{"id":2639,"date":"2026-08-26T08:00:00","date_gmt":"2026-08-26T08:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/aposentadaaostrinta.com.br\/?p=2639"},"modified":"2026-08-25T23:49:47","modified_gmt":"2026-08-25T23:49:47","slug":"quanto-custa-pertencer","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/aposentadaaostrinta.com.br\/blog\/quanto-custa-pertencer\/","title":{"rendered":"Quanto custa pertencer?"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Eu participo de um grupo grande de amigas. Somos amigas h\u00e1 mais de vinte anos e atravessamos praticamente todas as fases da vida adulta juntas. J\u00e1 compartilhamos t\u00e9rminos de namoro, aprova\u00e7\u00f5es em vestibulares, casamentos, crises profissionais, nascimento dos filhos, mudan\u00e7as de cidade, inseguran\u00e7as, lutos e recome\u00e7os. Existe algo de muito bonito em acompanhar pessoas por tanto tempo, e s\u00e3o essas amizades longas que compreendem uma vers\u00e3o inteira de quem somos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">E talvez seja justamente por amar tanto essas amizades que um certo desconforto come\u00e7ou a surgir em mim nos \u00faltimos anos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Houve um per\u00edodo da minha vida em que eu estava extremamente focada em economizar dinheiro para atingir a independ\u00eancia financeira o mais r\u00e1pido poss\u00edvel. E foi nesse momento que comecei a perceber como, pouco a pouco, nossas rela\u00e7\u00f5es sociais haviam sido atravessadas pelo consumo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">N\u00f3s sempre decidimos gastos em conjunto. Quando uma amiga casa, organizamos uma despedida de solteira. Quando nasce um beb\u00ea, organizamos presentes coletivos. Quando algu\u00e9m faz anivers\u00e1rio, pensamos em experi\u00eancias especiais. E \u00e9 curioso observar como essas celebra\u00e7\u00f5es foram se sofisticando junto com a nossa vida adulta.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O que come\u00e7ou muitos anos atr\u00e1s como um fim de semana simples na casa de praia dos pais de algu\u00e9m \u2014 onde o principal era estarmos juntas \u2014 foi aos poucos se transformando em viagens de avi\u00e3o, hospedagens caras, refei\u00e7\u00f5es feitas por cozinheiras.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">E eu percebia algo estranho nisso tudo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Claro, \u00e9 natural gastar dinheiro com pessoas que amamos. E eu tamb\u00e9m gosto do conforto, da experi\u00eancia bonita, do jantar especial, da viagem inesquec\u00edvel. O problema come\u00e7a quando essas coisas deixam de ser apenas acess\u00f3rios da conviv\u00eancia e passam, silenciosamente, a funcionar como condi\u00e7\u00e3o para pertencer.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Porque existe uma diferen\u00e7a enorme entre gastar dinheiro com amigos e <em>precisar<\/em> gastar dinheiro para continuar fazendo parte daquele grupo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">E acho que a vida adulta vai apagando lentamente essa fronteira.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Algumas vezes tentei argumentar contra essa necessidade crescente de transformar conviv\u00eancia em consumo. \u00c0s vezes minhas amigas concordam e optamos por algo mais simples. Mas muitas vezes prevalece o desejo de celebrar da melhor forma poss\u00edvel, com tudo aquilo que o dinheiro pode comprar: conforto, praticidade, est\u00e9tica, experi\u00eancia.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">E eu entendo completamente o impulso. A vida adulta \u00e9 cansativa. Existe algo sedutor na ideia de transformar o encontro com quem amamos em um momento extraordin\u00e1rio.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Mas existe tamb\u00e9m algo melanc\u00f3lico nisso.