{"id":2657,"date":"2026-09-30T08:00:00","date_gmt":"2026-09-30T08:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/aposentadaaostrinta.com.br\/blog\/?p=2657"},"modified":"2026-09-29T20:08:35","modified_gmt":"2026-09-29T20:08:35","slug":"o-seculo-do-ego-parte-i","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/aposentadaaostrinta.com.br\/blog\/o-seculo-do-ego-parte-i\/","title":{"rendered":"O S\u00e9culo do Ego \u2013 parte I"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Eu preciso confessar uma coisa para voc\u00eas. Eu ainda sofro com meus impulsos consumistas de vem em quando. E o principal impulso consumista que eu tenho que driblar no momento \u00e9 o meu desejo por viagens. Um dos meus passatempos favoritos \u00e9 assistir a um canal do Youtube de uma ag\u00eancia de viagens para a Disney. E sempre que eu me entrego a esse prazer que parece inocente, algo acontece comigo. Eu come\u00e7o a pesquisar o pre\u00e7o das passagens para Orlando.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Agora vamos \u00e0 realidade da situa\u00e7\u00e3o. Todo ano eu fa\u00e7o um or\u00e7amento anual para as minhas despesas espor\u00e1dicas. Nela eu incluo coisas que eu quero comprar (itens que costumam ser mais caros), algumas taxas e impostos que eu tenho que pagar todo ano, e o meu or\u00e7amento de viagem. Com esse or\u00e7amento em m\u00e3os, eu e meu marido decidimos quais viagens vamos fazer no ano.&nbsp;&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Eu sei a matem\u00e1tica, eu sei o custo de oportunidade, e sei de todos os motivos racionais para n\u00e3o comprar essa passagem que n\u00e3o estava nos planos. Mas mesmo assim, eu sinto uma atra\u00e7\u00e3o imensa.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Quando isso acontece, eu percebo que n\u00e3o \u00e9 um mero desejo de viajar. \u00c9 algo como \u201ceu queria estar vivendo a mesma experi\u00eancia que a mo\u00e7a da ag\u00eancia de viagens vive, eu quero estar em um dia de sol, num parque de divers\u00f5es, curtindo a be\u00e7a com o meu marido\u201d. Eu n\u00e3o queria a viagem, eu queria a experi\u00eancia, a sensa\u00e7\u00e3o, a euforia. Eu queria aproveitar a minha condi\u00e7\u00e3o de aposentada jovem, que tem muito tempo livre para viajar e curtir ao m\u00e1ximo a vida.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Mas sempre que esses momentos de quase compra por consumo acontecem, eu me pergunto: por qu\u00ea? Por que esses desejos quase se sobrep\u00f5em a algo que eu j\u00e1 planejei antes, de forma racional?&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Esse \u00e9 um conflito que n\u00e3o s\u00f3 eu, como muita gente experiencia. Me parece um conflito da nossa condi\u00e7\u00e3o moderna. Esse atrito entre a planilha, que \u00e9 pura l\u00f3gica e raz\u00e3o, e o deslize do cart\u00e3o de cr\u00e9dito, que \u00e9 puramente emocional.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">E quando isso acontece, nos culpamos por isso. Tratamos as finan\u00e7as pessoais como se fosse uma falha moral. Ou talvez seja falta de disciplina. Pensamos: &#8220;Se eu fosse mais inteligente, mais forte ou mais disciplinado, n\u00e3o teria feito essa compra&#8221;.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Mas e se eu lhe dissesse que n\u00e3o se trata de um problema moral? E se aquele impulso que voc\u00ea sente na loja, aquela atra\u00e7\u00e3o, n\u00e3o fosse uma falha aleat\u00f3ria no seu c\u00e9rebro, mas o resultado de um projeto de engenharia deliberado, que dura mais de um s\u00e9culo, e que foi criado para fazer voc\u00ea se sentir exatamente assim?&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Eu sei que parece que estamos entrando no territ\u00f3rio das teorias da conspira\u00e7\u00e3o. Parece mesmo, e voc\u00ea pode discordar disso. Mas tem como a gente contar essa hist\u00f3ria de uma forma muito bem documentada. Talvez n\u00e3o diretamente a nossa hist\u00f3ria, mas a hist\u00f3ria do consumo norte-americano, que bem, talvez eu n\u00e3o precise dizer que tamb\u00e9m impactou fortemente nossa hist\u00f3ria de consumo como brasileiros.