Essa semana saiu a minha entrevista para a DW.
No final de abril, o jornalista da DW Brasil me procurou dizendo que eles tinham interesse em produzir uma reportagem sobre o movimento FIRE e gostariam de me entrevistar para descobrir como eu tinha conseguido essa “façanha”. Eu o corrigi de imediato: disse que essa tal “façanha” nada mais era do que o resultado de muito planejamento e de escolhas deliberadas ao longo do tempo — inclusive a de reduzir drasticamente o custo de vida que eu escolhi sustentar.
Obviamente, fiquei muito feliz e lisonjeada com o convite. Eu já admirava o trabalho da DW. E na minha cabeça, eles fariam algo parecido com a emblemática matéria do Mr. Money Mustache para a rede ABC, lá em 2015, que ajudou a divulgar o blog e o movimento de forma séria nos EUA.
Então marcamos a conversa, e eu fui super preparada. Tentei explicar o máximo que pude sobre o movimento e, como já estou acostumada com as críticas, fiz questão de deixar claro que não sou ingênua. Sempre soube que propor o FIRE num país como o Brasil é desafiador por conta da nossa brutal desigualdade de renda. O nosso país é pobre, mas também é desigual. Isso significa que existe, sim, uma parcela relevante de pessoas com renda alta que poderia se beneficiar — e muito — dessa filosofia.
E ainda provoquei uma reflexão essencial: se os brasileiros de renda mais alta construíssem a própria independência financeira em vez de dependerem do governo na velhice, quanto recurso não seria liberado do INSS para quem realmente precisa? Como vocês viram, nada disso foi para o ar.
É claro que a reportagem teve pontos interessantes, e tenho orgulho das minhas falas que mantiveram na edição. Fiquei satisfeita por terem focado no aspecto frugal do movimento, nas minhas escolhas conscientes, no início do corte de gastos e até na transição para cortes mais estruturais, como a moradia. Mais do que isso, fico feliz que tenha ficado muito clara a minha mensagem central: a de que buscar a independência financeira nunca foi sobre acumular recursos por acumular, mas sim sobre comprar a própria liberdade e reconquistar o controle do tempo.
Também achei fundamental terem mostrado o que veio depois. A minha fala contrapõe perfeitamente aquele receio do “vazio” pós-aposentadoria: mostrar que usei esse tempo livre para viajar de trailer pelo país, aprender violão, canto e cursar a faculdade de filosofia. Isso escancara que o objetivo final do FIRE é redirecionar nossa energia para atividades com significado pessoal, independentemente de retorno financeiro.
E, por fim, valeu a pena ver no ar a minha colocação sobre o desafio de lidar com a pressão e a resistência externa — essa estranheza que as pessoas ao redor demonstram quando você decide mudar o padrão de consumo e questionar a rotina tradicional de trabalho e gastos.
Mas, em algum momento, a matéria simplesmente desandou. Por mais que o repórter insistisse que aprofundaria o movimento, o que se viu foi um debate superficial. Senti falta de uma discussão real sobre as razões pelas quais as pessoas se interessam por uma aposentadoria precoce e, principalmente, sobre os benefícios de uma vida com autonomia financeira.
A matéria desviou da minha história para dar palco a duas críticas. Em especial, a do economista convidado — especialista em previdência pública —, que deixou escancarado o fato de não ter entendido nada sobre o FIRE. Com um tom nítido de deboche, ele soltou: “isso é um absurdo, a não ser que a pessoa seja herdeira de uma grande fortuna, não é uma possibilidade para os meros mortais”.
Para ele, só existem dois caminhos possíveis no Brasil: ou você nasce herdeiro, ou é um “mortal comum” fadado a trabalhar até os 60 ou 70 anos.
Mas e as pessoas de renda alta? Elas não podem escolher se aposentar cedo através da poupança e dos investimentos?
Me pareceu alguém que está tão habituado a enxergar as pessoas como meras linhas em planilhas de dados estatísticos, que se esqueceu do básico: por trás dos números existem indivíduos com livre-arbítrio, capazes de tomar decisões inteligentes com o próprio dinheiro.
