{"id":2113,"date":"2026-04-01T08:00:00","date_gmt":"2026-04-01T08:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/aposentadaaostrinta.com.br\/?p=2113"},"modified":"2026-03-31T21:40:52","modified_gmt":"2026-03-31T21:40:52","slug":"a-depreciacao-do-caseiro","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/aposentadaaostrinta.com.br\/blog\/a-depreciacao-do-caseiro\/","title":{"rendered":"A deprecia\u00e7\u00e3o do caseiro"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em 2003, minha fam\u00edlia se mudou para o que hoje \u00e9 a casa do meu pai. Era o apartamento dos sonhos. Meus pais gastaram um bom dinheiro com m\u00f3veis novos, objetos de decora\u00e7\u00e3o, embora, naquela \u00e9poca, ainda n\u00e3o fosse comum contratar arquitetos ou modificar profundamente os ambientes. Ficamos com os revestimentos originais dos banheiros entregues pela construtora. E meu pai, at\u00e9 hoje, n\u00e3o caiu na tenta\u00e7\u00e3o de reform\u00e1-los.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Para os padr\u00f5es da \u00e9poca, aquilo j\u00e1 era um certo luxo consumista. Mas algo de frugal ainda resistia na mentalidade dos meus pais.  <\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Naquela \u00e9poca, estavam na moda uns tapetes feitos com pequenos amarrados de tecido. Eu e minha irm\u00e3 vimos aqueles tapetes na Tok&amp;Stok e ficamos completamente encantadas. Meus pais, por outro lado, ficaram chocados com o pre\u00e7o. N\u00e3o demorou muito para minha m\u00e3e perceber que aquele objeto \u2014 que parecia sofisticado na loja \u2014 era, na verdade, tecnicamente simples. E, portanto, reproduz\u00edvel facilmente em casa.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Foi assim que, nos meses seguintes, a casa virou uma pequena oficina. Primeiro, cort\u00e1vamos peda\u00e7os de tecido em ret\u00e2ngulos id\u00eanticos. Depois, amarr\u00e1vamos cada um deles, um a um, em uma tela. Era um trabalho extremamente artesanal, repetitivo, quase tedioso. Mas, ao mesmo tempo, agregador. Faz\u00edamos isso juntos, a fam\u00edlia toda, todas as noites, assistindo \u00e0\u00a0TV Globo\u00a0na sala.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Eu ainda tenho esse tapete. E, mais do que o objeto em si, tenho a mem\u00f3ria v\u00edvida daquele processo, que por vezes foi irritante (especialmente quando meu pai insistia em cortar os ret\u00e2ngulos \u201cno olho\u201d, sem medir), mas profundamente marcante. Era um tempo e qualidade compartilhado em fam\u00edlia. <\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Mas mesmo na nossa f\u00e1brica caseira de amarradinhos, j\u00e1 havia uma perda em curso. Minha m\u00e3e fazia muito menos coisas \u201ccaseiras\u201d conosco do que a m\u00e3e dela. As minhas duas av\u00f3s foram respons\u00e1veis pelos quitutes e pelo bolo do casamento dos meus pais, algo que meus pais jamais fariam por mim. Ambas tinham um espa\u00e7o dedicado \u00e0 m\u00e1quina de costura em casa, e eu me lembro delas fazendo roupas simples para n\u00f3s. J\u00e1 as minhas bisav\u00f3s iam al\u00e9m: foram elas que costuraram os vestidos de noiva das pr\u00f3prias filhas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Me parece que existe uma linha hist\u00f3rica de abandono do fazer dom\u00e9stico. Com o tempo, simplesmente deixamos de fazer. E, talvez mais grave, passamos a desprezar o caseiro.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Se \u00e9 caseiro, n\u00e3o \u00e9 bom? \u00c9 claro que h\u00e1 coisas que \u00e9 muito melhor pagar para os outros fazerem por n\u00f3s. Todos n\u00f3s sabemos o quanto diminuiu o n\u00famero de mortes de mulheres no parto com o fim do parto caseiro.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Mas, como eu ouvi outro dia, o homem j\u00e1 construiu um foguete \u2014 mas nem por isso a gente vai de foguete at\u00e9 a padaria. O caseiro pode n\u00e3o ser adequado para uma s\u00e9rie de quest\u00f5es, mas ser\u00e1 que a gente n\u00e3o est\u00e1 usando foguetes demais por a\u00ed?<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\"><strong>O lugar mais evidente do fim do caseiro<\/strong><\/h2>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Recentemente eu assisti <a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=2igfLjjBuZw\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\" title=\"\">a esse v\u00eddeo no Youtube<\/a>. \u00c9 um v\u00eddeo bem did\u00e1tico para mostrar como, na tentativa de melhorarmos nossa vida buscando cada vez mais praticidade, n\u00f3s acabamos vivendo vida piores. Algo que o mercado forneceu felizmente para n\u00f3s, afinal de contas, isso \u00e9 muito lucrativo. Inclusive, se esse \u00e9 um tema que te fascina, recomendo a leitura <a href=\"https:\/\/aposentadaaostrinta.com.br\/a-crise-do-conforto\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\" title=\"A crise do conforto\">desse post tamb\u00e9m<\/a>.