A prova matemática de que o juro real tem um piso

(ou que o seu rendimento está protegido mesmo que a inflação exploda)

Uma vez eu ouvi de um colunista da Folha que a tarefa dele, como colunista semanal, era reescrever a mesma coisa de diversas formas diferentes, para que o maior número possível de pessoas entendesse a mensagem que ele queria passar.

Eu me identifico com isso.

Acompanho muitos blogs de finanças pessoais lá fora, e é impressionante como a mensagem é sempre a mesma: o seu dinheiro não vai evaporar se você investir no S&P 500. Claro, talvez passe por crises severas, talvez você tenha que tolerar uma queda de 50% na marcação a mercado do índice. Mas o dinheiro não vai evaporar, principalmente se você se mantiver fiel ao jogo e não resgatar nos momentos de pânico.

Mas qual parece ser a minha missão, como blogueira de finanças pessoais aqui no Brasil?

É repetir, de todas as formas possíveis, que a sua rentabilidade não vai embora quando a inflação sobe, desde que você invista no Tesouro IPCA com foco em prazos mais longos.

Eu já escrevi sobre isso por aqui, de várias formas. Mas sempre vem alguém comentar:

“Lilian, me alertaram sobre algo importante! O Tesouro IPCA não te protege da inflação, porque se ela for muito alta, você vai pagar muito imposto de renda, já que ele incide sobre o ganho nominal! E isso destrói a rentabilidade real líquida!”

Essa afirmação soa técnica, mas não é inteiramente verdadeira.

Eu devo confessar que esse tipo de comentário me desperta sentimentos mistos.

O lado positivo é que, se a pessoa já está falando assim, é porque ela já entende bastante de investimentos. Ela já sabe que o que importa é o ganho real e que o certo é olhar para a rentabilidade líquida. Ou seja: ela já percorreu um longo caminho no aprendizado financeiro, e isso é ótimo.

Mas há um lado negativo também. Principalmente quando vejo que quem espalha essa desinformação são pessoas que já deveriam ter dado passos muito além no mundo dos investimentos. E pasmem: eu já ouvi esse argumento de um chefe de mesa de renda fixa de uma grande asset.

Nos últimos tempos, tenho aprendido a ceder em algumas batalhas. Quando não tenho certeza de algo, o melhor é admitir com humildade: “só sei que nada sei!”

Mas essa, não. Dizer que o Tesouro IPCA com vencimento longo não te protege em um evento de hiperinflação é demais pra mim. Porque aqui não se trata de opinião. A matemática prova que ele te protege sim.

Eu já pesquisei sobre essa prova matemática na internet e não encontrei. Então aqui está.

Ela requer que você tenha uma boa base de cálculo e entenda de cálculo de limites. Mas não se preocupe: eu vou conduzir o raciocínio passo a passo, e mesmo quem não é do time dos números vai entender o essencial.

A prova matemática 

Vamos começar pelo básico. O Tesouro IPCA+ rende, por ano:

(1 + juros real) × (1 + inflação)

Simples, né? Mas quando a gente investe por mais de um ano, esse crescimento é composto, e no final do período, ainda precisamos pagar imposto de renda sobre o ganho nominal acumulado (e não só sobre o ganho real).

Agora, vamos deixar isso com um pouco mais de cara de matemática:

Para descobrir o ganho real líquido, precisamos tirar o efeito da inflação acumulada.
Ou seja, dividimos o fator nominal líquido pela inflação do período:

Ótimo. Agora vamos complicar as coisas. 😄

E é exatamente aqui que está a prova matemática de que a taxa de juros real líquida tem um piso, mesmo que a inflação exploda, o seu rendimento não desaparece.

A prova em números

A beleza dessa fórmula é que, no fim, ela chega a um resultado tão simples que dá pra colocar números reais e ver o que acontece.

Vamos supor um título com juros real bruto de 7% ao ano e aplicar as alíquotas de imposto de renda correspondentes a cada prazo:

  • n = 1 ano (IR = 17,5%) → −11,725% a.a.
  • n = 5 anos (IR = 15%) → +3,578% a.a.
  • n = 10 anos (IR = 15%) → +5,275% a.a.
  • n = 20 anos (IR = 15%) → +6,134% a.a.
  • n = 30 anos (IR = 15%) → +6,422% a.a.

Ou seja: quando as pessoas dizem que “se a inflação explodir, você vai pagar tanto imposto de renda sobre o ganho nominal que isso vai comer toda a rentabilidade real do seu investimento” elas não estão inteiramente erradas.

Mas o que pouca gente percebe é que isso só acontece em aplicações de curtíssimo prazo. Acima de 5 anos, como vimos, o rendimento real já volta a ser positivo.

É claro, não é mais aquele 7% real prometido no título, mas ainda é algo em torno de 3,5% ao ano, muito próximo da famosa “regra dos 4%” usada amplamente pelo movimento FIRE para viver de renda.

E quanto maior o horizonte de investimento, ou seja, quanto mais tempo você adiar o pagamento do imposto de renda, menor será a perda no juro real líquido. No limite, o efeito do imposto praticamente desaparece e a taxa real líquida se aproxima do juro real contratado no título.

A prova em gráficos

Eu sei: falar em “inflação tendendo ao infinito” pode parecer um exercício puramente teórico, algo que não faz muito sentido na vida real.

Então, para tirar a abstração da conta, aqui está o gráfico do juro real líquido de imposto para diferentes níveis de inflação, considerando diversos prazos de vencimento.

O que isso significa na prática

Essa discussão sobre uma possível explosão da inflação está muito quente. E não é por menos. Aqui no Brasil, o governo não parece dar a menor importância para o controle das despesas e segue acreditando que o que pode nos salvar de uma escalada da dívida pública é, além de aumentar a arrecadação, torcer por um crescimento forte do PIB.

Mas, se essa aposta der errado, o resultado pode escapar para o lado da inflação.

E, sendo honesta, esse não é um dilema só do governo brasileiro. Diversos países vêm ignorando seus déficitse confiando demais em um crescimento futuro do PIB para equilibrar a razão dívida/PIB. Sobre esse assunto, recomendo fortemente a edição especial da The Economist:
👉 Special Report – The debt delusion

Esse medo de uma inflação fora de controle é real. E talvez não seja um medo irracional. Aliás, não é à toa que o ouro tem sido o investimento queridinho do ano. Mas, antes que você corra para colocar ouro na sua carteira por causa da performance recente, por favor, leia este excelente artigo do A Wealth of Common Sense:
👉 Why I Don’t Own Any Gold

Eu sei que esse não foi um dos posts mais carismáticos do blog 😅 mas toda essa prova (matemática, numérica e gráfica) serve para mostrar uma coisa muito simples: o Tesouro IPCA+ com vencimento longo protege seu poder de compra, mesmo que a inflação dispare.

Sim, se a inflação subir muito, o imposto de renda vai incidir sobre um ganho nominal maior. Mas, com o tempo, esse efeito se dilui, e o rendimento real líquido tende a se estabilizar.

É claro que, no meio do caminho, os juros podem subir tanto que, se você decidir vender o título antes do vencimento, pode acabar enfrentando uma marcação a mercado desfavorável. Mas esse é o mesmo tipo de risco que você corre ao comprar, por exemplo, a ação de uma empresa e decidir vender em um momento de baixa.

A diferença é que o Tesouro IPCA+ te dá uma vantagem enorme: ele tem uma data certa no futuro em que você vai recuperar o valor investido, acrescido da rentabilidade contratada.

O erro está em olhar para ele como um investimento de curto prazo. Se você compra um título de 10, 20 ou 30 anos, mas vende depois de um ano porque “a inflação explodiu”, está justamente abrindo mão da característica que o faz funcionar.

Em outras palavras: o Tesouro IPCA+ não deixa de cumprir seu papel de proteção contra a inflação, desde que você invista com foco no longo prazo.

Capiche?

Respostas de 16

  1. Oi Lilian!
    Parabéns pelo post, muito incrível entender melhor como funciona a teoria e prática dos investimentos! Isso, assessor nenhum de investimentos vai conseguir explicar…. Parabéns por produzir conteúdo aprofundado e de qualidade e, ainda, gratuito, para as pessoas!

