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Olá, sejam bem-vindos a mais um episódio da nossa série de Finanças & Cultura, onde eu vou trazer um monte de filmes aqui para a gente debater sobre o assunto dinheiro.
Depois de trazer um filme tão pesado como Clube da Luta, eu decidi deixar as coisas um pouco mais leves aqui no canal e trazer uma comédia romântica — Sexy por Acidente — para a gente falar um pouquinho sobre uma questão que é muito cara para nós emocionalmente e financeiramente, que é a nossa autoestima.
Esse filme parece bobinho, mas uma vez eu estava viajando com umas amigas e, logo depois do almoço, a gente decidiu assistir a um filme. Eu propus que a gente assistisse Sexy por Acidente e, no final, estava todo mundo aos prantos. Várias amigas ficaram muito sensibilizadas com a mensagem do filme. Eu acho que ele realmente tem uma mensagem muito, muito bonita.
O filme é uma ficção que conta a história de uma personagem, a Renée, que se sente meio “loser” dentro da sociedade. Ela não tem um relacionamento amoroso, não gosta muito do trabalho dela e existe uma questão física — de aparência física — que é muito relevante para ela, porque ela se sente acima do peso. Ela está fora daquele padrão de magreza das atrizes hollywoodianas e, hoje em dia, até de algumas influencers por aí.
Logo no começo do filme, a gente vê o quanto ela é obcecada por essa questão da aparência. Ela transmite muito essa sensação de que, se um dia resolvesse o problema da aparência física dela, todos os outros problemas da vida iriam embora junto.
E a gente faz muito isso, né? A gente pensa: “O meu problema é o meu trabalho. Se eu resolver o meu trabalho, todo o resto vai magicamente se resolver”. Ou então: “O meu problema é que eu estou acima do peso”, “o meu problema é o meu relacionamento”. Enfim, a vida é sempre complexa, cheia de nuances. E, até para quem acha que a solução da vida é atingir a independência financeira, eu também recomendo cautela nisso. A independência financeira ajuda muitas questões na nossa vida, mas ela não é solução para todos os os problemas.
Bom, e a Renée, por conta desse problema dela com o corpo e com a sensação de estar acima do peso, está tentando enfrentar isso, tentando resolver isso. Ela vai para uma aula de spinning e, nessa aula, sofre um acidente: ela bate a cabeça. E, de repente, quando acorda, ela se enxerga linda.
E esse é um ponto que eu acho fantástico nesse filme. Porque existem outros filmes em que os personagens mudam de corpo — a mãe acorda no corpo da filha, o marido acorda no corpo da esposa — mas, nesse filme, ela não muda de corpo. Ela não acorda em outro corpo. Ela está exatamente no mesmo corpo. A única coisa que muda é a percepção dela sobre si mesma.
E essa nova percepção dela sobre o próprio corpo gera situações muito cômicas, porque ela continua sendo exatamente a mesma pessoa, mas agora se acha magérrima, linda, acha o rosto perfeito, enfim.
E, como ela passa a se enxergar dessa forma, ela ganha tanta autoestima, tanta autoconfiança, que tudo na vida dela muda. Ela consegue mudar de emprego, consegue um namorado e a gente vai se encantando por ela.
Ela continua a mesma mulher, mas está tão autoconfiante, tão cheia de energia, tão se sentindo incrível, tão permitindo ser ela mesma, que a gente termina o filme apaixonado por ela. A gente termina o filme achando ela linda — mesmo sem ela ter mudado absolutamente nada.
E eu acho isso muito interessante, porque muitas vezes a gente conhece alguém e não pensa imediatamente “nossa, como essa pessoa é linda”. Mas, conforme a gente vai desenvolvendo uma relação com ela, criando afeto, a pessoa vai ficando linda aos nossos olhos. De repente, aquela amiga se torna a mulher mais linda que a gente já viu.
Mas, obviamente, eu estou trazendo esse filme aqui porque eu acho que ele toca em um aspecto muito relevante da nossa autoconfiança que impacta diretamente as nossas finanças.
Como vocês sabem, o meu propósito é divulgar a possibilidade de as pessoas se aposentarem sem depender do governo, se aposentarem muito antes da idade oficial, através da independência financeira.
