“Cada um quer o mesmo, cada um é igual”

Em algum momento, no começo de agosto, eu ouvi pela primeira vez a expressão “morango do amor”. E foi um momento tão insignificante que eu nem me lembro onde foi. Mas aí a expressão começou a parecer com mais frequência nas redes sociais, amigos começaram a compartilhar o tal morango, até a mídia tradicional começou a fazer matérias sobre esse pequeno prazer. Um dia eu vi uma mulher na rua com o morango na mão, era por volta das 18h, ela vestia roupas de quem trabalhava no mundo corporativo, e carregava um sorriso leve no rosto, provavelmente reflexo da sua pequena recompensa em forma de doce.

Até que finalmente, na padaria do meu bairro, que ainda vende pingado com pão na chapa por menos de 15 reais, eu vi o anúncio do famoso morango do amor (por 17 reais). Comprei, levei para casa, dei uma mordida e conclui: “não é para mim”. Deixei o que sobrou para o meu marido, que também concluiu que era doce demais para ele. Depois de alguns dias, o doce tomou tal forma que seria imprudente dar outra mordida e ele foi quase inteiro para o lixo. 

Quando comentei com uma amiga que eu tentei aderir a febre do morango do amor mas vi que não era o tipo de doce que me agradava, ela disse “você comprou errado! Vou comprar de uma mulher que faz o melhor morango do amor que eu já comi e você vai ver que é uma delícia”. 

Os leitores atentos (e antigos) desse blog já devem saber para onde eu quero ir com essa analogia. Mas para os mais novatos, vamos destrinchar por partes o raciocínio. 

A frase genial que não é minha

O título desse post está entre aspas de propósito, porque essa frase genial não é minha. É de Nietzsche, no livro “Assim falou Zaratustra”. Livro que estou lendo porque tirei mais um plano da vida FIRE do papel e coloquei em prática. Eu comecei a fazer faculdade de filosofia. 

Recentemente, uma amiga querida leu meu livro e disse “eu finalmente entendi por que você se atrai tanto por filosofia. Você gosta de questionar as coisas.” E sim, ela tem razão. Parece que toda a minha jornada rumo ao FIRE foi um grande questionamento. “Por que temos que trabalhar até os 60 anos de idade?”. “Por que precisamos de um salário?”. “Temos que consumir tanto assim?”. “Por que todo mundo está desperdiçando tempo indo atrás de mais dinheiro, sendo que o recurso mais escasso do homem é o tempo?”. 

Mas é claro que os questionamentos não pararam por aí. Depois que recuperei meu tempo de volta, eu me vi ociosa o suficiente para fazer perguntas ainda mais ambiciosas. E a meu ver, perguntas ainda mais importantes. Perguntas do tipo “qual o sentido de tudo isso?”. “O que é uma vida boa?”. “Como garantir uma felicidade duradoura?”. E foi isso que me jogou no mundo da filosofia. 

As respostas para todas essas perguntas ainda não existem – pelo menos ainda não existem no meu conhecimento. E espero que não se decepcionem se eu começar a questionar mais essas coisas por aqui no blog – e menos questões diretamente financeiras. 

Também estou longe de concluir sobre o livro de Zaratustra. E ainda mais longe de entender tudo que esse filósofo compartilhou de conhecimento. Mas, até aqui, já posso dizer “uau, que livro!”. 

Esse livro já tinha cruzado comigo no passado. Mas é um livro difícil de ler, cheio de metáforas. E eu desdenhei da mesma forma que desdenhei do morango do amor, “não é pra mim”. Mas, ao contrário do morango do amor, que profissionais gastronômicos concluíram que é um doce para paladares imaturos, eu desdenhei da primeira mordida que dei em Zaratustra porque ainda era uma leitora imatura.   

Em resumo (e provavelmente cometendo muitas injustiças aqui), Zaratustra é um profeta diferentão. Ele veio trazer uma boa nova, a idéia de uma superação do homem. Ao longo do livro, ele questiona tudo que as pessoas tratavam como normal: a moral, a cultura, a religião. A negação da vida na terra pela esperança de uma vida melhor em outra esfera. 

E como esse profeta é recebido pelos outros? Muito mal. 

Aspirantes ao FIRE com certeza vão se identificar muito com o Zaratustra. Ele insiste em trazer a boa nova porque ama os homens. Assim como muita gente tenta pregar o FIRE porque ama demais seus amigos – e não aguentam mais vê-los sofrer nessa roda incansável do consumo e trabalho. 

Zaratustra não desiste e tenta explicar – de formas extremamente criativas e diversas – essa boa nova. E provavelmente ele ainda servirá de base para muito post por aqui.

Mas tudo tem um começo, então hoje vamos elaborar em cima da ideia de que estamos perdidos querendo o mesmo e sendo iguais. 

