{"id":2076,"date":"2026-02-18T08:00:00","date_gmt":"2026-02-18T08:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/aposentadaaostrinta.com.br\/?p=2076"},"modified":"2026-02-06T15:27:24","modified_gmt":"2026-02-06T15:27:24","slug":"o-mal-estar-do-descanso","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/aposentadaaostrinta.com.br\/blog\/o-mal-estar-do-descanso\/","title":{"rendered":"O mal-estar do descanso"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>F\u00e9rias, FIRE e a dificuldade de existir fora da l\u00f3gica da produ\u00e7\u00e3o<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">No final do ano passado, quando pedi que voc\u00eas me sugerissem temas para escrever aqui, uma das mensagens me chamou especialmente a aten\u00e7\u00e3o. A mensagem dizia algo mais ou menos assim:<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u201c<em>Percebo que, quando tiro f\u00e9rias para descansar \u2014 sem viagens e sem grandes obriga\u00e7\u00f5es \u2014 sinto uma certa ang\u00fastia, uma vontade quase autom\u00e1tica de preencher o tempo com algo \u2018produtivo\u2019. Fico pensando se, depois da aposentadoria, esse sentimento n\u00e3o se intensificaria.<\/em>\u201d<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Logo em seguida, outra leitora endossou exatamente a mesma inquieta\u00e7\u00e3o:<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u201c<em>Nossa, tirei f\u00e9rias recentemente de tr\u00eas semanas e tive esse&nbsp;mesmo&nbsp;sentimento. N\u00e3o quis viajar, n\u00e3o me comprometi com muitos programas e, ainda assim, me vi v\u00e1rias vezes super ansiosa e angustiada. Inclusive, meu rel\u00f3gio registrou n\u00edveis altos de estresse \u2014 mesmo eu estando de f\u00e9rias.<\/em>\u201d<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Eu adorei essa sugest\u00e3o de tema porque ela toca em algo que j\u00e1 senti diversas vezes ao longo da vida. E sim, eu tamb\u00e9m sinto ang\u00fastia \u00e0s vezes apesar de eu j\u00e1 estar aposentada, n\u00e3o ter problemas financeiros graves (que marcam a vida da maioria das pessoas) e viver um casamento bom o suficiente.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Sentir ang\u00fastia quando existe um motivo claro parece, de certa forma, mais f\u00e1cil de elaborar. \u201cEstou angustiada porque perdi o emprego.\u201d \u201cEstou angustiada porque meu relacionamento acabou.\u201d H\u00e1 um motivo, algo explic\u00e1vel. Muito diferente de pensar:&nbsp;<em>\u201cestou de f\u00e9rias e angustiada\u201d<\/em>. Essa ang\u00fastia, que aparece sem causa aparente, \u00e9 que se torna ainda mais desesperadora. Por isso, n\u00e3o me surpreende nem um pouco que o rel\u00f3gio da minha querida leitora tenha acusado n\u00edveis elevados de estresse em pleno descanso.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Este vai ser um texto longo, mas quero organiz\u00e1-lo em duas partes. A primeira \u00e9 tentar entender&nbsp;<strong>por que<\/strong>&nbsp;nos sentimos assim. A segunda \u00e9 pensar em poss\u00edveis sa\u00eddas. A primeira parte \u00e9 essencial para a segunda \u2014 at\u00e9 para n\u00e3o cairmos na tenta\u00e7\u00e3o de \u201cresolver\u201d a ang\u00fastia justamente refor\u00e7ando aquilo que a produz.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\"><strong>Por que nos sentimos angustiados?<\/strong><\/h2>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Recentemente, li&nbsp;<em>O mal-estar na civiliza\u00e7\u00e3o<\/em>, de Freud, e, logo em seguida,&nbsp;<em>O mal-estar na p\u00f3s-modernidade<\/em>, de Zygmunt Bauman. S\u00e3o livros que realmente fazem jus \u00e0 fama que carregam \u2014 n\u00e3o porque tragam respostas definitivas, mas porque iluminam desconfortos que todos n\u00f3s reconhecemos, mesmo quando n\u00e3o sabemos nome\u00e1-los.