{"id":894,"date":"2023-11-14T12:09:58","date_gmt":"2023-11-14T12:09:58","guid":{"rendered":"https:\/\/aposentadaaostrinta.com.br\/?p=894"},"modified":"2024-06-05T10:40:24","modified_gmt":"2024-06-05T10:40:24","slug":"consumo-logo-existo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/aposentadaaostrinta.com.br\/blog\/consumo-logo-existo\/","title":{"rendered":"Consumo, logo existo"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em 2014, eu era economista j\u00fanior em um fundo de investimento. A designa\u00e7\u00e3o &#8220;j\u00fanior&#8221; em meu cargo servia para destacar o qu\u00e3o inexperiente eu era naquele ambiente.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">No fundo, apenas uma pessoa era respons\u00e1vel pela \u00e1rea comercial. Ela engravidou, e fui convidada a assumir o cargo durante sua licen\u00e7a maternidade.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Durante meus poucos meses na \u00e1rea comercial, fui ao Rio com dois s\u00f3cios do fundo para visitar nossos clientes cariocas. Foi o momento em que me senti mais in\u00fatil na vida.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Nas reuni\u00f5es, eu entrava muda e sa\u00eda calada. Minha opini\u00e3o n\u00e3o tinha import\u00e2ncia, e eu me sentia apenas como uma decora\u00e7\u00e3o de sala.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Eu me perguntava: &#8220;Por que diabos me trouxeram para essa viagem?&#8221;. Mas logo ap\u00f3s a segunda reuni\u00e3o, ficou claro a minha import\u00e2ncia: eu estava l\u00e1 para coordenar os Ubers e T\u00e1xis entre os clientes e organizar a agenda das visitas, especialmente quando uma reuni\u00e3o atrasava.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Na \u00faltima reuni\u00e3o, antes de entrar na sala, o salto do meu sapato quebrou. Foi f\u00e1cil disfar\u00e7ar, pois ningu\u00e9m realmente olhava para mim.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Voltei para S\u00e3o Paulo com a sensa\u00e7\u00e3o de que precisava ser notada. Na minha imaturidade, achei que o problema estava na minha apar\u00eancia. Afinal, eu estava usando um sapato t\u00e3o ruim que at\u00e9 o salto quebrou!<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Eu sabia que era inexperiente, mas sentia a necessidade de parecer mais experiente para assim ser notada.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Durante a reuni\u00e3o em que entrei com o sapato quebrado, percebi que a \u00fanica mulher na sala usava o famoso sapato de sola vermelha. E ela falou a reuni\u00e3o inteira. <\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ent\u00e3o eu decidi: vou comprar um Louboutin! Assim, parecerei rica, bem-sucedida, e as pessoas v\u00e3o querer me ouvir nas reuni\u00f5es!<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Comprei o Louboutin no mesmo final de semana.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Na segunda-feira, tinha uma reuni\u00e3o cedo e levei meu sapato novo. Assim que entramos no elevador, um dos s\u00f3cios disse baixinho para mim: &#8220;Gostei do seu sapato novo!&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Pronto, meu plano tinha dado certo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">S\u00f3 que n\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Mais uma vez, entrei na reuni\u00e3o em sil\u00eancio e sa\u00ed da mesma forma. O sapato de sola vermelha n\u00e3o ajudou em nada a superar minha inexperi\u00eancia no assunto.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Foi assim que aprendi o qu\u00e3o imaturo era esperar por admira\u00e7\u00e3o apenas com base na minha apar\u00eancia. A admira\u00e7\u00e3o vem de outro lugar.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Os anos passaram, aprendi o m\u00e1ximo sobre o mercado financeiro, e minha opini\u00e3o nas reuni\u00f5es passou a ser muito valorizada. Nunca mais usei o Louboutin, que vendi quando comecei meu plano FIRE.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Minha hist\u00f3ria \u00e9 did\u00e1tica. Nossa \u00e2nsia por sermos notados \u00e9 o que nos torna t\u00e3o consumistas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Se eu consumo, logo existo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Mas ser\u00e1 mesmo?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">N\u00e3o \u00e9 imaturo achar que algu\u00e9m \u00e9 bem-sucedido s\u00f3 porque dirige um carr\u00e3o, sem sequer <a href=\"https:\/\/aposentadaaostrinta.com.br\/a-diferenca-entre-ser-rico-e-ter-renda-alta\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\" title=\"A diferen\u00e7a entre ser rico e ter renda alta\">conhecer sua situa\u00e7\u00e3o financeira<\/a>?