{"id":1903,"date":"2025-06-11T08:00:00","date_gmt":"2025-06-11T08:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/aposentadaaostrinta.com.br\/?p=1903"},"modified":"2025-06-10T21:06:32","modified_gmt":"2025-06-10T21:06:32","slug":"os-altos-e-baixos-da-vida-e-mais-um-beneficio-da-independencia-financeira","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/aposentadaaostrinta.com.br\/blog\/os-altos-e-baixos-da-vida-e-mais-um-beneficio-da-independencia-financeira\/","title":{"rendered":"Os altos e baixos da vida \u2014 e mais um benef\u00edcio da independ\u00eancia financeira"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Caros leitores, como disse no meu \u00faltimo post, eu tirei f\u00e9rias e fui viajar para a It\u00e1lia por 3 semanas com o meu marido. Mais um sonho da vida FIRE realizado \u2014 e tamb\u00e9m um lembrete brutal de como a vida pode ser imprevis\u00edvel, por vezes frustrante, por vezes sublime.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Decidimos rodar a It\u00e1lia de trem, de Napoli a Mil\u00e3o, parando em diversas cidades pelo caminho, trocando de hotel oito vezes. Uma loucura tur\u00edstica que a gente n\u00e3o fazia desde 2019 \u2014 e que logo lembramos o porqu\u00ea n\u00e3o repet\u00edamos h\u00e1 tanto tempo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Eu n\u00e3o sei por que escolhemos, voluntariamente, uma forma de viagem que envolve carregar malas pesadas por escadas infinitas, decifrar m\u00e1quinas de bilhetes de metr\u00f4 em l\u00ednguas estrangeiras, se adaptar a um novo quarto \u2014 e um novo chuveiro \u2014 a cada tr\u00eas dias.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Talvez porque essa forma de viajar nos faz sentir vivos. Cada deslocamento \u00e9 um mini renascimento: nova cidade, novas pontos tur\u00edsticos, novos desafios. A rotina se desfaz completamente. Voc\u00ea n\u00e3o est\u00e1 mais no controle \u2014 e isso, paradoxalmente, te traz uma outra forma de liberdade. Viajar assim nos lembra que o mundo \u00e9 imenso e que a gente \u00e9 pequeno.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Durante o voo de volta, decidi revisitar as fotos e v\u00eddeos da viagem. Passei por cada refei\u00e7\u00e3o deliciosa, cada paisagem inesquec\u00edvel, cada cidade com sua pr\u00f3pria hist\u00f3ria. Revivi o encantamento de caminhar pela Pinacoteca do Vaticano, me perder entre obras do Renascimento, observar a evolu\u00e7\u00e3o da arte e da sensibilidade humana atrav\u00e9s dos s\u00e9culos. E mesmo cansada, mesmo frustrada com o que havia acabado de acontecer, n\u00e3o pude deixar de pensar:&nbsp;<em>ok, valeu o perrengue<\/em>.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Sim, porque a viagem terminou com um grande perrengue. Nosso voo de volta ao Brasil sairia de Paris, e o plano era simples: nos despedir de Mil\u00e3o, voar at\u00e9 Paris e dormir algumas noites por l\u00e1 antes do embarque final. Mas, no dia da partida, recebemos um e-mail da companhia a\u00e9rea informando que o voo, originalmente marcado para as 13h, havia sido remarcado para 15h25. Com o novo hor\u00e1rio, achamos prudente sair mais tarde para o aeroporto<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Chegamos ao aeroporto \u00e0s 13h \u2014 exatamente 2h25 antes do novo hor\u00e1rio de embarque. Mas, ao procurar o balc\u00e3o da companhia a\u00e9rea, ele estava&#8230; vazio. Nenhum funcion\u00e1rio \u00e0 vista. Procuramos o balc\u00e3o de informa\u00e7\u00f5es e fomos recebidos com uma brutalidade italiana que, confesso, mesmo depois de tr\u00eas semanas rodando o pa\u00eds, ainda me espantava.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Como est\u00e1vamos com duas malas para despachar, n\u00e3o nos deixaram passar pela seguran\u00e7a. Meu marido ficou do lado de fora com as bagagens, enquanto eu entrei sozinha na \u00e1rea de embarque, determinada a encontrar algu\u00e9m da companhia. Encontrei. Mas, em vez de ajuda, recebi hostilidade. A funcion\u00e1ria foi r\u00edspida desde o in\u00edcio \u2014 praticamente me chamou de burra por n\u00e3o saber que o despacho de bagagens encerrava uma hora antes do hor\u00e1rio original do voo, e n\u00e3o do remarcado. Nenhuma linha do e-mail indicava isso.