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em><strong>Um par\u00eantese:<\/strong>\u00a0muita gente me escreve dizendo que sente ansiedade toda vez que eu cito um livro por aqui. Os coment\u00e1rios costumam ser do tipo: \u201cmeu Deus, mais um livro para a minha lista de leitura\u201d. Quando menciono os livros que estou lendo, a inten\u00e7\u00e3o \u00e9 apenas deixar claras as refer\u00eancias que embasam o que estou pensando e escrevendo. E n\u00e3o para fazer recomenda\u00e7\u00f5es, nem muito menos montar um curr\u00edculo obrigat\u00f3rio. S\u00f3 para deixar expl\u00edcito: eu n\u00e3o acho que voc\u00eas precisem ler tudo o que eu leio para alcan\u00e7ar o FIRE (rs). Isso definitivamente n\u00e3o \u00e9 uma condi\u00e7\u00e3o necess\u00e1ria.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">No texto de Freud, a tese \u00e9 relativamente simples: sofremos porque a vida em sociedade exige que renunciemos aos nossos instintos mais b\u00e1sicos, especialmente os sexuais e os agressivos. Para viver em civiliza\u00e7\u00e3o, abrimos m\u00e3o de uma parcela significativa da nossa liberdade em troca de seguran\u00e7a. O pre\u00e7o desse pacto \u00e9 a infelicidade. A ang\u00fastia, nesse sentido, seria quase o subproduto inevit\u00e1vel da vida civilizada.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Mas o que mais me interessou foi a atualiza\u00e7\u00e3o que Bauman faz dessa ideia. Para ele, o mundo de hoje n\u00e3o sofre por excesso de repress\u00e3o, mas pelo seu oposto: excesso de liberdade e falta de seguran\u00e7a. Na vida p\u00f3s moderna, podemos ser quem quisermos, amar quem quisermos, construir qualquer trajet\u00f3ria &#8211; ao menos em tese. O problema \u00e9 que essa liberdade vem acompanhada de rela\u00e7\u00f5es fr\u00e1geis e inst\u00e1veis.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Podemos escolher com quem casar, mas o casamento j\u00e1 n\u00e3o carrega a promessa de \u201cat\u00e9 que a morte nos separe\u201d. Podemos nascer pobres e enriquecer, mas n\u00e3o h\u00e1 garantia alguma de que permaneceremos ricos at\u00e9 o fim da vida. Antes, um pr\u00edncipe nascia pr\u00edncipe e morria pr\u00edncipe. Hoje, tudo pode mudar \u2014 para melhor ou para pior \u2014 o tempo todo. J\u00e1 escrevi sobre isso <a href=\"https:\/\/aposentadaaostrinta.com.br\/e-foram-ricos-para-sempre\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\" title=\"E foram ricos para sempre\u2026\">aqui no blog.<\/a><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u00c9 justamente essa aus\u00eancia de seguran\u00e7a que nos mant\u00e9m em estado permanente de alerta. Se tudo o que conquistamos pode se desfazer, ent\u00e3o precisamos trabalhar continuamente para n\u00e3o perder o que temos. N\u00e3o basta enriquecer; \u00e9 preciso\u00a0<em>continuar<\/em>\u00a0rico. N\u00e3o basta alcan\u00e7ar uma posi\u00e7\u00e3o; \u00e9 preciso defend\u00ea-la. E isso d\u00e1 trabalho.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Esse estado permanente de vigil\u00e2ncia desemboca numa sociedade obcecada por desempenho. \u201cJapon\u00eas n\u00e3o dorme\u201d \u2014 quem nunca ouviu isso na \u00e9poca do vestibular? Descansar passa a soar como fraqueza, e n\u00e3o como necessidade humana.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O problema \u00e9 que essa l\u00f3gica n\u00e3o fica restrita ao trabalho: ela se espalha para todas as dimens\u00f5es da vida. At\u00e9 as f\u00e9rias parecem ter perdido o status de fim em si mesmas e se transformado em mais um meio. N\u00e3o basta parar; \u00e9 preciso garantir que voc\u00ea realmente relaxou, se recuperou, se recomp\u00f4s \u2014 n\u00e3o porque isso seja bom em si, mas porque, na volta, espera-se que voc\u00ea renda ainda mais, pense melhor, produza mais. O repouso deixa de ser um direito ou um prazer e passa a funcionar como manuten\u00e7\u00e3o da m\u00e1quina. Curioso isso, n\u00e3o?