{"id":2050,"date":"2025-12-03T16:20:40","date_gmt":"2025-12-03T16:20:40","guid":{"rendered":"https:\/\/aposentadaaostrinta.com.br\/?p=2050"},"modified":"2025-12-03T16:22:20","modified_gmt":"2025-12-03T16:22:20","slug":"eu-tenho-voce-nao-tem","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/aposentadaaostrinta.com.br\/blog\/eu-tenho-voce-nao-tem\/","title":{"rendered":"\u201cEu tenho, voc\u00ea n\u00e3o tem\u201d"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Recentemente, eu estava assistindo ao programa Provoca, e apareceu <a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=zMFqTzH_dn0\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\" title=\"\">esse comercial da d\u00e9cada de 90<\/a>, em que uma crian\u00e7a come\u00e7a a esfregar na nossa cara o produto do momento: as tesouras do Mickey. Enquanto balan\u00e7a o objeto com empolga\u00e7\u00e3o exagerada, ela canta, de maneira cada vez mais insuport\u00e1vel: \u201c<em>eu tenho, voc\u00ea n\u00e3o tem<\/em>\u201d.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Rever essa imagem me causou um inc\u00f4modo tremendo. Obviamente, n\u00e3o porque eu n\u00e3o tenha a tal tesoura (e me custa lembrar se algum dia eu tive, talvez sim). Mas porque h\u00e1 algo de quase intoler\u00e1vel nesse tipo de provoca\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Talvez hoje, com a publicidade muito mais regulada, especialmente a infantil, um comercial desses nem chegasse a ir ao ar. Mas ningu\u00e9m pode negar que esse apelo do \u201ceu tenho, voc\u00ea n\u00e3o tem\u201d continua presente em nossos dias.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">De forma mais sutil, menos gritante. Mas ainda t\u00e3o eficaz quanto antes.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\"><strong>Por que esse apelo funciona?<\/strong><\/h2>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Como voc\u00eas sabem, sigo firme nos meus estudos sobre filosofia. E \u00e9 sempre gratificante quando encontro um conceito capaz de&nbsp;dar nome \u00e0quilo que eu sinto, de iluminar algo que antes era apenas intui\u00e7\u00e3o. Realmente, trazer luz \u00e0 sombra \u00e9 um dos grandes prazeres da vida humana. E devo dizer: prazer esse que \u00e9 praticamente de gra\u00e7a no mundo da internet. Tenho desfrutado muito desse tipo de lazer ultimamente.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O conceito que chamou minha aten\u00e7\u00e3o dessa vez foi o de \u201cdesejo mim\u00e9tico\u201d. Ele foi desenvolvido pelo fil\u00f3sofo Ren\u00e9 Girard, que prop\u00f4s uma leitura fascinante sobre a origem dos nossos desejos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Segundo Girard, todo desejo humano tem como fonte o desejo do outro. Ou seja, nossos desejos n\u00e3o s\u00e3o originais e muito menos espont\u00e2neos, mas frutos da imita\u00e7\u00e3o do desejo de outra pessoa. Eles nascem da observa\u00e7\u00e3o do que o outro deseja.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Para explicar isso, Girard introduz a figura do mediador \u2014 aquele cujo desejo orienta o nosso. A gente pensa que est\u00e1 desejando uma casa de revista, f\u00e9rias espetaculares, filhos fotog\u00eanicos. Mas a verdade \u00e9 que n\u00e3o s\u00e3o esses objetos que despertam nossa vontade, e sim o fato de vermos outras pessoas escolhendo ou valorizando essas coisas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Dito de forma simples: \u00e9 o outro quem nos mostra o que vale a pena desejar. E a gente cai que nem patinho quando o outro provoca com \u201ceu tenho, voc\u00ea n\u00e3o tem\u201d.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\"><strong>As situa\u00e7\u00f5es absurdas em que isso pode nos levar<\/strong><\/h2>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Uma vez, fui a um casamento para 300 pessoas que acabou sendo uma daquelas festas em que tudo parecia fora de propor\u00e7\u00e3o. Era n\u00edtido que o casal tinha sonhado grande, mas o or\u00e7amento n\u00e3o acompanhou o tamanho do sonho. No meio da noite, a bebida acabou, a fila para pegar comida se estendia por metros e demorava uma eternidade, e at\u00e9 os docinhos \u2014 sempre o ponto alto das festas \u2014 desapareceram antes de eu conseguir provar um. Para completar, o evento era longe.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Meses depois, conversando com a noiva, lembro dela se lamentar pela festa: \u201cFoi um gasto excessivo, a gente se endividou, e no final as pessoas foram embora insatisfeitas.\u201d Mas, quando perguntei por que ela fez isso, ela respondeu: \u201cPorque eu fui em tantas festas de casamento que eu queria ter a minha tamb\u00e9m!\u201d<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Interessante, n\u00e3o \u00e9? Ela n\u00e3o fez uma festa de casamento porque estava se casando com o amor da vida dela, porque queria reunir amigos e familiares, ou porque era um sonho de inf\u00e2ncia. Ela quis porque os outros quiseram um dia tamb\u00e9m.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Mas ela esperava que fazer esse esfor\u00e7o financeiro enorme, dar um jeito atabalhoado de encaixar 300 pessoas na festa, seria valorizado pelos outros. Talvez o mais triste dessa hist\u00f3ria seja que ela nem sequer conquistou essa admira\u00e7\u00e3o alheia.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\"><strong>Minha proposta para superar isso<\/strong><\/h2>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u00c0s vezes, parece que a nossa vida \u00e9 uma luta constante contra os nossos instintos. E talvez seja mesmo. N\u00e3o somos apenas animais, e o que nos diferencia \u00e9 a nossa racionalidade. A gente se sente mal quando cai nas ciladas dos pr\u00f3prios impulsos e age de forma irracional porque, no fundo, sabemos que n\u00e3o estamos fazendo bom uso daquilo que mais nos distingue.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Mas ent\u00e3o, como driblar o nosso instinto de \u201cdesejo mim\u00e9tico\u201d?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Talvez a solu\u00e7\u00e3o seja nos cercar de pessoas que, quando estamos em pleno uso da raz\u00e3o, reconhecemos que vivem como gostar\u00edamos de viver.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Se voc\u00ea j\u00e1 percebeu que essa <a href=\"https:\/\/aposentadaaostrinta.com.br\/os-perigos-da-ostentacao\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\" title=\"Os perigos da ostenta\u00e7\u00e3o\">vida de consumo excessivo n\u00e3o \u00e9 para voc\u00ea<\/a>, que misturar sua personalidade com a sua profiss\u00e3o n\u00e3o te satisfaz plenamente e que quer mais da vida do que uma rotina t\u00e3o estressante que te deixa <a href=\"https:\/\/aposentadaaostrinta.com.br\/a-crise-do-conforto\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\" title=\"A crise do conforto\">apenas vegetando na frente da TV<\/a> no fim do dia, ent\u00e3o talvez seja a hora de parar de seguir pessoas que vivem assim.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u00c0 primeira vista, pode parecer que se afastar dessas refer\u00eancias vai te levar a uma vida solit\u00e1ria. E sim, esse pode ser um efeito colateral de querer sair da corrida de ratos do trabalho e do consumo. Mas n\u00e3o precisa ser assim. Eu recomendo que voc\u00ea seja ativo em encontrar pessoas que pensam como voc\u00ea. Se a internet \u00e9 uma vitrine gigantesca de desejos alheios, ela tamb\u00e9m \u00e9 um espa\u00e7o onde \u00e9 poss\u00edvel se conectar com pessoas fora do seu c\u00edrculo social, inclusive com pessoas que podem te inspirar a desejar coisas que fa\u00e7am mais sentido para voc\u00ea.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">E ei, aqui estamos, em um blog com uma pessoa dedicada a mostrar uma outra forma de vida. Outras coisas que voc\u00ea tamb\u00e9m pode desejar.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\"><strong>A alegria de dizer \u201ceu n\u00e3o tenho, voc\u00ea tem\u201d<\/strong><\/h2>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Eu bato muito na tecla do <a href=\"https:\/\/aposentadaaostrinta.com.br\/nao-de-presentes-no-natal-de-seu-tempo\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\" title=\"N\u00e3o d\u00ea presentes no Natal, d\u00ea seu tempo!\">tempo aqui no blog<\/a> porque, mais do que dinheiro, a minha conquista da liberdade financeira foi uma conquista desse objeto t\u00e3o em falta quanto o pr\u00f3prio dinheiro: o tempo livre.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">E chegamos a um ponto t\u00e3o excessivo da corrida de ratos que, hoje em dia, eu me sinto bem em dizer \u2014 de forma t\u00e3o provocadora quanto o menino do comercial \u2014 \u201ceu n\u00e3o tenho, mas voc\u00ea tem!\u201d. T\u00e1 a\u00ed um bom desejo mim\u00e9tico para voc\u00ea.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Num encontro recente de fam\u00edlia, minha prima se lembrou de um dos epis\u00f3dios mais engra\u00e7ados das minhas pataquadas nessa jornada da vida. Eu tinha acabado de ganhar meu carro e, como morava na Zona Norte, precisava passar pela Pra\u00e7a Campo de Bagatelle sempre que ia para o centro. Para quem n\u00e3o conhece, a pra\u00e7a funciona como uma rotat\u00f3ria gigante, com v\u00e1rias sa\u00eddas e muitas faixas. O neg\u00f3cio era t\u00e3o fren\u00e9tico que eu simplesmente n\u00e3o conseguia mudar para a faixa da direita e pegar a minha sa\u00edda. E eu acabei dando umas tr\u00eas voltas na pra\u00e7a antes de conseguir sair dela.