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Essa \u00e9 uma s\u00e9rie de posts que analisa por que acreditamos, l\u00e1 no fundo, que comprar coisas \u00e9 o caminho para a felicidade. Muitas vezes, presumimos que nossos desejos s\u00e3o genuinamente nossos. Que quando desejamos uma marca espec\u00edfica de t\u00eanis ou aquele viagem, \u00e9 porque n\u00f3s decidimos que quer\u00edamos. Que isso representa uma express\u00e3o da minha individualidade.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">E para isso, vamos utilizar como base a s\u00e9rie documental &#8220;<a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=sYlzJO2jd9k&amp;t=1s\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\" title=\"\">O S\u00e9culo do Ego<\/a>&#8220;, de Adam Curtis. Esse \u00e9 um document\u00e1rio fant\u00e1stico, dispon\u00edvel gratuitamente no Youtube, que explica como essa sensa\u00e7\u00e3o de &#8220;eu quero isso&#8221; foi constru\u00edda, tijolo por tijolo, por pessoas que entendiam nossa mente muito melhor do que n\u00f3s mesmos.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O document\u00e1rio conta a hist\u00f3ria do marketing. Mas de uma forma muito interessante porque ele destaca uma certa disputa psicol\u00f3gica que transformou o nosso mundo inteiro de uma economia baseada em necessidades para uma economia baseada em desejos. A premissa central que ele explora \u00e9 que o s\u00e9culo XX foi definido por essa mudan\u00e7a na forma como as grandes empresas deixaram de nos ver como cidad\u00e3os racionais que precisavam de bens \u00fateis para sobreviver, e passaram a nos ver como seres irracionais, movidos por emo\u00e7\u00f5es e repletos de desejos inconscientes que podiam ser despertados, controlados e, em \u00faltima inst\u00e2ncia, monetizados.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">De novo, eu sei que esse post vai ter um tom um pouco mais conspirat\u00f3rio do que \u00e9 o normal aqui. Mas eu quero fazer isso de prop\u00f3sito. O meu objetivo \u00e9 justamente dar a voc\u00ea, meu querido leitor, uma vis\u00e3o diferente do seu desejo por consumo. Isso porque se voc\u00ea entende o mecanismo, e como voc\u00ea foi condicionado a associar seu valor pessoal aos seus h\u00e1bitos de consumo, ent\u00e3o talvez voc\u00ea poder\u00e1 ter uma chance real de evitar passar o seu cart\u00e3o de cr\u00e9dito na pr\u00f3xima vez que o impulso surgir.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O conhecimento \u00e9 realmente a \u00fanica defesa que eu consigo te oferecer aqui nesse blog. E junto com esse document\u00e1rio, eu sinto que posso te ajudar a trazer luz para v\u00e1rias armadilhas que a gente cai que nem patinho e que evitam que a gente siga na linha em busca da t\u00e3o sonhada independ\u00eancia financeira. Mas para isso, vamos come\u00e7ar do come\u00e7o.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\"><strong>M\u00e1quinas de felicidade&nbsp;<\/strong><\/h2>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Hoje, n\u00f3s consideramos a cultura de consumo como algo natural. N\u00f3s simplesmente presumimos que sempre foi assim. Mas definitivamente n\u00e3o foi. E se voc\u00ea fosse um consumidor em 1900, sua rela\u00e7\u00e3o com as coisas seria completamente diferente.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Viv\u00edamos no que os economistas chamariam de cultura baseada em necessidades. Ou seja, os produtos eram vendidos e comprados com base quase exclusivamente em duas coisas: funcionalidade e durabilidade.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Como eram os an\u00fancios de um par de sapatos em 1900? Ele n\u00e3o mostrava uma mulher maravilhosa, com o corpo perfeito e ar de bem sucedida. Ele simplesmente dizia \u201cesse sapato \u00e9 feito de couro, com costura tripla, e durar\u00e3o cinco anos&#8221;. Era tudo sobre utilidade. Pura utilidade. Voc\u00ea comprava meias porque as suas antigas estavam furadas. Voc\u00ea comprava um carro se fosse um dos poucos ricos o suficiente para ter um, porque precisava ir do ponto A ao ponto B mais r\u00e1pido do que um cavalo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Voc\u00ea n\u00e3o comprava isso para sinalizar aos seus amigos que estava subindo na vida. Todo consumo era uma transa\u00e7\u00e3o racional. Eu tinha um problema \u2013 \u00e9 desconfort\u00e1vel andar de p\u00e9s descal\u00e7os \u2013 e eu achava uma solu\u00e7\u00e3o \u2013 um par de sapatos resistentes.