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Talvez seja por isso que tanta gente precise de rem\u00e9dios para dormir. A ins\u00f4nia hoje \u00e9 vista como uma falha no sistema. Ela atrapalha a produtividade no dia seguinte. E, numa sociedade obcecada por desempenho, nada \u00e9 mais angustiante do que n\u00e3o conseguir performar nem quando se deita para descansar.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Estamos t\u00e3o obcecados pela utilidade de tudo que at\u00e9 pr\u00e1ticas tradicionalmente associadas ao \u00f3cio e \u00e0 contempla\u00e7\u00e3o foram capturadas pela l\u00f3gica da produtividade. Muita gente hoje medita n\u00e3o pelos efeitos subjetivos da medita\u00e7\u00e3o, mas porque um CEO do Vale do Sil\u00edcio medita X minutos por dia. A medita\u00e7\u00e3o vira t\u00e9cnica de alta performance. Ela deixa de ser um fim e se transforma em meio.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O fim \u00faltimo \u00e9 sempre o mesmo: produzir. Produzir para garantir renda. Gerar renda para consumir. E consumir para continuar pertencendo \u00e0 sociedade de consumo. Todo o resto vira instrumento para sustentar esse ciclo.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">O movimento FIRE impede isso?<\/h2>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Talvez a grande confus\u00e3o por tr\u00e1s de tudo isso seja a cren\u00e7a \u2014 profundamente enraizada \u2014 de que \u00e9 o consumo (ou, ao menos, a possibilidade constante de consumir) que d\u00e1 sentido \u00e0 vida.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Por isso o movimento FIRE provoque tanto desconforto. N\u00e3o \u00e9 raro ouvir cr\u00edticas do tipo: \u201cE se a taxa segura de retirada n\u00e3o funcionar?\u201d, \u201cE se a <a href=\"https:\/\/aposentadaaostrinta.com.br\/minha-inflacao-pessoal-nao-e-o-ipca\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\" title=\"\u201cMinha infla\u00e7\u00e3o pessoal n\u00e3o \u00e9 o IPCA\u201d\">infla\u00e7\u00e3o<\/a> corroer seu patrim\u00f4nio?\u201d, \u201cE se for insustent\u00e1vel viver de forma frugal enquanto todos \u00e0 sua volta consomem sem limites?\u201d. No fundo, essas perguntas revelam o mesmo medo: o de n\u00e3o conseguir sustentar o existir socialmente atrav\u00e9s do consumo.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">J\u00e1 falei disso in\u00fameras vezes aqui no blog: \u00e9 evidente que precisamos de comida, moradia, roupas limpas e algum meio de transporte. Essas s\u00e3o as condi\u00e7\u00f5es b\u00e1sicas da vida humana. O que n\u00e3o \u00e9 essencial s\u00e3o as mans\u00f5es, SUVs, empregados dom\u00e9sticos, upgrades cont\u00ednuos que pouco acrescentam \u00e0 experi\u00eancia real de estar vivo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Se o movimento FIRE me ensinou algo ao longo desses anos, foi justamente isso: existe, sim, um patamar m\u00ednimo de consumo suficiente para uma vida boa \u2014 e tudo o que vem depois dele tende a ser sup\u00e9rfluo. \u00c9 esse excedente que mant\u00e9m tantas pessoas presas a uma rotina de trabalho exaustiva, n\u00e3o por necessidade, mas para sustentar um padr\u00e3o de consumo de excessos. <\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Quando voc\u00ea quebra essa l\u00f3gica, percebe que consegue viver com pouco e passa a poupar agressivamente a sua renda. \u00c9 assim que a independ\u00eancia financeira, enfim, se torna poss\u00edvel.