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O que esse epis\u00f3dio revela \u00e9 que eu nunca tive afinidade com carros. E eu conhe\u00e7o muita gente que detesta o tr\u00e2nsito de S\u00e3o Paulo tanto quanto eu, mas que simplesmente n\u00e3o se permite viver sem carro. Essas pessoas pregam conveni\u00eancia, culpam os filhos, mas eu n\u00e3o deixo de pensar que, dado que elas dirigem uma SUV e n\u00e3o um carro popular, o carro serve mesmo \u00e9 para n\u00e3o cair na provoca\u00e7\u00e3o do \u201ceu tenho, voc\u00ea n\u00e3o tem\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Hoje em dia, quando me perguntam \u201ccomo voc\u00ea consegue ter tanto tempo livre?\u201d, a minha vontade \u00e9 responder: \u201c\u00e9 que eu n\u00e3o tenho que trabalhar para pagar IPVA, seguro, multas de tr\u00e2nsito, manuten\u00e7\u00e3o de carro&#8230; e voc\u00ea tem\u201d. Ou \u201c\u00e9 que eu n\u00e3o tenho que fazer as unhas toda semana, botox todo trimestre, comprar roupas novas a cada esta\u00e7\u00e3o&#8230; e voc\u00ea tem\u201d. Ou ainda: \u201c\u00e9 que eu n\u00e3o tenho um apartamento grande, uma casa de praia ou um barco para cuidar&#8230; e voc\u00ea tem\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Porque, no fundo, o \u201cn\u00e3o ter\u201d \u00e9 uma forma de liberdade. \u00c9 no tempo livre que essa liberdade deixa de ser uma ideia vaga e vira uma experi\u00eancia cotidiana.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Dizer \u201ceu n\u00e3o tenho\u201d n\u00e3o foi um gesto de ren\u00fancia, mas de uma escolha que eu fiz racionalmente. Ele reflete que eu deixei de medir a minha vida pela r\u00e9gua dos outros e passei a me definir pelos meus pr\u00f3prios par\u00e2metros de valor.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ren\u00e9 Girard dizia que o desejo \u00e9 mim\u00e9tico, mas talvez a sabedoria esteja em reconhecer isso e usar a consci\u00eancia como ant\u00eddoto. Quando a gente entende de onde v\u00eam nossos desejos, pode escolher quais deles merecem espa\u00e7o dentro de n\u00f3s.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">E a\u00ed, de repente, o \u201ceu n\u00e3o tenho\u201d deixa de ser uma falta e passa a ser um al\u00edvio.<br><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Recentemente, eu estava assistindo ao programa Provoca, e apareceu esse comercial da d\u00e9cada de 90, em que uma crian\u00e7a come\u00e7a a esfregar na nossa cara o produto do momento: as tesouras do Mickey. Enquanto balan\u00e7a o objeto com empolga\u00e7\u00e3o exagerada, ela canta, de maneira cada vez mais insuport\u00e1vel: \u201ceu tenho, voc\u00ea n\u00e3o tem\u201d.\u00a0 Rever essa [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_bbp_topic_count":0,"_bbp_reply_count":0,"_bbp_total_topic_count":0,"_bbp_total_reply_count":0,"_bbp_voice_count":0,"_bbp_anonymous_reply_count":0,"_bbp_topic_count_hidden":0,"_bbp_reply_count_hidden":0,"_bbp_forum_subforum_count":0,"om_disable_all_campaigns":false,"_monsterinsights_skip_tracking":false,"_monsterinsights_sitenote_active":false,"_monsterinsights_sitenote_note":"","_monsterinsights_sitenote_category":0,"_wp_convertkit_post_meta":{"form":"-1","landing_page":"0","tag":"0","restrict_content":"0"},"_themeisle_gutenberg_block_has_review":false,"footnotes":""},"categories":[11],"tags":[],"class_list":["post-2050","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-vida-frugal"],"aioseo_notices":[],"jetpack_featured_media_url":"","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/aposentadaaostrinta.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2050","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/aposentadaaostrinta.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/aposentadaaostrinta.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/aposentadaaostrinta.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/aposentadaaostrinta.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=2050"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/aposentadaaostrinta.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2050\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":2052,"href":"https:\/\/aposentadaaostrinta.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2050\/revisions\/2052"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/aposentadaaostrinta.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=2050"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/aposentadaaostrinta.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=2050"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/aposentadaaostrinta.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=2050"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}