Série Finanças & Cultura: Ep. 2 – Amor por Contrato

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Olá, sejam bem-vindos ao segundo episódio dessa nossa série de Finanças & Cultura, onde eu vou trazer vários filmes pra gente debater sobre o assunto dinheiro. E, como eu comentei logo no começo dessa série, eu vou trazer filmes que não são tão óbvios sobre dinheiro, filmes mais sutis. E eu acho que o tema desse filme é esse: a sutileza.

O nosso segundo filme é O Amor por Contrato, um filme que explora muito bem o nosso desejo por consumo, como ele nasce, como ele acontece e como, às vezes, a gente nem percebe.

No filme, a gente é apresentado a uma família perfeita — aparentemente perfeita, essa correção é importante. Então, ela é uma família de pessoas bonitas, bem vestidas, uma família que sempre tem o último eletrônico da moda, bolsas de luxo. A mãe da família é quem apresenta os cosméticos para o cabeleireiro. Enfim, uma família super antenada por consumo. E, obviamente, como essa família está sempre consumindo muita coisa, as pessoas ao redor assumem que é uma família bem-sucedida, né?

Mas, logo no começo do filme, vão rolando umas interações estranhas entre os membros dessa família. A mãe começa a citar que esse bairro novo para o qual eles estão se mudando é um bairro em que a renda média das famílias é acima de $100.000 por ano. Eles são meio frios uns com os outros quando ninguém está vendo – detalhe importante. E, logo no começo, a gente percebe que a filha está dando em cima do “pai”.

Então, a gente é apresentado à realidade por trás dessa família. Essa família faz parte de uma empresa de marketing oculto. Então, essa família é falsa. Ela foi implementada dentro de um bairro suburbano, lá nos Estados Unidos, para consumir coisas, consumir muitas coisas. E, conforme eles vão consumindo, como eles são muito agradáveis, pessoas muito sedutoras, eles conseguem manipular as pessoas ao redor para consumir também.

Esse filme toca numa questão super relevante, sobre a qual eu já até falei no blog — eu vou deixar o link para esse post na descrição desse vídeo. Tem uma teoria desenvolvida por um filósofo chamado René Girard que se chama desejo mimético. Segundo a teoria dele, o nosso desejo nunca nasce de nós. Ele sempre nasce do outro. Ele nunca é um desejo interno; é sempre um desejo externo. Então, a gente vê as pessoas consumindo as coisas, a gente vê as pessoas comprando as coisas, a gente vê as pessoas desejando as coisas, moldando a vida delas para conseguir e conquistar algumas coisas, e a gente acha que tem que desejar essas coisas também. É como se o nosso desejo nunca viesse de dentro, sempre viesse de fora.

E esse filme explora muito bem, ele escancara o quanto essa teoria do René Girard pode estar certa. O quanto pessoas agradáveis, pessoas sedutoras, podem manipular a gente para desejar coisas que talvez a gente não desejasse.

Eu acho esse tema super relevante porque a minha história foi que eu tive que revisar a minha relação com o consumo para poder me aposentar cedo. A trajetória da independência financeira depende, claro, do quanto você ganha, mas também depende do quanto você consegue poupar dessa renda. Isso está diretamente relacionado ao nosso consumo.

Claro que a gente precisa consumir. Tem alguns consumos que são necessários na nossa vida. Mas a gente está sendo levado para uma vida de consumos por excesso, consumindo alguns luxos, desejos que, às vezes, não são nossos, e a gente nem percebe isso.

E, para mim, foi fundamental, ao longo da minha trajetória na busca pela independência financeira, conseguir separar o que era o desejo do outro e o que era o meu desejo. Isso foi uma peça-chave para eu conseguir reduzir o meu padrão de consumo, conseguir poupar boa parte da minha renda e atingir a independência financeira tão cedo.

Honestamente, eu nem acho esse filme tão bom. Tem umas partes dele que me cansam um pouco. Mas ele tem uns detalhes que eu acho super relevantes, principalmente para os dias de hoje.

Conforme essa família perfeita vai adentrando a vida daquele bairro novo e a vida dos vizinhos, a gente conhece um casal que vai ser fundamental para o desenrolar dessa história: o Larry e a Summer. A Summer é vendedora — e vendedora de verdade. Ela é aquela vendedora escancarada, ela tem aquele papo de vendedor contra o qual a gente já está meio vacinado. Então, ela tenta vender cosméticos, mas vende daquele jeito clássico de vendedor, né? E ela se assume vendedora.

Agora, a família não. Essa família nunca se assume como vendedora. Inclusive, quando a Summer pergunta para a mãe da família o que o marido dela faz, ela responde assim: “Ah, ele faz um pouquinho disso, um pouquinho daquilo e, principalmente, ele me agrada”. Ela não responde que ele é vendedor.

E é por isso que eu acho que o tema desse filme é a sutileza. Porque hoje o marketing se tornou muito sutil.

Hoje a gente vive, por exemplo, a era das redes sociais, em que tem diversos influencers que parecem nossos amigos, que são pessoas agradáveis, sedutoras, mas que, às vezes, estão manipulando a gente para o consumo. E isso é feito de uma forma tão sutil que a gente nem percebe.

Recentemente, eu estava conversando com uma amiga, e ela estava me contando de um resort de luxo de que ela gosta de ir. E um dos motivos pelos quais ela gosta de ir é porque ele é frequentado por muitas blogueiras. E eu falei para ela: “Eu acho que eu ia me incomodar de estar num resort de luxo com blogueiras, porque isso significa que eu estou pagando por elas”.

E a minha amiga não entendeu. Ela falou: “Não, como assim?”