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">E \u00e9 curiosa a f\u00f3rmula final que o psicanalista prop\u00f5e para uma vida menos cansada, e com mais sentido: cozinhar o pr\u00f3prio alimento. Ele defende que se voc\u00ea quiser melhorar sua vida agora mesmo, pare o que est\u00e1 fazendo, deixe o celular em casa, v\u00e1 at\u00e9 o supermercado, escolha os ingredientes para uma refei\u00e7\u00e3o simples, volte para casa, e cozinhe.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Eu amei esse exemplo. Eu comecei a perder meu medo de cozinhar e enfrentar a cozinha motivada pelo dinheiro, isso \u00e9 um fato. Mas hoje, eu genuinamente sinto que minha vida est\u00e1 mais gostosa porque eu cozinho. S\u00e3o in\u00fameras vezes que eu aplaco o meu t\u00e9dio, ou <a href=\"https:\/\/aposentadaaostrinta.com.br\/o-mal-estar-do-descanso\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\" title=\"O mal-estar do descanso\">ang\u00fastias da vida<\/a>, indo ao supermercado, escolhendo ingredientes, voltando para casa para cozinhar. E durante esse tempo eu sinto o prazer de fazer uma atividade diferente de ficar na frente da TV, ou <em>scrolling<\/em> no meu celular. <\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Eu gosto de levar doces para a casa das pessoas quando sou convidada para jantar. E durante a minha fase mais frugal, eu fazia os doces com as pr\u00f3prias m\u00e3os. O problema \u00e9 que o caseiro est\u00e1 longe de ser perfeito \u2013 talvez s\u00f3 na casa da Rita Lobo que os doces saem com cara de confeitaria chique.&nbsp;E dependendo da intimidade com os convidados, eu comecei a ter vergonha de levar meus doces caseiros, nem sempre com aspecto perfeito, sabor perfeito. Parecia coisa de amador.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">N\u00e3o \u00e9 que deixamos de fazer porque n\u00e3o sabemos mais, \u00e9 que deixamos de fazer porque passou a ser feio fazer. O caseiro deixou de ser apenas uma escolha menos eficiente e passou a carregar um certo estigma social. Ele denuncia uma imperfei\u00e7\u00e3o que a gente n\u00e3o tolera mais. O doce n\u00e3o pode ser s\u00f3 gostoso, ele precisa parecer de vitrine. O jantar n\u00e3o pode ser s\u00f3 um encontro, ele precisa performar uma experi\u00eancia.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">E, aos poucos, a gente vai internalizando esse padr\u00e3o. Vai terceirizando n\u00e3o s\u00f3 o trabalho, mas tamb\u00e9m o direito de errar, de tentar, de fazer algo \u201cmais ou menos\u201d. <\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">S\u00f3 que existe um custo silencioso nisso tudo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Quando a gente deixa de fazer porque n\u00e3o vai ficar perfeito, a gente n\u00e3o est\u00e1 s\u00f3 comprando um doce melhor. A gente est\u00e1 abrindo m\u00e3o de uma parte da experi\u00eancia. Da tentativa, do processo, do tempo gasto sem prop\u00f3sito produtivo claro. E, talvez mais importante, da possibilidade de oferecer algo que n\u00e3o \u00e9 impec\u00e1vel, mas \u00e9 <em>nosso<\/em>.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\"><strong>Mas e a falta de tempo?<\/strong><\/h2>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Minhas av\u00f3s n\u00e3o trabalhavam fora. Elas \u201cs\u00f3\u201d tinham que cuidar da casa, do marido, dos netos. Por vezes dos filhos j\u00e1 adultos. Ent\u00e3o claro, elas tinham \u201cmuito\u201d tempo livre. <\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">As aspas s\u00e3o ir\u00f4nicas porque dado o trabalho que eu tenho com a minha casa hoje em dia, sem faxineira, eu bem sei o quanto isso d\u00e1 trabalho. E olha que eu tenho um rob\u00f4 aspirador de estagi\u00e1rio. E uma m\u00e1quina lava e seca que fez com que eu nunca me preocupasse em estender um len\u00e7ol de casal. Eu juro que n\u00e3o sei como faria isso! E provavelmente eletrodom\u00e9sticos muito mais potentes.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Outra coisa que as minhas av\u00f3s n\u00e3o tinham? Entertenimento ilimitado na palma das m\u00e3os. Claro, elas tinham TV, e elas assistiam a novelinha das 6 todos os dias (que saudades que deu das minhas av\u00f3s!).&nbsp;&nbsp;Mas elas n\u00e3o passavam o dia grudadas na TV.