E, às vezes, quando eu falo para as pessoas que me aposentei aos 30 anos, surge muito preconceito. As pessoas assumem que eu ganhei muito dinheiro ou que eu sou herdeira — e que, por isso, consegui me aposentar cedo.
De fato, eu tinha uma renda alta quando trabalhava, o que me permitia ter uma taxa alta de poupança. Mas isso não foi definitivo. Tanto que eu conheço várias pessoas que ganham tão bem quanto eu — ou até mais — e que não estão livres, não estão aposentadas.
A mudança que foi realmente relevante e determinante para eu atingir minha independência financeira foi que eu comecei a olhar com mais carinho para os meus gastos.
Não foi só uma história de renda alta. Foi uma história de renda alta atrelada a muito controle de gastos. Essa é, na verdade, a minha história. Foi por isso que eu me aposentei tão cedo.
Eu eliminei vários gastos que todo mundo considera necessários para ter uma vida boa. Eu não tenho carro, moro em um apartamento pequeno, não pago alguém para limpar meu apartamento. Mas, de repente, eu percebi que ainda caía muito em gastos relacionados à beleza e à aparência.
Bom, eu não faço as unhas há mais de dez anos. Eu corto meu próprio cabelo. Não uso maquiagem todos os dias. Inclusive, eu até uso maquiagem eventualmente, mas decidi deliberadamente fazer esses vídeos sem maquiagem, de cara lavada mesmo, até para provocar as pessoas nesse sentido.
E eu não estou falando que não gasto com essas coisas porque não valorizo autoestima. Eu valorizo autoestima. Acho superimportante a gente ter autoestima.
Já teve gente que comentou lá no blog falando assim: “Ah, Lilian, mas você já viu aqueles estudos de que pessoas bonitas são mais bem-sucedidas, ganham salários mais altos?”. E sim, eu acho que isso é um fato.
Mas aí a gente entra numa outra seara, que é a do medo.
Porque, muitas vezes, os gastos que temos relacionados à nossa aparência nascem do medo de ficar fora de um padrão. Medo de não fazer botox preventivo e envelhecer. Medo de não fazer procedimentos estéticos e deixar de ser atraente para o parceiro. Medo de não gastar dinheiro com as mesmas coisas que as outras pessoas gastam e acabar sendo excluído socialmente.
E existe um outro aspecto muito interessante nesse filme: a Renée vai trabalhar justamente na indústria de cosméticos, que é uma indústria que manipula muito esses nossos medos de exclusão social por conta da aparência.
Mas o mais interessante é que, enquanto ela trabalha nesse ambiente, ela conhece pessoas lindíssimas — dentro do padrão de beleza — mas que são profundamente inseguras. Pessoas que, mesmo tendo aquele físico “perfeito”, não atingiram uma sensação de completude na vida.
E isso é muito interessante, porque o filme mostra não só como a Renée se sente e muda sua perspectiva, mas também mostra o outro lado: aquelas pessoas que aparentemente têm o corpo perfeito, mas também não estão felizes.
Eu estou estudando filosofia agora e o Platão discute muito o que é o belo, o que é o amor pelo belo. E ele fala que o amor pela aparência é a camada mais superficial. Existem camadas mais profundas, mais sofisticadas, que seriam o amor e o belo de verdade.
E eu acho que Sexy por Acidente traz essa ideia platônica de uma forma muito didática. Porque, quando a personagem começa a se achar bonita — mesmo sem mudar absolutamente nada na aparência — todo o entorno dela muda.
Ela conquista exatamente aquilo que acreditava que só teria se um dia mudasse fisicamente. Ela sai daquela posição em que se sentia uma “loser” na sociedade.
E isso só acontece porque ela permite mostrar o interior dela.
Quando ela fica menos preocupada com a aparência, ela se torna espontânea. Tem uma cena maravilhosa em que ela participa de um concurso de biquíni num bar e dá um show de carisma, autenticidade e energia. É impossível assistir aquela cena sem admirar aquela mulher, mesmo ela estando completamente fora do padrão de beleza.