Queremos o mesmo…

Uma das reviravoltas mais interessantes da minha vida foi me aposentar e começar a trabalhar como consultora financeira. Por mais antagônico que isso pareça para algumas pessoas. 

E as consultorias tem sido um campo fértil de análise sobre a vida financeira nos tempos atuais. Coisas que eu já suspeitava, agora parecem se confirmar aos montes através dos números que chegam até mim. Então hoje posso dizer com propriedade que “cada um quer o mesmo.”

Quase todo orçamento tem gastos como plano de celular, faxineira, manicure. Gastos que eu também tinha e aprendi a viver sem. Mas o mais curioso tem sido perceber gastos que eu nunca cheguei a ter, não porque eu era de certa forma frugal – eu não era, eu desejava e comprava as mesmas coisas que todo mundo. Mas porque são gastos novos que passaram a fazer parte no kit de consumo atual – e como eu já tinha me vacinado contra novas tendências de consumo, eu nunca tive. Gastos com Ifood, pets, botox. 

Nesse post eu não vou me concentrar sobre a importância desses gastos – sei que mencionar os pets vai cair mal para algumas pessoas. Eu só quero chamar atenção para algo muito interessante: o quanto os itens do orçamento são repetitivos. 

… somos iguais?

Talvez o mais curioso ainda é que poucas pessoas concordariam com a segunda parte dessa frase “cada um é igual”. 

Ainda mais nos dias de hoje. Vivemos numa era que abraça a diversidade. Parece que depois de anos de muita gente sofrendo com opressão, com lugares pré-determinados pelo gênero que você nasceu, e sem possibilidades de melhorar de vida material entre gerações, nós finalmente entendemos: não somos iguais. Nós somos, podemos e devemos ser diferentes. 

Para mim, é logicamente correto pressupor que: se não somos iguais, então não devemos querer o mesmo. Devemos reconhecer que somos “cada um”. 

A implicação dessa conclusão é que o seu orçamento não deveria ser um repeteco, uma cópia do orçamento alheio. Que você não deveria ter, e pagar, por tudo que os outros tem e pagam. E que cada linha do seu orçamento pessoal deveria vir acompanhada de uma reflexão “é isso o que EU quero?”. 

Essa é uma pergunta fundamental. A maioria está sendo tão igual, que provavelmente eu consigo defender a importância dessa pergunta com uma narrativa óbvia: você está cansado porque está trabalhando demais, porque precisa do salário no final do mês, porque precisa pagar as contas, porque precisa consumir, porque acredita que consumo é igual felicidade, mas a felicidade não vem porque você está cansado… 

Você está sendo igual. Você está querendo o mesmo. 

E se você topar não ser igual? E se você se desafiar a querer o diferente?

Já aviso que a tarefa não é simples. E assim como a minha amiga julgou que eu não gostei do morango do amor, não porque eu tenho um paladar diferente, mas porque eu fiz errado, muita gente vai tentar te convencer de que você está fazendo errado. 

Vão tentar te convencer de que o problema não é o seu trabalho, é que você não trabalha com o que gosta. De que você não está cansado, é que você ainda não adquiriu algum novo gadget/terapia/curso que vai te ensinar a relaxar. E de que você ainda não é feliz porque ainda não comprou todas as coisas de que precisa. 

Uma leitora chamou atenção a uma passagem do meu livro, em que eu digo que eu testei os limites inferiores do meu orçamento. Eu realmente cheguei a eliminar muitos itens do meu orçamento, inclusive itens que depois eu me arrependi de ter eliminado e voltei a pagar. 

Mas esse exercício, de eliminar itens, de questionar tudo, foi essencial. O exercício me ensinou que havia muita coisa que eu pagava, porque eu simplesmente acreditava que precisava pagar, porque todo mundo pagava por isso. Foi graças a testar o limite inferior do meu orçamento que eu eliminei de vez despesas que não são para mim. Eu não quero igual que limpem a minha casa por mim. E provavelmente aprender isso é o que impede que qualquer pessoa hoje me convença de que eu tenho que querer ter pets (por mais adoráveis que eles sejam!). 

E só para não falhar na referência aqui, Zaratustra também prescreve de certa forma (claro que de certa forma, definitivamente esse não é um livro de finanças pessoais) que você enfrente esse declínio. Tire as coisas da sua vida. Passe pelo sofrimento de nadar contra a maré. Do desconforto de limpar a própria casa, ir de ônibus para os lugares. E de abrir mão desses prazeres momentâneos e anestesiantes em forma de morango do amor no final do dia. 

Se você já testou gastar todo seu salário com coisas que supostamente vão te fazer feliz, e não te fizeram, que tal agora testar não gastar seu salário? Que tal não comprar aquilo que todo mundo está comprando? Que tal tentar poupar e comprar tempo para você?