&nbsp; Fim da hist\u00f3ria. Era isso que refletia a realidade econ\u00f4mica da grande maioria das pessoas no come\u00e7o do s\u00e9culo passado.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Naquela \u00e9poca, ter renda dispon\u00edvel para consumo de bens sup\u00e9rfluos n\u00e3o era uma realidade. Cr\u00e9dito com amplo acesso mal existia tamb\u00e9m. Comprava-se apenas o necess\u00e1rio para sobreviver. A ideia de fazer compras como atividade de lazer ou terapia de varejo simplesmente n\u00e3o existia.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Muito mais distante era a ideia de identidade. Naquela \u00e9poca, as pessoas n\u00e3o compravam algo que permitisse expressar o seu interior. Elas compravam apenas para sobreviver \u00e0 sua realidade exterior.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u00c9 claro que a vida n\u00e3o era melhor naquela \u00e9poca, havia sim muita mis\u00e9ria no mundo. Olhando da nossa perspectiva de hoje, parece que esse era um mundo de superpoupadores, e muito respons\u00e1veis com os gastos. Mas a verdade \u00e9 que isso era feito de um lugar de aus\u00eancia de escolha. Ningu\u00e9m era frugal por escolha, e sim por necessidade.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">At\u00e9 que as coisas mudaram. Veio a Primeira Guerra Mundial, e ela funcionou como um enorme acelerador para a tecnologia de manufatura. Pois \u00e9, as guerras costumam ser grandes marcadores de avan\u00e7os tecnol\u00f3gicos. Ah, as ambival\u00eancias da vida&#8230;&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Descobrimos como fazer as coisas mais r\u00e1pido, mais barato e em quantidades absolutamente gigantescas. A produ\u00e7\u00e3o em massa simplesmente explodiu. As f\u00e1bricas estavam produzindo milh\u00f5es de pe\u00e7as de roupa, m\u00f3veis e utens\u00edlios dom\u00e9sticos em larga escala.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">S\u00f3 que ao inv\u00e9s disso ser visto como um bom sinal, isso criou uma nova ansiedade para a elite corporativa e os banqueiros de Wall Street. E eles chamaram isso de crise da superprodu\u00e7\u00e3o.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Esse \u00e9 um termo que raramente ouvimos hoje em dia porque a suposi\u00e7\u00e3o \u00e9 que sempre podemos vender mais coisas para mais pessoas. Mas naquela \u00e9poca, eles viam o mercado como finito. Eles estavam genuinamente apavorados com a ideia de que, uma vez que as pessoas tivessem o suficiente, uma vez que comprassem aquela mesa de que precisavam, aquele par de sapatos bom, e alguns utens\u00edlios dom\u00e9sticos, elas simplesmente parariam de comprar. Afinal de contas, porque comprar um segundo par de sapatos, se o primeiro ainda funciona perfeitamente bem?&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Se voc\u00ea vende com base na necessidade, eventualmente a necessidade \u00e9 satisfeita.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">E se a demanda for atendida, a f\u00e1brica para. Os trabalhadores s\u00e3o demitidos. Os lucros desaparecem. Todo o sistema econ\u00f4mico entra em colapso.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Assim, a lideran\u00e7a corporativa se deparou com esta quest\u00e3o fundamental: como fazer as pessoas desejarem coisas de que n\u00e3o precisam? Como mudar toda uma cultura, passando de comprar por utilidade para comprar por desejo?&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Eles precisavam mudar o sistema operacional do ser humano. E conseguiram.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">E \u00e9 aqui que a coisa fica realmente interessante. A resposta para essa pergunta, como manipular a mente humana para obter lucro, n\u00e3o veio de um empres\u00e1rio. N\u00e3o veio de um vendedor.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ela veio de um psicanalista.