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Olá, sejam muito bem-vindos a mais um episódio da nossa série de Finanças e Cultura.
Estou muito feliz porque este já é o quinto episódio. Eu estou gravando todos esses episódios antes de decidir se essa série vai ao ar ou não. Eu resolvi gravar a temporada inteira primeiro, antes de divulgar os episódios para vocês. E chegar ao quinto episódio é uma vitória pessoal para mim, porque significa que, se eu cheguei até aqui, existem grandes chances de essa série realmente ir ao ar. Então estou muito empolgada e muito feliz.
Depois de amenizarmos o clima da nossa série com uma comédia romântica, hoje eu trouxe um filme que é um drama. Um drama daqueles que dão um verdadeiro soco no estômago, mas que também traz uma reflexão muito, muito importante.
O filme sobre o qual vou falar hoje é A Grande Virada.
Para quem nunca assistiu, eu recomendo muito. A primeira vez que vi esse filme fiquei profundamente tocada com a forma como os roteiristas e o diretor conseguiram captar tantas nuances do universo corporativo e, principalmente, das consequências de acreditarmos que nossa vida está completamente segura apenas porque temos um bom emprego.
A Grande Virada é um excelente filme. Tem vários atores famosos, personagens complexos e diversas histórias interligadas. Mas eu quero concentrar minha análise no Bob, personagem interpretado por Ben Affleck.
O Bob tem 37 anos, ele trabalha em uma grande empresa, ocupa um cargo alto de liderança e é diretor. O filme deixa claro que ele é extremamente qualificado. Em determinado momento ele menciona seu MBA, sua formação e sua trajetória profissional. Além disso, ele é o principal provedor financeiro da família, sustentando a esposa e dois filhos.
O filme começa já em um cenário de crise econômica. Estamos em meio à crise de 2008, uma das mais severas da história recente. Foi uma crise especialmente dura nos Estados Unidos, gerou enorme destruição de empregos e fez o mercado de ações cair quase 60%.
Eu acho interessante que o filme tenha esse pano de fundo porque muitas pessoas assistem ao filme Jerry Maguire, que foi o primeiro episódio desta série, e pensam:
— Ah, mas eu não me identifico com o Jerry Maguire porque eu gosto do meu trabalho.
O interessante de A Grande Virada é justamente mostrar que você pode amar seu trabalho e, ainda assim, precisar buscar independência financeira.
Quando estudamos economia, aprendemos sobre os ciclos econômicos. Esses ciclos deixam claro que a economia cresce ao longo da história da humanidade, mas esse crescimento não acontece de forma linear. Ele acontece de forma cíclica. Existem momentos de expansão e momentos de retração. Existem períodos extremamente favoráveis e períodos muito difíceis. Às vezes estamos em um boom; às vezes estamos em uma recessão. Faz parte da dinâmica econômica.
Os governos e as empresas podem até tentar amenizar os impactos dessas crises, mas algumas são tão severas que simplesmente não há muito o que fazer. Essa é a minha interpretação, e eu sei que ela pode ser um pouco polêmica, mas mesmo que você acredite que alguém foi responsável pela crise de 2008, isso não invalida meu argumento principal: mesmo que você ame seu trabalho, você precisa se preparar para crises.
E é justamente nesse contexto que encontramos Bob.
Logo no início do filme, ele é demitido. E a demissão é retratada de forma extremamente dolorosa. E eu acredito que perder um emprego está entre os eventos mais traumáticos da vida. Talvez não no mesmo nível da morte de alguém que amamos ou de um divórcio, mas certamente é uma experiência profundamente impactante.
Eu mesma fui demitida do meu primeiro emprego e lembro exatamente dessa sensação. Um dia antes eu havia feito uma apresentação para os meus chefes. Apresentei meses de trabalho, pesquisas e análises. Na manhã seguinte fui chamada para uma reunião e demitida.
Você é pego completamente de surpresa.
E o filme também deixa claro que nem sempre a sua performance é o fator determinante. Às vezes a empresa está passando por uma situação tão difícil que até mesmo bons funcionários acabam sendo dispensados.
Isso faz parte do jogo. Faz parte dos ciclos econômicos.
Depois da demissão, Bob é encaminhado para uma empresa de recolocação profissional. E eu acho essa parte particularmente interessante porque você percebe que a principal função daquele lugar não é necessariamente recolocar as pessoas no mercado. É oferecer um espaço físico. Porque nós passamos oito horas por dia trabalhando, então quando perdemos o emprego, nós perdemos uma parte da nossa identidade.