“Ué, você acha que essa blogueira está pagando para estar lá?”

Provavelmente, ela está ganhando de graça aquela diária do hotel. No preço que você está pagando pela diária estão incluídos, claro, os funcionários, o aluguel, o custo da infraestrutura, mas também o custo do marketing, o custo de receber essas blogueiras de graça.

A minha amiga ficou um pouco impactada com isso, porque acho que ela nunca tinha pensado dessa forma. E a culpa não é da minha amiga, ela não é inocente. É que o marketing realmente se tornou muito sutil.

O problema dessa sutileza do marketing — problema da sutileza até do luxo hoje em dia, de coisas que a gente tem e acha que são necessidades, quando na verdade são coisas supérfluas — aparece quando a gente fala que a vida é cara, que não vai conseguir juntar dinheiro, que está difícil poupar boa parte da renda.

Claro, tem gente que ganha pouco, que tem renda baixa. Eu não estou falando sobre essas pessoas. Mas o problema aqui é quando a gente não percebe, quando está meio com um véu no olhar e não consegue perceber o quanto está sendo manipulado pelo consumo.

As consequências disso, claro, são um impacto direto na nossa vida financeira. Mas o filme faz quase uma redução ao absurdo para mostrar a força do argumento dele, os perigos desse marketing oculto.

O Larry, que é o marido da Summer, se envolve muito com o pai dessa família, essa família aparentemente perfeita. E esse pai dá conselhos para ele, porque o Larry não está passando por uma fase boa da vida. Mas você vê que os conselhos que o pai dá são: tratar sua esposa bem, comprar coisas. E até quando o Larry aparece aparentemente melhor, ele fala para o pai da família: “Obrigado pelo conselho. Agora eu estou cuidando dos meus luxos”.

Mas essa história não acaba nada bem para o Larry.

Na verdade, a história do Larry faz com que esse filme seja um soco no estômago. Ele rapidamente começa a estourar o cartão de crédito, não tem mais dinheiro para pagar a parcela do financiamento da casa. E, no final do filme, fica claro que ele está obcecado por virar o jogo com esse pai de família. Ele não quer mais invejar; ele quer ser invejado.

E dá para entender o Larry. É da natureza humana a gente querer se sentir por cima de vez em quando.

O que ele não percebe é que esse é um jogo impossível para ele. O Larry não consegue competir porque o pai da família não está pagando por aquelas coisas.

E esse é um detalhe tão relevante. Porque hoje, quando a gente entra nas redes sociais e vê muitas pessoas consumindo, comprando, fazendo unboxing de coisas que receberam, isso estimula um certo desejo em nós de consumir aquelas coisas. Mas a gente não percebe que aquelas pessoas não estão pagando por isso.

E mesmo no final do filme, quando o Larry começa a dar sinais de que está muito debilitado emocionalmente, o pai da família tenta alertá-lo e fala: “Eu não pago por essas coisas”.

Mas aí o Larry já está tão cego que responde: “Ah, entendi. Então é a sua mulher que ganha dinheiro. Você se deu bem”.

O filme tem um final muito trágico.

Tem outro ponto relevante também no filme, que começa a mostrar como está sendo a vida dessa família, dessas pessoas que trabalham para esse marketing oculto. Porque fica claro que, para esse marketing ser eficiente, ele precisa ser feito por pessoas. Então, essas pessoas que estão do outro lado do jogo também estão sofrendo.

Você começa a ver que eles são obcecados pela aparência. Você começa a ver que eles nunca relaxam. Eles são obcecados por métricas. No Natal, eles estão cercados por objetos, mas tudo aquilo é um teatro. Fica claro que é um teatro. E, pior: tem pessoas dessa família que não conseguem parar. Elas estão viciadas nesse teatro.

Enfim, se o primeiro filme dessa série, Jerry Maguire, é um filme bonito — eu gosto, acho lindo —, esse filme é mais aquele tipo de filme que estraga um pouco o seu dia, sabe? Mas eu acho que a mensagem dele é tão importante que ele precisava estar nessa série.

A gente tem que começar a entender o que está por trás dos nossos desejos de consumo. A gente tem que entender que não pode competir com todo mundo, que tudo bem estar por baixo em algumas situações, que, às vezes, a gente está jogando com pessoas que não têm as mesmas cartas que a gente. Que, às vezes, a gente está querendo consumir no mesmo ritmo que outras pessoas consomem, só que, enquanto a gente está pagando por isso, tem gente que está ganhando isso de graça.

O consumo diz muito sobre a gente. Ele diz sobre a nossa identidade, sobre o nosso senso de pertencimento. Mas a gente tem que ficar alerta, porque tem muita manipulação por trás disso.

O consumo move a economia do Brasil, do mundo. Ele é importante. Eu consumo também. Mas eu tento ser um pouco mais consciente em relação aos meus desejos de consumo. Eu tento me obrigar a entender, quando alguém está consumindo alguma coisa, se aquilo é para mim ou não.

Enfim, não é fácil lutar contra essa manipulação, ainda mais sutil. Se a gente estivesse rodeado por vendedores estilo a Summer, acho que a nossa vida seria mais fácil. Mas a gente tem que reconhecer o mundo em que vive hoje em dia e tentar se proteger.

Por isso eu achei fundamental trazer a reflexão desse filme para essa série. Eu espero que esse vídeo ajude minimamente você a pensar um pouquinho melhor antes de comprar alguma coisa por impulso, antes de sentir um desejo de mimetizar a compra de alguém que você segue no Instagram.

E a gente não pode perder de vista a pergunta mais importante: o que eu realmente quero? O que é desejo meu mesmo?

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