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Mas \u00e9 fundamental n\u00e3o romantizar esse ponto de chegada. Alcan\u00e7ar a independ\u00eancia financeira n\u00e3o nos retira automaticamente de uma sociedade obcecada por consumo e produtividade. Mesmo fora do mercado de trabalho tradicional, continuamos imersos nos mesmos valores, nas mesmas compara\u00e7\u00f5es, nas mesmas expectativas de desempenho.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u00c9 justamente a\u00ed que mora o verdadeiro desafio. E \u00e9 tamb\u00e9m por isso que, honestamente, tenho estudado filosofia com tanto afinco. Porque, mais do que planilhas ou taxas de retirada, o que sustenta uma vida fora da l\u00f3gica da produ\u00e7\u00e3o incessante \u00e9 a constru\u00e7\u00e3o interna de crit\u00e9rios pr\u00f3prios de valor \u2014 algo que nenhuma independ\u00eancia financeira, por si s\u00f3, \u00e9 capaz de garantir.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Poss\u00edveis sa\u00eddas para esse mal-estar<\/h2>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Outro livro muito esclarecedor que li recentemente foi&nbsp;<em>A felicidade paradoxal na sociedade do hiperconsumo<\/em>, de Gilles Lipovetsky. \u00c9 um livro denso, dif\u00edcil, que exige tempo e aten\u00e7\u00e3o. Mas, curiosamente, s\u00e3o justamente esses desafios intelectuais que t\u00eam dado um novo valor \u00e0 minha conquista de tempo livre.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Lipovetsky faz uma leitura bastante pr\u00f3xima \u00e0 de Bauman. Para ele, grande parte da nossa ang\u00fastia nasce do enfraquecimento dos la\u00e7os sociais \u2014 algo que \u201cconquistamos\u201d na busca por um excesso de liberdade, sem medir plenamente os custos dessa escolha. Antes, havia uma confian\u00e7a maior de que a fam\u00edlia estaria ali em momentos de extrema necessidade (talvez a sociedade brasileira ainda preserve um pouco disso). Hoje, com v\u00ednculos mais fr\u00e1geis e dispersos, essa certeza j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 t\u00e3o evidente.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Essa sensa\u00e7\u00e3o de que estamos cada um por si produz outros efeitos importantes. Um deles \u00e9 a perda de roteiros claros de vida. J\u00e1 n\u00e3o existe uma f\u00f3rmula pronta para viver \u2014 e acho que, para as mulheres, essa quest\u00e3o \u00e9 particularmente sens\u00edvel. Antes, o caminho parecia dado: nascer, casar, ter filhos, envelhecer e morrer. Tudo relativamente previs\u00edvel e socialmente validado. Mas isso mudou. Hoje, podemos ser quem quisermos \u2014 inclusive solteiras e sem filhos. E qualquer adulto minimamente respons\u00e1vel sabe: decidir sozinho o pr\u00f3prio projeto de vida \u00e9 libertador, mas tamb\u00e9m profundamente angustiante.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Outro ponto central do livro \u00e9 a ideia de que, na contemporaneidade, passamos a consumir muito mais experi\u00eancias do que objetos. Lipovetsky descreve tr\u00eas grandes fases hist\u00f3ricas do consumo, sendo a terceira \u2014 a atual \u2014 marcada pela valoriza\u00e7\u00e3o das experi\u00eancias em detrimento da posse de bens materiais e posicionais.