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O mais doido \u00e9 que a gente sabe que essa vida grudada no nosso celular &#8211; ou mesmo na TV &#8211; n\u00e3o nos faz bem. A gente sabe da quantidade de ansiedade que ficar acompanhando a vida dos outros 24h por dia causa na gente. Mas a gente simplesmente n\u00e3o consegue sair dele e ir assar um bolo, por pura divers\u00e3o, para levar para a casa dos amigos.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">E sim, eu disse certo, voc\u00ea pode se divertir assando um bolo. Por que a gente insiste em achar que trabalho dom\u00e9stico \u00e9 sin\u00f4nimo de tarefa chata? A n\u00e3o ser que voc\u00ea seja uma pessoa que passa os dias da semana cozinhando por profiss\u00e3o, passar umas horinhas na cozinha, pode ser um tempo de descompress\u00e3o da rotina. Por que a gente insiste que\u00a0<em>s\u00f3 d\u00e1<\/em>\u00a0pra descomprimir em frente a uma tela?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Da mesma forma que a gente \u00e9 craque em desperdi\u00e7ar nosso rico dinheiro com coisas bestas, n\u00f3s somos feras em desperdi\u00e7ar <a href=\"https:\/\/aposentadaaostrinta.com.br\/e-tudo-sobre-tempo-parte-2\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\" title=\"\u00c9 tudo sobre tempo \u2013 parte 2\">nosso tempo tamb\u00e9m<\/a>.\u00a0 Hoje um brasileiro m\u00e9dio passa <a href=\"https:\/\/www.cnnbrasil.com.br\/tecnologia\/mais-de-9h-online-por-dia-hiperconexao-preocupa-brasileiros-diz-estudo\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\" title=\"\">9 horas por dia<\/a> consumindo multim\u00eddias. \u00c9 claro que parte disso \u00e9 para fins profissionais &#8211; mas qual o tamanho dessa parte? <\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Eu n\u00e3o sou expert quando o assunto \u00e9 reduzir o consumo de telas, mas tenho uma certa vacina contra redes sociais. Como eu j\u00e1 disse, sou novata em Instagram. E assim que eu percebi que esse era o app que eu passava mais tempo no meu dia (mais que o Whatsapp), eu deletei do meu celular. Eu entro todo dia pelo computador. Tem algumas travas, ele n\u00e3o \u00e9 t\u00e3o funcional. E \u00e9 \u00f3bvio que a Meta fez isso de prop\u00f3sito. Mas eu acho bom assim.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Eu percebi que as pessoas que mais \u201cjulgam\u201d que meu estilo de vida n\u00e3o \u00e9 para elas, &#8211; porque elas n\u00e3o tem tempo para ficar esperando o \u00f4nibus passar &#8211; s\u00e3o as primeiras a curtir quando eu posto. E eu posto muito pouco. Mas j\u00e1 h\u00e1 bastante tempo para perceber que isso n\u00e3o \u00e9 uma coincid\u00eancia. Elas n\u00e3o tem tempo para serem frugais, mas vivem desperdi\u00e7ando tempo nas redes sociais.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Hoje eu tenho o luxo de n\u00e3o precisar trabalhar para pagar as contas. Mas se eu passasse o dia todo assistindo TV ou no meu celular, a minha liberdade de pouco me valeria. \u00c9 um esfor\u00e7o, e eu confesso que tem dias que me entrego ao sof\u00e1. Mas eu me policio. Eu sei que os melhores dias s\u00e3o os dias em que eu gasto tempo com outras coisas. Que tem TV, tem troca de mensagens com os amigos no celular, tem tempo trabalhando no computador. Mas que tamb\u00e9m tem meus momentos de faxina em casa, em que eu cozinho um bolo ao inv\u00e9s de comprar pronto na padaria, e que gasto horas fazendo meu vestido de croch\u00ea (j\u00e1 fiz um casaco, \u2013 que ficou imperfeito, mas us\u00e1vel &#8211; agora estou no desafio do vestido).&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Uma das frases que est\u00e1 fixada no meu bloco de notas no meu celular para sempre me lembrar \u00e9 \u201c<em>produza antes de consumir<\/em>\u201d. \u00c9 um bom guia para v\u00e1rias coisas da vida. Eu uso o Instagram para promover o que eu produzo. Mas eu consumo pouco por l\u00e1. E o mesma vale para quando voc\u00ea est\u00e1 com vontade de comer algo diferente. <\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ser\u00e1 que n\u00e3o d\u00e1 pra produzir a vers\u00e3o caseira, antes de consumir Ifood? <\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ou quando voc\u00ea precisa de um look novo, ser\u00e1 que n\u00e3o d\u00e1 para produzir com as pe\u00e7as que voc\u00ea j\u00e1 tem, antes de consumir roupas novas?&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">No fundo, talvez o fim do caseiro n\u00e3o tenha a ver com falta de tempo. Mas com a dificuldade crescente de conviver com a pr\u00f3pria imperfei\u00e7\u00e3o em um mundo onde tudo parece pronto, bonito e facilmente compr\u00e1vel.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Em 2003, minha fam\u00edlia se mudou para o que hoje \u00e9 a casa do meu pai. Era o apartamento dos sonhos. 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