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\"><strong>Um psicanalista com um sobrinho influente<\/strong><\/h2>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Precisamos apresentar as duas figuras centrais da nossa hist\u00f3ria. Uma \u00e9 um nome conhecido por todos, e a outra \u00e9 um cara mais desconhecido, mas bastante importante, como vai ficar claro.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">De um lado do Atl\u00e2ntico, temos Sigmund Freud em Viena. E do outro, temos seu sobrinho em solo norte-americano, Edward Bernays. Eu sei que a maioria das pessoas conhece Freud, ou pelo menos pensa que conhece. Mas Edward Bernays \u00e9 mais desconhecido, embora ele tenha sido um dos arquitetos do mundo moderno. Segundo o document\u00e1rio, ele inventou o termo &#8220;rela\u00e7\u00f5es p\u00fablicas&#8221;, porque a palavra &#8220;propaganda&#8221; tinha adquirido uma conota\u00e7\u00e3o negativa depois da guerra.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Durante a Primeira Guerra Mundial, Bernays trabalhou para o governo dos EUA em algo chamado Comit\u00ea de Informa\u00e7\u00e3o P\u00fablica. Seu trabalho era apresentar a guerra ao p\u00fablico americano. E ele teve um sucesso incr\u00edvel nisso. Ele viu em primeira m\u00e3o o poder que slogans como &#8220;tornar o mundo seguro para a democracia&#8221; tinham para mobilizar milh\u00f5es de pessoas.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">E ele pensava: se voc\u00ea pode usar propaganda para a guerra, para fazer homens lutarem e morrerem, por que n\u00e3o pode us\u00e1-la para a paz? Por que n\u00e3o pode us\u00e1-la para fazer as pessoas comprarem?&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Para isso, ele precisava de uma teoria, um modelo funcional de como a mente humana realmente opera. E \u00e9 a\u00ed que entra seu tio Siggy.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u00c9 claro que Freud n\u00e3o escreveu livros did\u00e1ticos de marketing. Para a \u00e9poca, ele escrevia coisas muito sombrias, muito confusas, muito humanas. A vis\u00e3o dele sobre a natureza humana n\u00e3o era exatamente otimista. Ele acreditava que os seres humanos n\u00e3o s\u00e3o agentes racionais. Argumentava que, no fundo, todos somos movidos por for\u00e7as primitivas e irracionais, ocultas no inconsciente. Coisas como agress\u00e3o sexual, viol\u00eancia, e o que ele chamava de puls\u00e3o de morte. Ele acreditava que a civiliza\u00e7\u00e3o era apenas uma fina e fr\u00e1gil camada que escondia nossos impulsos animalescos. E todo o projeto de Freud consistia em compreender essas for\u00e7as para reprimi-las, pelo bem da sociedade.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Mas Bernays, do outro lado do oceano, era um t\u00edpico otimista americano. Ele analisou a teoria do tio e n\u00e3o enxergou nenhuma trag\u00e9dia. Ele viu, na verdade, uma mina de ouro. Um plano de neg\u00f3cios.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O document\u00e1rio cita um detalhe fascinante em que Bernays envia um presente ao tio: uma caixa de charutos cubanos, que eram realmente dif\u00edceis de encontrar na Viena do p\u00f3s-guerra. E como agradecimento, Freud envia a Bernays um exemplar de seu livro, Introdu\u00e7\u00e3o Geral \u00e0 Psican\u00e1lise. Uma caixa de charutos em troca do projeto da alma humana.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Foi essa troca de presentes que talvez tenha mudado o mundo. A leitura que Bernays fez da psican\u00e1lise freudinana foi: se os seres humanos s\u00e3o movidos por essas for\u00e7as ocultas e irracionais, ent\u00e3o o antigo m\u00e9todo de marketing, apelando ao intelecto com fatos e n\u00fameros, \u00e9 uma completa perda de tempo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Voc\u00ea n\u00e3o precisa vender para o c\u00e9rebro racional. Pode at\u00e9 mesmo ignor\u00e1-lo completamente. Voc\u00ea deve vender diretamente para o inconsciente.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Este \u00e9 o ponto de virada. Este \u00e9 o momento em que tudo muda. Antes de Bernays, a estrat\u00e9gia era: aqui est\u00e1 um carro. Tem quatro rodas e um motor de 20 cavalos de pot\u00eancia. Vai ser \u00fatil para voc\u00ea, compre-o. Depois de Bernays, a estrat\u00e9gia passa a ser ignorar os fatos e apelar para as emo\u00e7\u00f5es irracionais. \u00c9 isso que vende, e vende muito.