Como fazer um orçamento pessoal

Quando eu conheci o movimento FIRE e descobri que, se quisesse me aposentar em 10 anos, teria que poupar algo perto de 70% da minha renda, eu travei. É claro que a ideia de me aposentar em 10 anos parecia maravilhosa, mas quando eu vi o esforço de poupança que eu teria que fazer, a vontade era de fechar o computador e fingir que eu nunca tinha lido aquilo.

Eu só consegui seguir em frente porque, lá no fundo, eu sabia que existiam muitas gorduras no meu orçamento — mesmo sem saber exatamente onde elas estavam. Eu não acompanhava meus gastos, não tinha planilha, não anotava nada. A verdade é que eu nem sabia por onde começar a desenhar um orçamento que fosse minimamente honesto comigo.

O processo foi cheio de dúvidas, inseguranças e pequenas paranoias. Será que eu não estava esquecendo algum gasto importante? Será que meus números estavam distorcidos porque eu tinha acabado de fazer uma reforma no apartamento? Quanto, afinal, eu poderia gastar daqui para frente sem sabotar esse plano? E como é que eu ia saber quanto eu deveria gastar na aposentadoria, se eu mal entendia quanto eu gastava no presente?

Eu comecei do jeito mais óbvio — e talvez do único jeito possível naquele momento. Sentei e listei todos os gastos do mês. Parcela do financiamento, condomínio, internet, alimentação, transporte, viagens. Tudo jogado numa base mensal, meio sem critério, só para tirar aquilo da cabeça e colocar no papel.

A partir daí, eu comecei a projetar esse ritmo de gastos para frente. Às vezes decidia manter tudo como estava. Em outras, me convencia de que dava, sim, para reduzir algumas categorias. Em certos momentos, mais radical, flertava com a ideia de eliminar gastos inteiros. Nem sempre funcionava, nem sempre durava, mas fazia parte do aprendizado.

De 2015 para cá, minha planilha de gastos mudou muitas vezes. Ela acompanhou minhas fases, minhas contradições e até minhas recaídas. Hoje, ela tem um formato bem diferente daquele início desorganizado — um formato que é o que eu sugiro para os clientes da consultoria. E quase sempre ouço a mesma coisa: “nunca pensei em olhar para meus gastos desse jeito”.

Como eu faço meu orçamento hoje

Hoje, ao invés de controlar meus gastos mês a mês — algo que já fiz por muito tempo e que, sinceramente, me cansava — eu faço isso apenas uma vez por ano, com a construção de um orçamento anual.

Essa mudança veio depois de muitos anos testando planilhas, categorias e também quebrando a cara algumas vezes. Hoje, esse formato funciona para mim porque é simples o suficiente para ser mantido e flexível o bastante para não virar uma prisão.

Esse orçamento anual é composto por três grandes categorias: gastos mensais fixos, gastos mensais variáveis e gastos esporádicos.

Os gastos mensais fixos são aqueles que eu sei que, começou o mês, eu vou ter que pagar. Não tem negociação. Entram aqui coisas como aluguel, condomínio, conta de luz. Para estimar esses valores, eu sempre olho para os últimos três meses. Claro que alguns deles oscilam — a conta de luz é o melhor exemplo —, mas uma média recente costuma ser uma estimativa bastante razoável.

A verdade é que a gente raramente se surpreende com os gastos fixos. Eles não costumam ser o grande vilão do orçamento. São gastos que, em geral, a gente consegue estimar até de cabeça, sem muito esforço.

Depois vêm os gastos mensais variáveis — e aqui mora boa parte do desafio de fazer um orçamento. Esses são, na prática, os principais gastos do cartão de crédito, para quem faz uso dele. São despesas que acontecem todo mês, mas cujo valor muda bastante: restaurante, transporte, pequenos impulsos. 

Durante muito tempo, eu tentei controlar esses gastos por categoria. Algo do tipo: posso gastar X reais por mês com supermercado, Y com transporte, Z com lazer. E, por alguns anos, isso até funcionou. Mas chegou um momento em que esse nível de detalhamento começou a me cansar mais do que me ajudar.

Hoje, eu gosto de deixar essa categoria mais livre.

O que eu faço é definir uma meta mensal para os gastos variáveis. Por exemplo, R$3 mil. Só que, em vez de ficar acompanhando isso numa planilha, eu transformei essa meta mensal em uma meta semanal. No exemplo, isso dá R$700 por semana no cartão – ou R$100 por dia. E eu vou acompanhando a minha meta com uma notinha simples no meu celular. Eu brinco de “passou, anotou” – eu passo o cartão, eu anoto nessa nota. 

Esse sistema funciona para mim por dois motivos muito claros.

O primeiro é que a meta semanal me ajuda a dizer não. Eu sempre começo a semana com a meta zerada na sexta-feira. Se chega terça ou quarta e eu já gastei tudo, a resposta para qualquer gasto novo passa a ser automaticamente “não”. É a hora de comer o que tem em casa, de dizer para os amigos “hoje não posso, vamos deixar para sexta?”. E isso faz toda a diferença: é muito mais fácil dizer não até sexta do que dizer não até o fim do mês.