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Porque, agora que estamos nos aproximando dos quarenta anos, a realidade financeira de cada uma ficou muito diferente. Algumas sempre tiveram muito dinheiro. Outras batalharam bastante e conseguiram construir uma vida confort\u00e1vel. E existem tamb\u00e9m aquelas que se esfor\u00e7aram tanto quanto todas as outras, mas que simplesmente n\u00e3o tiveram a mesma sorte financeira. E s\u00e3o justamente essas que acabam pagando o pre\u00e7o mais alto dessa din\u00e2mica.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Porque o custo monet\u00e1rio de uma viagem para a Bahia \u00e9 claro e objetivo. Mas existe outro custo, muito mais dif\u00edcil de medir: o custo de n\u00e3o ir. O custo de ficar de fora das mem\u00f3rias compartilhadas. Das conversas internas do grupo. Das fotos. Das piadas que nascer\u00e3o naquele fim de semana.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">No fundo, muitas pessoas acabam cedendo a gastos que n\u00e3o podem sustentar n\u00e3o porque sejam irrespons\u00e1veis, mas porque entenderam algo profundamente humano: ser exclu\u00eddo de um v\u00ednculo afetivo pode doer mais do que a perda financeira.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">A grande pergunta \u00e9: por que estamos vivendo assim?<\/h2>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">E talvez a resposta mais honesta seja simplesmente esta: porque \u00e9 conveniente.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Grande parte dessa reflex\u00e3o nasceu da leitura de um livro extremamente interessante chamado <em><a href=\"https:\/\/www.amazon.com.br\/Era-Do-Acesso-Jeremy-Rifkin\/dp\/8534612064\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\" title=\"\">A Era do Acesso<\/a><\/em>, do Jeremy Rifkin. \u00c9 um daqueles livros dif\u00edceis de resumir porque a tese dele \u00e9 ampla, sofisticada e passa por v\u00e1rias transforma\u00e7\u00f5es hist\u00f3ricas do capitalismo. <\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Mas, simplificando bastante, Rifkin argumenta que estamos vivendo uma transi\u00e7\u00e3o silenciosa: sa\u00edmos de uma economia baseada na posse de coisas para uma economia baseada no acesso tempor\u00e1rio a servi\u00e7os, experi\u00eancias e rela\u00e7\u00f5es mediadas por consumo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Se antes o capitalismo girava principalmente em torno da produ\u00e7\u00e3o e venda de objetos materiais, agora ele passou a avan\u00e7ar sobre uma outra fronteira: o pr\u00f3prio tempo humano, os v\u00ednculos sociais, o lazer, os rituais afetivos e a experi\u00eancia subjetiva da vida.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">E talvez por isso a sensa\u00e7\u00e3o contempor\u00e2nea de exaust\u00e3o seja t\u00e3o diferente daquela das gera\u00e7\u00f5es anteriores. N\u00e3o estamos <em>apenas<\/em> trabalhando demais. <strong>N\u00f3s estamos comercializando cada vez mais partes da pr\u00f3pria exist\u00eancia.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Mas eu sei que tudo isso pode soar abstrato demais, ent\u00e3o vamos a exemplos pr\u00e1ticos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Um dos exemplos mais interessantes que o Rifkin d\u00e1 no livro \u00e9 o das empresas de ar-condicionado nos Estados Unidos. Antigamente, as pessoas compravam um aparelho, levavam para casa, instalavam, cuidavam da manuten\u00e7\u00e3o e assumiam todos os problemas envolvidos naquela posse. S\u00f3 que possuir coisas d\u00e1 trabalho. D\u00e1 muito trabalho. Ent\u00e3o as empresas perceberam que talvez fosse mais lucrativo \u2014 e tamb\u00e9m mais conveniente para o consumidor \u2014 transformar aquilo em um servi\u00e7o cont\u00ednuo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ao inv\u00e9s de vender um aparelho, elas passaram a vender \u201cclimatiza\u00e7\u00e3o\u201d. Voc\u00ea n\u00e3o precisa mais se preocupar com instala\u00e7\u00e3o, manuten\u00e7\u00e3o, troca ou reparo. Voc\u00ea apenas paga mensalmente para que sua casa permane\u00e7a refrigerada. A propriedade desaparece, e a conveni\u00eancia entra no lugar.