Então eu acho muito bonito porque o filme acaba trazendo essa reflexão sobre o que é belo de verdade — que talvez seja justamente aquilo que temos de mais autêntico.
Aliás, eu tenho um livro em que narro toda a minha história, chamado Aposentada aos Trinta, em que conto minha jornada rumo à independência financeira, todas as reflexões que precisei fazer sobre dinheiro, como investi meu patrimônio e até como tem sido o começo dessa vida agora que estou aposentada.
Nesse livro, eu dediquei um capítulo inteiro para falar sobre gastos com beleza, porque isso foi uma mudança de chave muito relevante para mim.
Quando percebi que trabalhava em um ambiente em que eu gastava tempo fazendo procedimentos estéticos — como fazer a unha toda semana — e os homens não gastavam tempo fazendo isso, aquilo me trouxe um insight muito importante.
Porque eu vivi uma vida inteira reclamando de falta de tempo. E, ao mesmo tempo, gastava tempo com coisas extremamente superficiais.
E tudo bem: você pode dizer que fazer a unha é importante para você, que é autocuidado. Eu também tenho autocuidado. Mas eu realmente tenho dificuldade de entender como a autoestima de alguém pode depender de uma parte tão pequena do corpo como a unha — a ponto de a pessoa sentir que só vai se sentir bem consigo mesma se fizer a unha toda semana.
E eu estou batendo muito na tecla da unha, mas existem vários outros procedimentos estéticos que vale a pena questionar.
Então eu fiz isso. Listei todos os meus gastos relacionados à beleza e aparência. Somei quanto gastava por mês, por ano, projetei quanto gastaria pelos próximos 60 anos da minha vida.
E cheguei a cifras de milhões de reais.
Revisar os nossos gastos com beleza pode ter um impacto muito relevante no nosso orçamento.
Enfim, esse não é um vídeo-manual sobre o que você deve ou não fazer. Eu entendo que isso é subjetivo. Já trouxe essas reflexões várias vezes aqui para o canal. Mas é porque eu acho que a busca pela independência financeira exige que a gente abra mão de algumas coisas — e isso não significa abrir mão de tudo.
Significa apenas priorizar aquilo que realmente importa.
Eu adoro aquela frase que diz que a gente pode bancar qualquer coisa, mas não todas as coisas.
E a independência financeira fala muito sobre liberdade. Liberdade de não precisar trabalhar para pagar contas. Liberdade de tempo. Mas também liberdade para ser quem você quer ser.
Enfim, esse é um filme que traz uma reflexão que eu queria deixar aqui para vocês:
Até que ponto estamos gastando dinheiro em busca de um ideal? E até que ponto estamos gastando dinheiro por medo?
Porque, se for a segunda opção, eu não acho que exista orçamento que sustente. Não existe renda suficiente que vá fazer alguém finalmente se sentir belo ou bela.
E a busca pela independência financeira exige, sim, priorizar a liberdade — inclusive a liberdade de ser quem você é.
Respostas de 9
Oi, sou economista e fazem dez anos que economizo dinheiro e busco me aposentar cedo, hoje com 33 anos estou largando meu trabalho no Brasil pra ir morar fora. Já tenho um patrimônio significativo e poderia me aposentar no Brasil com minha renda passiva, porém eu tenho um vontade de aprender uma nova profissão e vou em busca disso na Austrália. Sempre pensei em ajudar as pessoas financeiramente mas tem um ideia que sempre me faz desistir disso. É como uma dieta pra emagrecer, as pessoas sabem o que tem que fazer mas não fazem. Nas finanças é igual, as pessoas sabem que tem que abri mão de certos luxos, gastar menos do que ganha porém não fazem cada uma por seu motivo. Umas não querem abrir mão do luxo, outras na conseguem pegar dinheiro que torram e isso me leva a pensar que o problema não é a educação financeira em si e sim uma busca pelo autoconhecimento e psicológica. Nessa sua trajetória ajudando pessoas você não tem a mesma impressão? Ou você realmente conseguiu tratar só os sintomas, nesse caso a educação financeira.
