer, ele tá frustrado, insatisfeito. Ele é aquele cara que tiraria a paz de qualquer um, mas ele não tira a paz do Hirayama. O Hirayama ele é um cara tão centrado, tão presente na vida dele que aquele funcionário, aquele colega de trabalho irritante, não irrita ele.

E lembra daquilo que eu disse de que o Hirayama ele vive uma vida analógica? Então, ao longo do filme, a gente percebe que ele nunca pega um smartphone, ele nunca abre um computador, ele não tem televisão na casa dele. Quando ele vai dormir para se distrair, ele lê um livro, não um Kindle, um livro físico. Ele ouve todos os dias no carro dele fita cassete. E, aliás, a trilha sonora desse filme é maravilhosa, é uma trilha sonora para dias perfeitos mesmo.

E é muito interessante porque eu acho que essa questão dele ser analógico, dele ter lá a fotografia de filme que ele revela, né? O prazer do final de semana dele é revelar os filmes que ele tirou das copas das árvores ao longo da semana para admirar. Algumas fotos ficaram boas, ele guarda; algumas fotos ele simplesmente descarta. Mas eu acho muito legal o fato dele ser analógico, porque também escancara, também faz esse contraponto com a nossa vida de hoje. O Hirayama ele vive offline e a gente hoje vive online. E o Hirayama ele mostra o quanto essa vida analógica dele tem presença. É uma presença que faz ele ser tão centrado que, como eu disse, acho que ele é essa figura estoica. O fato dele ter essa vida analógica contribui muito para que ele tenha essa paz inabalável que, de novo, quantas pessoas hoje em dia não dariam de tudo para ter essa paz inabalável do Hirayama?

Mas será que a gente tá disposto a viver dessa forma tão analógica como ele? Será que a gente tá disposto a viver dessa forma tão simples, uma rotina tão simples, tão sem luxo, sem ostentação, até mesmo sem um pouco de conforto?

E aí aparece nesse filme um outro personagem que eu acho fundamental para entender esse filme, que é a sobrinha dele. Então, no meio do filme, essa sobrinha chega na casa do tio, ela vai visitá-lo e depois a gente descobre que ela meio que fugiu da casa dela para viver uns dias com o tio. A gente não sabe muito da vida dessa sobrinha ao longo do filme, só no final fica mais claro do que que ela tá fugindo, mas a gente percebe que ela é uma jovem e ela entra nesse mundo do tio e ela não tenta mudar nada. Ela não tenta modernizar o tio, ela não tenta alterar a rotina dele, ela simplesmente se encaixa na rotina do tio, vai vivendo junto com ele, vai indo pro trabalho com ele, vai indo nos almoços com ele, contempla as coisas junto com ele. Parece que aquela sobrinha, o que ela precisava mesmo era um refúgio, e esse refúgio ela encontra na casa do tio.

E aí, no final do filme, quando chega a mãe dela, a irmã do Hirayama — e ela é uma mulher super bem vestida, ela é aquela cara da figura rica, bem-sucedida, num carrão com motorista, já mexendo num smartphone —, ela vai buscar a filha. Você vê que ela tá meio apressada, parece que ela tá meio pé da vida com a filha, assim. Fica meio claro que, talvez — a gente tem que supor aqui, porque a gente não vê a vida da sobrinha e da irmã com tantos detalhes assim —, mas acho natural supor que a sobrinha ela tá vivendo aquela vida de adolescente nos dias de hoje, super comum nas classes de renda mais alta, e que tem muita expectativa, muita pressa, muita ansiedade, muita necessidade de cumprir com as tarefas, os papéis sociais que são sempre uma barra muito elevada para esses jovens.

Então, parece que, no final do filme, a gente finalmente entende o que que ela foi procurar na casa do tio. E eu acho até muito bonito que essa sobrinha ela tenha esse tio, que é essa espécie de refúgio para ela de vez em quando na vida. Talvez ela vai ter que cumprir com as demandas da sociedade que a mãe dela vai obrigar, que a própria sociedade vai impor, mas talvez ela consiga viver um pouco mais em paz sabendo que ela tem o tio dela lá, para quando ela precisar. É um desafogo mesmo, é o refúgio dessa nossa vida contemporânea.

Bom, como eu disse, esse filme ele não tem um roteiro gigantesco, ele é um filme pra gente degustar, sabe? Porque eu não acho que esse é um filme sobre trabalho, sobre riqueza, sobre pobreza. Não é um filme sobre Japão, mesmo tendo Tóquio como pano de fundo. Não é um filme sobre beleza. Eu acho que ele é um filme sobre paz. Esse filme ele nos mostra alguém que conseguiu encontrar paz na própria existência.