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">E, honestamente, faz sentido. Talvez essa seja justamente a for\u00e7a mais sedutora dessa nova l\u00f3gica econ\u00f4mica: ela resolve problemas <em>reais<\/em> da vida cotidiana.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Hoje quase ningu\u00e9m compra discos ou filmes f\u00edsicos; pagamos assinaturas para acessar m\u00fasicas e s\u00e9ries infinitas. Muitas pessoas preferem alugar carro, alugar im\u00f3vel, terceirizar tarefas dom\u00e9sticas, contratar aplicativos para tudo. At\u00e9 as rela\u00e7\u00f5es digitais passaram a funcionar por assinatura: conte\u00fados exclusivos, grupos privados, acesso premium \u00e0 intimidade dos outros.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">E \u00e9 imposs\u00edvel negar que existe conforto nisso tudo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Antes, as m\u00e3es passavam semanas preparando manualmente a decora\u00e7\u00e3o da festa de um ano dos filhos. Hoje contratamos decoradoras. \u00c9 mais bonito, mais eficiente e muito menos cansativo. Antes, um grupo de amigas aceitava dormir em colch\u00f5es espalhados pela sala da casa de praia de algu\u00e9m. Hoje alugamos uma casa confort\u00e1vel no Airbnb, onde cada uma ter\u00e1 seu quarto, seu banheiro, sua privacidade. Antes, quando um beb\u00ea nascia, av\u00f3s e familiares passavam temporadas ajudando nos cuidados da crian\u00e7a \u2014 o que tamb\u00e9m gerava conflitos, tens\u00f5es emocionais e invas\u00f5es de espa\u00e7o. Hoje muitas fam\u00edlias preferem contratar bab\u00e1s, enfermeiras e consultoras especializadas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">E eu n\u00e3o digo isso em tom de julgamento.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Porque, de fato, pagar por servi\u00e7os frequentemente \u00e9 mais f\u00e1cil. Mais eficiente. Mais confort\u00e1vel. A vida moderna \u00e9 corrida, exaustiva e cheia de sobrecargas invis\u00edveis. A conveni\u00eancia virou quase um mecanismo de sobreviv\u00eancia emocional.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Talvez o lado mais ambivalente dessa transforma\u00e7\u00e3o seja perceber que, aos poucos, come\u00e7amos a substituir rela\u00e7\u00f5es humanas imperfeitas \u2014 mas genu\u00ednas \u2014 por rela\u00e7\u00f5es comerciais eficientes.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Porque rela\u00e7\u00f5es humanas d\u00e3o trabalho. Exigem toler\u00e2ncia, negocia\u00e7\u00e3o, desconforto, adapta\u00e7\u00e3o. Amigos n\u00e3o funcionam sob contrato. Av\u00f3s n\u00e3o operam como funcion\u00e1rias terceirizadas. Afeto real quase nunca segue a l\u00f3gica da efici\u00eancia. <\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">E talvez tenha sido justamente isso que o mercado percebeu: havia um enorme espa\u00e7o econ\u00f4mico em tudo aquilo que os v\u00ednculos humanos faziam de maneira lenta, desorganizada e emocionalmente desgastante.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O problema \u00e9 que toda essa conveni\u00eancia tem um custo oculto.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">O custo escondido por tr\u00e1s de toda essa conveni\u00eancia<\/h2>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O livro do Rifkin prop\u00f5e uma reflex\u00e3o muito mais delicada: o que acontece com a sociedade quando passamos a substituir \u201ctempo cultural\u201d por \u201ctempo comercial\u201d?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O tempo cultural \u00e9 aquele que existe fora das rela\u00e7\u00f5es de mercado. \u00c9 o tempo da ajuda espont\u00e2nea, da conviv\u00eancia desinteressada, da amizade n\u00e3o monetizada, da constru\u00e7\u00e3o lenta de confian\u00e7a. \u00c9 o tempo gasto ouvindo um amigo sem cobran\u00e7a. O tempo da av\u00f3 ajudando com um beb\u00ea porque existe amor envolvido ali, e n\u00e3o um contrato de presta\u00e7\u00e3o de servi\u00e7o. O tempo das rela\u00e7\u00f5es mediadas por empatia, reciprocidade, tradi\u00e7\u00e3o e solidariedade.