E de repente, aquele lugar para onde íamos todos os dias desaparece. Então aquela empresa de recolocação parece funcionar quase como uma tentativa de substituir esse vazio. Um lugar para onde as pessoas continuam indo diariamente enquanto tentam reorganizar a própria vida.
É um ambiente bastante deprimente porque está todo mundo em uma corrida contra o tempo. E essa sensação de desespero é particularmente forte para Bob porque quando ele perde o emprego, a sua esposa rapidamente começa a levantar todas as contas da família. Ela sabe que eles não possuem uma reserva financeira significativa.
E aqui surge um dos aspectos mais interessantes do filme.
O Bob vive uma vida de rico. Ele mora em uma mansão, dirige um Porsche e frequenta um clube de golfe. Olhando de fora, qualquer pessoa diria que ele é rico. Mas o filme deixa explícito algo que eu considero uma das suas maiores qualidades: mostrar que riqueza e renda alta são coisas diferentes.
O Bob não é rico. Ele só tem renda alta.
Isso é extremamente comum. Hoje, trabalhando com consultoria financeira, vejo isso o tempo todo. Pessoas com rendas extraordinárias vivendo estilos de vida caríssimos, mas sem construir patrimônio.
E riqueza não é renda. Riqueza é patrimônio acumulado.
Uma renda alta pode permitir um estilo de vida luxuoso, mas apenas enquanto aquela renda existir. No caso de Bob, basta a renda desaparecer para todo aquele estilo de vida começar a ruir.
Outra personagem fundamental é a Meg, sua esposa. Eu simplesmente adorei essa personagem. Ela demonstra uma enorme sensibilidade ao longo de toda a história. Ela entende que Bob perdeu uma parte importante da sua identidade, mas faz questão de lembrá-lo de que ele continua sendo marido, continua sendo pai e continua sendo uma pessoa valiosa. Ela sustenta emocionalmente aquilo que o emprego não consegue sustentar.
A Meg não me parece uma pessoa deslumbrada. Não me parece que estava com Bob por causa do dinheiro. Existe afeto genuíno ali. E esse afeto acaba funcionando como um dos pilares que permitem que Bob atravesse aquele período tão difícil. Ela é a parceira ideal para alguém que está enfrentando uma crise daquela magnitude.
Ao perceber a gravidade da situação, Meg começa imediatamente a agir. Cancela a assinatura do clube de golfe. Coloca a casa à venda. Tenta reduzir despesas.
E o Bob reage mal. Ele se irrita. E em vários momentos é possível sentir até um pouco de raiva dele. Ele insiste que precisa continuar frequentando o clube de golfe porque não quer que as pessoas pensem que ele é um fracassado procurando emprego.
E Meg responde:
— Mas você é um fracassado procurando emprego.
A Meg não tem problema em encarar a realidade. Ela prefere lidar com os fatos a sustentar uma vida baseada em aparências.
Eu entendo o ponto de vista do Bob. Não estou dizendo que marketing pessoal não importa. Claro que importa. Mas é interessante observar como essa insistência em manter um padrão de vida insustentável apenas agrava ainda mais a situação financeira da família.
O filme deixa muito evidente nossa obsessão contemporânea por aparência e status. Existe um outro personagem demitido cuja história é igualmente marcante. A esposa dele não permite que ele fique em casa porque não quer que os vizinhos descubram que ele perdeu o emprego. Só que ele acha a empresa de recolocação tão deprimente, que ele prefere passar os dias em um bar. Ele é alguém que não tem uma Meg ao seu lado. Não tem alguém para ajudá-lo a enxergar que existe vida além da carreira. E sua trajetória acaba sendo muito mais trágica.
E, como eu já avisei, esta série terá spoilers.
Então sim: tudo dá errado para Bob. Ele não consegue se recolocar rapidamente. Perde o Porsche. Perde a casa.
E volta a morar com os pais.
E essa talvez seja uma das cenas mais dolorosas do filme. Ao entrar novamente em seu quarto de infância, ele diz para a esposa:
— Meu sonho era nunca mais voltar para esta casa. Nunca mais voltar para este bairro, para esta igreja, para estas pessoas.
Ele tinha um sonho muito claro de vencer na vida. E eu não consigo deixar de pensar que, nessa corrida pelo sucesso, ele foi se atropelando.