E é fácil debochar quando alguém é tratado como um mero “personagem” e você se coloca no papel de especialista. Afinal, lá estava eu, economista também, que entendo perfeitamente de números e das estatísticas brasileiras. Mas decidi parar de me esconder sob o rótulo de especialista, de aceitar passivamente a ideia de que o Brasil é um bloco homogêneo de pobreza onde não há possibilidade de uma vida melhor para ninguém. Eu decidi dar a cara a tapa e servir de exemplo para os brasileiros privilegiados que podem, sim, poupar boa parte da renda.
Inclusive, semana passada fui convidada para um podcast cuja proposta era exatamente essa: eu seria a “personificação” do FIRE enquanto outro economista, especialista em finanças pessoais, apresentaria as limitações do movimento. Recusei, obviamente. Não tenho interesse em participar de dinâmicas montadas para criar polarização rasa.
Talvez essa tenha sido a minha ingenuidade: querer falar sobre possibilidades reais de escolhas pessoais e servir como exemplo em um mundo viciado em culpar os outros pelas próprias frustrações.
O mais irônico é que um especialista em previdência pública deveria tirar o chapéu para o FIRE. Um movimento que propõe que quem tem condições (sobretudo quem ganha R$ 20 mil por mês) construa o próprio patrimônio, ao invés de depender do Estado. Isso deveria ser elogiado, e não debochado.
Honestamente, a reportagem nem precisava ter entrado pelo debate da previdência pública. Quando usaram o exemplo de mulheres que se aposentavam aos 40 anos no passado pelo INSS, criaram uma confusão técnica desnecessária. O FIRE jamais defendeu a redução da idade mínima de aposentadoria paga pelo governo. Não é um movimento para fazer o Estado pagar as nossas contas — nem agora, nem aos 60 anos.
É um movimento de empoderamento individual. Não busca mudar leis, nem exigir nada do governo. É, sim, praticado por pessoas privilegiadas que reconhecem seus privilégios. E que, ao perceberem que ganham bem em um país com renda média de R$ 3 mil, escolhem viver felizes com 30% da renda, cientes de que já desfrutam de uma realidade muito mais próspera do que a maioria.
Não entendo como um especialista em contas públicas perdeu a oportunidade de dizer a um país que poupa tão pouco — inclusive entre os mais ricos — que poupar é, sim, possível. E decidiu ignorar por completo os benefícios para a economia como um todo do aumento da poupança privada.
Isso passa, inclusive, por redefinir o papel do trabalho. Num mundo corporativo doente, marcado por epidemias de burnout e, ao mesmo tempo, por jovens sem oportunidade no mercado, por que não enaltecer um movimento que ensina a usar o capitalismo a seu favor? Que mostra na prática que dinheiro gera dinheiro?
Em vez de naturalizar o esgotamento profissional como única via, o FIRE o trata apenas como um pedágio temporário para uma vida com mais propósito. E mais: cada pessoa que atinge o FIRE, e deixa o mercado corporativo, abre espaço para os jovens que estão começando na carreira.
Em uma época de tanto pavor sobre o fim dos empregos pela inteligência artificial, não seria o momento ideal para exaltar a busca pela independência financeira? Incentivar as pessoas a se tornarem sócias de grandes empresas via ETFs? A participarem da geração de riqueza global e a construírem renda passiva para focar no que realmente importa? E o impacto positivo de reduzir o padrão de consumo num planeta que adoece pelo excesso?
Minha primeira reação ao assistir ao vídeo foi um indigesto “não gostei”. E, como comentei, nem me dei ao trabalho de ler os comentários do YouTube, porque sabia o tipo de ruído que encontraria por lá. Fui dormir e, no dia seguinte, comecei a receber mensagens carinhosas de apoio. Decidi compartilhar o vídeo nos meus grupos de amigos, familiares e no meu Instagram.
Com esse filtro de quem realmente acompanha minha trajetória, o retorno foi incrivelmente encorajador. A maioria compartilhou da mesma decepção: viram que a matéria perdeu a chance de destacar a riqueza do movimento e preferiu partir para a crítica rápida. Fiquei aliviada ao ver que a minha indignação não era isolada.
Agradeço demais o apoio de cada um de vocês. Se um dia quiserem ajudar a divulgar o movimento de forma real e profunda, recomendo que compartilhem a minha participação no podcast da Carol e da Vic. Lá, com certeza, o bate-papo foi infinitamente mais rico em detalhes, sem deixar de lado as reflexões sobre as limitações do movimento.