Oi Pablo! Não acho que a consultoria financeira trata só o sintoma. Acredito muito no poder de enxergar os números de forma organizada. Isso foi fundamental para a minha mudança de hábitos. E tenho certeza que a pessoa enxergar qual futuro financeira ela está desenhando, traz mudanças significativas ;)
E parabéns por atingir a IF também!!
Mais um vídeo e um texto importantíssimos! Eu sou dermatologista, mas trabalho apenas na área clínico-cirúrgica e não na estética – ganho menos e talvez minha independência financeira demore mais a chegar, mas chegará junto de uma consciência tranquila. Quanto mais estudava sobre a área estética, mais me afastava dela: há muito dinheiro em jogo e o marketing é predatório para fazer mulheres (e, em menor grau, homens) gastarem muito tempo e dinheiro com produtos disponíveis em prateleiras de farmácias e consultórios. Não nego que a aparência seja importante no jogo social dos homosapiens. Mas a preocupação excessiva, em detrimento da saúde mental, física e financeira, é muito prejudicial não só para indivíduos, mas para a sociedade. Gera um comportamento de rebanho para todos ao redor – se o normal é ter as unhas feitas toda a semana, você é taxada de desleixada por não fazer. Se o normal é
(continuando) se o normal é ter os lábios volumosos, você vai gastar seu dinheiro e seu tempo aplicando preenchedores a cada 6 meses para contornar isso. A presença disseminada nas redes sociais de “influencers” de beleza também distorce o que é normal e o que é necessário. Siga como um contraponto a essa tendência, Lilian!
Muito obrigada por esse comentário Fabi.
Dá ainda mais força para o meu argumento ter alguém como você comentando e trazendo o quanto até mesmo a saúde está distorcida por essa questão estética.
Mérito seu decidir ser uma profissional com valores claros, e inegociáveis. Parabéns por isso, e fico feliz de saber que tem médicos assim por aí. Tenho certeza que o sucesso financeiro virá – até porque sucesso financeiro para mim está longe de ser só o maior número possível de dinheiro que você consegue ganhar.
Como sempre, mais um texto que permite reflexões saudáveis. Obrigada, Lilian. Não pare nunca!!!!
E, por favor, transmita para a Yuka que sentimos falta dela. Pede para ela voltar também!!
Vocês me ajudaram e ajudam muito no financeiro e no pessoal.
Maravilhosas!
Que bom que vc encontra acolhimento aqui ;)
Vou falar com a Yuka, não sei porque ela parou de escrever, tb adoro os textos dela!
Esse filme é muito legal, a maneira que nós pensamos sobre nós mesmos muda tudo! E uma das coisas que mais me pega são gastos com cosméticos e afins. Meu marido é farmacêutico na Fiocruz e não sabe me diferenciar produto nenhum da La Roche, Bioderma, etc. Mas eu, analista de marketing, sei informar melhor que ele sobre ácido hialurônico, niacinamida e diversos outros tipos de ativo.
Me atentei ao fato do quanto eu consumo esse tipo de coisa quando falo sobre ele, o quanto somos o alvo da indústria. Só mulher é infernizada o suficiente para gastar 200 reais em sabonete, coisa que você jamais vai ver homem fazendo. Isso me alertou muito para ser menos otária, sinceramente. Fora o quanto fragmentam nosso corpo para gastos, né? Hidratante não é suficiente. Precisa ter o de mão, o de rosto, o de pé. Shampoo e condicionador? Imagina! Precisa o Leave-in, o óleo, o sérum, o pré-shampoo, a máscara…
Coisas bobas que não nos damos conta, mas ocupa 70% do nosso espaço mental de consumo. Por isso gosto muito de ler sobre mulheres, não podemos desvencilhar que nosso corpo é político, muitas amarras são puramente pelo gênero, coisas que influencers de finanças homens não consegue identificar tamanha afetação.
Ana, muito obrigada pelo seu comentário e relato tão honesto sobre como você se sente.
Você usou as palavras certas para descrever como a gente se sente as vezes: infernizadas, fragmentadas, alvos.
E interessante como a gente acaba “aprendendo” sobre esses cosméticos de forma cultural, né? É relacional mesmo. Porque, muitas vezes, não há nem respaldo na ciência.
É quase um surto coletivo que nós mulheres vivemos!