E eu acho que fazemos isso com frequência. Nós queremos crescer rápido, queremos mostrar rapidamente que tivemos sucesso. Queremos os símbolos do sucesso antes da segurança financeira que deveria sustentá-los. Então aos 37 anos, o Bob já vivia em uma mansão e dirigia um Porsche. Mas tudo isso estava apoiado em uma estrutura extremamente frágil.
Outro aspecto muito interessante é que, no final do filme, oferecem a ele um emprego pagando metade do que ganhava anteriormente.
E ele aceita.
Mais do que isso: o emprego é suficiente para ele.
Isso deixa uma pergunta inevitável.
Se metade do salário já era suficiente, por que ele não poupava metade da renda quando ganhava o dobro?
E aqui que entra a minha interpretação desse filme.
Eu acho que tem duas formas da gente assistir esse filme. Eu acho que a gente pode assistir esse filme sobre a lógica de: “Nossa, olha como o capitalismo é malvadão.” Tem várias cenas que trazem esse mal-estar com essa sociedade capitalista que a gente vive. O chefão lá fala que não está preocupado com os funcionários, está preocupado com os acionistas da empresa.
Tem até o cunhado do Bob, que faz bem essa crítica a essas grandes corporações, ao quanto elas não se preocupam com os funcionários. E ele, que é dono de uma pequena empresa, uma pequena construtora, mostra como se sente muito mais responsável pelos funcionários do que essas grandes empresas.
Enfim, a gente pode olhar por essa ótica do “capitalismo malvadão”, fazer uma crítica ao sistema.
Mas eu quero olhar por outra ótica.
Esse é o sistema em que a gente vive. Como eu faço para me proteger desse sistema? Como eu faço para não passar por esse trauma tão grande de perder meu emprego e tomar um downgrade na minha vida, como o Bob toma na vida dele? De ter que voltar a morar com os pais, de regredir tudo que você conquistou?
Porque, se você está hoje gastando 100% da sua renda, provavelmente você está nesse caminho. Você não está se protegendo de eventualmente sofrer esse trauma que o Bob sofreu.
E mesmo se você estiver poupando 10% da sua renda, eu tenho uma tabela no meu blog que deixa claro que, se você estiver poupando só 10% da sua renda, isso significa que, para atingir a independência financeira, você vai ter que trabalhar 46 anos.
Ou seja, se você começou a trabalhar aos 20 anos de idade, você só vai conseguir parar aos 66 anos de idade.
Só que você precisa garantir que, durante esses 46 anos, vai estar empregado com essa renda alta. Eu não acho que isso seja factível nos dias de hoje. Tem algumas poucas pessoas que vão conseguir isso, mas isso é raro.
E eu não estou trazendo esses números aqui para causar desespero em ninguém. Eu estou trazendo esses números para mostrar o outro lado da tabela.
Porque tem uma parte dessa tabela que mostra que, se você poupar 50% da sua renda, a gente já cai os anos de dependência da sua renda para 16 anos. Ou seja, se você poupa 50% da sua renda, você só precisa se manter empregado por 16 anos para conseguir atingir a independência financeira.
E, lembrando, a independência financeira que eu sempre falo aqui é uma independência financeira de você não precisar depender de um trabalho para pagar suas contas.
E muita gente vê essa tabela que eu trouxe aqui e pensa:
— Cara, isso é uma ilusão.
Não é.
É uma matemática simples.
Na verdade, dependendo do que acontecer com o mercado, pode ser que, poupando 50% da sua renda, você consiga se aposentar muito antes desses 16 anos.
Enfim, o tempo todo que eu assisti esse filme eu ficava pensando:
— Nossa, se o Bob tivesse aproveitado… Se ele tivesse reconhecido: eu tenho uma renda tão alta a ponto de viver numa mansão, eu tenho uma renda tão alta a ponto de ter um Porsche. Será que não é a hora de eu poupar boa parte dessa renda? Entender que eu estou passando por um período de vacas gordas na minha vida, poupar o máximo que eu puder e me preparar para os períodos de vacas magras que vão vir — e que vieram, no caso do Bob?
E eu nem estou propondo aqui que você viva uma vida miserável para o resto da vida.
Porque tem muita gente que pensa o seguinte:
— Ah, mas a vida é agora. Eu tenho que curtir. Ninguém leva dinheiro para o caixão.