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Esse trecho me tocou de forma muito direta. Durante toda a minha trajet\u00f3ria rumo ao FIRE, abri m\u00e3o de consumir muitas coisas, mas jamais deixei de viajar. Como uma t\u00edpica consumidora da chamada \u201cfase III\u201d, eu repetia com orgulho que preferia consumir experi\u00eancias a acumular bens. A confus\u00e3o \u2014 que s\u00f3 recentemente come\u00e7ou a ficar clara para mim \u2014 foi n\u00e3o perceber que isso tamb\u00e9m \u00e9 consumo. Um consumo travestido de viagens, mas ainda assim consumo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Talvez o maior ganho da leitura de Lipovetsky tenha sido justamente destacar as solu\u00e7\u00f5es que ele prop\u00f5e para a ang\u00fastia da p\u00f3s-modernidade. A primeira delas \u00e9 abandonar a fantasia de satisfa\u00e7\u00e3o plena via do consumo. Isso simplesmente n\u00e3o existe. Nenhum ser humano jamais relatou uma vida plenamente satisfeita por consumir mais \u2014 exceto, talvez, os mentirosos. Excesso de consumo n\u00e3o \u00e9 sin\u00f4nimo de vida melhor.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A segunda \u00e9 o fortalecimento dos la\u00e7os sociais e o reconhecimento de que eles s\u00e3o verdadeiramente essenciais para uma vida com sentido \u2014 algo que n\u00e3o pode ser terceirizado ao mercado.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Mas a ideia que mais me chamou a aten\u00e7\u00e3o \u00e9 a valoriza\u00e7\u00e3o do\u00a0<em>fazer<\/em>\u00a0em detrimento do\u00a0<em>ter<\/em>. Para Lipovetsky, o trabalho bem-feito, a cria\u00e7\u00e3o art\u00edstica, intelectual ou mesmo empresarial constituem uma fonte insubstitu\u00edvel de reconhecimento e autoestima \u2014 algo que o consumo moderno \u00e9 incapaz de oferecer. N\u00e3o \u00e9 o entretenimento f\u00fatil que nos sustenta. \u00c9 a nossa capacidade de agir, criar, se envolver com o mundo e superar obst\u00e1culos que, no fim das contas, nos alimenta.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ali\u00e1s, t\u00e1 a\u00ed uma boa recomenda\u00e7\u00e3o para os leitores que se sentiram angustiados nas f\u00e9rias: ao inv\u00e9s de ocuparem a agenda com entretenimento \u2013 como viagens, passeios, maratonar uma s\u00e9rie \u2013 que tal aproveitar as f\u00e9rias para se jogar em um desafio intelectual?\u00a0Ou finalmente tirar do papel aquela ideia de neg\u00f3cio que pode ser uma outra fonte de renda na vida FIRE? <\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">\u00a0A conquista da liberdade\u00a0<strong><em>para<\/em><\/strong>\u00a0algo<\/h2>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Preciso dizer que estou cada vez mais convencida dessa ideia do Lipovetsky. Se antes meu ideal de vida FIRE era basicamente usufruir do tempo livre e viajar o m\u00e1ximo poss\u00edvel, hoje minha vida est\u00e1 muito diferente do que eu imaginava naquela \u00e9poca.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Com o tempo, fui percebendo que eu n\u00e3o valorizava a liberdade em si, mas pelo que ela me permitiria fazer. A liberdade como um meio, n\u00e3o um fim. Na minha vida de trabalhadora corporativa, simplesmente n\u00e3o havia espa\u00e7o para criar \u2014 nem mesmo para explorar minha curiosidade intelectual. E isso apesar de eu trabalhar numa \u00e1rea de pesquisa. O que a vida corporativa exigia de mim era o cumprimento de demandas muito espec\u00edficas, quase sempre subordinadas \u00e0 \u00e1rea comercial, e recheadas por camadas e mais camadas de burocracia.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Era apenas durante as f\u00e9rias que eu conseguia escapar dessa rotina extenuante de empregada corporativa. Esse per\u00edodo era t\u00e3o satisfat\u00f3rio que eu passei a sonhar com uma vida em que tudo fosse f\u00e9rias. Uma vida de \u201csempre s\u00e1bado\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Mas, no fundo, eu n\u00e3o queria apenas liberdade. Eu queria liberdade\u00a0<em>para<\/em>\u00a0fazer outras coisas. J\u00e1 escrevi <a href=\"https:\/\/aposentadaaostrinta.com.br\/ter-um-emprego-vs-ter-um-trabalho\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\" title=\"Ter um emprego vs ter um trabalho\">aqui<\/a> sobre a diferen\u00e7a entre ter um emprego e ter um trabalho.