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Civiliza\u00e7\u00f5es sempre dependeram de algo anterior ao mercado para sobreviver. E os mercados s\u00f3 funcionam porque antes existiu confian\u00e7a social. Porque antes existiram normas culturais, senso de comunidade, reciprocidade, empatia e algum n\u00edvel b\u00e1sico de solidariedade espont\u00e2nea.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O com\u00e9rcio n\u00e3o cria sozinho o tecido humano que torna a sociedade poss\u00edvel. Ele depende dele.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Mas o que acontece quando a pr\u00f3pria l\u00f3gica comercial come\u00e7a a consumir esse tecido?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O Rifkin sugere que estamos vivendo uma esp\u00e9cie de exaust\u00e3o dos nossos recursos culturais. Assim como durante d\u00e9cadas tememos o esgotamento da \u00e1gua, do petr\u00f3leo e dos recursos naturais, talvez agora estejamos nos aproximando de outro tipo de escassez: a eros\u00e3o da nossa capacidade de existir de maneira genuinamente desinteressada.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Talvez seja justamente por isso que a solid\u00e3o contempor\u00e2nea seja t\u00e3o presente, mesmo nesse mundo de comunica\u00e7\u00e3o e iteratividade relativamente f\u00e1cil. Porque existe uma sensa\u00e7\u00e3o crescente de vazio afetivo, como se estiv\u00e9ssemos cercados de intera\u00e7\u00f5es mas privados de intimidade real.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Afinal de contas, intimidade de verdade d\u00e1 trabalho.<strong> Rela\u00e7\u00f5es afetivas genu\u00ednas precisam ser gratuitas.\u00a0<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O sil\u00eancio compartilhado entre amigos, o t\u00e9dio, a conviv\u00eancia sem objetivo produtivo, o simples ato de estar junto sem consumir nada. Ser\u00e1 que ainda saberemos como agir de maneira profundamente humana quando n\u00e3o h\u00e1 nenhuma transa\u00e7\u00e3o envolvida?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Talvez o verdadeiro risco dessa hipercomercializa\u00e7\u00e3o n\u00e3o seja nos transformar apenas em consumidores. Mas nos transformar em pessoas incapazes de imaginar rela\u00e7\u00f5es que existam fora da l\u00f3gica do consumo.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Esse desconforto serve como b\u00fassola para n\u00f3s<\/h2>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Eu n\u00e3o acho que a conclus\u00e3o de tudo isso seja que dever\u00edamos abandonar o mercado, deixar de terceirizar servi\u00e7os ou voltar nostalgicamente para um passado em que todas as rela\u00e7\u00f5es eram supostamente mais aut\u00eanticas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">At\u00e9 porque esse passado provavelmente nunca existiu.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Muitas das rela\u00e7\u00f5es que hoje podemos enxergar como exemplos de \u201ctempo cultural\u201d tamb\u00e9m eram atravessadas por desigualdades, obriga\u00e7\u00f5es e rela\u00e7\u00f5es de poder. A av\u00f3 que passava semanas cuidando de um beb\u00ea podia fazer aquilo por amor, mas tamb\u00e9m porque durante muito tempo se esperou das mulheres que oferecessem gratuitamente seu tempo e seu trabalho. Pagar uma bab\u00e1, nesse sentido, tamb\u00e9m pode representar autonomia. E o fato de uma rela\u00e7\u00e3o envolver dinheiro n\u00e3o significa necessariamente que ela seja falsa: um professor, um psic\u00f3logo, um m\u00e9dico ou uma cuidadora podem oferecer aten\u00e7\u00e3o e cuidado profundamente genu\u00ednos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O problema, portanto, n\u00e3o \u00e9 simplesmente a exist\u00eancia do mercado.