Esse filme ele me toca profundamente, porque eu acho que ele tem uma relação muito bonita com a independência financeira. Eu não era uma pessoa que gostava de uma vida simples, pelo contrário, eu era uma pessoa que estava perdida nessa vida de excesso, de trabalho e consumo, como a maioria das pessoas estão hoje. Mas eu sentia que aquela vida não estava fazendo sentido para mim, que aquela existência não estava me trazendo muita paz. Eu precisava encontrar um outro equilíbrio, uma outra forma de vida. Parece que eu queria encontrar uma vida boa, de fato, para mim. E eu achava muito difícil encontrar paz e significado numa vida em que eu estava presa a uma rotina de trabalho de 12 horas por dia e que os finais de semana eram usados para consumir e gastar aquele dinheiro que eu conquistei.

Eu tô longe de viver como Hirayama, eu ainda não alcancei essa paz serena inabalável que ele tem, mas eu tô muito mais próxima do que eu era antes. E foi graças ao processo de querer atingir a independência financeira, de repensar os meus valores, de repensar a minha relação com o consumo, de entender o valor de uma vida mais simples, de uma rotina menos corrida, de uma rotina com mais tempo, de uma rotina mais offline. E, depois que eu atingi a independência financeira — e agora já tem 5 anos que eu vivo essa vida de independência financeira —, como eu disse, eu ainda não alcancei essa paz inabalável do Hirayama, mas hoje eu sinto que a minha vida se aproxima muito mais da vida dele do que da vida da maioria das pessoas que estão ao meu redor.

Bom, estamos encerrando essa série com esse filmaço que eu espero que vocês assistam, que vocês comentem aqui o que que vocês acharam, se esse filme te tocou tão profundamente quanto me tocou. Todos os filmes que a gente discutiu nessa série eles falavam sobre dinheiro, sobre trabalho, consumo, sobre liberdade, sobre dependência de outras pessoas. E o dinheiro, ele sempre aparecia como um palco onde essas coisas, essas cenas se desenrolavam. Mas o que eu queria deixar claro nessa série é que o dinheiro, ele é uma ferramenta que amplia as nossas escolhas. E aí vale a pena a gente pensar quais são as escolhas que a gente tá fazendo: a gente quer dinheiro para consumir mais, para ostentar mais, para ter mais conforto? Ou a gente quer usar o dinheiro para ter mais liberdade, mais tempo, mais tempo com as pessoas que a gente ama? A gente quer usar o dinheiro para comprar a nossa paz de espírito?

Enfim, encerrar com esse filme eu acho que deixa claro que o que eu queria mostrar ao longo dessa série é que a vida simples ela pode ser extraordinária, mas de uma forma diferente. Talvez a minha resposta hoje para o que é uma vida boa, de verdade, é uma vida em que a gente consiga estar presente todos os dias, em que a gente tem uma rotina que a gente não queira fugir dela, que talvez os “dias perfeitos” não tem que ser aqueles dias que acontecem só uma vez na nossa vida.

Encerramos essa série por aqui. Eu pretendo trazer outra temporada, tô animada, tô tendo várias ideias, ainda não sei quando vai sair. Então, me sigam aqui no canal, me sigam no Instagram, assinem a newsletter do meu blog, porque é por lá que eu vou comunicar as novidades. Mas o blog continua, o blog segue com postagens a cada 15 dias, então vocês não vão ficar órfãos de mim, a comunicação continua por lá e, de vez em quando, no Instagram. Porque, assim como Hirayama, eu também prezo muito essa minha vida offline. Então, não esperem que eu vá ser uma influenciadora que vai inundar vocês de conteúdo. Mas esse é um assunto que eu amo, eu quero sim divulgar mais o movimento FIRE, mais a possibilidade de atingir a independência financeira, pro máximo de pessoas. Então eu sigo firme com o meu propósito e assim que der eu volto com mais vídeos.

Um beijo, gente.

Respostas de 2

  1. Depois conta pra gente como esta sendo seu curso de filosofia… o que tem achado positivo e negativo… o esperado e o que nao era esperado kkk

    Mtas vezes penso em fazer esse curso, mas nao sei se vai ser tão legal quanto imagino.

    1. Olá! Eu decidi fazer graduação, então é mais puxado do que um curso, rs.
      Mas estou adorando. Primeiro que me impõe uma rotina, algo essencial na vida FIRE.
      Segundo que é um baita desafio intelectual, e eu sempre gostei de ter desafios assim.
      E terceiro que a filosofia passa por uma discussão existencial que eu acho bem rica. Já pensava muito sobre a vida sozinha, está sendo ótimo pensar acompanhada dos grandes intelectuais da nossa história.
      Mas claro, nem tudo são flores. Tem a parte ruim da faculdade em si: pegar trânsito para chegar lá, aguentar alguns professores ruins, alguns colegas desagradáveis, rs. Como tudo na vida, tem seu lado B também.
      O que importa é que a relação custo-benefício tem sido excelente!

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