Mas eu estou falando de outra coisa aqui.
Eu estou falando sobre você viver a sua vida e ir subindo seu padrão de vida aos poucos, de forma que isso seja sustentável.
O Bob poderia ter pelo menos uma reserva de uns dois anos para se manter depois sem o emprego.
Ele poderia ir poupando 50% da renda dele.
E, depois de passado um tempo, ele nem precisava largar o emprego, como eu fiz. Ele poderia continuar trabalhando e subindo o padrão de vida dele aos poucos.
Eu acho que seria muito mais saudável, muito menos traumático, na vida do Bob, se ele deixasse para comprar o Porsche dele aos 50 anos de idade, quando esse Porsche não tivesse nenhum custo para ele. Ou seja, quando ele tivesse tanto patrimônio que fosse simplesmente sacar uma parte desse patrimônio para comprar esse Porsche à vista. Aliás, no filme eles deixam bem claro que esse Porsche foi comprado a prazo.
Eu entendo a pressa.
Eu sei que a gente está lutando contra os nossos desejos ao fazer isso.
A gente vive nessa sociedade, nessa cultura do império do efêmero.
A gente quer tudo para ontem.
Mas a gente tem que entender que esse nosso desejo de, aos 30 anos de idade, já querer ter esse sucesso financeiro, de morar numa mansão, de dirigir um baita carrão, às vezes está colocando a gente numa situação super vulnerável de perder essa renda e ter que tomar um grande downgrade na nossa vida.
Eu conheço, e tenho certeza que vocês conhecem, pessoas que, aos 30 anos de idade, estavam morando em casas maravilhosas e, aos 60 anos de idade, tiveram que dar um downgrade na vida porque perderam o emprego, perderam a fonte de renda e agora estão tendo uma velhice com muito menos recursos do que tinham aos 30 anos de idade.
Eu até acho que, depois de descrever esse filme aqui, vai ter muita gente que vai preferir não assistir. É uma realidade que é difícil da gente enxergar. E eu até acho incrível que o roteirista teve a sensibilidade de enxergar essa realidade e de escrever ela tão bem nesse filme.
Então eu entendo que algumas pessoas vão preferir evitar esse filme. Elas não vão querer encarar de frente o que estão fazendo com a própria vida, o risco que estão correndo com a própria vida, da gente achar que é rico quando, na verdade, só tem renda alta.
Mas eu precisava trazer esse filme aqui, principalmente para quem está nessa jornada da independência financeira.
Tem muita gente que comenta no meu blog que se sente muito sozinha nessa jornada. O quanto é difícil abrir mão dos nossos desejos, postergar consumo, manter uma alta taxa de poupança.
E é para essas pessoas que eu trouxe esse filme.
Sempre quando vocês acharem que a jornada está muito difícil, que está todo mundo dizendo que vocês são loucos por querer poupar tanto, 50%, 70% da sua renda, esse é um filme que faz você ficar aliviado no final e entender que você está no caminho certo.
Porque você não está abrindo mão do consumo hoje.
Você está assegurando uma vida de consumo sustentável para você.
Você está evitando esse trauma de ter que reduzir o seu padrão de vida por conta da perda de um emprego.
Crises econômicas vão acontecer.
Empresas vão te demitir.
E eu acho que a gente vai se manter no sistema capitalista por muito tempo.
Ah, e tem até uma boa notícia aqui.
Porque, se a gente sabe que está vivendo nesse mundo em que as empresas estão mais preocupadas em maximizar o valor dos acionistas do que o bem-estar dos seus funcionários, você também pode ser acionista dessas empresas. Aliás, hoje a gente tem opções a partir de R$ 50 para você virar sócio das maiores empresas do mundo. Se você passa por essa desilusão com o sistema capitalista, com esse “capitalismo malvadão”, que eu sei que me incomoda às vezes também, saiba que pelo menos ele é democrático nesse sentido: ele te aceita participar desse jogo.
Enfim, esse filme parece pessimista, mas eu não acho que ele é pessimista. Eu acho que ele é realista.
Eu estou trazendo esse filme para trazer essa reflexão sobre o tipo de vida que você quer ter, sobre os riscos que você está correndo, sobre o quão insustentável pode ser uma vida que sobe de padrão muito rápido e que, a qualquer momento, pode desmoronar.
E que existe, sim, um caminho possível de escolher crescer devagar.
E é esse o segundo caminho que eu defendo aqui no meu blog.