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Talvez nem fa\u00e7a sentido falar do \u201cmercado\u201d como se fosse uma entidade consciente que decidiu invadir nossas vidas. N\u00f3s mesmos demandamos conforto, praticidade, efici\u00eancia e autonomia \u2014 e existe uma raz\u00e3o muito boa para isso. Eu tamb\u00e9m terceirizo servi\u00e7os. Tamb\u00e9m pago pela conveni\u00eancia. Tamb\u00e9m prefiro uma cama confort\u00e1vel a um colch\u00e3o no ch\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O que me interessa na reflex\u00e3o do Rifkin \u00e9 outra coisa: <strong>o que acontece quando o mercado deixa de ser apenas uma ferramenta que facilita nossas rela\u00e7\u00f5es e come\u00e7a a determinar as condi\u00e7\u00f5es necess\u00e1rias para participar delas?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">E \u00e9 a\u00ed que eu volto para minhas amigas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">N\u00e3o existe absolutamente nada de errado em trocarmos a antiga casa de praia por um Airbnb maravilhoso na Bahia. O problema come\u00e7a quando, sem percebermos, trocamos tamb\u00e9m a regra de pertencimento.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Antes, para participar daquele fim de semana, era preciso basicamente estar dispon\u00edvel. Agora \u00e9 preciso estar dispon\u00edvel <strong>e conseguir pagar<\/strong>.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Essa diferen\u00e7a parece pequena, mas n\u00e3o \u00e9.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Porque quando o acesso \u00e0s experi\u00eancias que constroem nossas rela\u00e7\u00f5es passa a depender cada vez mais da capacidade de consumo, a desigualdade financeira come\u00e7a tamb\u00e9m a produzir uma esp\u00e9cie de desigualdade de pertencimento.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">E talvez seja justamente esse o ponto em que a teoria sobre &#8220;a era do acesso&#8221; do Rifkin deixa de parecer uma grande abstra\u00e7\u00e3o sobre capitalismo, e come\u00e7a a aparecer numa simples conversa de WhatsApp entre amigas decidindo onde passar o fim de semana.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">N\u00e3o \u00e9 que o dinheiro tenha destru\u00eddo a amizade. \u00c9 muito mais sutil do que isso. O dinheiro passou a organizar uma parcela maior da experi\u00eancia da amizade. E acho que \u00e9 esse desconforto que pode servir como uma esp\u00e9cie de b\u00fassola.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u00c1s vezes eu me pego pensando se eu tento transformar frugalidade em superioridade moral aqui no blog. Mas espero que entendam que eu n\u00e3o acho que existe alguma virtude especial em escolher sempre o programa mais barato. Mas \u00e9 v\u00e1lido perceber quando o consumo deixa de ser um complemento da rela\u00e7\u00e3o e come\u00e7a a se tornar uma condi\u00e7\u00e3o para ela.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Eu penso muito nisso sobre o tipo de amiga que quero ser.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Quero poder comemorar uma ocasi\u00e3o especial em um restaurante caro, mas tamb\u00e9m quero continuar sendo uma amiga com quem se pode passar uma tarde inteira conversando na cozinha sem gastar nada. Quero viajar com minhas amigas quando isso fizer sentido, mas n\u00e3o quero que a pessoa que n\u00e3o puder pagar pela viagem deixe de se sentir parte do grupo. Quero que os presentes sejam uma forma poss\u00edvel de demonstrar carinho, mas nunca a medida dele.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Talvez seja isso que Rifkin esteja tentando preservar quando fala da import\u00e2ncia do tempo cultural.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">N\u00e3o uma vida completamente separada do dinheiro, at\u00e9 porque isso seria imposs\u00edvel. Mas criar espa\u00e7os em que as nossas rela\u00e7\u00f5es continuem funcionando segundo outras regras. Com a regra da paci\u00eancia, da escuta amiga, do cuidado familiar. E da companhia que n\u00e3o precisa ser transformada em uma experi\u00eancia extraordin\u00e1ria.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Eu participo de um grupo grande de amigas. 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