No fim das contas, estou feliz com o alcance do vídeo. Aparentemente, um número significativo de pessoas ficou curioso com a tal “façanha” e veio me procurar no Instagram e no blog para entender a real história. Se você é uma dessas pessoas: seja muito bem-vindo!
Um movimento que nada contra a corrente dominante é difícil de resumir em poucos minutos de edição de vídeo. Mas neste blog tem conteúdo que produzo há 4 anos, de forma 100% gratuita (e sem a encheção de saco de anúncios pipocando), para quem quiser entender a lógica por trás dos números e preparar a própria liberdade.
Depois de navegar por aqui, espero que você se convença de uma coisa: a independência financeira não é um privilégio reservado aos deuses herdeiros, e existe, sim, um propósito gigante em uma vida que não se resume a trabalhar apenas para pagar contas.
Respostas de 8
a matéria foi tendênciosa, difícil sair da caixinha, não é mesmo? mas suas falas me passaram muita verdade! eu me identifico demais com essa perspectiva da gente entender quais são nossas reais necessidades. ainda bem que você aceitou o convite da DW, porque de alguma forma vai atingir pessoas que como eu, nunca tinham ouvido falar sobre o movimento FIRE e só precisam de um “empurrãozinho” pra começar nessa jornada!
Parabéns Lilian!
Adorando te seguir. Ninguém precisa fazer exatamente o que você fez, mas o seu exemplo abre horizontes. Também comecei a trabalhar cedo, aos 15 anos, e aposentei aos 45. E sigo feliz, curtindo a vida…
Parabéns pelas falas sobre uma nova possbilidade de viver a própria vida, encarando e aproveitando os privilégios de ganhar um pouco mais do que a maioria e tendo a consciência de evitar despesas desnecessárias no presente para ter um futuro de maior abundância e perenidade. Estou seguindo tal filosfia há cerca de um ano e tem sido libertador gastar apenas com algo intencional, não desperdiçar dinheiro pra agradar terceiros e viver de forma mais leve. Sigamos. Obg por tudo.
Lilian, você é uma grande inspiração para quem está disposto a se aprofundar, a se jogar em um movimento de vida que está fora do status quo e que carrega profundas incertezas, questionamentos existenciais (sim!) e reflexões diárias. Infelizmente essa pessoas são raras. O que a reação da massa revela nesses conteúdos é justamente isso, somos poucos, mesmo entre os que teriam sim condições de viver dessa maneira mas preferem a posição de vítimas. Buscar o FIRE nos traz a sensação de isolamento em muitos momentos, mas também nos preenche de liberdade, propósito e autonomia. Expor a própria vida não é fácil, mesmo quando esse não é o conteúdo principal. Eu te agradeço imensamente por esse blog, já maratonei na leitura diversas vezes e sigo não perdendo um único post. E pra quem pensa que você enriqueceu porque publicou um livro, sinceramente, vão passar a vergonha no débito ou no crédito? 😂
Infelizmente, hoje mesmo grandes veículos de comunicação parecem depender de chamadas polêmicas e “rage bait”. A matéria me pareceu conscientemente articulada para provocar a ira dos internautas e, assim, aumentar as visualizações e interações.
Acontece que mesmo com essa composição enviesada da reportagem, surgiram alguns seguidores novos. Isso significa que a sua mensagem chamou a atenção de alguns corações questionadores, e eu acho que isso já faz tudo valer a pena.
Me desculpe… mas o problema do seu exemplo é que vc não é FIRE, é apenas FI. Vc continua trabalhando, publicando e dando consultoria. E agora quanto mais expõe sua imagem e mais seu site fica famoso, mais venderá produtos ou serviços. “Aposentadoria antecipada” que continua trabalhando é esquisito.
Você se colocar como exemplo e porta-voz FIRE não é totalmente coerente. Comentários abaixo para os seus seguidores analfabetos dizerem “brasileiro sendo brasileiro”
E é coerente ser porta-voz do FIRE sem publicar nada sobre o assunto? Kkk
O blog dela não tem nem anúncio cara, cai na real
Vc queria q ela enviasse um livro pra sua casa de graça tb? Ta se achando assim?
É bem diferente trabalhar porque quer, no horário e no dia que quer, sem depender dessa receita. FIRE é independência e poder de escolha.