O segundo motivo é psicológico — e talvez o mais importante. A meta semanal ancora minha mente em gastos menores. Quando eu penso que tenho R$3 mil para gastar no mês, um gasto de R$300 parece pequeno, quase irrelevante. “Cabe no orçamento.” Mas quando eu penso que só tenho R$700 na semana, aqueles mesmos R$300 ganham outro peso, outra perspectiva. É o famoso viés de ancoragem.

A essa altura, eu imagino o que você deve estar pensando: “ok, mas isso não funciona para mim, porque às vezes eu tenho despesas grandes”. E eu entendo perfeitamente — porque eu também tenho. Eu também compro passagens aéreas algumas vezes por ano que estouram completamente qualquer meta mensal.

E é exatamente por isso que existe a terceira categoria do meu orçamento: os gastos esporádicos.

São gastos que acontecem todo ano, mas não todo mês. Viagens, presentes de Natal, despesas médicas eventuais, esse tipo de coisa. Quando eu separo essas despesas do dia a dia, elas deixam de virar “sustos” e passam a ser apenas decisões já previstas.

Separar os gastos dessa forma mudou completamente a minha relação com o orçamento. Eu parei de viver naquela sensação constante de que estava sempre gastando “errado” ou esquecendo alguma coisa. O orçamento deixou de ser um instrumento de vigilância diária e passou a ser um mapa geral, uma referência.

Hoje, com uma reserva financeira construída, o processo fica ainda mais simples. No começo de cada ano, eu separo quanto quero gastar em cada uma das grandes categorias: gastos fixos mensais, gastos variáveis mensais e gastos esporádicos ao longo do ano. Esses valores ficam alocados em “caixinhas” diferentes que rendem 100% do CDI e têm liquidez diária — cada banco dá um nome diferente para isso, mas a lógica é a mesma.

Ao longo do ano, conforme vou usando essas caixinhas para pagar as contas do mês, as faturas do cartão e fazer alguns PIXs esporádicos, eu vou administrando os valores sem precisar recorrer a uma planilha de gastos. Eu olho para os saldos, faço pequenos ajustes quando necessário e sigo a vida.

Para mim, isso é muito mais prático. Menos controle fino, menos culpa, menos energia gasta tentando detalhar tudo perfeitamente. Eu sei quanto custa a minha vida em um ano — e isso, hoje, vale muito mais do que saber exatamente quanto eu gastei ontem no mercado.

No fundo, foi isso que eu aprendi ao longo desses anos: um bom orçamento não é o mais detalhado, nem o mais rígido. É aquele que você consegue se manter no tempo.

Testando os limites inferiores do orçamento

Uma vez eu comentei aqui que tinha testado os limites inferiores do meu orçamento. E esse trecho gerou uma reação curiosa: uma leitora disse que adorou a ideia.

E eu sei que vocês amam números. Então resolvi adaptar esse limite inferior para valores de hoje. De quebra, isso ajuda a visualizar como esse tipo de orçamento funciona na prática.

Antes de tudo, um aviso importante: esses limites inferiores são totalmente baseados na minha experiência. Estou falando de uma mulher casada, morando em bairros centrais de São Paulo, dividindo 50% das despesas comuns com o marido e sem filhos. Sintam-se livres para comentar se esses limites funcionariam para vocês, por que não funcionariam ou se, inclusive, vocês conseguem testar limites ainda mais baixos.

Gastos fixos — R$3.000,00 por mês

  • Combo por pessoa (aluguel, condomínio, IPTU, água): R$2.000
  • Contas da casa por pessoa (luz, gás, internet): R$150
  • Plano controle de celular: R$30
  • Plano de saúde: R$800
  • Streamings por pessoa: R$20

Meta de gastos variáveis — R$3.000,00 por mês (R$700 por semana, ou R$100 por dia)

  • Supermercado
  • Transporte público
  • Restaurantes (poucos) / padarias 
  • Medicamentos pontuais
  • Compras eventuais
  • Lazer
  • Viagens menores

Gastos esporádicos — R$25.000,00 por ano

  • Viagens: R$20.000 por ano
  • Compras grandes: R$5.000 por ano

Meu limite inferior: aproximadamente R$97.000 por ano.

Para chegar nesse número, eu precisei eliminar alguns gastos fixos que fazem parte da vida de muita gente: faxineira, academia, manicure, cursos, personal trainer, além de diversas assinaturas que, quando somadas, pesam muito mais do que a gente imagina. Nos gastos esporádicos, também ficaram de fora coisas como presentes de Natal, médicos fora do plano, tratamentos estéticos, cortes de cabelo, IPVA, seguro e manutenção de carro – porque é perfeitamente possível viver bem sem isso.

Claro que dá para olhar esse orçamento e dizer que ele parte de um lugar privilegiado — por exemplo, por não incluir ajuda financeira recorrente aos pais. E também é o resultado de escolhas afetivas difíceis ao longo da vida, como não ter dependentes (nem mesmo pets). Ainda que, pessoalmente, eu ache que estamos caminhando para um nível quase absurdo de mercantilização de relações que deveriam ser essencialmente afetivas… mas esse já é assunto para outro texto. Um texto tão polêmico que eu confesso: sigo adiando.

Vale dizer que esses não são mais os meus gastos hoje. Esse exercício do limite inferior não foi um lugar definitivo onde eu “me instalei”, mas um teste — quase um laboratório — para entender quanto custava a minha vida no mínimo.

Com o tempo, eu fiz algumas alterações importantes na minha carteira de investimentos, que me permitiram trabalhar com uma taxa segura de retirada mais alta. Além disso, surgiram novas fontes de renda, que continuam aumentando meu patrimônio mesmo já estando aposentada. Isso abriu espaço para escolhas diferentes.

Alguns gastos voltaram. Hoje eu moro em um apartamento maior, pago academia todos os meses e pago uma pessoa para tingir os meus cabelos brancos — um luxo pequeno, mas muito consciente. Outras despesas, no entanto, continuaram fora do orçamento: eu sigo sem gastos com carro, sem IPVA, sem seguro, sem manutenção, e também sigo sem faxineira, sem manicure e sem pagar para cortarem o meu cabelo. 

Para mim, isso é parte central da lógica do FIRE: não se trata de viver para sempre no mínimo possível, mas de saber qual é esse mínimo. Quando você conhece esse número, todo o resto vira escolha — e não obrigação.

Cada orçamento reflete escolhas

Eu confesso que tenho cada vez menos vontade de escrever textos do tipo “como fazer X coisa”. Ainda assim, como eu meio que abri essa porteira no final do ano passado — e alguns leitores pediram mais textos com ideias práticas para economizar e montar um bom orçamento para o ano —, aqui estamos.

Mas é óbvio que esse tipo de post tem muitas limitações. A primeira é simples: o que funciona para mim pode não funcionar para vocês. A segunda é que a internet é um espaço que reúne realidades muito diferentes. E, sendo honesta, me cansa ver minhas ideias sendo constantemente questionadas a partir do argumento de que eu sou uma pessoa privilegiada, que não tem filhos, não pega duas conduções para chegar ao trabalho todos os dias e, por isso, pode se dar ao luxo de não ter carro.

Ainda assim, eu espero que o foco esteja nas ideias centrais — e não na comparação direta. Quem sabe eu não desperto em alguém um pensamento do tipo: “nossa, ela corta o próprio cabelo, será que eu consigo também?”. Enfim, qualquer ideia que ajude vocês a gastar menos, ou a gastar de forma mais consciente, já me parece válida.

Ao mesmo tempo, eu sei que cada pessoa carrega uma vida subjetiva muito própria. Para algumas, é quase uma afronta eu sugerir que se limpe a própria casa. Para outras, abrir mão de certos confortos simplesmente não está em discussão. E tudo bem.

Uma vez, eu disse para um cliente da consultoria: “tem gente pagando caro para ir a café com gatos só para ficar passando a mão neles. Então, já que você tem que gastar todo mês com ração e areia para os seus gatos, talvez faça sentido gastar menos com restaurantes e ficar mais em casa curtindo eles”. Não era uma regra, nem uma ordem — era só uma provocação sobre escolhas e compensações.

Talvez por isso eu tenha passado a preferir textos mais filosóficos. Porque eles não dizem exatamente o que fazer, mas convidam a refletir sobre por que a gente gasta como gasta. Existem gastos que eu nunca eliminei — viagens, por exemplo — e que podem parecer supérfluos para algumas pessoas. Mas são escolhas conscientes, alinhadas com aquilo que, para mim, faz a vida valer a pena.

Quando eu testei os limites inferiores do meu orçamento, a minha prioridade era muito clara: sair o quanto antes da vida corporativa. Todo o resto era avaliado à luz desse objetivo final. Foi por isso que, naquele momento, eu eliminei gastos que mais tarde senti falta e acabei trazendo de volta — como morar em um apartamento maior, onde eu pudesse receber as pessoas.

Foi uma escolha consciente, feita a partir de uma prioridade muito específica. E talvez essa seja a parte mais importante de todo esse processo: entender que orçamento não é sobre certo ou errado, mas sobre alinhamento. Entre o dinheiro, o tempo e a vida que a gente está tentando construir.

No fim, não é sobre seguir uma cartilha. É sobre poder usar o que cabe na vida dos outros como inspiração — e ter lucidez para reconhecer o que não cabe na nossa. Mas, acima de tudo, é sobre reconhecer que existem muitas escolhas embutidas na forma como gastamos nosso dinheiro e na maneira como montamos um orçamento com prioridades.

Uma resposta

  1. Adorei o texto. O ideia do semanal fez todo o diferencial para minha organização. Consigo encaixar tudo que é essencial (alimentação, transporte, pequenas necessidades) e até pequenos luxos com folga. Fez muita diferença para não viver com a sensação de que qualquer mínima coisa pode fazer o mês não fechar. E isso sem precisar olhar 264 linhas de planilha pra ver se cabe. Melhor estratégia.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *