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Olá, sejam bem-vindos a mais um episódio da nossa série de cultura e finanças, onde eu trago vários filmes pra gente debater sobre o tema dinheiro. E já estamos no nosso penúltimo episódio.
E eu confesso que o filme de hoje é um filme que eu só decidi ao longo dessa série incluir ele na lista, porque quando eu já estava começando a chegar no final dessa série, eu comecei a pensar sobre umas argumentações que as mulheres usam muito, né, que é essa ideia de que vai surgir um príncipe encantado que vai salvar a gente das nossas finanças, ou então que a gente já até tem esse príncipe e que não precisa se preocupar com o nosso dinheiro, porque tem um marido, um pai, algum homem por trás cuidando das nossas finanças.
E eu talvez esteja sendo um pouco sexista aqui. Eu acho que tem alguns homens também que às vezes não se preocupam muito com o dinheiro. Eu conheço alguns desse tipo que deixam para a mulher, ou para a parceira, cuidar das finanças. Tem muita gente que pensa: “Dinheiro é um assunto chato. Eu não quero lidar com isso. Deixa isso ser problema dos meus pais ou dos meus filhos no futuro. Eu não vou lidar com dinheiro.”
Eu pensei que eu precisava trazer um filme que trouxesse essa temática, né, de quando a gente fica buscando uma solução meio mágica pro nosso dinheiro, que normalmente vem na forma de outra pessoa. Sei que cuidar do nosso dinheiro, fazer um orçamento, cuidar da nossa renda, trabalhar, isso exige esforço, é demandante. Pensar em investimentos exige um esforço mental, a gente tem que fazer projeções financeiras, parece algo complexo, mas não precisa ser. Eu já adianto, não precisa ser.
Dá para investir e cuidar das nossas finanças de uma forma muito simples. E eu tenho vários textos no meu blog ensinando essa forma muito simples de cuidar do nosso dinheiro, de cuidar das nossas finanças, dos nossos investimentos. E na minha consultoria financeira, é isso que eu ensino para as pessoas também: uma forma simples de lidar com o dinheiro no dia a dia e de investir para criar uma independência financeira, inclusive de qualquer outra pessoa.
E daí, ao longo dessas semanas, enquanto eu tava pensando nos temas desse vídeo, me veio o filme Blue Jasmine, que é o filme que a gente vai abordar hoje. Eu até tô muito feliz de trazer esse filme, porque é um filme de um dos meus cineastas favoritos, que é o Woody Allen. E eu acho que ele sempre aborda muito bem questões da natureza humana, crises existenciais, coisas que a gente sabe que são difíceis de lidar.
Bom, no filme de hoje a gente conhece a nossa personagem principal, a Jasmine, que era uma grande socialite em Nova York, rica mesmo assim. Ela morava em Park Avenue. Ela frequentava a alta sociedade da nação mais rica do mundo, que é os Estados Unidos.
Mas nada disso foi construído por conta dela, graças a ela. Tanto que logo no começo do filme ela fala que largou a faculdade quando faltava só um ano para se formar. Ela nem chegou a trabalhar porque conheceu o marido dela. E o marido dela era um empresário do mercado financeiro, um financista, como eles falam no filme, muito bem-sucedido, riquíssimo, que conseguia prover todos os mimos e uma vida muito confortável e cheia de luxos pra Jasmine.
E a Jasmine, ao longo do filme, a gente vai vendo várias trocas dela com o marido e com as amigas, e fica claro que ela nunca se preocupou com dinheiro. Para ela, isso nunca foi uma preocupação. Ela confiava totalmente no marido, e quem cuidaria da vida financeira dela era ele, não ela.
Mas tudo desmorona porque, no final, a gente descobre que o marido dela na verdade era uma fraude. Ele era um financista que cuidava do dinheiro das pessoas de forma ilegal. Não é só que ele investia de forma arriscada, era ilegal mesmo o que ele fazia. Tanto que no final ele é preso e ela perde tudo junto com ele. Ainda que eu ache que a Jasmine se deu “bem” nessa história, porque ela não foi presa junto, já que ao longo do filme a gente vê ela assinando vários documentos que ele pede para ela assinar sem nem perguntar muito. Ela tava correndo um risco enorme nessa relação em que achava que estava confortável, nessa posição em que não precisava se preocupar com a própria vida financeira.