    Vi que muita gente perguntou do Renda+… Sempre tive essa dúvida: a renda mensal que o investimento distribui é junto com parte do valor nominal. Neste caso, não seria um bom instrumento para o FIRE, dado que, no final do período, o investimento zera e não preserva o valor nominal né? Pergunto isso porque tambem quero me aposentar bem cedo, e não quero torrar meu patrimonio em 20 anos (período do renda+) rsrs.
    Por isso, penso que NTNB talvez seja a melhor opção para o FIRE… enquanto que no Renda+ você teria que gerir manualmente separando o que pode gastar e o que precisa guardar para reinvestir, no NTN-B, ele mantem o valor nominal até o fim do prazo correto?

    Adoraria ouvir sua opiniao sobre isto!

    Obrigada!

    1. Oi Evelyn!
      Essa questão do Renda+ é delicada mesmo, e tem que ser abordada.
      Mas da pra contornar fazendo uma escadinha de vencimentos.
      Eu gosto das NTNBs também, mas aí o risco de reinvestimento é maior!
      Enfim, não existe o investimento perfeito, mas tem o mais adequado para cada perfil.

  2. Infelizmente nao consigo acompanhar essas formulas todas, é mto complexo pra mim – mas eu acredito em vc rs
    Quero aproveitar o espaço só pra falar que terminei de ler o seu livro, e adorei. Pretendo relar outras vezes, O capitulo mais impactante pra mim foi o dos “Medos”, pq me identifiquei bastante… é bom saber que nao sou só eu com tantas dúvidas, questionamentos e inseguranças quando se aproxima “a hora H”. Acho que quando vc está longe da sua meta é mais fácil – a medida que vai chegando mais perto vao surgindo mil e um medos. Mais ou menos igual quando vc ainda está na fila longe de entrar no carrinho da montanha russa. Ao chegar perto, é outra historia.. Mas no final, tb acredito que NÃO embarcar nessa jornada e dar esse salto de fé também é assumir um grande risco – o risco de vc chegar lá na frente e se arrepender de nao ter feito nada, de nao ter tido coragem, e já ser tarde.
    Desde quando li no blog vc falando daquela depressão pós-ferias, eu já tinha me identificado pq tb sinto a mesma coisa, as vezes até antes de terminar as férias, nos ultimos dias.. Agora, acabei de voltar de viagem , e nos ultimos dias, lembrei que estou proximo do FIRE, e isso já me deu uma sensação muito boa.. abraços

    1. Ahh, que mensagem mais especial 🥹❤️ Fiquei muito feliz em saber que o livro te acompanhou e que o capítulo dos “Medos” te tocou. Acho que desde que eu comecei a escrever, eu sabia que teria que ter um capítulo assim. E adorei a metáfora da montanha-russa! É exatamente isso: quanto mais perto da largada, mais o coração dispara. Mas como você disse, não embarcar também é um risco. E, honestamente, considero o maior de todos.
      Obrigada por compartilhar sua experiência e por me contar que o livro te fez companhia nesse momento tão especial da jornada 💛

  3. Parabéns pela publicação! Acho incrível como há um estudo sempre para esclarecer.
    Obrigada por fazer isso por nós!

    Lilian, a ideia mantém para um tesouro direto IPCA com juros semestrais?

  4. Muito obrigado pelas explicações, Lilian. Realmente não se vê essa comprovação matemática por aí. Imagino que pro Renda+ seja o mesmo raciocínio.

  5. Não, o Imposto de Renda (IR) não “explode” a ponto de gerar uma rentabilidade real negativa nos pagamentos mensais do Tesouro Renda+ na fase de recebimento, desde que o título seja mantido até o vencimento. O título é projetado para garantir um fluxo de renda real (acima da inflação) por 20 anos após a acumulação.

  6. Lilian,

    Excelente post. Minha duvida sobre o IR gira em torno na fase de pagamentos do Tesouro Renda + nos 20 anos apos o vencimento da fase de acumulaçao. Se o IR explode nesse periodo, pode ter uma rentabilidade real negativa na correção dos pagamentos mensais ?

    1. Oi Thiago!
      O prazo médio do investimento do Renda+ é de, no mínimo, 10 anos, então no conjunto não há esse risco.
      Cuidado para não confundir prazo médio de investimento com forma de usufruto (um investimento que paga mensal não tem um prazo mensal!)

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *