Eu nunca tive Instagram pessoal. Tive Orkut, Facebook. Mas lembro que, em algum momento do meu mestrado, por volta de 2011, decidi deletar meu Facebook depois de perceber algo simples: acompanhar a vida das pessoas dessa forma me fazia infeliz. Minha vida como mestranda em Economia na USP não tinha nada de glamourosa. Eu só estudava — e, em qualquer tempo livre, o que eu queria mesmo era descansar. Em muitos sábados à noite, eu jantava com meu pai ou ficava de vela assistindo a algum filme com minha irmã e meu cunhado. Então, entrar no Facebook e ver as pessoas indo a festas e se divertindo me deixava culpada por só querer descansar em casa num sábado à noite.
Eu sabia o que estava fazendo com a minha vida. Aquele mestrado era parte de um projeto que fazia sentido para mim na época. E foi graças a ele que consegui bons empregos como economista no mercado financeiro — o que ajudou muito a me aposentar cedo.
E, talvez, ter saído do Facebook e nunca ter entrado no Instagram tenha contribuído muito para que eu me mantivesse firme nos meus objetivos (inclusive o de parar de gastar 100% do meu salário).
Até que decidi criar este blog e divulgar o movimento FIRE pelo Brasil. É difícil definir exatamente o motivo por trás das nossas escolhas, mas um motivo legítimo é que eu sempre me senti muito sozinha na forma como decidi lidar com o dinheiro: vivendo uma vida simples, mas com muito dinheiro no banco.
Quando comecei a divulgar o blog, foi natural que as pessoas me incentivassem a criar uma página no Instagram. E, na época, eu estava começando com meu novo trabalho de planejamento financeiro e pensei que isso também poderia me ajudar a atrair novos clientes.
Como eu estava praticamente há mais de uma década longe das redes sociais, comecei a pesquisar sobre como ter uma página de sucesso no Instagram. E vocês já devem imaginar o que apareceu: marketing digital, funil de vendas, engajamento. Só que eu mal consegui ler um livro inteiro sobre o tema. Aquilo começou a me causar um mal-estar tremendo — e eu mal conseguia explicar o porquê.
Mas, num momento de pura lucidez, pensei: “Lilian, você não precisa disso!”. E eu realmente não precisava. O que eu queria era ter um blog, um espaço para compartilhar meus pensamentos sobre dinheiro, consumo e investimentos — e, no processo, reforçar as minhas convicções.
É claro que seria ótimo se alguém lesse o que eu escrevo aqui. Mas, de alguma forma, pelo boca a boca com pessoas que eu já conhecia da comunidade, vocês começaram a aparecer. Aos poucos, muito lentamente. Mas sinto que quem está aqui, está presente de verdade. E que, se eu não tentar vender nenhuma solução milagrosa (e falha), vocês ficarão aqui por um bom tempo.
Em relação à consultoria, percebi que entrar nessa lógica do marketing digital não faria sentido para mim. Minha consultoria não tem escalabilidade. É um processo quase artesanal, com pouco modelo pronto — e eu gosto assim. Hoje, os clientes chegam muito mais por indicação de antigos clientes ou de leitores deste blog. A maioria dos leitores diz: “eu leio você há anos”. Então, parece que demoro anos para converter leitores em clientes — algo que muita gente diria ser uma “falha no meu modelo de negócios”.
É claro que o dinheiro extra que ganho com as consultorias é muito bem-vindo. Isso, sem dúvidas, fortalece meus planos de nunca mais ter um emprego corporativo. Mas decidi não entrar nessa lógica doida de buscar escalabilidade, ter muitos clientes e, quem sabe, ganhar milhões.
Já estou convencida de que não preciso de muito dinheiro para ser feliz. Ter uma vida com poucos custos fixos, poucos clientes, um blog com poucos leitores — mas muito tempo livre — é um equilíbrio que faz mais sentido para mim.
Se tudo o que escrevi nesse longo desabafo inicial te parece um “discurso de escassez”, que eu estou “vibrando em pobreza”, então talvez seja hora de refletirmos juntos sobre porque tudo isso soa estranho nos dias de hoje.
Um casal de coachs da prosperidade
Teve uma vantagem, que eu reconheço, em voltar para as redes sociais: poder rever alguns amigos antigos. É muito legal encontrar pessoas que já fizeram parte da minha vida em algum momento. Mas eu não me iludo, e não “sigo” essas pessoas. Entro na página, vejo as fotos, às vezes fico feliz de ver que a pessoa está genuinamente bem. Depois esqueço e sigo a minha vida. Minhas amigas sabem que eu não estou nas redes para curtir tudo que elas postam — prefiro saber sobre a vida delas pessoalmente.
E esses dias, lembrei de um casal de irmãos que estudava no mesmo colégio que eu. O colégio era na Zona Sul e, como nós três morávamos na Zona Norte, eles eram minha companhia diária no metrô de volta para casa. Eu adorava esse casal. Eram divertidos, não iam muito bem na escola, mas levavam a vida de forma leve. E lembro que eram muito ambiciosos. Recordo que, quando disse que tinha decidido fazer Economia, o irmão me deu um conselho: “isso não dá dinheiro!”. Não lembro exatamente os argumentos dele, mas lembro da frase. É sempre difícil decidir fazer algo que seus amigos próximos desaprovam — talvez por isso ela tenha ficado gravada na minha memória.
Depois do colegial, cada um seguiu seu caminho, e nunca mais nos vimos.
Quando pesquisei os nomes deles no Instagram, vi que tinham páginas abertas, ambos com mais de 100 mil seguidores, e que agora trabalhavam juntos. A página era cheia de vídeos de participações em podcasts, eventos em que eram palestrantes, chamadas para novos encontros. As imagens eram de férias naquele mar das Maldivas; ela com o rosto perfeito, ele com o corpo perfeito. Outras fotos mostravam algo que parecia ser um jatinho particular. Não demorou muito para eu perceber que eles tinham virado coachs da prosperidade.
A gente sabe desse fenômeno dos coachs, mas é sempre chocante quando vê alguém conhecido nesse papel.
Talvez eu esteja cética demais, mas aquilo tudo me pareceu muito montado. Eu sei que existem empresas que montam cenários perfeitos para você tirar fotos como se estivesse em um jatinho particular. Sei também que o rosto perfeito e o corpo perfeito são filtrados. E que hoje já há quem edite vídeos para parecer que está palestrando em um evento cheio de pessoas (que não são reais, se não ficou claro).
Nesse mundo das aparências, parece que esses coachs da prosperidade encarnam o estado mais puro dessa cultura de fingir ser aquilo que não se é.
E o mais interessante de refletir sobre eles é perceber até que ponto nós, que também vivemos nesse mesmo mundo, estamos fingindo coisas que não somos, achando que isso é o que dá o tom da vida.
Uma boa dose de reflexão sobre esse fenômeno da prosperidade
Os coachs da prosperidade encontraram um terreno fértil: o de uma sociedade que já se cobra demais em produtividade.
Eu já comentei aqui sobre o livro A Sociedade do Cansaço. A tese principal é que hoje não somos mais “explorados” pelos outros, mas por nós mesmos. O “empresário de si” se cobra produtividade, eficiência e sucesso como um dever moral — algo que ele deve fazer.
E a gente cai fácil nesse discurso porque somos seres carentes de sentido. Antes a religião preenchia essa necessidade dizendo “só aguenta essa vida ruim, porque a vida boa mesmo é depois disso”. Mas hoje, parece que querem preencher esse nosso desejo com a promessa de que “você tem que ser feliz nesta vida”. Continuamos querendo acreditar que há algo maior guiando nossa existência — mas esse “algo maior” agora se chama “mentalidade de crescimento”.
É aí que entra o discurso do “você cria a sua realidade” ou “atrai o que vibra”. Essa narrativa é a versão espiritual da meritocracia: se você não prospera, é porque não tem “mentalidade de abundância”. O fracasso é sempre culpa sua — nunca do acaso, das circunstâncias ou das cartas que te foram dadas.