Bom, o filme já começa com a Jasmine na queda, né? Então ela tá tendo que se mudar de Nova York para São Francisco, porque é lá que ela tem uma irmã que vai abrigar ela.
E é muito engraçado porque a gente vê o quanto a Jasmine tá dissociada da realidade. A nova realidade dela, de ser uma pessoa sem dinheiro e até endividada, como ela mesma assume, é tão difícil de lidar que ela vive o tempo todo tomando antidepressivos de efeito rápido, porque não consegue suportar a dureza do que está vivendo. Eu não sou psicóloga, mas eu vejo ela como uma pessoa dissociada mesmo da realidade. Várias vezes ela fala sozinha, conversa sozinha, volta no tempo, mas isso também aparece de forma mais prática: quando ela chega em São Francisco, ela diz pra irmã que não comeu nada porque a comida do avião era ruim. Imagina, na primeira classe a comida era ruim. E a irmã pergunta: “Mas você veio de primeira classe, você não tá quebrada?”
E ela responde: “Mas você não entende, eu não consigo viver de outra forma, eu sou assim”. É quase como se ela acreditasse que quem viaja de classe econômica não fosse um ser humano igual a ela. Ela se coloca como alguém especial, que precisa viver em primeira classe, mesmo sem ter dinheiro para isso.
E a irmã da Jasmine é uma personagem muito interessante, porque é ela que puxa a Jasmine pra realidade. A irmã tem uma vida de mulher batalhadora, mãe de dois filhos, solteira, que trabalha, cuida da casa e das contas. E a Jasmine começa a sonhar com o que vai fazer da vida agora. Ela decide que quer ser designer de interiores, porque é muito chique, gosta de moda e decoração, então vai seguir esse caminho.
Mas a irmã pergunta: “Tá, mas você precisa fazer um curso pra isso. E esse curso você precisa pagar. Você precisa de dinheiro. Então você precisa de um trabalho pra conseguir pagar isso.” E aí a Jasmine vai trabalhar.
E é muito interessante porque, quando ela começa a trabalhar, você vê que aquela vida de trabalho, que é uma vida honesta, em que ela vai se apoderando das próprias finanças, é uma vida dura, chata, maçante. Ela tem que lidar com vários desafios no dia a dia, com clientes, com demandas, com estudos junto com o trabalho. É uma vida real que muita gente vive, mas que não fazia parte da realidade da Jasmine até então.
E é claro que, para tudo piorar, ela ainda tem um chefe abusivo, que abusa dela sexualmente e acaba fazendo com que ela saia daquele emprego.
Bom, e daí o Woody Allen, com toda sua genialidade, traz então a próxima etapa da vida da Jasmine: buscar a solução em outro homem.
Aquela vida de trabalho, de ter que pagar as próprias contas, de se preocupar com a própria vida financeira, exige esforço, é chata. Não é o que a Jasmine quer. Ela quer voltar o mais rápido possível para aquela vida de luxo que tinha. E a forma mais fácil de voltar, na cabeça dela, a solução mais simples, a solução mágica, é achar outro homem.
E por sorte ela conhece o Dwight, um cara com carreira diplomática, super bem-sucedido. Ela engana ele no começo, dizendo que o marido morreu, não contando que ele foi preso. Diz que já é designer de interiores experiente, não diz que ainda está estudando. E ele se apaixona por ela, porque ela é linda, interessante, e parece ter um status social que ele busca.
Parece também que ele tem uma carreira diplomática em que precisa dessa esposa meio troféu. Então as coisas encaixam. E quando ela vê a casa dele, percebe: “esse cara é rico e eu vou me dar bem de novo aqui na vida”. Isso fica claro quando ele liga pela primeira vez e ela chora de alívio.