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Quando percebi que ela n\u00e3o resolveria o problema, liguei para o meu marido para dar a m\u00e1 not\u00edcia. Foi nesse momento que a tens\u00e3o acumulada transbordou. Comecei a chorar, tomada por um misto de raiva e frustra\u00e7\u00e3o pela hostilidade com que est\u00e1vamos sendo tratados. Curiosamente, foi s\u00f3 ent\u00e3o que a funcion\u00e1ria pareceu despertar algum resqu\u00edcio de empatia. Meu desabafo, um tanto exaltado \u2014 \u00e9 verdade \u2014 parece ter tocado algo de humano nela. Ela mudou o tom. Passou a tentar, de fato, ajudar.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Mas n\u00e3o havia muito o que fazer. Por mais que tentasse convencer a seguran\u00e7a a deixar meu marido passar com as duas malas \u2014 recheadas de garrafas de vinho, inclusive \u2014 a chance era m\u00ednima. E n\u00e3o tivemos alternativa: decidimos nos separar.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Eu embarquei. Meu marido ficou para tr\u00e1s, teve que comprar um novo voo de \u00faltima hora, pagar 200 euros extras e, como chegou em Paris por outro aeroporto, sobrou para ele arrastar sozinho as duas malas at\u00e9 o hotel. Eu n\u00e3o estava em melhor situa\u00e7\u00e3o: meu voo ainda atrasou quase tr\u00eas horas para pousar em Paris.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">E eu confesso que, naquele momento, pensei:&nbsp;<em>viajar \u00e9 uma merda<\/em>. Porque viajar \u00e9 isso. Uma sucess\u00e3o de contrastes intensos. \u00c9 claro que os momentos altos da viagem foram muitos. Um p\u00f4r do sol na Toscana. Uma obra do Michelangelo que te faz entender o que \u00e9 belo. E aquela mu\u00e7arela italiana que nem o mercado mais chique de S\u00e3o Paulo vende.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Mas ent\u00e3o, no instante seguinte \u2014 ou talvez no dia seguinte \u2014 voc\u00ea se v\u00ea perdido num aeroporto estrangeiro, sem ajuda, humilhado por uma estranha, gastando dinheiro que n\u00e3o planejou. Voc\u00ea sente raiva, frustra\u00e7\u00e3o. Os baixos, nesses momentos, s\u00e3o baix\u00edssimos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">E n\u00e3o \u00e9 curioso como isso se parece com a vida? Com os relacionamentos? Com os casamentos e as amizades? H\u00e1 fases em que tudo parece fazer sentido, em que voc\u00ea sente que encontrou seu lugar no mundo. Mas h\u00e1 outras em que tudo desanda \u2014 voc\u00ea n\u00e3o se reconhece, n\u00e3o sabe onde pisar, e o outro parece um estranho.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">E, claro, nessas horas a mente se pergunta: ser\u00e1 que n\u00e3o dava pra pular essa parte? Viver s\u00f3 os altos?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Muita gente mais parruda do que eu j\u00e1 tentou achar dire\u00e7\u00f5es para isso. Para os estoicos, por exemplo, o ideal de vida boa estava ligado \u00e0 ataraxia, um estado de serenidade interior, de imperturbabilidade. Em que o indiv\u00edduo permanece calmo diante tanto do prazer quanto da dor. A chave, para eles, era entender que n\u00e3o temos controle sobre o que nos acontece, mas temos total responsabilidade sobre como reagimos. A dor, o fracasso, a frustra\u00e7\u00e3o \u2014 todos esses sentimentos fazem parte da vida, mas n\u00e3o precisam nos dominar.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Mas confesso que eu acho a teoria linda \u2014 e a pr\u00e1tica, dific\u00edlima. Meu desespero no port\u00e3o de embarque do aeroporto de Mil\u00e3o \u00e9 a prova disso.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Durante essa epopeia italiana, aprendi uma coisa curiosa: h\u00e1 uma divis\u00e3o dentro da igreja cat\u00f3lica entre os que servem o p\u00fablico e os que vivem em monast\u00e9rios.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Nos monast\u00e9rios crist\u00e3os, os indiv\u00edduos vivem uma vida totalmente voltada \u00e0 contempla\u00e7\u00e3o e \u00e0 ora\u00e7\u00e3o. Monges e monjas se retiram do mundo para buscar uma conex\u00e3o mais profunda com o divino, longe das distra\u00e7\u00f5es e das vaidades do cotidiano. Essa retirada consiste em viver uma rotina simples, silenciosa, disciplinada. E segundo eles, essa sim \u00e9 uma vida que consegue alcan\u00e7ar uma paz mais duradoura.