O duro é que não estamos 100% no controle. E, quando isso falha, vem o sofrimento. Mas se antes o sofrimento era o preço a se pagar (como no cristianismo tradicional), agora ele é interpretado como um “bloqueio mental”. Não há mais tragédia, acaso ou injustiça estrutural — apenas vibração errada.
E nós não desistimos, afinal, o coach da prosperidade está lá, nas redes sociais, esfregando na nossa cara que é possível. Porque, se quem não prospera se sente culpado, quem prospera se sente moralmente superior. E se o valor da existência depende de resultados, quem tem sucesso também precisa exibir resultados para continuar se sentindo vivo.
Por isso, ele faz questão de repetir que veio “de baixo” e prosperou. Que, se você seguir o método certo, fizer o curso certo, der só mais um passo, também chegará lá. A promessa da prosperidade é o milagre moderno — não mais concedido por Deus, mas pelos algoritmos, pelo mindset e pela “vibração quântica”.
E assim criamos uma enorme dívida conosco mesmos: a de não sermos tudo o que poderíamos ser.
A consequência mais imediata é psicológica. O sofrimento passa a ser visto como fracasso pessoal. Se a mensagem central é “você cria a sua realidade”, então pobreza, doença ou infelicidade deixam de ser aspectos inevitáveis da vida e passam a ser falhas de vibração.
E o pior: o principal produto que as pessoas estão vendendo são elas mesmas. Se antes o fim de uma empresa representava apenas a perda de uma parte da vida do empresário, hoje pode significar o fim da própria vida.
Talvez esse seja o tom do livro Deaths of Despair and the Future of Capitalism, que investiga o aumento alarmante das “mortes do desespero” — suicídios, overdoses e doenças relacionadas ao álcool — principalmente entre a população branca, de classe média e baixa, nos Estados Unidos. É uma consequência realmente trágica.
Vida próspera ou miserável?
Recentemente ouvi alguém dizer que “é mais fácil imaginar o fim do mundo do que o fim do coaching”. Então, meus caros leitores, parece que sobrou para nós o trabalho duro de nos proteger dessa profunda distorção do que é prosperidade.
Um exercício que me ajuda é imaginar a vida dessas pessoas. Toda essa performance dá trabalho — e muito. Fiquei pensando no tempo que meus antigos colegas, agora coachs, devem gastar por dia fazendo maquiagem, cabelo, escolhendo o que vão vestir. Gravando vídeos, pegando trânsito, dando palestras à noite. O tempo gasto com reuniões de equipe, sessões de fotos, venda de cursos.
Talvez eles nem sequer tenham todo esse sucesso material que exibem (e provavelmente não têm). Mas, mesmo que tivessem — isso é uma vida próspera?
Outro dia me mandaram um vídeo de um influenciador de finanças bem famoso. Fazia tempo que eu não entrava no canal dele, e resolvi dar uma olhada no que ele anda fazendo ultimamente. Vi que começou uma série nova em que alguém o filma ao longo do dia enquanto ele toma decisões de trading no celular. A frequência de vídeos no canal dele chega a ser assustadora.
Em um dos vídeos, ele estava em uma cama de hospital (não sei o motivo, mas claramente era o paciente), enquanto alguém o filmava comprando R$1 milhão em ações de uma empresa. E a única coisa em que eu conseguia pensar era: que vida miserável!
Respostas de 14
Oi, Lilian!
Em primeiro lugar, parabéns pelo blog! Vi que comentaste sobre teu serviço de consultoria no texto e no teu livro (mto bom por sinal!) também fala dele, mas não me lembro de ter um post explicando mais detalhadamente como ela funciona (proposta, modalidade de atendimento, frequência de encontros, valores 😅 etc). Deixo aqui a sugestão de escrever um post sobre o tema, até para divulgar teu trabalho entre aqueles que já te acompanham.
Abç!