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A ideia era pegar um objeto impessoal produzido em massa \u2014 uma barra de sab\u00e3o, uma caixa de mistura para bolo, um ma\u00e7o de cigarros \u2014 e vincul\u00e1-lo a um desejo profundo, pessoal e inconsciente. Ele percebeu que, se voc\u00ea consegue fazer de um produto um s\u00edmbolo de algo que o consumidor anseia emocionalmente, ele n\u00e3o apenas o comprar\u00e1, mas tamb\u00e9m criar\u00e1 um v\u00ednculo emocional com ele.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\"><strong>Tochas da Liberdade<\/strong><\/h2>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Para deixar clara essa estrat\u00e9gia, o document\u00e1rio traz um exemplo fascinante. No final da d\u00e9cada de 1920, Bernays foi contratado pelo presidente da American Tobacco Corporation. Ele tinha um grande problema: metade do mercado n\u00e3o comprava cigarro, porque as mulheres n\u00e3o fumavam. Era um tabu social. Na d\u00e9cada de 1920, uma mulher fumar em p\u00fablico era considerado sujo, impr\u00f3prio para uma dama.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Fumar era um privil\u00e9gio masculino.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">E foi ent\u00e3o que Bernays decidiu consultar um psicanalista, e colocar o cigarro no div\u00e3. Ele contratou um dos principais disc\u00edpulos de Freud em Nova York, e pagou-lhe uma quantia enorme para responder a uma pergunta simples: O que o cigarro significa para o inconsciente feminino? E o psicanalista lhe d\u00e1 uma resposta freudiana cl\u00e1ssica: o cigarro \u00e9 um s\u00edmbolo f\u00e1lico. Representa o poder sexual masculino.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ele explicou que o tabu existia porque o patriarcado negava esse poder \u00e0s mulheres. Mas, e aqui est\u00e1 o ponto crucial, se voc\u00ea pudesse apresentar o cigarro como uma forma de as mulheres desafiarem o poder masculino, ent\u00e3o elas fumariam. Para funcionar era preciso associar o ato de fumar ao ato de desafiar os homens.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Foi a\u00ed que Bernays orquestrou uma brilhante manobra p\u00fablica. Ele escolheu como alvo o Desfile de P\u00e1scoa na cidade de Nova York, um evento midi\u00e1tico de grande repercuss\u00e3o para a alta sociedade. Secretamente, ele contratou um grupo de mulheres jovens, ricas e elegantes, e lhes instrui a esconder cigarros sob suas roupas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">E ele deu instru\u00e7\u00f5es muito espec\u00edficas. Quando todos os fot\u00f3grafos do jornal estivessem na posi\u00e7\u00e3o perfeita, ele daria um sinal para que elas pegassem seus cigarros e os acendessem. Isso causaria uma cena dram\u00e1tica e desafiadora. At\u00e9 porque Bernays j\u00e1 havia avisado a imprensa. Ele havia envido um comunicado \u00e0 imprensa informando que um grupo de sufragistas estava se preparando para protestar acendendo tochas da liberdade. Isso mesmo, <em>tochas da liberdade<\/em>.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">E o poder do ato foi&nbsp; simplesmente incr\u00edvel. Ele reinventou completamente a imagem do cigarro. Com esse ato, o cigarro se tornou um s\u00edmbolo da liberdade pol\u00edtica. Ele envolveu o produto nas fortes emo\u00e7\u00f5es do movimento sufragista, que lutava pelo direito ao voto e pela igualdade naquele momento.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">No dia seguinte, jornais de todo o mundo estamparam a manchete: \u201cMulheres acendem tochas da liberdade.\u201d E assim, de repente, o tabu foi quebrado. Quase da noite para o dia, as mulheres come\u00e7aram a fumar nas ruas, em restaurantes. N\u00e3o porque de repente passaram a gostar mais do sabor do tabaco, mas porque o ato de fumar agora tinha um significado. Significava: &#8220;Eu sou independente&#8221;. Eu sou poderosa. Sou igual a um homem.