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Sabe aquela express\u00e3o\u00a0<em>parem o mundo que eu quero descer<\/em>? Olhando para a vida dos monges, tenho a impress\u00e3o de que eles conseguiram. De algum modo, encontraram uma sa\u00edda para fora da montanha-russa da vida comum. <\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Mas descer do mundo exige ren\u00fancia. Eu imagino que os monges n\u00e3o devem viajar por 3 semanas de trem pela It\u00e1lia com seus companheiros. <\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Os monges, no fundo, apostam na estabilidade ao inv\u00e9s da intensidade.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">E eu entendo essa escolha. Admiro profundamente quem consegue viv\u00ea-la. \u00c0s vezes, at\u00e9 invejo um pouco essa paz de quem se bastou. Mas, honestamente? Ainda n\u00e3o \u00e9 pra mim.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ainda sou atra\u00edda pelos altos da vida. E sim, ainda vou continuar viajando \u2014 mesmo sabendo que, de vez em quando, viajar \u00e9 uma merda.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">E o que toda essa hist\u00f3ria tem a ver com finan\u00e7as pessoais?&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A conclus\u00e3o n\u00e3o \u00e9 que voc\u00ea deveria parar de gastar dinheiro com viagens e se aposentar mais cedo. A conclus\u00e3o \u00e9 um pouco mais sutil.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Enquanto o guia descrevia a vida dos monges, percebi que minha pr\u00f3pria vida, hoje, tem um qu\u00ea de mon\u00e1stica. N\u00e3o porque renunciei aos prazeres do mundo \u2014 claramente, n\u00e3o renunciei.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Desde que atingi a independ\u00eancia financeira, boa parte dos meus dias se parece com um retiro mon\u00e1stico. Fico sozinha a maior parte do tempo, num ambiente altamente control\u00e1vel: minha casa, minha academia, meu supermercado. Fa\u00e7o minha pr\u00f3pria comida. Leio filosofia. Estudo. Quase n\u00e3o interajo com outras pessoas. \u00c9, sim, uma vida serena \u2014 e por vezes, profundamente satisfat\u00f3ria. E nessas horas, eu entendo os monges.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Mas \u00e9 tamb\u00e9m uma vida que me permite quebrar essa rotina de vez em quando. Me jogar nos extremos. Sentir o impacto da vida l\u00e1 fora.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Parece que eu sempre defendo o FIRE como solu\u00e7\u00e3o m\u00e1gica para tudo. Mas tentem entender meu vi\u00e9s: eu revolucionei a minha vida profissional, financeira e social para atingi-lo. \u00c9 natural que eu queira reafirmar essa escolha radical.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">E talvez seja exatamente isso que me fez buscar o FIRE: uma forma de viver mais perto do equil\u00edbrio, sem precisar me retirar completamente do mundo. Uma esp\u00e9cie de meio-termo \u2014 uma vida com espa\u00e7o para a contempla\u00e7\u00e3o e o sil\u00eancio, mas tamb\u00e9m para o caos e a beleza dos dias em movimento. Tr\u00eas semanas viajando. Tr\u00eas semanas de contrastes, de emo\u00e7\u00e3o, de caos. E, depois disso, a volta pra casa. Para a minha rotina silenciosa, com meus pr\u00f3prios pensamentos. Uma segunda-feira tranquila. Sem chefe, sem reuni\u00e3o, sem cobran\u00e7a.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Aquela velha sensa\u00e7\u00e3o de depress\u00e3o p\u00f3s-f\u00e9rias, que era t\u00e3o comum quando eu trabalhava, simplesmente desapareceu. Hoje, existe o prazer de voltar. E, para espanto de muitos, uma alegria quase t\u00e3o forte quanto a que senti no museu do Vaticano.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Talvez a vida FIRE seja isso: uma forma de se retirar, de tempos em tempos, dos altos e baixos do mundo \u2014 sem precisar virar um monge, sem abrir m\u00e3o das del\u00edcias e contradi\u00e7\u00f5es da vida comum. Um caminho do meio entre a intensidade e a ren\u00fancia total.&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Caros leitores, como disse no meu \u00faltimo post, eu tirei f\u00e9rias e fui viajar para a It\u00e1lia por 3 semanas com o meu marido. Mais um sonho da vida FIRE realizado \u2014 e tamb\u00e9m um lembrete brutal de como a vida pode ser imprevis\u00edvel, por vezes frustrante, por vezes sublime. 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