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Hoje, para minha pr\u00f3pria surpresa, minha vida tem rotina. Minha semana come\u00e7a com aulas de canto. Tenho hor\u00e1rio fixo na academia toda manh\u00e3. \u00c0s ter\u00e7as e quintas atendo na consultoria. \u00c0 noite, vou para a faculdade de filosofia. Muitas tardes s\u00e3o dedicadas \u00e0 leitura de livros dif\u00edceis e exigentes \u2014 como os que citei ao longo deste texto. E existe tamb\u00e9m o espa\u00e7o de cria\u00e7\u00e3o que esse blog me oferece, um compromisso que eu mesma assumi de escrever e publicar a cada quinze dias.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Paradoxalmente, talvez eu tenha hoje menos \u201ctempo livre\u201d do que imaginava que teria. Mas esse tempo \u00e9 qualitativamente diferente.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A liberdade me permitiu organizar uma vida em que posso me dedicar a atividades que s\u00e3o profundamente gratificantes para mim, mesmo que isso signifique uma vida com menos tempo livre para entretenimento. <\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ainda estou elaborando tudo isso. Mas comecei a perceber algo curioso: nas viagens que fiz recentemente, me vi procurando cursos de filosofia, bibliotecas, espa\u00e7os de leitura. N\u00e3o porque eu queira tornar minhas viagens \u201cprodutivas\u201d, mas porque quero consumir menos turismo \u2014 e talvez fazer viagens mais alinhadas com essa nova rotina de fazer, criar, pensar e me superar como ser humano.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\"><strong>Ainda assim, vai ter ang\u00fastia<\/strong><\/h2>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Mas h\u00e1 um ponto crucial em tudo isso. Mesmo quando voc\u00ea trabalha, cria e se supera, a ang\u00fastia n\u00e3o desaparece completamente.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Recentemente, terminei de assistir ao document\u00e1rio\u00a0<em>The End of an Era<\/em>,\u00a0da Taylor Swift. Sim, eu leio Freud e gosto da Taylor. E um pensamento n\u00e3o sa\u00eda da minha cabe\u00e7a: essa mulher percorreu o mundo, cantou por tr\u00eas horas seguidas toda sexta, s\u00e1bado e domingo durante um ano e meio para p\u00fablicos gigantescos. Foi extremamente ovacionada. Quebrou recordes pessoais e da ind\u00fastria. Criou, produziu, se superou. <\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">E agora?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Fiquei imaginando como ela deve estar se sentindo depois que tudo isso acabou. N\u00e3o duvido que a terapeuta dela esteja fazendo um trabalho grande para ajud\u00e1-la a elaborar a ang\u00fastia que provavelmente surge quando um ciclo t\u00e3o intenso se encerra.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Como lembra o pr\u00f3prio Lipovetsky, precisamos aceitar que a felicidade n\u00e3o \u00e9 um estado permanente. A dor, o vazio e a ang\u00fastia tamb\u00e9m fazem parte da trajet\u00f3ria humana.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ent\u00e3o, para concluir \u2014 e responder de forma mais direta aos leitores que comentaram sobre essa ang\u00fastia durante as f\u00e9rias \u2014 minha resposta \u00e9: sim, a ang\u00fastia continuar\u00e1 existindo na vida FIRE. E, em alguns momentos, pode at\u00e9 se intensificar.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Mas isso n\u00e3o tira o valor da vida FIRE. E a resposta n\u00e3o \u00e9 trabalhar para sempre, sobretudo em trabalhos nos quais voc\u00ea sente que n\u00e3o h\u00e1 espa\u00e7o para criar ou se superar. Tampouco \u00e9 consumir mais \u2014 nem mesmo na forma \u201csofisticada\u201d de experi\u00eancias.