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\"><strong>Economia dos desejos<\/strong><\/h2>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Se n\u00e3o ficou claro, vamos deixar algo bem evidente: o cigarro em si \u00e9 completamente irrelevante para a liberdade. N\u00e3o lhe d\u00e1 direitos (as mulheres continuavam sem poder votar, apesar de fumantes). \u00c9 uma conex\u00e3o completamente irracional. Mas Bernays provou que voc\u00ea pode pegar um objeto totalmente irrelevante e transform\u00e1-lo em um poderoso s\u00edmbolo emocional de como voc\u00ea quer ser visto pelos outros.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Esse \u00e9 o cerne, o n\u00facleo da economia dos desejos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Voc\u00ea n\u00e3o est\u00e1 comprando o objeto, voc\u00ea est\u00e1 comprando a sensa\u00e7\u00e3o que o objeto promete. Bernays transformou o consumidor de uma pessoa que precisa de coisas em uma pessoa que se expressa atrav\u00e9s das coisas. H\u00e1 uma cita\u00e7\u00e3o no document\u00e1rio que resume tudo isso perfeitamente: &#8220;n\u00f3s mudamos a cultura americana, passando de uma cultura de necessidades para uma cultura de desejos.&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A partir de ent\u00e3o, as pessoas foram treinadas para desejar, para querer coisas novas mesmo antes que as antigas tenham sido completamente consumidas.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">E isso n\u00e3o foi uma mudan\u00e7a cultural acidental. De forma alguma. Foi uma estrat\u00e9gia de propaganda deliberada.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O objetivo era criar o que chamavam abertamente de &#8220;m\u00e1quina da felicidade&#8221;. A meta era garantir que as f\u00e1bricas nunca precisassem parar, porque o desejo humano, ao contr\u00e1rio da necessidade humana, \u00e9 infinito.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">E Bernays desenvolveu todo o plano que ainda vemos muito presente nos dias de hoje Ele foi pioneiro na inser\u00e7\u00e3o de produtos em filmes. Foi o primeiro a perceber que, se uma estrela de cinema usasse um produto na tela, as pessoas n\u00e3o desejariam apenas o produto, mas tamb\u00e9m o estilo de vida da estrela. Algo que hoje segue firme e forte, e n\u00e3o apenas com estrelas do cinema, mas tamb\u00e9m com as influencers das redes sociais. Mas foi Bernays quem inventou o endosso de celebridades como ferramenta psicol\u00f3gica.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">E eis o nascimento da ideia de que voc\u00ea n\u00e3o compra um carro porque precisa de transporte. Voc\u00ea o compra porque se sente melhor consigo mesmo quando est\u00e1 dentro dele. Voc\u00ea o compra porque ele te faz sentir poderoso, sexy ou bem-sucedido.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">E essa mudan\u00e7a psicol\u00f3gica transformou fundamentalmente a economia. Muita gente acredita que o enorme boom do mercado de a\u00e7\u00f5es da d\u00e9cada de 1920 foi impulsionado em grande parte por esse novo consumismo. Bernays e seus colegas haviam conseguido reprogramar a mentalidade americana para associar o consumo \u00e0 autoestima.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Eles nos ensinaram que a maneira de acalmar nossas feras irracionais interiores era aliment\u00e1-las constantemente com novos produtos.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">At\u00e9 que o excesso culminou com o crash da bolsa de 1929, que desencadeou a Grande Depress\u00e3o. Com a crise, a m\u00e1quina da felicidade entrou em colapso de forma espetacular. As pessoas pararam de comprar coisas porque literalmente n\u00e3o tinham dinheiro. O consumidor irracional desapareceu por um tempo porque o instinto de sobreviv\u00eancia voltou com for\u00e7a total.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">N\u00e3o d\u00e1 para vender a ideia de autoexpress\u00e3o para um homem que est\u00e1 na fila do p\u00e3o. As ideias de Bernays chegaram a cair em desuso por um tempo durante a d\u00e9cada de 30. Mas a hist\u00f3ria n\u00e3o termina a\u00ed &#8211; e parte II desse post vem daqui 15 dias. <\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Eu preciso confessar uma coisa para voc\u00eas. Eu ainda sofro com meus impulsos consumistas de vem em quando. E o principal impulso consumista que eu tenho que driblar no momento \u00e9 o meu desejo por viagens. 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