Oi Sávio! Tudo bem? Desculpa a demora para te responder, mas gostei da sua sugestão. Vou estruturar um texto completo sobre a consultoria e posto por aqui. Mas há uma sessão mais genérica sobre a consultoria aqui: https://aposentadaaostrinta.com.br/consultoria/
Eu fico MUITO incomodado com essa ideia de que, atualmente, TEM QUE ter rede social para trabalhar de maneira autônoma. Claro, sabemos bem que não é uma necessidade real, mas sim uma necessidade falsa e manipulada. Ainda assim, fico refletindo sobre isso às vezes, principalmente por ser um autônomo que optou por não “trabalhar a imagem” no Instagram e viver praticamente offline de tudo isso.
Lilian, a terceira parte do seu texto me lembrou de um livro que você deve ter lido na graduação ou no mestrado em Economia: A ética protestante e o espírito do capitalismo. Quando você menciona o raciocínio do Byung-Chul Han sobre “eficiência e sucesso como um dever moral — algo que ele deve fazer”, lembrei do Weber falando sobre isso no nascimento da modernidade. Parece que exacerbamos esse efeito no século XXI. Na época de Lutero, a revolução foi possível devido à nova tecnologia da imprensa; na nossa, a novidade é a tecnologia digital. É duro viver nesses momentos de grande transição pelo visto.
Olá! Adorei suas referências! É muito legal ver que essas coisas já foram pensadas, e estudadas, por gente parruda né? Dá uma sensação de que tudo isso foi algo criado culturalmente, e que talvez não é tão essencial assim.
Como sempre, mais um texto simplesmente incrível!
Obrigada por nós proporcionar essa reflexão.
Obrigada por comentar Priscila! Volte sempre!
Esta leitura nos deixa reflexivos.
Este sintoma de crescimento ou progresso não só material como pessoal me deixa incomodado por não aderir a este projeto. É como perder o mérito aos olhos dos outros.
Prosperidade para mim é dormir com a cabeça leve e estar próximo das pessoas que gosto, simples assim.
Oi Mateus! Adorei sua ideia de prosperidade – e talvez a grande confusão que fizemos foi começar a achar que a prosperidade precisava ir muito além disso!
Li, tô vendo umas aulas no u tube sobre o livro Sociedade do Cansaço (sei q tbm tá cheia de coisas mas elas ficarão lá, então vc pode ver nas férias, rs), se quiser te passo…Tô adorando o curso pq sou fã de carteiririnha do Byung-Chul Han :) Penso q cada pessoa tem q ir atras de viver sua própria vida do jeito q ache próspero, embora o q o sistema queira mesmo é q não pensemos sobre isso e nem saibamos o q é prosperidade pra gente, afinal: “quem vai pensar nisso depois de trabalhar sem parar e ficar 3h no trânsito?”. É por essas e outras q livros como a Sociedade do Cansaço me ganham :) Ótimo texto! Ah, meus clientes também vem todos por indicação…Não ficarei “catando” cliente no instagram, eu nem tenho saúde mental pra isso rs! Aquela máquina do insta acaba comigo….Prefiro ter menos clientes mas pessoas q já chegam filtradas e dispostas a aprender sobre uma moda mais consciente do que pegar uma pessoa q quer fazer um guarda-roupa gigante, realmente essa cliente não seria a minha…..rs
Oi Má! Obrigada pelo comentário!
Que legal que está fazendo aula sobre o livro – ele é tão rico, complexo, cheio de nuances, que aprofundar via aula deve ser ótimo. Provavelmente eu ainda vou ler muito, e usar muito esse livro, no projeto de pesquisa da minha faculdade. Estou empolgada com isso.
E realmente, esse vida de “catar” clientes na rede social tem um peso emocional grande. Tantas empresas, serviços, foram construídos antes disso tudo existir, será que é realmente tão necessário assim?
exato, q preguiça……..rs. Tenho o livro aqui, posso te emprestar se quiser ;)
As redes sociais potencializaram o aspecto humano de se comparar, tentar superar e mostrar para os outros. Antigamente isso se restringia a vizinhos competindo para mostrar quem tem o melhor carro kkkk….. Eu tento evitar esse mundo fake das redes sociais! Sociedade está doente!
Oi C! Sim, eu acho que tem algo de doentio mesmo na forma como estamos usando as redes.
Esse excesso de comparação/ exibicionismo passou do limite do saudável.