Se você não está encontrando felicidade duradoura, para quê insistir nessa fórmula de seguir o que todos estão fazendo? Talvez a felicidade não esteja em querer o igual. Em ser igual. 

Tem poucas coisas que eu tenho certeza na vida. E ainda estou longe de atingir o suprassumo da felicidade. Mas tenho sim uma convicção: hoje há mais satisfação pessoal na minha vida. Exatamente hoje, em que eu quero diferente, em que eu sou diferente. 

Respostas de 15

  1. Percebo que de alguma forma a escolha em seguir o FIRE é baseada em questionamentos mais filosóficos, de um descontentamento com o que está posto e a coragem de se aventurar para romper com isso.
    Saber do movimento foi a descoberta mais legal que tive (não sei se foi esse ano ou no ano passado), um alargamento dos horizontes. Desde 2018 eu já fazia todo um esforço para organizar as finanças e depois de ler sobre o FIRE (aqui no blog) fiquei um tempo testando meu orçamento e era divertido. Por ora, folguei um pouco a corda, mas há uma diferença imensa na hora de gastar. O brilho do consumo perdeu a graça e não me permito mais “fazer estragos”.
    Enfim… é uma jornada.

    1. Que lindo ler isso! 💛
      Também vejo o FIRE muito além das planilhas. Ele é uma escolha filosófica mesmo, um ato de coragem contra o “modo automático” da vida.
      E que bonito esse seu relato de consciência: quando o consumo perde o brilho, é sinal de que algo mais profundo mudou.
      Sim, é uma jornada! E das mais transformadoras!!

  2. Uau, que texto maravilhoso!

    Eu sempre me questionei sobre muitas coisas, sobre o modelo trabalhe e consuma, trabalhe mais e consuma mais.

    O livro Pai Rico, Pai Pobre me mostrou que eu não estava sozinha em achar incoerente essa maneira de viver – você trabalha enquanto é jovem para poder curtir a vida na velhice, na “melhor idade”. Talvez a maioria das pessoas também tenha essa impressão, mas preferem silenciá-la na rotina, nas pequenas recompensas diárias, nas necessidades desnecessárias.

    Eu tive aulas de filosofia no ensino médio – durante um ano apenas, uma pena… Mas, a semente plantada de “questione, não aceite as coisas como a sociedade quer impor” germinou e cresceu ao longo do tempo. Que bom você estar fazendo faculdade de filosofia – quem sabe um dia eu me aventuro também. rsrsrs

    Não é por que “todo mundo” faz algo que eu vou fazer. Na verdade, sempre que algo está em alta ou na moda eu me questiono> Sempre vi essas coisas com uma certa desconfiança – se todos estão fazendo, será que é bom mesmo ou será que a aceitação sem questionamento é que predomina?

    Gostei do que você falou sobre testar os limites inferiores – eu ainda não havia pensado nisso. Está aí mais uma semente que quero adubar para que germine em minha vida, para que eu encontre o equilíbrio de estar bem com menos.

    Boa semana!

    1. Que mensagem linda! 💛
      Também acho libertador perceber que não precisamos seguir o “trabalhe e consuma” sem questionar. A filosofia ajuda muito nesse sentido!
      E testar os limites inferiores é justamente isso: descobrir que viver com menos pode ser viver melhor. E menos assustador do que parece!

  3. Só pensei q até hj eu não provei o morango do amor….hahha. eh amo doce mas a febre passou e eu nem entrei nela! Ah, eu adoro ser do contra hahaha

  4. Perfeito !
    Vejo pessoas com dificuldade de dizerem o que gostam , já não sabem
    Boa reflexão
    A filosofia desafia , faço o curso da Nova Acrópole 1 x por semana, e me encanto mais a cada dia

  5. Hoje estava voltando da academia a pé e passei por uma mulher que sempre vende morangos no semáforo. Alguns dias atrás eles subiram absurdamente de preço devido a procura para o morango do amor, agora, já voltou ao normal, a febre passou, do mesmo jeito que chegou.

    Me peguei pensando que eu não comi o morango do amor e não senti falta, afinal é brigadeiro com morango e caramelo, eu já sei que gosto tem, não preciso pagar tão caro por isso.

    Mas não foi isso isso. Eu tbm não comprei uma garrafa Stanley, não li café com Deus pai, não colori Bobby Goods e não comprei o último lançamento de gloss de blogueira.

    Saber que eu não andei com a manada, me fez muito bem.

  6. Olá

    Adorei o texto, me deixou menos alienígena sabendo que não sou o único a achar o doce terrivelmente doce. E como é duro ser visto como o diferente, geralmente fazemos algo que descordamos para nos adequar a nossa tribo.

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