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u00c9 perfeitamente poss\u00edvel que o carr\u00e3o tenha sido comprado com financiamento. O que ele ostenta n\u00e3o \u00e9 necessariamente o que possui.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Esses dias, assisti ao filme <a href=\"https:\/\/www.netflix.com\/br\/title\/81614419\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\" title=\"\">M\u00e1fia da Dor<\/a> na Netflix. A personagem principal passou de uma condi\u00e7\u00e3o de pobre para o luxo. Quando ganhou &#8220;Stock options&#8221; da empresa, avaliadas em 5 milh\u00f5es de d\u00f3lares, ela simplesmente ignorou um pequeno detalhe muito importante: ela precisaria esperar alguns anos para exerc\u00ea-las e de fato receber o valor. E o valor da empresa poderia ser bem menor no momento do exerc\u00edcio.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ela gastava como se j\u00e1 tivesse os 5 milh\u00f5es na conta, sem compreender que era uma possibilidade futura. <\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Quantas pessoas n\u00e3o gastam como se seu sal\u00e1rio atual fosse eterno? Simplesmente ignorando a possibilidade de serem demitidas e terem que aceitar um emprego que pague menos?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A\u00ed vem o plot-twist da trama: a filha da empres\u00e1ria precisou de uma cirurgia no c\u00e9rebro urgente, e ela poderia optar por uma cirurgia menos invasiva, mas que custaria 450 mil d\u00f3lares. E ela n\u00e3o tinha esse dinheiro.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ela usava roupas e carros luxuosos, ganhava 600 mil d\u00f3lares por ano, mas n\u00e3o tinha 450 mil para a cirurgia da filha!<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em algum momento do filme, quando ela est\u00e1 consumindo loucamente, ela diz &#8220;eu nunca me senti t\u00e3o viva!&#8221;. No desespero de sentir-se viva pelo consumo, ela gastou todo o sal\u00e1rio milion\u00e1rio e n\u00e3o conseguiu proporcionar qualidade de vida \u00e0 pessoa que mais amava!<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>At\u00e9 que ponto o consumismo te faz sentir-se vivo hoje?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Se voc\u00ea s\u00f3 se sente her\u00f3i quando os outros reconhecem isso, \u00e9 narcisismo, n\u00e3o hero\u00edsmo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Depender do reconhecimento dos outros \u00e9 sinal de estar perdido.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ouvi no primeiro epis\u00f3dio do podcast do Morgan Housel algo interessante sobre consumo, algo que ele chama de &#8220;man in the car paradox&#8221;. Quando vemos algu\u00e9m dirigindo um carr\u00e3o, praticamente ignoramos o motorista e pensamos em como seria bom se f\u00f4ssemos n\u00f3s ali. Nossa mente mal repara no motorista e volta o foco para n\u00f3s mesmos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O paradoxo \u00e9: compramos coisas para sermos admirados, mas as pessoas geralmente usam a riqueza dos outros apenas como modelo para si mesmas, ignorando quem est\u00e1 ostentando!<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Quantas vezes nos preocupamos com nosso visual e mal reparamos nos outros ao redor?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Nossa mente registra o que realmente importa: quem as pessoas s\u00e3o, n\u00e3o o que elas usam.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Pense: mais de 100 bilh\u00f5es de pessoas passaram pelo mundo, desconhecemos a vida da maioria delas. Quem lembramos? Dos que fizeram coisas interessantes. Lembramos de Jesus, Einstein, Marilyn Monroe, Shakespeare, Leonardo da Vinci. N\u00e3o sabemos como se vestiam, que carros dirigiam, onde moravam. Lembramos de suas ideias, inven\u00e7\u00f5es, palavras, criatividade, pioneirismo. N\u00e3o \u00e9 pelo consumo que s\u00e3o lembrados.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Eles pensaram, ent\u00e3o existem.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Se eu encontrar o s\u00f3cio que elogiou meu Louboutin, \u00e9 prov\u00e1vel que n\u00e3o se lembre de ter me visto com esse sapato. Mas provavelmente ele se lembrar\u00e1 das nossas conversas, das trocas de ideias e do meu desenvolvimento como economista ao longo do tempo. Eu tenho certeza disso. <\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Em 2014, eu era economista j\u00fanior em um fundo de investimento. A designa\u00e7\u00e3o &#8220;j\u00fanior&#8221; em meu cargo servia para destacar o qu\u00e3o inexperiente eu era naquele ambiente. No fundo, apenas uma pessoa era respons\u00e1vel pela \u00e1rea comercial. Ela engravidou, e fui convidada a assumir o cargo durante sua licen\u00e7a maternidade. 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