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A vida FIRE tende a se tornar menos angustiante \u00e0 medida que voc\u00ea aceita que agora precisa construir uma nova rotina, encontrar formas pr\u00f3prias de agir no mundo, criar, se envolver e se desafiar. E n\u00e3o simplesmente \u201cabra\u00e7ar o t\u00e9dio\u201d como um ideal permanente \u2014 ainda que o t\u00e9dio tamb\u00e9m fa\u00e7a parte.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Mesmo quando criamos e nos superamos, haver\u00e1 momentos de vazio. N\u00e3o somos m\u00e1quinas que funcionam vinte e quatro horas por dia. Somos seres humanos que experimentam alegria, tristeza, excita\u00e7\u00e3o, cansa\u00e7o e t\u00e9dio. E talvez a verdadeira liberdade esteja justamente em poder viver tudo isso sem transformar cada sensa\u00e7\u00e3o em um problema a ser resolvido. <\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Afinal de contas, tudo bem ter ins\u00f4nia quando no dia seguinte voc\u00ea n\u00e3o <em>precisa<\/em> trabalhar. Desde que me aposentei, parei de travar batalhas contra ela. Quando a ins\u00f4nia chega, eu me levanto, como alguma coisa, me distraio \u2014 e, n\u00e3o raro, venho escrever para este blog.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>F\u00e9rias, FIRE e a dificuldade de existir fora da l\u00f3gica da produ\u00e7\u00e3o No final do ano passado, quando pedi que voc\u00eas me sugerissem temas para escrever aqui, uma das mensagens me chamou especialmente a aten\u00e7\u00e3o. A mensagem dizia algo mais ou menos assim: \u201cPercebo que, quando tiro f\u00e9rias para descansar \u2014 sem viagens e sem [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_bbp_topic_count":0,"_bbp_reply_count":0,"_bbp_total_topic_count":0,"_bbp_total_reply_count":0,"_bbp_voice_count":0,"_bbp_anonymous_reply_count":0,"_bbp_topic_count_hidden":0,"_bbp_reply_count_hidden":0,"_bbp_forum_subforum_count":0,"om_disable_all_campaigns":false,"_monsterinsights_skip_tracking":false,"_monsterinsights_sitenote_active":false,"_monsterinsights_sitenote_note":"","_monsterinsights_sitenote_category":0,"_wp_convertkit_post_meta":{"form":"-1","landing_page":"0","tag":"0","restrict_content":"0"},"_themeisle_gutenberg_block_has_review":false,"footnotes":""},"categories":[5],"tags":[],"class_list":["post-2076","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-aposente-mais-cedo"],"aioseo_notices":[],"jetpack_featured_media_url":"","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/aposentadaaostrinta.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2076","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/aposentadaaostrinta.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/aposentadaaostrinta.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/aposentadaaostrinta.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/aposentadaaostrinta.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=2076"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/aposentadaaostrinta.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2076\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":2078,"href":"https:\/\/aposentadaaostrinta.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2076\/revisions\/2078"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/aposentadaaostrinta.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=2076"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/aposentadaaostrinta.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=2076"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/aposentadaaostrinta.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=2076"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}