E eu entendo esse choro, porque é uma solução aparentemente simples para uma vida que estava completamente desorganizada. Ela não tem dinheiro, está endividada, e de repente parece que alguém aparece como um bote salva-vidas. É óbvio que ela se emociona. Ela chora de alívio. E chega a dizer pros sobrinhos: “agora eu sou uma nova mulher porque conheci um novo homem.”
Só que essa solução dura pouco, porque ela conquista o Dwight, ele aceita casar com ela, e eles vão comprar o anel de noivado. E quando ela está na vitrine escolhendo o anel, que seria a confirmação de que sua vida seria novamente resolvida por um homem, surge o ex-cunhado dela.
E aqui tem outro detalhe muito interessante do filme: o ex-cunhado trabalhava com construção civil, ganhou na loteria, 200 mil dólares, e vai para Nova York comemorar na época em que a Jasmine ainda era rica. Ele conhece a Jasmine e o ex-marido dela, e está vivendo um momento em que aquele dinheiro significa uma chance real de recomeço, de abrir uma empresa e construir algo do zero.
Mas a Jasmine, de forma até arrogante, diz para ele não fazer isso, não começar um negócio, e sim investir com o Hal, o marido dela, o financista, que vai multiplicar esse dinheiro. E o Hal ainda reforça: “a maioria vai te falar em 6 ou 7% ao ano, mas eu posso te entregar 20%”.
E isso é muito interessante, porque mostra outra solução mágica: não só o “salvador financeiro” na figura do parceiro, mas também a promessa de retorno extraordinário, fora da realidade. E a gente também se ilude com isso. Acredita que vai ser fácil ganhar dinheiro, que 20% ao ano é algo comum.
Até pode existir em casos específicos, mas geralmente envolve risco altíssimo — ou, como no filme, simplesmente fraude. Esses 20% eram uma fraude.
E então, quando tudo isso se cruza, o ex-cunhado confronta a Jasmine, dizendo que perdeu tudo e que agora precisa recomeçar do zero trabalhando em algo distante dos sonhos dele.
Nesse momento, o Dwight percebe que tudo o que a Jasmine tinha contado era falso. Que ela não era designer de interiores formada, que o marido estava preso, que ela sempre dependeu financeiramente de alguém. E ele entende que ela estava entrando naquele casamento não por amor, mas por necessidade de sobrevivência financeira. E o casamento é cancelado.
Enfim, eu precisava trazer esse filme. Ele traz um alerta muito importante. É claro que é um filme hiperbólico, com personagens extremos, mas ele não está dizendo que todo homem é assim, nem que toda relação é assim.
Ele está mostrando outra coisa: que essa ideia de solução mágica, de transferir a responsabilidade financeira para outra pessoa, pode ser extremamente frágil. E essa fragilidade aparece na vida de muitas mulheres, inclusive no Brasil, que acabam empobrecendo após divórcios ou mortes de parceiros.
E isso não é um julgamento, é um alerta. Porque no fim, trabalhar, estudar, construir uma profissão, cuidar do próprio dinheiro — ou no mínimo entender o dinheiro da família, os investimentos, os riscos, o plano de aposentadoria — deveria ser o mínimo.
A Jasmine repete ao longo do filme: “eu não entendo de números, isso não é meu departamento”. E isso revela exatamente o ponto.
A especialização de tarefas faz sentido, mas quando a base financeira fica totalmente fora do seu campo de visão, o risco é enorme. E o dinheiro atravessa tudo na vida.
Então a mensagem aqui é simples: não existe solução mágica. Não existe atalho. Não existe alguém que vá fazer o trabalho duro por você.
Eu entendo a sedução disso — seja na figura de um parceiro, seja na promessa de retornos irreais — mas isso não se sustenta.
O que se sustenta é o trabalho consistente, a construção lenta, a disciplina. Como diz o Renato Russo, disciplina é liberdade.
Não existe independência financeira sem esforço. E esse esforço, no fim, não pode ser delegado.